 PATRICIA GAFFNEY
QUATRO AMIGAS
Ttulo Original: The Saving Graces
Para o Ian, Annie e Marti.
E tambm para o Carolyn, Jeanne, Jamie, Jodie e Kathleen.
E para o Molly.
E, sobre tudo, em memria do Midge
ARGUMENTO
     Durante dez anos, Rudy, Emma, L e Isabel compartilharam um profundo afeto que as ajudou a confrontar esperanas e decepes comuns a todas as mulheres.
Une-as a compreenso, a honestidade e a aceitao, fortalecidas com o passo dos anos.
     Rudy tem um agitado acontecido amoroso e uma situao tensa com seu marido. Pensa que "com o pesada que sou, no sei como meus amigas se preocupam tanto por mim".
Emma, jornalista e independente,  uma ctica que no acredita no amor at que conhece homem que no poder ter. Acredita que "uma m notcia no sinta to
mau se lhe do isso em boa companhia". L  "a normal" do grupo. Anseia ter um filho, mas esse desejo ameaa destruindo seu matrimnio. Seu amigas som o ombro
sobre o que ela descarrega suas esperanas e temores. Isabel  a maior e o esprito guia que impulsiona s quatro amigas. Define ao grupo como "mulheres judiciosas
e bastante normais".
     Entretanto estas irms do corao no esto preparadas para confrontar uma crise de enormes proporcione que submeter sua lealdade a mais dura prova.
Captulo 1
Emma
     A metade dos matrimnios terminam em divrcio. Mas quanto duram por trmino mdio? Temo-me que no superem os nove anos e meio. Esse  o tempo que
levamos as Quatro Obrigado nos apoiando, e ainda no nos aborrecemos. Seguimos falando sobre se tivermos emagrecido, sobre nosso penteado ou os sapatos que acabamos de
comprar. Que eu saiba, nenhuma tm interesse em conhecer um membro mais jovem e firme.
     Para falar a verdade, nunca acreditei que durssemos tanto. Uni-me ao grupo porque Rudy induziu a isso. As outras dois so L e Isabel. Ao princpio esteve no grupo
Joan, mas no seguiu. transladou-se a viver a Detroit com seu noivo, que  urologista, e perdemos o contato. As outras trs no me pareceram candidatas a amigas ntimas
o dia que as conheci, a verdade. L me deu a impresso de ser muito mandona e Isabel muito major (trinta e nove) Embora eu farei quarenta o ano que vem,
e com isso est dito tudo, e L  efetivamente mandona mas no pode evit-lo porque sempre tem razo. No exagero. Se no lhe tivermos em conta seu aspecto autoritrio
deve-se a essa virtude inata de no equivocar-se quase nunca.
     A primeira reunio, que celebramos em casa da Isabel quando ainda estava casada com o Gary, foi mau. Pareceram-me muito enrijecidas. Enrijecidas e ricas, e isso foi o
que no acabou de me gostar de. Porque eu acabava de me mudar a um pequeno apartamento em um poro do Georgetown pelo que pagava mil e cem dlares ao ms (pelo bairro),
de modo que estava um pouco suscetvel em questes de dinheiro. L dava a impresso de acabar de passar um dia no balnerio do Neiman'S. Alm disso, era solteira,
ainda no se licenciou mas trabalhava como professora de educao especial a tempo parcial -e j sabem o pouco que ganha nesses trabalhos- e, entretanto,
vivia a um tiro de pedra da Isabel no esnobe Chevvy Chase, em uma casa de propriedade. E como  natural me senti um pouco coibida.
     Durante o trajeto at casa expliquei ao Rudy, em um plano to humorstico como sarcstico e desdenhoso, por que dificilmente podia eu me unir a um grupo de
mulheres que tinham poda doura eltrica, vestiam no Ellen Tracy, recordavam ao Eisenhower e se ligavam ao urologista.
     "Mas so simpticas", insistiu Rudy, embora a verdade  que isso nada tinha que ver. H muitas pessoas "simpticas" neste mundo, mas uma no vai jantar com elas
todas as semanas e lhes faz confidncias.
     A outra questo eram o cimes. Eu era o bastante curto de idias como para que me importasse que Rudy tivesse uma boa amiga que no fosse eu. Uma noite
por semana ela e L ensinavam desinteresadamente a ler aos analfabetos "prticos" que tanto abundam entre os urbanitas, e intimaram durante o perodo de
formao. Nunca me preocupou, nem me preocupa agora, que intimassem. Digo-o porque duvido que existam duas pessoas com menos em comum que L e Rudy. Mas meu velho
e inseguro eu  muito neurtico para reconhecer a beleza potencial das Quatro Obrigado, embora fosse to evidente.
     Ainda no nos chamvamos as Quatro Obrigado, claro est. Nem sequer agora nos chamamos assim ante outros.  brega. Soa a telecomedia, verdade? As Quatro
Obrigado, protagonizada pelo Valerie Bertinelli, Susan Dey e Cybill Shephard. Reparem em que todas estas mulheres so atrativas, inteligentes e simpticas, embora
algo granaditas. Enfim... A gnese de nosso nome  um assunto privado, no por nenhuma razo especial - um pouco divertido que nos reflete bastante bem a todas-.
Mas ns no gostamos de coment-lo porque  muito pessoal.
     Retornvamos no carro depois de jantar em um restaurante do Great Falls (jantamos fora quando a quem lhe toca cozinhar no gosta). Demos um rodeio, porque
Rudy se passou a sada do Belt way. Podamos nos considerar um grupo desde fazia coisa de um ano. Tnhamo-nos ficado sem o Joan, mas ainda no se incorporou
Marsha, que foi o membro efmero nmero dois. De modo que estvamos s ns quatro. Eu ia no assento traseiro. Rudy olhou para trs para apreciar minha imitao
da garonete, que a todas nos desejou muito que se parecia com a Emma Thompson tanto por seu aspecto como por sua voz. Isabel gritou "Cuidado!" e uma frao de segundo
depois atropelamos ao co.
     Ainda posso ver a expresso do bichinho no instante prvio a que o pra-choque o alcanasse e o fizesse voar por cima do cap do Saab do Ruby, que
ficou perplexa mas no muito afetada, como se o considerasse um curioso acidente sem importncia.
     Todas gritamos. E comecei a dizer "Matamo-lo, matamo-lo. Por fora", enquanto Rudy aproximava o carro ao meio-fio. Para falar a verdade, de ter conduzido
eu, certamente no teria parado. Porque estava convencida de que o tnhamos matado e preferia no v-lo. Quando eu tinha doze anos atropelei a uma r com a bicicleta
e ainda no o superei. Mas todas baixaram, e eu tive que baixar tambm.
     No era um co a no ser uma cadela, e no estava morta. Mas no soubemos at que sbitamente L se metamorfoseou. Ali mesmo no bulevar MacArthur, converteu-se
no Cherry Ame, a enfermeira da auto-estrada. Viram alguma vez a uma pessoa lhe fazer o boca a boca a um co?  divertido mas s para cont-lo. V-lo
resulta estremecedor e vomitivo, alm de ilegal em quase toda Nova a Inglaterra. Rudy se tirou o echarpe de cashmere (sempre desejei ter um) e envolveu a
a cadela porque conforme L ia entrar em estado de shock.
     -Temos que lev-la ao veterinrio em seguida -disse Isabel.
     Mas no se via nas imediaes nenhuma casa nem nenhuma loja da que se pudesse telefonar, nada salvo uma escura igreja ao outro lado da estrada.
     Isabel lhe fez gestos a um carro que se aproximava e, quando se deteve, correu a falar com o condutor. Eu segui junto  borda me retorcendo as mos.
     Rudy e L levaram a cadela ao assento traseiro do Saab. O animal tinha o focinho ensangentado. Vi-o com minha viso perifrica, da nica maneira que me
sentia com nimo de olhar naqueles momentos.
     -Ao Curtis vai dar um ataque -lembrana que murmurei ao ver que uma mancha escura se aumentava na tapearia cor mel do 900 Turvo. Mas Rudy, que seria
quem pagasse o pato se Curtirem se enchia o saco, nem sequer pestanejou.
     -H um veterinrio no Glen Jogo -disse Isabel ao subir e sentar-se no assento do acompanhante, junto ao Rudy, para lhe indicar por onde tinha que ir.
     Eu tive que subir atrs, com L e a cadela. No suporto ver ningum sangrar e menos ainda agonizar. Enjo-me. Literalmente. Uma vez vi um homem, a um vizinho,
pilhar um p com a curta grama eltrica e me impressionou tanto que comecei a vomitar na calada. No exagero. De modo que olhei pelo guich e vi o outro
lado da estrada, iluminado pelos faris dos carros, um letreiro que punha nossa senhora da graa. Se comearem a cheirar-se a conto do que vem o nome
que nos pusemos, cheiraram bem.
     Rudy conduziu como se levasse um frmula 1 at o consultrio do veterinrio do Glen Jogo. O veterinrio no estava (eram as onze da noite), mas acudiu
ao pouco de que o dormitado ajudante noturno o chamasse. Graa -a cadela- tinha um pulmo fundo, uma pata rota e outra deslocada, mas se salvou. A fatura ascendeu
s a 1.140 dlares. Ningum reclamou  cadela -quelle surprise!-, mas ao sair da clnica veterinria L e Isabel discutiram sobre qual das duas teria
que ficar a Ernie, o velho beagle da Isabel, acabava de morrer, de modo que ganhou ela, ou perdeu, conforme se olhe, e ficou com Graa, que ainda vive e segue com
ela. Est velha e grisalha como ns, e suas correrias pelas auto-estradas se terminaram. Mas  um encanto, e o digo eu, que no sou muito canil. Sempre pensei
que nos odiaria por hav-la atropelado, mas nos adora por hav-la salvado. Quando celebramos o aniversrio de nosso grupo, dizemos que  tambm o aniversrio
de Graa e a obsequiamos com montes de brinquedos e comestveis.
     De modo que j sabem por que nos chamamos como nos nos chame.
     Tero notado que sou quo nica no fez realmente nada parecido a um herosmo. O grupo, ao igual a Graa em sua benevolncia e generosidade, optou por
no me ter isso em conta. Nenhuma delas me jogou isso em cara, nem sequer em brincadeira (algo que eu teria sido incapaz de resistir fazer, pelo menos uma vez em
nove anos e meio). Mas no. Do primeiro momento me aceitaram sem condies como uma das Obrigado, e isso por si s, embora no me tivessem dado tantas
provas de apoio e amor, amabilidade, fidelidade, simpatia e solidariedade, teria garantido minha lealdade de por vida.
     E me deram isso a montes. Embora como nosso grupo no tinha nada de monjil, deveria dizer que tambm houve cimes, mesquinharias, enfrentamentos e exabruptos.
Mas isso so ninharias ao mar, e me aterra pensar que meus prejuzos em relao  gente acomodada quase me induziram a me desculpar para no me unir ao grupo, depois
da primeira reunio em casa da Isabel.
     A melhor do Rudy foi a que me deu essa impresso de enrijecimento e estreiteza de miras, o que no deixa de ser curioso. Porque, das quatro, Rudy  com muita
diferena a nica a quem podemos considerar a mais natural. L  a normal (s vezes inclusive a chamamos assim). E ela o aceita como um completo, algo que a
retrata bastante bem.
Captulo 2
L
     Reunimo-nos pela primeira vez em 14 de junho de 1988, em casa da Isabel, no Meadow Street. Fez-nos frango uso cantons, com molho de amendoins e macarro de
celofane. Naquela primeira ocasio fomos cinco: Isabel, Rudy, Emma, Joanne Karlewski e eu. Sugeri regulamentar as contribuies ao rango, porque quatro de
ns trouxemos saladas. Convimos em que, a menos que algum preparasse o primeiro prato porque o jantar se organizasse em sua casa, atribuiramo-nos os pratos do
modo seguinte: Rudy as peas, Emma a salada, Joanne o po, Isabel a fruta e eu a sobremesa. Salvo no caso do Rudy, estas contribuies se mantiveram
invariveis aps (a ela tivemos que lhe substituir as peas pelas sobremesas porque nunca chega pontual).
     Reunamo-nos a primeira e terceira quarta-feira de ms at setembro de 1991, ao voltar eu para o ensino e ter classe as quartas-feiras. Ento o trocamos a
as quintas-feiras e virtualmente respeitamos o dia at a data. Reunamos s sete e meia e a reunio durava at as dez ou dez e meia. Durante os
primeiros anos, de maneira mais ou menos formal, tratvamos de um tema concreto que decidamos na semana anterior (mes e filhas, ambio, confiana, sexo e essas coisas).
Comevamo-lo a tratar depois de jantar e o comentvamos durante uma hora. Mas acabamos por abandonar esta prtica e a verdade  que a sinto falta de. De vez
em quando lhes sugiro que voltemos a tratar sempre um tema, mas nunca secundam a idia. "J falamos que todo o humano e o divino -aduz Emma-. esgotamos
os temas." E a verdade  que no lhe falta razo. Embora acredite que o verdadeiro problema  o descuido.  mais fcil conversar de questes intrascendentes que organizar
as idias a respeito de um tema concreto sem desviar-se dele. Estou convencida de que nossas conversaes so muito mais interessantes quando esto organizadas.
     Ao unir-se ao grupo Susan Geiser, que esteve conosco desde fevereiro de 1994 at abril de 1995, institumos a regra do quarto de hora, que ainda segue em
vigor, embora j no a necessitamos agora que Susan no est. As Quatro Obrigado levvamos bastante tempo sem mais incorporaes, at que Isabel conheceu a Susan
e lhe props unir-se a ns. Susan tinha algumas caractersticas encantadoras e podia ser bastante interessante e divertida. Mas tinha um defeito: nunca se calava.
No me importava muito mas a Emma e Rudy as tirava de gonzo. De modo que uma noite Isabel props a regra do quarto de hora -com um tato incrvel
do que s Isabel era capaz- e, aps, cada uma de ns vem dedicando quinze minutos durante o jantar a contar como est, o que tem feito e o que
pensou ultimamente. Mas no somos muito estritas com a observncia desta regra. No estamos pendentes do relgio. O do quarto de hora  s a modo de orientao.
Eu estou acostumado a terminar em cinco minutos, enquanto que Rudy necessita pelo menos vinte. De modo que, na prtica, a regra funciona.
     Emma e Rudy dizem que fui eu quem props formar o grupo e quem concebeu o plano e a organizao originais. Mas, para falar a verdade, Isabel o impulsionou tanto
como eu. Fomos amigas desde fazia ano e meio, de uma noite do Halloween quando Terry, seu filho, vomitou-me nos sapatos novos. Foi minha primeira noite na casa
do Chevvy Chase e o estava passando em grande, lhes dando pipocas de milho e mas recubiertas de caramelo -que fiz eu mesma- a todos quo pequenos foram a
pedir guloseimas pelas casas. Um verdadeiro enxame. Eu acabava de me mudar do apartamento que tinha em um arranha-cu do College Park e me parecia incrvel
que vivessem tantos meninos em minha nova vizinhana. Mas estavam to bonitos, to encantados com seus trajecitos de princesitas, bruxas e rangers. s oito e meia
j logo que soava o timbre da entrada e, s nove, Halloween pareceu haver-se terminado.
     ia apagar a luz do alpendre para subir a tomar banho quando algo golpeou a porta. Foi um rudo surdo. Pensei que teriam atirado algo, acaso uma das cabaas
que esvaziei e model e deixei nos degraus. Olhei pela mira e vi um menino. Dois. E como a um o reconheci abri a porta.
     -O que me do? -disse-lhes eu.
     Isso lhes fez graa. empurraram-se e puseram-se a rir convulsivamente. Uma risada bria. Nenhum dos dois ia disfarado.
     -So palhaos? -perguntei-lhes.
     -No, somos vndalos -disse o que logo soube que se chamava Kevin.
     De novo se puseram-se a rir a gargalhadas. Levavam capas de travesseiro cheias de caramelos, prova de uma frutfera noite. O que significava que levavam horas
rondando por a. E ainda se pergunta a gente por que  to problemtica a juventude atual!
     Aqueles dois escolheram mal a casa.
     -te conheo -pinjente assinalando ao Terry-. Vive no Meadow Street, na casa Branca da esquina. J sabe sua me o que esto fazendo esta noite?
     -Pois claro -disse Terry, mas deixou de rir.
     A glida garoa lhe tinha posto de ponta seu cabelo loiro e avermelhado as bochechas. Terry tinha ento quinze anos, mas aparentava menos. A roupa lhe vinha
to grande que parecia um menino que jogasse a disfarar-se.
     -E voc onde vive? -perguntei-lhe ao outro.
     -No Leland Street -murmurou Kevin retrocedendo para os degraus.
     Estou acostumado a sortir este efeito nos meninos. Quando me mostro severo com eles se serenam (e naquele caso, literalmente). Mas no  por medo, mas sim porque consigo
lhes fazer ver as coisas como so, com sensatez.
     -A que cruza Connecticut Avenue, verdade? Em que lado est sua casa?
     -No daqui -respondeu Kevin.
     -De acordo -pinjente, porque no queria que cruzasse uma rua to transitada estando bbado-. Pois parte a casa em seguida. E seja o que seja o que levem
para beber me vou ficar isso -pinjente tendendo a mo.
     Kevin tambm parecia menor do que era mas no tinha muito boa pinta. Era um pouco mal-encarado e levava uma falsa tatuagem de uma caveira na bochecha, suponho
que em vias de um look nazista.
     -A mierda! -exclamou Kevin-. Alm disso, leva-o Terry -acrescentou trastabillando pelos degraus at a calada-. J nos veremos quando se esfumar essa m puta,
Terry!
     -Que maravilha de lxico! -exclamei.
     Terry retrocedeu e se chocou com a porta mosquiteira. Tratou de sorrir mas no pde.
     -Kevin  um imbecil -balbuciou-. Perdoe -acrescentou. A capa do travesseiro lhe escorreu entre os dedos e caiu ao alpendre com um rudo surdo.
     Recolhi-a. Dentro havia uma garrafa de vodca quase vazia, debaixo dos caramelos. Movi uma cabaa e deixei a garrafa no alto da pilastra.
     -Crie que poder chegar sozinho a casa?
     -Claro -disse, mas no se moveu. E se no se desabou foi porque tinha os joelhos muito juntos.
     -Anda... vamos -pinjente suspirando.
     Tirei-o do brao. Agora mede mais de metro oitenta e  muito fornido, mas ento fomos quase da mesma estatura, embora eu era mais forte e no me sups
esforo carregar com a metade de seu peso ao apoiar-se em mim pela calada at a esquina. Protestou, embora cada vez menos  medida que chegvamos a sua casa. A luz
do alpendre estava apagada. Do contrrio teria visto que Terry empalidecia, e as gotas de suor em seu lbio superior. Titubeou ao entrar, temeroso do que o
esperava, pensei.
     Chamei e quase imediatamente Isabel abriu a porta, sorridente, com uma terrina de guloseimas. Reconheci-a e no pude evitar lhe sorrir. Era uma mulher algo maior que
eu, muito simptica e que passeava a seu beagle pelo mesmo solar -o "pipicn" o chamamos no bairro- pelo que eu passeava ao Lettice, meu cocker spaniel.
     -Terry?
     Ao ver seu filho detrs de mim, Isabel franziu o cenho perplexa.
     -Mame -disse.
     Embora no chegou a dizer mame a no ser "MA...". Se chegar a lhe fechar a boca a tempo possivelmente tivesse salvado meus sapatos. Mas soltou um repugnante jorro de quinquilharias
ao meio digerir, batidos e vodca, quase tudo em cima de uns Ferragamo cinzas de ante que me tinha comprado aquele mesmo dia.
     Isabel saiu pressurosa ao alpendre, seguida imediatamente pelo Gary. No recordo que impresso me causou aquele dia. Embora no reparei em grande coisa (em que era o marido,
maior que ela, baixinho e fornido, vulgar). Ocupou-se do Terry enquanto Isabel se ocupava de mim.
     estive conversando com ela milhares de vezes em sua cozinha aps. Isabel no se parece com nenhuma de quo amigas tive e, ao princpio, embora me
caa muito bem, nunca imaginei que chegaramos a intimar. por agora era maior que eu, embora s oito anos. Mas pareciam mais, acaso por ser de outra gerao,
segundo ela. Acredito que no se deve s a isso. H pessoas que nascem sabendo coisas que a outros custa toda uma vida aprender. Alm disso estava muito avejentada,
tinha o cabelo quase cinza, levava coque -nada menos-, e no tinha o menor sentido da moda (com os anos consegui que pelo menos o cabelo o leve mais acorde
com os tempos). Entretanto, ainda era formosa. Aquela noite recordou a uma dessas vrgenes dos pintores italianos, embora maior. Aquilo foi em 1987. De
modo que seus verdadeiros problemas ainda no tinham comeado. Mas sua expresso j era triste. Embora tambm havia serenidade e essa luz interior que sempre me assombra
tanto.
     E eu... bom, levava uma vida ocupada, entre minha dedicao ao ensino a tempo parcial e o trabalho para preparar minha tese de licenciatura. em que pese a isso
sentia-me um pouco sozinha. E pode que necessitada de uma me, no porque no a tivesse mas sim porque desejava certo trato maternal.
     Emma diz que no tenho senso de humor, que no capto as ironias. Suponho que se deve a que no poder ter filhos me amargura um pouco. Salvo Isabel, tampouco
as demais tiveram filhos mas eu sou quo nica quer os ter. Acredito que Isabel e eu estamos feitas para ser mes, em que pese a que ambas tivemos pais mas bem
frios. Eu desejo ser me e desejo o calor materno. E ela trata a todo mundo como uma me, mas quem lhe d o calor maternal? Ningum.
     Bem pensado, pode que isto no entranhe nenhuma ironia. Pode que s seja pattico.
     Fez que me tirasse os panties e que me pusesse uns meias trs-quartos limpos, do Terry, e me serve uma jarra de cidra quente enquanto me limpava os sapatos
no lavabo do asseio. Ao voltar, tivemos uma conversao do mais agradvel e distendida. Fez-me muitas perguntas. O que mais recordo  que lhe contei algumas
dos vandalismos de meus dois irmos quando eram adolescentes, que logo se converteram em cidados modlicos, como est acostumado a dizer-se. De modo, disse-lhe, que no
devia preocupar-se muito de que Terry pudesse terminar desencaminhando-se. No fiquei em sua casa muito momento, mas ao partir reparei em que ela tinha obtido
muita mais informao a respeito de mim que eu a respeito dela.
     Terry veio para casa ao dia seguinte a desculpar do modo mais encantador e a me convidar para jantar. E assim  como comeou. Isabel e eu nos fizemos amigas. E quando
no nos visitvamos, coincidamos no pipicn com o Lettice e Ernie, ou amos jogar a tnis ou a passear de carro pelo campo. E compartilhei seu pranto quando Terry
decidiu ir estudar  Universidade McGill de Montreal. Escutava todos os detalhes do comprido e tmido cortejo a que me submeteu meu marido. E quando rompeu com
Gary, ela e Graa ocuparam meu dormitrio de convidados durante trs semanas; e, quando contraiu o cncer, senti-o como se me tivesse ocorrido . No posso imaginar
no ter conhecido a Isabel e logo que recordo como era minha vida antes de conhec-la.
     Coisa de um ano depois da farra do Terry a noite do Halloween, estvamos sentadas no cho de linleo, secando a nossas cadelas depois de seu ltimo
banho do vero.
     -Passas muito tempo comigo nesta cozinha, Leah Pavlik. Deveria sair e ir jogar com amigos de sua idade -disse-me Isabel.
     -Voc sim que deveria jogar com amigos de minha idade! -repliquei.
     Pomos-se a rir e logo, no estou segura de qual das duas o disse, surgiu a idia de formar um grupo.
     Sempre tive muitas amigas e reconheo que desfruto as organizando. Quando era pequena fundei um clube s para garotas e nos reunamos no poro por mim
casa quando cursvamos sexto e stimo. E no instituto fui cocapitana da esquadrilha do pompom, e logo presidenta do clube feminino na faculdade. Mas
desde que transladei a Washington, suponho que devido a estar muito ocupada, no fiz muitas amigas, salvo Isabel. eu adorei a idia de fundar um grupo. No seria
uma reunio literria nem poltica, nem tampouco um grupo feminista. Sua nica caracterstica seria a de estar formada por mulheres que nos cassem bem e s que
admirssemos, de quem pensasse que podamos aprender algo, para reunir-se freqentemente e falar de nossos problemas e de todo aquilo que nos interessasse. Certamente,
era um programa com muito poucas pretenses. Pouco podamos imaginar que aquilo seria a semente de um formoso jardim.
     Assim me disse isso Isabel anos depois, que era como se cultivssemos viosas verduras para nos nutrir e bonitas flores para nosso gozo. Perguntei-lhe em que categoria
vegetal me inclua, acreditando que me catalogaria de verdura j crecidita, mas me disse que em ambas.
     "Todas nos inclumos nas duas, particularizemos", acrescentou.
     Um ano depois de ter formado o grupo, em uma das reunies tratam o tema, a minha proposta, do que opinvamos cada uma das demais -as que no nos
conhecamos antes de assistir  primeira reunio-. Comecei eu dizendo que Emma me pareceu ser uma pessoa dedicada a algum trabalho criativo, acaso uma estrela do
rock (mas bem uma estrela em declive, quis dizer, devido ao aspecto de estar de volta de todo que a Emma gosta de transmitir). No  absolutamente uma pessoa
enfastiada e no sei por que se esfora tanto em demonstr-lo. No faz nenhuma falta. adorou que a comparasse com uma estrela do rock. At o ponto de que quis
saber a que estrela do rock acreditava eu que se parecia. Respondi-lhe que ao Bonnie Raitt, porque pensava que ambas tinham umas bonitas faces, e s vezes a mesma
expresso carrancuda. Levavam o cabelo igual, comprido, de um tom loiro avermelhado e, por expressar o de um modo piedoso, penteado a seu ar. Morro de vontades de apresentar
a Emma a meu cabeleireiro, mas ela assegura que no lhe interessa.
     Rudy e Emma coincidiram em dizer que Isabel lhes caiu bem nada mais v-la, que pensaram que era encantada embora possivelmente algo antiquada, um peln muito
conservadora.
     -Um cabo, mas no melhor sentido -disse Emma.
     -No, mais que cabo, maternal -corrigiu-a Rudy.
     Lembrana perfeitamente que naquela primeira reunio Isabel levava um avental vermelho de linho por cima do pulver e de umas calas folgadas, e no se o
tirou em toda a noite, simplesmente porque no se lembrou. Essa  uma boa amostra do pouco presumida que . Mas conservadora? O que vai! Nem por indcio. E esta
 uma boa prova de que a primeira impresso pode ser totalmente equivocada.
     Isabel disse que pensava que Rudy era uma das mulheres mais formosas que tinha visto na vida real. E Emma e eu estivemos de acordo. As demais so mulheres
bastante atrativas dentro do normal, acredito eu. Mas Rudy  formosa de verdade. Chama a ateno. No podemos ir a nenhuma parte sem que se fixem nela. Tem
a ctis como um beb, um corpo de garota de capa de revista, um cabelo to negro que azulea, resplandecente e perfeito, e to dcil que faz o que quer com
ele. Se s fosse muito bonita possivelmente inspirasse animosidade, de pura inveja, mas alm de ter uma excepcional beleza clssica  uma pessoa muito doce, cndida
e vulnervel, que atrai o instinto maternal e de amparo de qualquer. Todo mundo quer salvar ao Rudy, sobre tudo os homens, segundo ela. Mas lamento
dizer que, at a data, duvido que ningum a tenha salvado.
     Quanto a mim, segundo Emma tambm tinha aspecto de estrela do rock. E em seguida perguntei a quem me parecia. Em certa ocasio um cinqento interessante
disse-me que lhe recordava a Emane Osmond, "pelo faiscante". Mas Emma comparou ao Sinead Ou'Connor.
     -Como? -exclamei.
     -No pela calva, n?, embora levava o cabelo muito curto, L. Digo-o por esse aspecto severo e esses ares de sabihonda que gastas.
     Ah, pois muito obrigado, mulher, pensei ofendida.
     -me parece que Sinead Ou'Connor  muito atrativa -acrescentou como se me adivinhasse o pensamento-. No te fixaste em seus olhos?
     -No.
     -Pois  uma mulher preciosa, L, e comparei a ela como um completo.
     Menos mal. Mas, em qualquer caso, no tenho o menor parecido com o Sinead Ou'Connor. Pareo-me com minha me: mida, fibrosa, moria e vivaz. E no me dou ares
de sabihonda, embora a verdade  que estou acostumado a ter razo.
     Enfim, j est bem de primeiras impresses.
     Ao me casar com o Henry pensei que j no necessitaria tanto ao grupo, que meu interesse por meus amigas se iria extinguindo, que no teria tanto tempo nem energia
para lhes dedicar. Mas no foi assim. Durante sete ou oito meses estive to derrubada em fazer o amor com o Henry que virtualmente me esqueci de todo o resto. Mas no
foi mais que uma transio que no afetou s Quatro Obrigado.
     Emma e Rudy se partiam de risada a minha costa durante aquela poca de minha vida. No sei o que opinariam de mim antes de que conhecesse o Henry -que era uma dissimulada,
suponho-. E no o sou nem o fui nunca. Tampouco estou acostumado a dizer tacos, e sou reservada em algumas costure. E quando no o sou tanto o expresso em trminos que podem
parecer algo antiquados, e inclusive escrupulosos. De modo que quando conheci o Henry e, de repente, o sexo passou a ser o nico em minha mente racional e pouco imaginativa,
pareceu-lhes cmico.
     Pude ter evitado que se burlassem de mim pelo simples procedimento de no lhes fazer confidncias, mas pela razo que fosse, suponho que pelo circo hormonal
que desfilava por meu interior, no podia deixar de falar disso. No podia ter a boca fechada. Nunca me tinha ocorrido nada parecido em que pese a que j tinha trinta
e sete anos. Uma quinta-feira de noite cometi o engano de dizer na reunio que aspecto tinha Henry com o uniforme azul, seu nome gravado em letras douradas em
uma plaquita e o da razo social de sua empresa ao dorso: patterson & CO. Tambm os pinjente que no s era um manitas mas tambm tinha manitas. Devi pr cara
das haver provado porque inclusive Isabel me dirigiu um olhar malicioso. A verdade  que Henry era o cmulo do atrativo masculino, uma irresistvel combinao
de sexualidade e de capacidade para solucionar os problemas.
     Logo cometi um engano ainda maior. Contei-lhes que a primeira vez que veio a casa, que foi s para arrumar a cisterna de um vter (ainda no o tinha contratado
para que trocasse os velhos encanamentos por outras novas e instalasse novos registros para a calefao), mostrou-me um diagrama em um catlogo de encanamento para
que visse com exatido o que estava quebrado e como pensava repar-lo.
     -Isto forma parte do servio -disse-me com seu meloso e solcito acento sulino-. Um cliente bem informado  um cliente satisfeito.
     arregaou-se e o sol que entrava pela janela do quarto de banho iluminou o plo loiro de seus pecaminosos antebraos. Teriam que ver o diagrama que me
mostrou para entender o que quero dizer, mas me criem se lhes disser que o desenho do mbolo que penetrava no receptculo do mecanismo de abertura e fechamento do
passado da gua da cisterna tinha exatamente o mesmo aspecto, exatamente o mesmo, que o de um pnis em uma vagina.
     De modo que j podem imaginar as piadas de encanamento que tive que suportar nos ltimos quatro anos.
     E no acabam a as brincadeiras. Alm da incontenible luxria que me inspirou Henry desde que o vi, intu que seria o pai mais maravilhoso do mundo. Meus
gens chamavam a seus gens, estava acostumado a brincar. Juntos amos produzir uns filhos judeoprotestantes, intelectomanuales (o elemento intelectual o contribuiriam meus pais,
no eu, porque meu pai ensina fsica quntica no Brandeis e minha me  agente de bolsa). Mas a coisa no pinta bem na planta produtora de bebs na atualidade.
s vezes parece por culpa do encanamento de meu encanador e outra de minha calefao. Os mdicos no esto seguros.
     Trato de no pensar em quo pior poderia nos ocorrer, ou seja no ter filhos. Seria um mundo muito triste e desolado no que nunca me tinha imaginado. Sinto-me
extorquida ao pensar em todos os anos que estive tomando religiosamente a plula ou utilizava espermicida ou diafragma.
     consegui ocultar meus piores temores ao grupo muito melhor do que consegui ocultar minha cmica libido, mas provavelmente no o conseguirei durante muito
tempo. Alm disso, por que teria que ocult-los? Para conservar a imagem que tm de mim como uma pessoa serena e sensata, suponho.
     Mas Isabel j sabe. Como de costume. Uma vez me disse que no teria superado o de seu divrcio, o cncer, a quimioterapia e tudo o que isso implicava
sem mim -algo que  muito amvel, muito tpico dela, embora no seja certo-. Mas sim o ser em meu caso. Se ocorrer o pior -se Henry e eu no podemos ter filhos- estou
segura de que sem a Isabel no poderei agent-lo.
Captulo 3
Rudy
     No sei por que meus amigas se preocupam tanto por mim. Sou um empecilho. Tanto, que poria-se a correr se me visse vir. Mas so muito pacientes e solidrias
comigo. Rodeiam-me com seus braos e me dizem "OH, Rudy, est-o fazendo muito bem". Ter que ler entre linhas. O que querem dizer em realidade  que se ainda no
puseram-me a camisa de fora  que estou bem. Possivelmente, mas me prova tocar madeira quando me dizem isso.
     O que no digo a ningum, nem sequer a Emma, que crie sab-lo tudo a respeito de mim,  o muito que influram a norpramina e a amitripilina em minha sade
mental. E antes a protriptilina e o alprazoam, e o meprobamato. E poderia seguir.
     S sabe Curtis, meu marido, e Eric, meu psiclogo. Sobre o resto sou franco: de minha desastrosa famlia, dos muitos anos de tratamento psicolgico,
minha luta contra a depresso e a loucura. Todo mundo toma agora Prozac ou Zoloft, de modo que j deixou que surpreender a ningum, nem de envergonhar, como diz Emma,
o fato de viver melhor a base de qumica.
     Mas no o conto. Porque necessito que meus amigas criam que meu comportamento  espontneo, autntico. Se conhecessem meu secreto exrcito de psicofrmacos,
tudo o que fizesse bem o atribuiriam aos medicamentos e tambm o que fizesse mau. Nada em mim lhes pareceria autntico. Para elas Rudy no seria real.
     J vero o que passa quando lhes contar o que tenho feito hoje. Imagino como vo reagir. Emma se por-se a rir, Isabel se mostrar solidria e me consolar
e Leia me reprovar isso, embora com gentileza. E todas se perguntaro em privado: No que estariam pensando para contrat-la? Mas no  sua opinio a que me preocupa
a no ser a do Curtis.
     O que ocorreu  que me jogaram que Telefone da Esperana. Envergonha-me dizer que s estive uma semana. A senhora Phillips, minha chefa, h-me
dito que tive uma conversao muito pessoal com uma das pessoas que chamou, em flagrante violao das normas que nos explicaram durante o estgio.
Sei que no estive muito acertada, que tem que haver normas, mas a verdade  que se voltasse a chamar a garota que chamou, uma tal Stephanie, atuaria do mesmo modo.
     Acautelam-nos para que ao iniciar a conversao sejamos precavidas. E no sem razo, porque j me tinham gasto mais de uma brincadeira. Mas a voz delgadita, jovem
e tensa do Stephanie a delatou em seguida. E deduzi que no era uma brincadeira.
     -Telefone da Esperana. Sou Rudy. Diga? Sou Rudy. Quem ?
     -Ol... Chamo em nome de uma amiga.
     -De acordo. Como se chama seu amiga?
     Pausa.
     -Stephanie.
     -E tem Stephanie algum problema?
     -Sim. Muitos problemas.
     -Qual  o mais importante? que mais a preocupa.
     -Pois... no sei. Chora muito freqentemente. Por muitas coisas. Por sua famlia, por seus amigos.
     -O que ocorre com sua famlia?
     Um suspiro.
     -Ocorre de tudo -disse-. Sua me  um verdadeiro desastre.
     -Em que sentido?
     Silncio.
     -Em que sentido  um verdadeiro desastre? -insisti.
     Silncio.
     -Bebe?
     -O que?
     -Que se a me do Stephanie bebe muito.
     -Sim.  claro que sim. Como o adivinhou?
     -Bom... minha me tambm bebe muito. Suponho que por isso o adivinhei.
     A verdade  que no me explico por que lhe disse isso.
     -Ah sim?  uma alcolica? Minha me  uma bbada, horrvel. No sei como posso... meu deus!
     -te acalme. Ouve-me, Stephanie? te tranqilize. Noventa por cento das pessoas que chamam dizem faz-lo em nome de um amigo ou amiga. Mas no deve te importar.
Acredito que no h nada mau nisso. Suponho que chamaria em nome de uma amiga se lhe pedisse isso, porque acredito que  uma boa garota.
     Minha maneira de lhe falar no respondia a meu aspecto habitual. Mas quando falo com algum atravs do Telefone da Esperana termino por falar como eles.
E, antes de me jogar, a senhora Phillips dizia que era uma de minhas tticas mais eficazes.
     -Fui-dijo Stephanie em tom ctico.
     -Digo-o a srio. Noto que  uma boa garota.
     -Quantos anos tem?
     -Eu? Quarenta e um.
     Ouvi soprar.
     -E o que vai ou seja voc ento dos problemas de uma adolescente?
     Ouvi o roce de seus dedos no auricular e temi que fosse pendurar.
     -Minha me era alcolica -apressei-me a dizer-. Quis suicidarse quando eu tinha doze anos. E quando tinha onze se suicid meu pai.
     fez-se um comprido silencio. tive muito tempo para analisar por que isso pinjente. Fiz-o a conscincia de que transgredia as regras. Mas naqueles momentos
no me ocorreu nada melhor para que no pendurasse.
     E funcionou. Stephanie comeou a desafogar-se.
     -Minha me.... quase todos os dias quando volto para casa ao sair do colgio est como catatnica. Bbada perdida. E tenho que me ocupar dela. E como no posso
trazer amigos a casa no tenho amigos. Enfim... sim tenho. S uma amiga, Jill. Mas ela no... No posso lhe contar o que ocorre. E por isso...
     -Compreendo-te. Eu tampouco tinha amigos. Mas isso foi um engano. Equivoquei-me.
     -No entendo.
     -Porque cometi o engano de me envergonhar do que ocorria, como se fosse eu quem bebesse. Mas, me escute, Stephanie, voc no tem nada do que te envergonhar.
 inocente. No merece o que te est ocorrendo.
     Stephanie rompeu a chorar. Ambas guardamos silncio uns momentos. E, embora no estou segura, acredito que a partir de ento a senhora Phillips comeou a escutar
desde sua extenso.
     -E isso no  o pior -disse Stephanie quando se rehzo um pouco-. Mas afeta a tudo.
     -Entendo.
     -E agora h algo mais, algo ainda...
     -Do que se trata Stephanie?
     -OH, Deus...!
     Rompeu a chorar de novo. Pensei no Eric, meu psiclogo, que nunca chora, por mais que veja que me desmorono na consulta. Entretanto, nunca pensei que seja
uma pessoa fria ou insensvel. Justamente o contrrio. Mas no chora. E menos mal que no chora, porque algum tem que manter a integridade nestas situaes.
     E isso  o que tentei fazer naqueles momentos.
     -O que ocorreu? Intuo que um pouco muito grave.
     -Sim. Fiz algo mau.
     - Com um menino ?
     Silncio.
     - voc adivinha?
     -Adivinhei-o por acaso. Pode me dizer o que seja.
     -Est voc casada? Como se chama?
     -Meu nome  Rudy e estou casada.
     -Quanto tempo faz?
     -Quatro anos e meio, quase cinco..
     -Ou seja que se casou aos trinta e sete, no?
     -Sim. um pouco major -adiantei-me. Mas notei que isso era o que pensava.
     -Y... fez alguma vez algo com um menino que...?
     -Pelo que depois me envergonhasse?
     -Pois sim.
     Temos proibido contar histrias paralelas. Nos ensina a escutar e fazer perguntas e dirigir aos interlocutores aos adequados servios sociais.
     -Olhe, Stephanie, fiz coisas com os homens das que nem sequer a meu psiclogo falei.
     -Ou seja que vai voc ao psiclogo -disse com uma risita nervosa.
     -Pois sim. chama-se Eric Greenburg. E est em Maryland.
     -N, um momento...
     -Anota-o, no caso de...
     Dava-lhe o nmero de telefone e acredito que ela o anotou. Embora, como podem imaginar, tambm temos proibido dar este tipo de informao.
     -De acordo -disse Stephanie esclarecendo-a voz-. Trata-se de um companheiro de curso. chama-se George, mas todo mundo o chama Aranha. O Homem Arranha. No
sei por que. Nem sequer me cai muito bem. Quero dizer que no somos noivos nem nada. Mas estava no centro comercial ontem  noite com uns amigos seu e eu estava
com a Jill, e comeamos a falar e essas coisas. E ao cabo de pouco momento George nos convidou a ir a seu carro a nos fumar um nscio. Jill disse que nem pensar, que ela se largava.
E isso sim que foi uma estupidez por minha parte. Porque lhe disse que bom, que eu ficava.
     -Hummm.
     -E ela partiu e eu fui ao estacionamento com o George e seus dois amigos e nos colocamos.
     -Hummm.
     -Eu j tinha fumado nscios. No era a primeira vez. Acredito que foi porque estava colocada Y...
     -No queria voltar para casa.
     -Exato.
     -Queria te esquecer de tudo. Deixar ir.
     -Sim, OH Deus, Rudy...
     -J sei. Y...
     -Y... sabe o que fiz depois?
     -Figuro-me isso. E que tal foi?
     Stephanie se ps-se a rir. Mas em seguida voltou a chorar.
     Tenho o telefone em uma mesa, entre dois painis de fibra de vidro que ficam  altura de meu queixo. Se no querer que me vejam quando falo quase tenho que pegar
a cara  mesa. Levei-me a mo  nuca e ouvi o Stephanie chorar com desconsolo.
     -te acalme, te acalme. No passa nada. Segue sendo uma boa garota em que pese a tudo.
     - que foi horrvel, Rudy, horroroso. OH, Deus, se nem sequer eu gostar! E o contar a todo mundo, a todos seus amigos, e ento...
     -E o que? Voc no  assim e sabe. De modo que... que se vo ao inferno!
     - que Jill no me dirige a palavra.
     -Bom... porque est zangada, mas...
     -Agora me odeia. Meu melhor amiga me odeia...
     -No acredito.
     -Que sim.
     -Est confusa e muito zangada contigo, mas no te odeia.  de verdade seu melhor amiga? Quanto faz que so amigas?
     -Desde primria. Faz quatro anos -disse Stephanie como se fizesse quarenta anos-. O que vou fazer agora?
     -Pois... falar com ela.
     -No me fala! Alm disso, no posso contar-lhe tudo.
     -Sim pode. Contaste-me isso , no? Embora compreenda que te custar.
     -No posso.  muito estrita. E  uma boa garota. Sempre foi uma boa garota. s vezes penso que se eu tivesse tido uma irm, no me sentiria to mal.
Ou inclusive um irmo. Se tivesse a algum...
     -Bom, no necessariamente.
     -Sim, porque se tivesse uma irm, poderia me confiar a algum, e lhe contar toda esta mierda.
     -Parece-lhe isso assim.
     -No. Acredito que todo me seria muito mais fcil. Muitssimo. Mas estar sozinha Y...
     -Olhe, vou dizer te uma coisa -pinjente transgredindo de novo as normas-. Tenho irmos e, quando eu tinha sua idade, no faziam a no ser agravar meus problemas.
     -No o entendo.
     -Verdade que o fato de que sua me beba faz que se sinta como uma intil?
     -Pois acredito que se tivesse uma irm ou um irmo tambm se sentiria assim. Em lugar de ter uma pessoa pela que preocupar-se teria trs. O que quero
dizer  que ter irmos no mitiga necessariamente os problemas.
     -Mesmo assim eu gostaria de ter a algum.
     por que no deixei as coisas neste ponto?
     -Escuta, Stephanie... Claire, minha irm, fugiu-se de casa quando eu tinha dezesseis anos e ela dezoito, e se uniu a uma seita religiosa. E ainda pertence
a ela.
     -Ufff...
     -Sim.  uma seita que acredita que devemos adorar aos gatos porque so descendentes diretos do Jehov.
     -De quem? Do Jehov?
     -De Deus. Jehov significa Deus.
     Stephanie se ps-se a rir.
     -Srio. E no acreditam s isso. E meu irmo Alan, nem sequer sabemos onde est. Desapareceu. Ou seja que j v como  minha famlia, Stephanie. Meu pai se
suicid e minha me era uma Cuba, minha irm se mete em uma seita e meu irmo desaparece. E aqui me tem... trabalhando no Telefone da Esperana, me comportando
como se fosse uma pessoa sem problemas. De modo que me escute...
     Stephanie seguia soluando.
     -Acredito que o primeiro que tem que fazer -prossegui-  chamar o doutor Greenburg e logo chamar a Jill, porque agora a necessita muito.
     -Sim, mas no sei...
     Quando nossa chefa quer falar conosco comea a piscar uma luz vermelha no telefone. Ento devemos deixar ao interlocutor em espera, pulsar um
boto e ver o que quer a chefa. A luz vermelha de meu telefone levava piscando pelo menos dois minutos.
     -Sim, mulher, acredito que deveramos tomar a iniciativa com a Jill. Isso faria eu em seu caso. Aprecia-a de verdade?
     -Sim. Acredito que sim -respondeu Stephanie, que de novo ps-se a chorar, agora com maior desconsolo. Possivelmente havia meio doido uma fibra especialmente sensvel.
     -Vamos, Stephanie... te acalme...
     A luz vermelha seguia piscando.
     -Rudy?
     -O que, carinho?
     -E agora est bem? depois de tudo o que lhe passou?
     -Pois sim, a verdade. Estou perfeitamente.
     Nos permite mentir. E se no fosse assim deveria s-lo.
     -O que ocorreu com sua me? -perguntou Stephanie com voz fica.
     -Ambas o superamos. Vive no Rhode Island com meu padrasto e falamos por telefone de vez em quando -pinjente. Porque no tinha sentido lhe contar que fazia cinco
anos que no a via, desde que me casei-. Desculpou-se comigo uma vez.
     -Ah sim?
     -E isso me fez muito bem.
     -OH, Deus, Rudy -exclamou Stephanie suspirando-. Parece que sua famlia estava mais jodida que a minha. Sinto muito...
     -Pode estar segura, Stephanie. Se tivesse que lhe contar isso tudo a respeito de minha famlia chegaria tarde amanh ao instituto -pinjente. Stephanie se ps-se a rir. Me
caa muito bem aquela garota. E tive uma idia-. Onde vive?
     -No Tenley Circle. Vou ao instituto Wilson.
     -Se quer poderia nos ver e conversar outro momento. Vamos... se gostar.
     -Sim. eu adoraria. O que lhe parece um sbado?
     -Seria estupendo. Meu marido est acostumado a trabalhar os sbados e poderamos almoar juntas.
     -Ah, claro, esquecia que est casada.
     -Sim, estou casada.
     -E moa?
     -Estar casada? Sim moa, sim. Pelo general sim.
     -J. Pelo general -disse ela em um tom de voz que de repente soou irnico e amargo. Partiu-me o corao.
     -Vemo-nos na sbado ento?
     -OH, seria...
     Clique.
     -Stephanie? N! Segue a?
     Olhei o auricular. ficou-se mudo. Em meu console piscavam seis ou sete luzes verdes. Era gente que desejava falar com os voluntrios do Telefone
da Esperana. Teriam passado a comunicao do Stephanie a outra? Pulsei um boto ao azar.
     -... sair da norma dessa maneira  improcedente, e essa garota sabia...
     Clique.
     -Senhora Lloyd.
     Ergui-me na cadeira. A senhora Phillips nunca me chamava senhora Lloyd. Eu a chamava senhora Phillips e ela me chamava Rudy. Minha chefa  uma mujerona, escultural
e muito bonita, de cor, e intimida. Me plantou em frente, com seus enormes peitos quase me roando a cara. Senti-me como uma menina pilhada em falta.
     -Senhora Lloyd, pendure o telefone, recolha suas coisas e saia imediatamente deste escritrio.
     -Um momento, j sei que...
     -Fora! -espetou-me.
     apartou-se para um lado e assinalou uma das janelas que davam  rua. Levava as unhas pintadas, largusimas e muitos anis e braceletes que entrechocaban.
Parecia uma deusa.
     -Por favor, senhora Phillips, agradeceria-lhe que me permitisse falar dois minutos mais com essa garota. Acredito que...
     -minha senhora -disse-me com expresso de incredulidade-, est voc despedida. No que estava pensando?
     A senhora Phillips no estava indignada a no ser furiosa. Era a primeira vez que lhe ouvia elevar a voz.
     -Sei que cometi um engano, senhora Phillips, no voltarei...
     -Estamos aqui para atender a quem chame, senhora Lloyd, mas no para lhes proporcionar essa terapia dela.
     - que eu...
     -E j pode dar obrigado de que no a denuncie.
     -me denunciar ?
     Foi de pesadelo. Domina sua ira, diz-me Eric. Mas duvido que fosse ira o que senti e em todo caso estaria sufocada pelo sentimento de culpabilidade, o remorso,
a dor e a mortificao. Foi um dos fiascos maiores de minha vida.
     Pobre Stephanie, disse-me de volta a casa. O que seria dela agora? E se voltava com o Homem Arranha? Possivelmente pudesse localiz-la. Sabia que vivia no Tenley
Circle, que estudava no instituto Wilson e que tinha quinze anos...
     por que acreditava poder ajud-la? Quo nico tinha feito era lhe falar de mim, de uma me alcolica, de uma famlia rota. A senhora Phillips tinha razo em
tudo. Tinha-me ganho em pulso que me jogassem, e pode que algo mais.
     E o pagaria ainda mais caro. E bem logo, assim que o contasse a Curtem.
Captulo 4
Isabel
     Acabo de ler um livro de uma autora que acredita que, em sua anterior reencarnao, foi simpatizante dos nazistas. Segundo ela, colaborava com as SS, espiava a
seus vizinhos e se enriqueceu aproveitando-se da guerra. Est convencida de que ento foi um homem. Apia sua convico no s na regresso por meio da
hipnose mas tambm nas circunstncias de sua vida atual. A pobre mulher  tetrapljica. Um horrvel acidente de automvel, que sofreu quando tinha dezesseis
anos, deixou-a sem poder mover mais que os msculos da cara. E, segundo ela, o sofrimento que agora suporta  o castigo pelos pecados cometidos nos anos
quarenta na Alemanha.
     O carma. Tudo o que vai volta.
     Nunca me hipnotizaram e, portanto, nunca fui submetida a regresso. Se tiver tido outras vidas, perdi-lhes a pista. Mas no excluo a possibilidade.
O cepticismo  um luxo que j no me permito. O deixo aos jovens e imortais. Mas se for certo que o yin e o yang esto sempre equilibrando-se, preferiria
pensar que se equilibram aqui e agora, nesta vida. Inclusive sei onde situaria eu o fulcro para o equilbrio perfeito: em meus quarenta e seis anos. Antes e depois
as metades de minha vida se abrem como asas, como um corao partido em dois. tornei a nascer. E aqui, no terceiro ano de minha nova vida, trato de equilibrar minha vida
anterior com esperana e amor, solidariedade, cordialidade e amabilidade, superficiais e gratuitos estalos de gozo. H muito que rebater (embora nada to
odioso como os crmenes nazistas). S confio em ter o tempo suficiente para faz-lo. Seria perfeito viver at os noventa e dois. Ou seja, quarenta e seis e quarenta
e seis.
     Entre boas amigas levar-se dez anos no  muito e, entretanto, s vezes me sinto como se as Quatro Obrigado e eu vivssemos em sculos distintos. Ainda no
cumpri os cinqenta. Teoricamente sou um produto do beb boom, da exploso demogrfica de mediados do sculo. Entretanto, meu pai era missionrio e passei
a metade de minha infncia no Camern e Gabo, e a outra metade em Iowa. Logo, o trabalho de meu marido nos levou a Turquia onde passamos seis anos de nosso matrimnio.
Nosso filho nasceu ali. Isto no justifica minha continuada inquietao a respeito da cultura popular mas sim acredito que nela influiu outra coisa. Algo que respira
em meu interior. Uma infelicidade terminal, chamaria-o Emma. E  uma explicao perfeitamente vlida.
     As Quatro Obrigado somos mulheres ativas e dinmicas, bastante judiciosas, sem mais lastre emocional -salvo no caso do Rudy- de que caberia esperar de um sondagem
ao azar entre executivas de mdia idade. Entretanto, nossa infncia foi um desastre. Para umas mais que para outras,  obvio. Rudy poderia escrever um livro
e Emma provavelmente o escrever. A famlia de L e a minha tm em comum uma aparncia de normalidade, e uma realidade muito distinta em seu seio. de vez em quando
jogamos as quatro ao que chamamos "O que nos mantm unidas?", e sempre conclumos que se deve a ter sobrevivido a nossa infncia.
     Pergunto-me se tivesse sobrevivido ao cncer sem o carinho e cuidados das demais. Sobrevivido.... sim, provavelmente. Mas s isso: mera sobrevivncia.
Nada, nenhuma outra experincia me equilibrou tanto. Cheguei a acreditar que nunca me recuperaria, que minha mudana era irreversvel. E assim foi, mas no no sentido
que me temia. Tinha lido todo tipo de artigos e livros sobre a enfermidade. Os relatos autobiogrficos de mulheres que explicavam que o cncer tinha trocado
suas vidas, que as tinha convertido em pessoas distintas, foi uma bno disfarada... Estas histrias me enfureciam. Sentia-me enganada e trada. Tinha
a sensao de que me mentiam e me sentia profundamente ofendida. E agora... agora sou uma dessas mulheres. Faz dois anos que perdi um peito e me ouo gritar o
mesmo sentimento que me fazia chiar os dentes: "No  que o deseje a ningum, mas foi positivo que me acontecesse. trocou minha vida radicalmente."
     E necessitava que trocasse. Minha vida tinha dado um pequeno rodeio devido, entre outras coisas, ao descobrimento da permanente infidelidade de meu marido. No sei
por que mas estive pensando muito no Gary ultimamente. Perguntei-me se fiz bem em utilizar sua ltima infidelidade como catalisador de nossa ruptura. Se
continussemos casados e voltasse a me ser infiel, perdoaria-o? Acredito que sim. Espero que sim. Porque no sou a mesma pessoa. J no albergo ira dentro de mim. Obrigado
a Deus. Mas o que diria L se o comentasse? Ou Emma? Ou Rudy? No quero nem pens-lo! A nica luz no horrvel transe de meu divrcio foi sua amizade. Fizeram
abacaxi para me apoiar, culpando ao Gary. No seio do grupo passaram de lhe ter certa simpatia a desejar v-lo morto e, por ento, sua atitude me resultou muito reconfortante.
     At a data nunca comentei s Obrigado toda a histria de suas infidelidades. Suponho que porque me resulta muito embaraoso. O comportamento
do Gary foi vergonzante e parte dessa vergonha me salpicou, como se parte da culpa fosse minha. E pode que fosse.  mais, estou segura de que foi.
Mas nunca o esquecerei e sempre lhes estarei agradecida por sua justa ira quando lhes contei como descobri sua primeira infidelidade. Foi a noite de nosso 19 aniversrio,
algo que visto em retrospectiva resulta coerente. Gary sempre foi muito oportuno.
     Levou-me a um novo restaurante turco na Besheda (um pequeno presente nostlgico em honra aos velhos tempos, quando estvamos recm casados em Ankara). Me
surpreendeu e me emocionou. Bebemos raki e jantamos guisado de cordeiro com berinjelas. Ao voltar para casa fizemos o amor no sof. No acostumvamos faz-lo ali,
mas Terry estava no Richmond para assistir a uma festa e passaria a noite ali. Por uma vez estvamos sozinhos em casa. Logo fiquei dormida e despertei s escuras.
Com a roupa na mo subi a nosso dormitrio. Senti-me coquete e sedutora ao pensar que j levava dezenove anos casada e ainda fazia o amor no sof. A
voz do Gary chegou at mim atravs da porta entreabierta do dormitrio. Detive-me no patamar da escada por pura curiosidade. Com quem podia estar
falando com meia-noite em tom lhe sussurrem?
     Falava com uma tal Betty Cunnilefski que trabalha de ajudante administrativa em seu escritrio. Tinha-a visto uma vez e a recordava vagamente: ctrica, mida
e fraca, a classe de mulher que v uma jantar sozinha nos restaurantes.
     Gary me confessou isso todo aquela mesma noite de um puxo. Jurou-me que no voltaria a v-la e que faria que a transladassem a outro escritrio. face ao muito que
enfureceu-me o senti um pouco pela Betty a quem Gary, fiel a sua palavra, transladou a outra seo antes de uma semana. E  muito provvel que no voltasse a v-la.
Por ento acreditei. Chorou de um modo muito convincente e me suplicou que o perdoasse, de um modo igualmente sincero. Parecia quase to afetado como eu e incapaz
de explicar por que o tinha feito. E foi melhor assim porque se me chegar a dizer que se sentia sozinho, incomprendido ou sexualmente insatisfeito; que o fez estando
bbado, que o seduziram, que se devia  crise da mdia idade ou tivesse posto qualquer desculpa pelo estilo, no teria feito a no ser provocar minha ira. Eu
logo que era consciente disso e me sentia incapaz de estalar, algo que tivesse deixado atnito ao Gary de hav-lo entrevido.
     Demorei trs anos em estalar. Ignorava se Betty foi primeira com a que foi infiel, mas certamente no foi a ltima. Como as ligava? Isso  o nico
que agora me interessa saber, uma vez que minha fria se extinguiu. Gary  baixinho, cuellicorto e gorducho. Leva barba e tem o cabelo grisalho.  muito largo de
costas e paticorto. Na cama  muito bruto. Est bem se a uma gosta assim, mas com o tempo cheguei a detest-lo. No fundo,  bastante frio e calculador.
Gosta de paquerar mas  muito torpe. No me imagino ligando. Mas o consegue. O que lhes d?
     por agora  um tipo mundano e apaixonado. Por isso me apaixonei por ele. Alm disso escolhe mulheres necessitadas de um homem, sozinhas, tmidas, mulheres que so um branco
to seguro como pattico. E assim exatamente era eu. No posso afirmar que o faa deliberadamente e que portanto proceda de um modo cruel e calculador, ou se se
trfico de uma pura e cega intuio. Nunca o tive claro. Quero lhe conceder o benefcio da dvida. Quero perdoar.
     No se trata de generosidade nem de bondade. O que ocorre  que j no h lugar em meu interior para a amargura. Assim de singelo. E a risco de parecer ftua,
permitirei-me dizer que o mundo est cheio do Bettys. No sei a quem devo agradecer esta nova e visceral atitude. Resulta-me divertido pensar que acaso se deva em
parte para Deus luterano de meu pai. Mas s em parte. Na atualidade o atribuo mais ao que Emma chama ocultismo, aludindo ao Tarot, reencarnao, anteriores
estoque, astrologia, numerologa, meditao e hipnoterapia, tudo o que cai sob a rubrica da New Age (toda espiritualidade  margem do protestantismo
ortodoxo, segundo Emma). Eu acredito em todo isso. O desdm que sente por tudo isso meu amiga no tem limites, mas suas brincadeiras so sempre gentis e afetuosas.  uma
espcie de jogo entre ns. O caso  que Emma e eu estamos mais unidas que nunca.
     Poderia lhe replicar que para mim  um verdadeiro gozo ver deus em tantos lugares. O peso dos convencionalismos e do racionalismo me faz mais suportvel
ao pensar que posso morrer, que realmente posso morrer. E agora me sinto livre. Livre, com quarenta e nove anos, e muito agradecida por comear a viver de novo. O
yin e o yang. voltei para instituto; transladei-me que o Chevvy Chase ao Burleith e do Burleith ao Adams-Morgan -uma progresso muito reveladora por si s-. Tinjo-me
o cabelo. Poderia me jogar um amante. Despertar pela manh no  um ato obrigatrio e tedioso a no ser o comeo de uma possvel aventura. Remodelei-me. Embora...
no. Remodelaram-me. As circunstncias me impuseram um novo conceito do fato de ser mortal. E mereceu a pena. S tive que dar em troca um peito.
     Um trato vitalcio.
Captulo 5
Emma
     Uma m notcia no sinta to mal se a receber uma em boa companhia.  como se lhe atirassem pela janela de um quinto piso e ricocheteasse em uma marquise,
o teto de um carro ou um monto de bolsas de plstico antes de estelar lhe no meio-fio. Teria muitos probabilidades de sobreviver.
     Esta analogia  muito spera para persistir nela, alm de que no tenho a quem comparar com um monto de bolsas de lixo. De modo que me limitarei
a dizer que a noite que descobri que Mick Draco estava casado, pensei que meus trs amigas eram um pra-quedas extraordinrio.
     Uma das quintas-feiras que tocava reunio fomos jantar a Cuillere do Adams-Morgan, em lugar do apartamento da Isabel porque lhe tinha quebrado a cozinha.
     -tornaram a me rechaar o manuscrito -acabava eu de lhes comunicar ao Rudy, L e Isabel.
     Estava a ponto de rir de sua preocupao e solidariedade, embora fosse para mim como um lenitivo, para que no notassem o afundada que me sentia, quando de repente
L dirigiu o olhar para uma mesa prxima e disse "Mick Draco".
     Fiquei de pedra, desorientada. Porque fazia cinco minutos tinha fantasiado com ele. me leia o pensamento, L, pensei enquanto seguia seu olhar. E ento
vi-o. Uma ensoacin feita realidade.
     L o chamou. Mas como L  da classe de pessoas que antes se comeria uma barata que elevar a voz em pblico, Mick Draco no a ouviu. De verdade o conhecia
L? Ruborizei-me e me levantei.
     -N, Mick!
     Ele se girou, sorriu e se aproximou de nossa mesa.
     Levava quatro dias pensando nele, desde nosso breve conversa prvia  entrevista em uma tasca de trs ao quarto, frente a seu desmantelado estudo da
rua Oito. Disse-me que vivia perto, em Columbia Heights. Mas, encontrar-me isso de repente naquele restaurante francs de moda de Columbia Road me surpreendeu.
     Era atrativo, ainda muito erguido, magro e no muito alto, meu tipo de homem favorito fisicamente. E ainda conservava o cabelo, castanho, com algumas mechas
chapeados, uma cara grande e inteligente e uns olhos marrons que brilharam  lombriga.
     - o tipo de quem te falei -deu-me tempo a lhe sussurrar ao Rudy antes de que se inclinasse para ns, com as mos nos bolsos de sua jaqueta de
cheviot, sorridente e agradado, embora um pouco nervoso e coibido.
     Pensei que assim que visse o Rudy se esqueceria inclusive de meu nome.  muito prprio dos homens. J estava acostumada e me tomava com filosofia. Mas
aquela noite, de boa vontade houvesse talher ao Rudy a cabea com um saco.
     -Ol, Mick, prazer em conhec-lo -saudou-o L-. Faz tempo que quero chamar a Sally. Conheciam-lhes voc e Emma? No tinha nem idia.
     Quem ser Sally?, perguntei-me enquanto Leia o apresentava ao Rudy e a Isabel. E ento ca. Sally seria sua esposa. Maravilhoso. A histria de minha vida.
Nem sequer se emprestava para uma boa piada, para uma dessas grosserias de algum dos ineptos tipos com os que me tinha deitado. No. Pura e simplesmente me doeu.
No estava preparada para saber quo mau sentava. Acreditam que se devia a imaturidade ou instabilidade? Digo-o pelo de reagir to mal pelo fato de saber que
um tipo ao que logo que conhecia estava casado. Bom, pois isso mesmo penso eu. No posso explic-lo porque no me tinha acontecido nunca.
     -O filho do Mick, Jay, vai  creche -disse olhando ao Mick com seus cintilantes olhos negros, visivelmente encantada de v-lo.
     Assim me inteirei do da Sally.
     Outro desgosto. Alm de esposa tinha um filho que, alm disso, ia  creche em que trabalhava L. Sorri de brinca a orelha e lhes contei como conheci o Mick.
     -Conhecemo-nos faz s uns dias. Mick ser o protagonista de um artigo que estou escrevendo a respeito das mudanas de profisso na mdia idade.
     Rudy e Isabel pareceram sentir curiosidade. Mick guardou silncio.
     -Antes trabalhava como advogado especializado em patenteie e marcas e agora  pintor.
     -Aspirante -disse Mick Draco, que inclinou a cabea, sorriu e moveu as mos sem tirar as dos bolsos.
     Era tmido, sem dvida. meu deus. Essa  outra de minhas debilidades. Tenho dois: os homens tmidos e os que so mais inteligentes que eu. Mas quando tomamos caf
no esteve nada tmido. E agora no parecia fascinado pelo Rudy. Embora a verdade era que tampouco me olhava enquanto mantinha uma superficial conversao com
L. Isabel observava em silncio, sem perder detalhe.
     Em princpio, tinha ido ali para celebrar nossa reunio das quintas-feiras. Por isso no o convidamos a sentar-se conosco. E me alegrei. Para que me atormentar
innecesariamente? Quando a conversao comeou a adoecer, Mick disse ao Rudy e Isabel que se alegrava das ver e a L que diria a Sally que a chamasse.
     Sally. Eu nunca tinha conhecido a nenhuma Sally, mas imaginei. Devia ser loira natural e singela, com um atrativo de sexy caseira. Devia levar avental
enquanto assava complicados mas saudveis bolos para o Mick e seu filho. Para seus "homens", como os chamava ela.
     Mick retrocedeu um passo e olhou aos olhos pela primeira vez.
     -na segunda-feira -disse.
     -De acordo. na segunda-feira.
     -Quer que almocemos antes outro dia?
     -No, no posso. Tal como ficamos, em seu estudo -disse em tom enrijecido, estpida de mim. Porque Mick no tinha feito nada incorreto.
     Mick no levava aliana mas tampouco tinha mentido, nem sequer se tinha permitido essa paquera que utilizam os homens para deixar implcito que so solteiros
embora sem diz-lo. De modo que, em todo caso, a culpa foi minha, por dar por sentado algo sem mais apie que meu desejo. Mida bobagem. Acreditava ter deixado de cometer
estas tolices fazia anos.
     Ao nos despedir Mick foi junto a um tipo carregado de costas e com acrscimo branco que estava sentado junto a uma das janelas que davam  rua. Olhei-os
com a extremidade do olho enquanto L falava da Sally, do encantada que era e de que pensavam ir juntas a classes de bal. Tentava-me lhes confessar que acabavam
de me partir o corao, em plano de brincadeira,  obvio. Ainda me reservo alguns secretos, mas meus desenganos com os homens no so parte deles. por que
no o contei? Primeiro, porque o fato de que L conhecesse a esposa me o fazia embaraoso. E segundo, pela Isabel. No fazia tanto que se divorciou e o
adultrio  um tema que ainda o afeta.
     Isto no significa que eu pensasse no adultrio. Nem pensar. Detesto enganar, a quem engana e a infidelidade. Mas... Notei algo na cara da Isabel, que
estava plcidamente sentada, com sua amvel expresso e seu sorriso da Buda. Sempre d a impresso de abster-se de julgar a outros. Possivelmente por isso me abstive
de rir de mim mesma, com comentrios mais ou menos cnicos por me haver coado por um homem casado.
     Como de costume, Rudy falou a ltima porque o quarto de hora que em princpio lhe correspondia estava acostumado a alargar-se at a meia hora e, s vezes, aos trs
quartos de hora. A nenhuma importa, s que  melhor contar com isso de antemo. Contou-nos uma larga e divertida histria a respeito de que a tinham jogado de
seu trabalho no Telefone da Esperana.
     -J sabia que lhes eis rir -disse-. Mas lhes asseguro que no  to divertido.
     -De verdade lhe deu o telefone do Greenburg? OH, Rudy, Por Deus!
     -por que no?  um terapeuta de famlia que trata a adolescentes. E acredito que se uma garota pode necessitar conselho dessa classe  ela.
     -Mas infringiu as normas -disse L com esse tom condescendente e didtico que est acostumado a utilizar com o Rudy, embora no comigo, porque se o faz eu replico
do mesmo modo mas multiplicado por cem, com o que resulta ainda mais irritante. A ver se assim toma boa nota.
     -J sei -disse Rudy-. Mas...
     -Nestes servios no permitem recomendar a profissionais de nenhum tipo, Rudy. No lhe explicaram isso? No lhes deram um estgio de formao antes de que comeassem
a atender chamadas?
     -Sim. Explicaram-nos que no devamos recomendar mdicos, clnicas nem hospitais, nem sequer programas de ajuda. J sei que cometi um engano, mas no pude evit-lo.
Se a tivessem ouvido... -Deixou de nos olhar a L e a mim, olhou a Isabel e prosseguiu-: Voc teria feito o mesmo.
     -Espero que sim -assentiu Isabel sorridente.
     -Mas isso no se pode fazer -insistiu L-, porque ento o Telefone da Esperana se converteria em um simples servio de informao. emprestaria-se a
muitos abusos. Pensem.
     Isabel se recostou no respaldo, brincando com seus cachos de cor loira cinza. Leva o cabelo tingido mas lhe sinta muito bem. Est estupendamente. Ningum
jogaria-lhe mais de quarenta e cinco anos.
     -Com quantas organizaes humanitrias colabora como voluntria, Rudy? -perguntou-lhe Isabel em tom amvel.
     -Agora? Pois... com quatro.
     -Caray! E quais so?
     -Alfabetizao, Reparto de Comidas Quentes, Sociedade Humana e A Hora do Conto.
     -A hora do conto?
     -Sim, vamos aos hospitais infantis a lhes contar contos aos meninos.
     -Ah.
     fez-se um silncio enquanto assimilvamos a informao. Na esquina da rua Quinze e G est acostumado a tocar o violo uma mulher maior, de cor. s vezes deixo
cair um dlar em sua caixa de puros ao passar, embora sem me deter, porque sempre levo pressa. Salvo alguns cheques que envio por Natal, quando posso, essa  meu
nica obra de caridade.
     Isabel no seguiu perguntando. No era necessrio. L deixou de dar lies e eu de rir. A amvel e despreocupada Rudy pediu mais gua ao garom. Nem sequer
tinha reparado em que Isabel tinha sabido deixar as coisas em seu stio.
     Rudy viu que eu lhe sorria.
     -O que acontece? -disse-me sonrindome a sua vez.
     -Nada.
     eu adoro a maneira que tem Rudy de entreabrir os olhos quando sorri. Faz doze anos, na seo de informao da biblioteca da Universidade Duke,
no devia ter sorrido muito, pois do contrrio o teria notado. Ento s nos conhecamos de vista. Na atualidade nos agradamos em benzer a sorte,
a oportunidade, a providncia -ou o destino, como o chamamos quando bebemos-, que nos permitiu nos conhecer. Dizemo-nos que teria sido uma tragdia no nos haver
transladado a Washington o mesmo ano; e que foi um verdadeiro milagre nos haver unido  mesma reunio literria.
     "O que foi o primeiro que te chamou a ateno em mim?" No nos cansvamos de nos fazer a mesma pergunta. "Que te ria com tudas minhas piadas -respondia sempre
eu-. Foi a nica da reunio que tinha senso de humor, e uma risada contagiosa."
     Era verdade, mas ainda o era mais que Rudy sempre dizia em voz alta o que eu s me limitava a pensar. Sabia express-lo tudo muito bem, e suas palavras sempre
encaixavam com minha vida interior, harmonizavam com meus sentimentos mais profundos, como se estivesse dentro de mim. Era como se tivesse encontrado a meu alter ego. E
acredito que, embora seja seu melhor amiga, atrai s demais pela mesma razo. No sei se se deve a todos os anos que esteve indo ao psiclogo, mas Rudy tm o
dom de dizer o inexpresable e de fazer que soe normal e humano.
     Quando lhe pergunto o que viu ela em mim me responde que era "muito divertida". Eu gosto. eu adoro fazer rir s pessoas. No preciso ir ao psiclogo para
que me explique por que. "alm de que foi sincera. E algo sria, mas no bom sentido. um pouco panaca, mas com um corao de ouro."
      o mais bonito que me ho dito nunca.
     Durante as sobremesas me pus a divagar. Mick Draco tinha uns ombros incrveis. Draco  um sobrenome grego, no? Embora seu nariz no o era. Pu-me os culos.
Tinha um lunar junto a sua sobrancelha direita. Embora levava o cabelo muito comprido para a moda, sentava-lhe bem. Acabava de rir por algo que lhe havia dito seu amigo.
No pude ouvir a risada a causa da animao do restaurante mas me fez sorrir.
     Tirei-me os culos e me refiz. No tinha nada que fazer com o Mick Draco. Sou uma calamidade quanto s relaes homem-mulher. Passar meia vida tratando
inutilmente de manter relaes com o outro sexo durante mais de um ano no pode atribuir-se a que me tenha estado "procurando para mim mesma". Nunca me encontrarei, porque
sou um fracasso.
     -O que faria sem vocs? -perguntei ao Rudy enquanto atacvamos a crme brle.
     Todas me sorriram carinhosamente. Isabel olhou meu copo de vinho, s a modo de superviso, com expresso pormenorizada e maternal.
     -Digo-o a srio -insisti-. Se com as mulheres tivesse tido to m sorte como com os homens, teria tido que me pegar um tiro.
     Rudy me deu um tapinha no ombro e voltou para o que estava contando a respeito de seu psiclogo. O que acabava de lhes dizer era a pura verdade. Pode que muriese
solteira, mas sempre teria a meus amigas. Deus sabe bem que h coisas piores que viver sozinha. De todas maneiras, a maioria dos homens no so mais que mudanas
de rasante, molestos obstculos no curso de uma vida que, de no ser por eles, seria um caminho de rosas. Muito de vez em quando uma pode encontrar a um homem
que merea a pena mas, mesmo assim, sempre tm tara. Em troca, boas mulheres encontramos por toda parte. Pode uma escolher a vontade, ficar com as melhores,
formar um grupo e ter amigas para toda a vida.
     Ao sair de La Cuillere, L se voltou para a porta e se despediu por gestos do Mick Draco, mas eu me abstive. Segui adiante, sem me voltar para olh-lo. Passava
dele. Meus amigas me tinham ajudado a v-lo tudo com perspectiva. As Obrigado me tinham salvado uma vez mais.
     Embora, claro, na segunda-feira teria que voltar a v-lo.
Captulo 6
Rudy
     Ontem  noite tive um pesadelo horrvel. Corria como uma desesperada porque chegava tarde a alguma parte. At quase o final do sonho no caa em que aonde chegava
tarde era a minha sesso com o Eric. No ia com meu carro a no ser com o do Curtis e no encontrava onde estacionar. De modo que me subi  calada e estacionei frente  consulta
do Eric. Hummm, pensei, isso no vai lhe gostar de nada. Mas no sei se referia ao Eric ou ao Curtis. Suponho que ao Eric. D igual. O caso  que estava impaciente por v-lo.
Tinha algo importante que lhe dizer, algo a respeito de meu pai. O que? No sabia. Corri escada acima, cruzei a sala de espera e irrompi em seu escritrio sem chamar.
E ali estava ele, fazendo o amor no cho com algum.
     No lhe via a cara  mulher. Estavam vestidos (pareceu-me curioso que o sonho se autocensurase) mas no cabia dvida de que estavam fazendo o amor. Eric
elevou a vista e me sorriu, como faz sempre, e logo vi que a mulher era ruiva e tinha a cara plida. ria. Era Emma.
     Devia contar este sonho ao Eric? E a Emma? poriam-se a rir, seguro. Mas no me resultou divertido. Nem muito menos.
     Pus-se a chorar. Tinha o corao destroado. Escondi-me detrs da porta. Mas me viram, e ento me senti humilhada. Logo... logo o sonho trocou
e fomos Eric e eu quem fazia o amor em seu sof estofado de veludo. Nus. Emma aparecia ento com os braos em jarras e dizia: "Maravilhoso. J
ver voc quando se inteirar Curtis!" E nada mais ouvir Curte despertei e comecei a tremer.
     Podia ver o perfil de seu ombro sob a colcha, de costas a mim. Seguia com o olhar o movimento de seu corpo ao respirar, aterrada ao pensar que se houvesse
informado do que sonhava e que fingisse estar dormido.
     No foi mais que um sonho, senti o impulso de lhe dizer. No te entristea. No foi mais que um sonho. S quero a ti.
     Mas, como  natural, quanto mais o olhava mais despertava e, ao cabo de um momento, deslizei um brao sob sua cintura, aproximei a ele e me senti a salvo.
     Mas  devia lhe contar ao Eric aquele sonho ? Pelo menos ele saberia interpretar o que significava. A Curtem, em troca, no poderia contar-lhe nunca. Alm disso, nem
sequer foi um bom p, embora para o caso daria igual. Em realidade resultou mais prazenteiro v-lo que faz-lo. Estou segura de que o sonho tinha um significado
alm do sexual, de controle, domnio e pode que inclusive amor. por que ser que nos sonhos o sexo quase nunca significa realmente sexo? Ao igual 
carta da morte no tarot nunca significa morte. Ou, pelo menos, isso lhe dizem. Em definitiva. Tinha meu sonho que ver com o que desejava ou com o que temia?
 Ou ambas as coisas ?
     A verdade  que no sei. Embora no  de sentir saudades, porque nunca estou segura de nada. Em certa ocasio Eric me disse: "Olhe, Rudy, o que  quo pior poderia
ocorrer se tivesse uma firme opinio sobre algo e estivesse equivocada?" Mas no acredito que isso venha ao caso. No temo me equivocar, porque sempre me equivoco. E
se no, lhe perguntem a Curtem. O que ocorre  que se algum optar por acreditar uma coisa elimina as demais. De modo que no  justo. por que escolher?  melhor, mais cmodo
no faz-lo. Alm disso,  importante deixar-se sempre uma via de escapamento, uma sada. Ter sempre onde ocultar-se.
     De modo que optei por no lhe contar a ningum aquele sonho.
     Eric est fascinado com as Quatro Obrigado. Quando deixa vagar o olhar abstrado enquanto me enrolo com algo que o aborrece, sempre consigo recuperar sua ateno
lhe falando delas. Acredito que se deve a alguma razo sexual. Provavelmente ele o negaria se o dissesse assim. Mas estou convencida de que a meu psiclogo no s
gosta que lhe fale das Quatro Obrigado mas sim gostaria de deitar-se com elas. Com todas de uma vez.
     Isso no significa que o fizesse, caso de poder.  um profissional muito estrito. Mas no fundo de seu nobre subconsciente, estou quase segura de que ao bom
do Eric gostaria de atirar-se nos a todas.
     -Que aspecto tm as Obrigado? -perguntou-me uma vez-. Como  Emma?
     -Muito bonita. Mas ela acredita que no. Acredita que est gorda.  ruiva e tem uma pele branca de irlandesa, com muitas sardas no vero, e rosada quando se
ruboriza. No sabe dissimular. Trata sempre de aparentar calma e tem um ar desenvolto que engana. Mas em realidade ... ia dizer to neurtica como eu, mas
possivelmente exagero.
     -Estraguem. E Isabel?
     - major mas tambm muito bonita. Ou pelo menos assim me parece isso. Quando a conheci tinha o cabelo cinza Y... segue-o tendo, claro. Mas o tinge de loiro.
Tem os olhos azuis.  alta, embora no tanto como eu. mantm-se em forma a apie de andar muito. Em realidade est melhor agora que antes de contrair o cncer.
     A verdade  que no me ocorreu nada mais que lhe dizer da Isabel; que  uma pessoa introvertida e ter que ser muito observadora ou trat-la durante muito tempo
para precaver-se de quo encantadora .
     -L  Mona. Detesta que o digam, mas  a verdade.  menudita. Parece uma duendecilla. Os meninos a adoram e acredito que em parte se deve a que  quase
de sua estatura.  moria e, desde que a conheo, leva o cabelo muito curto. Diz que  o mais prtico. E isso a retrata de tudo.
     -De modo que todas so atrativas -disse Eric acariciando o queixo. Brilhavam-lhe os olhos com uma inocente picardia que me fez rir. s vezes  como um
livro aberto.
     -agradece-se o completo. Nunca me parei a pens-lo. Mas pode que assim seja.
     -E o que opina Curtis de seu grupo? -perguntou-me Eric sem vir a conto.
     -Curtis? mostra-se um tanto ambivalente -pinjente, utilizando uma palavra muito socorrida que ao Eric adora.
     -Mas ao princpio no gostava, verdade?
     No recordava haver o comentado. Pareceu-me uma deslealdade hav-lo feito.
     -Pode, mas s ao princpio. E nunca se ops claramente. Acredito que no gostava porque sempre est muito ocupado.
     -E isso o que tem que ver?
     -Porque gosta de estar comigo quando chega a casa.
     Curtem  assessor jurdico do congressista Wingert. levanta-se s seis e s vezes lhe do as dez da noite no despacho. "Me passo todo o dia falando
com imbecis, Rudy -diz-me- e eu gosto de te encontrar em casa quando volto." A verdade  que me parece razovel. "Preciso estar contigo -acrescenta-, a ss. Necessito-o,
no  s que eu goste. Equilibra-me." No imagino capaz de contribuir ao equilbrio de ningum.
     -Ou seja que no gostava que te unisse ao grupo porque... estaria menos em casa -disse-me Eric.
     -No, no exatamente. No sei como express-lo.
     Eric se encolheu de ombros, embora adivinhei o que pensava: passivo-agressivo.
     Em certa ocasio cometi o engano de lhe contar ao Eric que Curtis sente prazer em me advertir freqentemente que a biologia  o destino. O imperativo biolgico. Depende
Curtis, os casos de psicose em minha famlia so to srios porque, provavelmente, so congnitos. E, naturalmente, ao Eric sentou mau. No h argumento que desagrade
mais a um psiquiatra. Tambm me desagrada, mas tenho que assumi-lo. Porque se no me recorda isso Curtis me recordo isso eu. "O fator gentico" vai contra todo o
que Eric crie. Inclusive disse que os motivos do Curtis para opinar assim poderiam ser algo turvos.
     Mas, quando pintam Bastos, me parece um argumento coerente e Curtis me serve de consolo e distrao. Estreita-me entre seus braos e jura que sempre me
proteger, e ento me sinto segura, a salvo.
     Eric diz que mmico muito ao Curtis. Mas no entende que  justamente ao reverso.
     -E o que opinam do Curtis as outras trs Obrigado? -perguntou-me Eric depois de uns momentos em silncio.
     -Falam muito pouco dele. No  um tema que interesse ao grupo, Eric. Refiro-me a que no nos reunimos para falar dos homens.
     Dirigiu-me um olhar paciente. Porque Eric quase sempre sabe quando trato de me sair pela tangente.
     -Bom, a verdade  que sim falamos um pouco de Curtem, claro.  margem das reunies do grupo com quem mais falo dele  com a Isabel.
     -Ah sim? No com a Emma?
     -No, com a Emma no. Emma e eu tivemos um forte arranca-rabo em certa ocasio por Curtem -pinjente, embora se tratava de um pouco to doloroso que preferia no record-lo-.
Faz anos. De modo que agora  um tema que nunca abordamos. Logo que dizemos nada salvo frases protocolares. Que tal est Curtis? Muito bem, obrigado. lhe d lembranas.
E isso  tudo.
     -Nunca me tinha contado isso. Teve um arranca-rabo com a Emma? Quando?
     No gostava de contar-lhe naquele momento.
     -Faz muito tempo. Sigo pensando que foi culpa da Emma.
     -por que?
     -Porque aguardou at a vspera de minhas bodas, literalmente, a noite anterior, para justificar-se sobre o que opinava do Curtis. J a perdoei. Embora em
realidade no h nada que perdoar. Mas  difcil de esquecer.
     -Conta-me o      -Es agua pasada, Eric.
     - gua passada, Eric.
     -J sei. Mas me interessa.
     -Porqu?
     -Porque sim. Vamos, conta-me o      Fue un 5 de diciembre, cuatro aos atrs. Haca mucho tiempo que Curtis y yo vivamos juntos, pero la noche anterior a la boda no durmi en casa, slo por divertimento,
     Suspirei, resignada a contar-lhe vino muy bien, porque yo necesitaba ayuda. Mi madre y mi padrastro haban llegado en avin desde Rhode Island aquel mismo da; mi hermano desde Los ngeles, aquella
     Foi um 5 de dezembro, quatro anos atrs. Fazia muito tempo que Curtis e eu vivamos juntos, mas a noite anterior  bodas no dormiu em casa, s por divertimento,
e Emma veio a pass-la comigo. Era uma de minhas damas de honra e se tomava seu papel muito a srio. mostrava-se muito solcita e diligente com todos os detalhes. E me
veio muito bem, porque eu necessitava ajuda. Minha me e meu padrasto tinham chegado em avio desde o Rhode Island aquele mesmo dia; meu irmo dos Anjos, aquela
noite; e minha irm obteve uma permisso de um dia da seita e chegaria  manh seguinte. Seria a primeira vez que nos reunamos todos em vinte e cinco anos. Desde
o enterro de meu pai.
     Os pais do Curtis chegaram dois dias antes desde a Georgia e se hospedavam no Willard. No sei qual das duas famlias me tira mais de gonzo. Ele chama os
deles "velhos aristocratas sulinos", embora no tenho muito claro que se possa ser aristocrata e pelanas. Os Lloyd tm esse adocicado e pachorrento encanto sulino que
faz que ferva meu sangue de Nova a Inglaterra. No param de sorrir, embora saiba que no fundo de seu corao no albergam mais que desdm. E no falam mas sim balbuciam.
Recordam a esses rolios lagartos pardos que se tombam nas rochas quentes, muito preguiosos para mover um msculo. No param de beber, e em pblico, no
em privado como minha famlia -martinis, copos de burbon do meio palmo, tragos de usque de malte ou de conhaque quente-. converteram o fato de beber em um
arte delicada e sensual. Quando vamos visitar os observo como uma olheira. Sinto-me como se observasse uma cena ertica parapetada depois de um sebe de magnolios,
madressilva ou de qualquer outra planta adocicada e enjoativa, e quase posso ouvir aquele personagem do Tennessee Williams que gritava: "Mendacity!"
     Bom, exagero, mas no muito. Curtis se queixa de que exagero as excentricidades de sua famlia para minimizar as da minha. E tem razo.
     A vspera das bodas, de noite, Emma foi comigo a casa depois do jantar do ensaio. Passaria a noite ali, levantaria-se cedo e me ajudaria a me vestir
para as bodas. Estvamos famintas, em que pese a que acabvamos de jantar. Fizemo-nos umas omeletes  francesa e desarrolhamos uma garrafa de vinho. Tnhamos brindado
uma dzia de vezes no jantar do ensaio, mas como j tnhamos perdido a conta pensamos que no vinha de uma. Sei que bebo muito, mas aquela noite em concreto
no foi mais que uma parte do problema.
     No encontrvamos o momento de nos colocar na cama. E a meia-noite ainda estvamos bebendo e falando, cantando ao compasso da msica de minha cadeia. Fizemo-nos
confidncias de solteiras, embora tivemos bom cuidado em no express-lo assim. Em realidade, fingamos fazer justamente o contrrio -que nada ia trocar, que meu
matrimnio com o Curtis era uma pura formalidade, posto que j fazia muito que vivamos juntos-. Lembrana que Emma estava tendida no cho do salo (estvamos
em minha velha casa de D Street do Capitol Hill, uma casa encostada, escura e desmantelada com seis dormitrios repartidos em trs novelo) e eu estava no sof, com
minha camisola mais velha e puda, porque j tinha metido nas malas os melhores para a lua de mel.
     - obvio eu j sabia que Curtis no lhe caa bem -disse ao Eric-. Notei-o nada mais apresent-los dez anos atrs, pouco depois de que Curtis e eu nos mudssemos
a Washington. Mas nunca me havia isso dito.
     -Oportuna -ironizou Eric.
     -Sim.
     A coisa comeou de um modo incuo. Comentvamos o do novo trabalho do Curtis para o congressista, do dinheiro que ganharia e que no demoraramos para nos mudar a
uma casa maior.
     -Sim, isso  estupendo -disse Emma-, mas o que no acabo de entender  que pinta em tudo isto o matrimnio. Refiro a que necessidade tem de te pr a
soga ao pescoo.
     Surpreendeu-me a acritud com que o disse, mas me limitei a responder que no era mais que uma forma de cumprir com um ritual de compromisso pblico, ou seja, a
resposta habitual.
     Estvamos em junho e fazia calor. Emma no levava mais que uma folgada camiseta sem mangas e as calcinhas. tampou-se os joelhos com a camiseta, rodeou-se as pernas
com os braos e comeou a menear sua juba ruiva.
     -Sim, mas por que no te limitar a seguir vivendo com ele como at agora? Que falta fazem os papis? -disse-me.
     Contou-me ento uma piada sobre o Mickey Roonie ou Liz Taylor; sobre os muitos problemas que se teriam economizado de haver-se limitado a follar. Rimo-nos as
dois, mas no foi uma risada franco. Notei que havia clera em seus olhos ao desviar o olhar.
     -Pode que te surpreenda, mas Curtis me faz feliz -disse-lhe um tanto alarmada-. O que passa  que no o conhece a fundo. No sabe como me sinto quando no
est comigo -acrescentei com uma risada forada-. Suponho que no acreditar que isso  mau.
     - obvio que no. Vejo-te com ele e sem ele. Quando ele est apenas falas, Rudy. Ou o olha como se tivesse que pedir permisso para dizer o que for. Mas como
pe-me doente.
     A repulso que refletiu sua voz surpreendeu s duas.
     -Isso  mentira -pinjente muito sria. Estvamos as duas  defensiva. Levantei-me e apaguei a msica.
     Em todos os anos que levvamos de amigas jamais tnhamos utilizado esse tom entre ns. Nem tinha pronunciado palavras to duras. Mentira, uma palavra muito feio
que s se utiliza com os amigos ntimos em plano de brincadeira.
     -Assustaram-lhes -disse Eric.
     -Eu pelo menos sim. Pus-se a tremer. Emma e eu tnhamos tido nossas diferenas, a respeito de coisas que nos crispavam, mas sempre sabamos limar asperezas
com senso de humor. A Emma lhe d bem lhe tirar ferro a um assunto a apie de brincar.  seu estilo e lhe funciona.  das que faria algo para evitar
um enfrentamento. Porque lhe teme  clera, sobre tudo  minha, suponho -pinjente me jogando a rir-. Por estranho que te parea.
     -O dito: estavam as duas assustadas.
     -Sim. Assustadas, furiosas e bbadas.
     Emma tratou de me apaziguar dizendo:
     - porque querem ter filhos? Que lhes casassem por querer ter filhos o entenderia.
     -No -respondi-.  obvio que no. Quero ter filhos, mas no  essa a razo de que v casar me com ele. pode-se saber o que te passa, Emma?
     fez-se um silncio do mais embaraoso. Olhamos em redor, a tudo, salvo a ns.
     -Amo a Curtem -acrescentei-. To difcil  isso de entender? Curtem  bom para mim.
     -No, no o  -disse ela, e se levantou com uma taa do Chardonnay morno em uma mo, um cigarro aceso na outra e um enorme 28 estampado no peito
(dos Redskins).
     Emma no bebe muito e s fuma quando est comigo. De modo que seu aspecto resultava incongruente. E muito bonito. No h outra palavra para express-lo. Morria
de vontades porque dissesse um pouco divertido para atalhar a conversao e voltar para nosso tom habitual.
     -No sei como conseguiu te fazer acreditar que  bom para ti -disse-. Acaso no te d conta de que s  uma mscara?
     -Uma mscara?
     - que... Rudy, voc  muito mais forte do que ele deixa que cria. Teria abandonado a carreira de no ser por Curtem? No. E agora teria um verdadeiro
trabalho, uma verdadeira profisso.
     -V! Ou seja que agora resulta que tampouco voc gosta de meu trabalho. Maravilhoso!
     Doeu-me muito. Eu trabalhava por ento em uma boutique do Georgetown vendendo complementos e bijuteria de desenho. Mas eu gostava e o fazia bastante bem.
Alm disso, em todo caso, no tinha sido culpa de Curtem. Transladamos a Washington depois de que Curtis terminasse direito e, enfim, eu no acabei histria.
     -E por que demnios tem que ser Curtis culpado de que agora tenha um modesto emprego? O que crie, que me obrigou a deixar os estudos?
     -Sim, isso  exatamente o que acredito. Embora sem que te desse conta.
     -V! Parece adivinha.
     -Olhe, Rudy,  um manipulador. Gosta de dirigir s pessoas. No sei como no te d conta. Faz-te acreditar que  tola, o muito imbecil.  como aquele psicopata
sulino que interpretava Bruce Dern.
     Arrojei-lhe um compact  cabea. Deu-lhe no pescoo e lhe fez um pequeno corte, pequeno mas que lhe sangrou. ficou branca como a cera. Fulminamo-nos com
o olhar, aterradas, desejando que a outra se desculpasse primeiro. Se no tivssemos estado bebendo das cinco da tarde estou segura de que teramos encontrado
uma sada, uma honrosa retirada. Mas estvamos bbadas, e as duas fartas de falar a respeito do Curtis.
     Eric me olhava como se eu tivesse duas cabeas.
     -Isso fez? lhe atirar um compact?
     -Inconcebvel, verdade? -pinjente, embora no sentia saudades que sentisse saudades porque sou notoriamente pacfica.
     -E como terminou a coisa?
     -Disse-lhe que se era isso o que opinava do Curtis o melhor que podia fazer era no assistir  bodas.
     Eric tem uns enormes olhos castanhos, como os de um personagem de um quadro do Velzquez. Quando os abre atrs de seus culos de arreios metlica, compreendo que
hei dito algo que o assombra.
     -E ela me disse "Est bem. Se isso for o que quer". E eu disse "Acredito que isso  o que quer voc". E assim estivemos um bom momento, enjoando a perdiz. Essa
 outra das virtudes da Emma. Sair-se pela tangente. Quem no a conhece a fundo acreditam que  franco e aberta, mas no o .  uma das pessoas mais
reservadas que conheo.
     -E assistiu  bodas?
     - obvio. Mas no porque o esclarecssemos. No esclarecemos nada.
     -E passou a noite em sua casa?
     -Sim, porque optamos por deix-lo correr. Acovardamo-nos. Eu comecei a levar pratos e taas  cozinha e ao voltar a vi de p junto a sua mala, embutindo-se
em umas calas jeans. Eu tremia de raiva e andava enrijecida como uma boneca. "Vai?" Respondeu-me que sim sem me olhar, mas notei que estava chorando.
E isso me pde. Porque Emma nunca chora. De modo que pus-se a chorar eu tambm, disse-lhe que sim que queria que fosse a minhas bodas e ela me disse que iria, e assim acabou
a coisa. Mas no chegamos a nos esclarecer e nenhuma das duas nos desculpamos at a data. Fomos  cama e dormimos ou, em meu caso, mais exatamente
perdi o conhecimento. Tomei um sonfero e me deitei, s por me tirar de no meio. As bodas foi horrvel. Levantei-me com uma enxaqueca que me durou trs dias. Por
em cima do pescoo de seu vestido de dama de honra lhe vi o corte que lhe tinha feito, e cada vez que o via me sumia no negro poo da depresso. L e Isabel
eram as outras damas de honra. No demoraram mais de trinta segundos em notar que algo tinha passado entre ns. Emma e eu estivemos trs meses muito zangadas.
     -Mas fizeram as pazes.
     -Sim. Oxal te tivesse conhecido ento -pinjente.
     -Como se produziu exatamente a reconciliao? -perguntou Eric sorridente.
     -Isso no lhe posso contar isso Forma parte da histria da Emma, no da minha. produziu-se devido a outra calamidade com um homem, mas  tudo o que posso dizer.
Embora neste caso foi um homem relacionado com ela, no comigo.
     Eric no podia deixar de menear a cabea.
     -Como se sentiu quando Emma te disse que Curtis era um manipulador e um...? Que mais te disse que era?
     -Chamou-o psicopata. Como crie que me senti? Foi uma punhalada. So as duas pessoas deste mundo s que mais quero e no posso suportar que se odeiem. Embora
ele no a odeia e isso ainda me faz isso mais custa acima. Nunca h dito uma palavra contra ela.
     -De verdade crie que ao Curtis cai bem Emma?
     -O nico bom de minhas bodas -pinjente ignorando a pergunta- foi que ao fim conhecemos noivo de L. Embora ainda no era seu noivo. Henry o Encanador o chamvamos.
Ardamos em desejos de conhec-lo, porque j sabe como  L, a original princesa judia americana, que estava penetrada... mais que penetrada, perdoa a expresso, estava
encoada com aquele tipo. Mas terminamos apaixonadas por ele igual a ela, e nove meses depois se casaram.
     E assim terminou minha sesso de cinqenta minutos com o Eric.
Captulo 7
Emma
     Como se sentem quando olham um quadro abstrato e no lhes diz absolutamente nada, fica a mente em branco e nem sequer lhes ocorre uma brincadeira ou
uma ocorrncia sobre o quadro, se o esto vendo com um amigo e tudo o que lhes passa pela cabea : olhe, um dos dois est louco, OH, ilustre pintor, e
posto que lhe organizaram a exposio em uma galeria de presuno e toda essa gente se embevece contemplando o que tem feito, e diz coisas inteligentes a respeito de
sua obra, deve ser para mim a quem vai a panela? O que fazer ento?
     O que eu fao  me largar o antes possvel procurando no abrir a boca, alm de tratar de beber o mais possvel do vinho branco de brech que serviram,
se se tratar de uma inaugurao, para no esbanjar do todo a noite, alm de que sempre me ocorre algo mais que dizer sobre a obra do pintor se estiver ligeiramente
colocada.
     Mas estas solues no servem se algum est no estudo do pintor, a ss com ele e com sua obra. E ponhamos que sua obra te deixa confusa, sem saber se for
uma maravilha ou uma porcaria, porque no entende de pintura. E suponhamos que est escrevendo um artigo srio e bem pago sobre o artista para o importante
peridico que lhe publica isso e que, alm disso, sente uma luxuriosa atrao pelo corpo do pintor, uma paixo absurda por sua personalidade. Em cima, est casado.
O que ocorre ento?
     Porque est jodida.
     -E bem, Mick. me conte como foi o trnsito do direito para as belas artes. O passo do Constitution Avenue  rua Sete -pinjente. quanto antes pense
uma no titular, melhor-. Os burgueses ao Bauhaus. Os inquietos ao Pomo.
     -Pois...
     -E de passagem, o que  exatamente o posmodernismo?
     Quando estou nervosa sou insuportvel. Vejo vir que perco os estribos, mas no posso evit-lo, no posso me calar e quanto mais importante  a ocasio para
mim, mais impertinente me ponho. E a verdade, aquele dia me superei.
     Estvamos de p no centro de seu glido e lotado estudo, mais pequeno do que eu supunha, porque o compartilha com outros dois. O fotgrafo do peridico,
Richard, acabava de partir depois de tirar um par de centenares de fotos, desde todos os ngulos imaginveis e alguns inimaginveis, do Mick lubrificando pintura
amarela em um tecido com um palustre (uma paleta de pedreiro). Ento pude olh-lo bem de ps a cabea, porque no tinha que falar, s olhar. Menti antes ao
dizer que tenho duas debilidades. Tenho trs, embora eu no gosto de reconhecer a terceira.  a beleza fsica. J sei que isso  superficial, e detesto que seja assim.
s vezes saio com homens pouco atrativos a propsito para que ningum possa me acusar de superficialidade. Mas a verdade  que, em igualdade de condies no resto,
prefiro-os bonitos.
     Ao me contempl-lo disse que o atrativo do Mick radica tanto na forma de mover-se como em seu tipazo, na expresso de sua cara -senso de humor e acanhamento,
concentrao arrebatada e impacincia-. Levava umas calas negras folgadas, jaqueta de l, uma camisa azul de mecnico e gravata vermelha. E eu levava jeans
e camiseta. Pensei que resultava divertido que ele se vestiu tanto e eu mas bem me tivesse despido, como se nos tivssemos vestido para o outro ao escolher
a roupa pela manh.
     Devo dizer em sua honra que nem sequer tentou responder a minhas estpidas perguntas.
     -Sinta-se? -disse. Logo, com um pringoso trapo que tinha em sua mesa de trabalho digamos que limpou de salpicaduras de gesso a nica cadeira do estudo.
     -No, obrigado -pinjente olhando a cadeira com cara inexpressiva.
     Tem um sorriso turbadora. Entorna os olhos e amostra umas pestanas mais largas que as minhas, franzido os lbios e imagina que pensa que te burla dele.
     -J sei que no  o melhor stio para falar -balbuciou-. Prefere que saiamos a tomar um caf?
     Ah, estupendo! Podamos voltar a ir ao Murray's, a aquela tasca onde lhe servem sujeira e lhe congelam com o ar condicionado, onde todos os clientes tm
aspecto cadavrico e o caf sabe a anticongelante.
     Sentaramo-nos em um reservado cara a cara, em uma desmantelada mesa com biombo, junto a uma janela to pringosa que parecia translcida, como fizemos a
semana passada, e ali conversaramos sem parar.
     -Sim, de acordo -balbuciei a minha vez- Se quiser...
     Durante o caminho, embutidos nos casacos para nos proteger do aguanieve de novembro, fez-me a pergunta bsica, ou pelo menos isso acredito. Voltei-o a imaginar
muito tmido ou muito introvertido, devido  maneira em que se afastou uns passos de mim e aparecia  esquina da rua G enquanto me explicava o que devia
ser um dos acontecimentos mais significativos de sua vida. Eu apenas o ouvia. E ele tinha eleito o momento menos ntimo para abordar o tema -ali em metade do
trfico- como se queria deslizar sua resposta sem que ningum o notasse.
     -aconteceu com a pintura quando acreditei que podia faz-lo -disse-me ou isso pensei que me disse, porque voltava a balbuciar-. Suponho que brincava sobre o do posmodernismo.
     -Pois no, no brincava.
     - que..., em certo modo, redimiu  representao, fez que a representao volte a ser respeitvel, poderamos dizer. H devolvido  pintura o conceito
de significado, algo que no ficava muito claro durante o modernismo (refiro-me ao modernismo em sentido amplo, no ao art nouveau); ou lhe chame abstrao,
se o preferir.
     Tirou-me do brao no cruzamento e passamos ao outro lado.
     -A ver, a ver, como  isso? -disse em um alarde de brilhantismo.
     esclareceu-se garganta.
     -A abstrao nunca me seduziu; no a sentia nem a entendia. Olhava-a e sabia que no poderia faz-lo e acredito que era o bastante orgulhoso ou estpido para
pensar que isso significava que no podia ser pintor. Estpido, bastante estpido, durante anos.
     Mick balbuciou algo mais que no entendi. fui fazer lhe outra pergunta mas nesse instante me abria a porta do local e entrei.
     No Murray's a barra est  direita, os tamboretes so de skai gretado, e  esquerda h uma fileira de reservados com biombos e banquetas com a tapearia
feita p. Na semana anterior nos sentamos na barra, mas aquele dia optamos por uma mesa. A decorao..., enfim, parece a de uma cafeteria de terminal de
nibus do Trenton. Nas paredes tm espelhos empanados, com gravadas cor spia, e te sobressalta verte porque a doentia luz dos fluorescentes te d
um aspecto to horrvel como o da pessoa com a que falas. A graxa dos espelhos atua como um filtro e te d um ar espectral. A temperatura ronda os
25 C. E essa  a razo de que venham aqui os pintores que tm guas-furtadas ou estudos nas imediaes. Segundo Mick vm para esquentar-se.
     -Caf? -perguntou-me.
     Assenti com a cabea e ele foi pedir as consumaes na barra, porque no Murray's no lhe servem na mesa.
     -De modo que te fez pintor porque o ambiente do posmodernismo pictrico te fez sentir livre para ser pintor -pinjente quando retornou, preparada com caneta
e bloco de papel para anotar suas respostas.
     -No, isso soa ridculo. No escreva isso.
     me pareceu que soava bem.
     -por que? trata-se de um artigo sobre pessoas que abandonam empregos que no lhes satisfazem por um sonho que acreditam que os satisfar.
     J o tinha explicado antes mas me pareceu conveniente repeti-lo.
     -O que eu procuro so agentes de seguros que optam por ser guarda-florestal, dentistas que querem escrever novelas de mistrio. Washington  perfeita para isto.
s pessoas adora ler que um funcionrio o deixa tudo para ser jquei, cmico, criador de ces ou promotor de algo.
     -Sei. Tenho claro o que buscas.
     -Bem. Exponhamos-nos o deste modo: por que voc no gostava do direito? por que o deixou?
     Sorriu-me com um malicioso brilho nos olhos.
     -Estou impressionado -disse.
     -Ah sim?
     -Porque te puseste muito sria ao pergunt-lo.
     Pomos-se a rir. No sei por que, mas me senti flutuar, exultante. Possivelmente porque me olhava com admirao, como se me analisasse e gostasse do que via. Mas
no dava a impresso de querer me ligar, s de que gostava. Durante um minuto seguimos sentados em silncio, removendo o acar do caf e tirando guardanapos
de papel do servilletero de lata.
     -Bom, voltemos para o do posmodernismo -disse ao olhar meu bloco de papel e pensar que estava ali para lhe fazer uma entrevista-. De modo que voc...
     -Olhe, Emma, esquece-o. Direi-te a verdade -disse-me com expresso entristecida.
     -De acordo -pinjente-. Mas isto no  um interrogatrio policial. No tem por que me dizer nada que possa ferir ningum.
     Expressei-me como uma dessas jornalistas consagradas ao jornalismo de investigao. Mick me tinha pedido no gravar a conversao, embora eu estou acostumado a resistir
um pouco aduzindo que assim nos asseguramos de que no se deslize nada que possa ferir algum, e que  melhor assim por meu prprio bem e pelo seu. Mas quando Mick
pediu-me que no o gravasse acessei sem mais.
     Apoiou os antebraos na mesa, inclinou-se para frente, passando o dedo pelo bordo da taa manchada de caf.
     -Em realidade no se trata de um segredo -disse me olhando aos olhos.
     Eu lhe sustentei o olhar sem piscar, tratando de refletir profesionalidad. Mas me sentia como uma lebre deslumbrada pelos faris de um carro. Era bvio
que me estava medindo, tratando de entrever se podia confiar em mim. Guardei silncio. O que podia dizer? Embora a frase que pugnava por sair de meus lbios era:
OH, Mick, se soubesse...!
     recostou-se no respaldo e inclinou o corpo para recostar-se tambm parcialmente na parede, e apoiou um p na puda banqueta. afrouxou-se a gravata.
     -Draco  um sobrenome grego -disse-me em um tom desenvolto.
     Tomei nota embora sem idia de aonde queria ir parar.
     -Meu pai  Philip Draco. Soa-te?
     -No.
     -Percy, Wells, Draco & Dunn.  uma escrivaninha bastante conhecida com delegaes na maioria das cidades grandes. Mas meu sobrenome no  Draco.
     -Ah no?
     -No  meu verdadeiro sobrenome, o de nascimento. Sou adotado. No conheci meus verdadeiros pais.
     -OH.
     -Fui filho nico e cresci sabendo o que estava destinado a ser: advogado como meu pai, que  um bom homem -acrescentou-, extraordinrio em muitos aspectos, e
um grande advogado, provavelmente um dos cinqenta melhores do pas.
     -Criou-te em Washington?
     -No; em Chicago.
     -Quantos anos tinha quando descobriu que foi adotado?
     -Sempre soube.
     -Inclusive de pequeno?
     -No recordo no hav-lo sabido. -Titubeou um pouco, brincou com o mantelito de papel, que inclua um mapa das principais atraes infantis que oferecia
Washington, e logo prosseguiu-: No fizeram que me sentisse como se estivesse a prova. Meus pais se comportaram maravilhosamente. Em todo caso fui eu quem se sentiu
assim. Porque...
     Apurou o caf e olhou o nome do fabricante da taa gravado no fundo.
     -Porque no queria que lamentassem te haver eleito, no?
     -Exato.
     A surpresa e a gratido eram to eloqentes em sua expresso que me estremeci. Coloquei as taas na bandejita, levantei-me e fui  barra por mais caf.
Teramos que deixar o pessoal a um lado, pensei.
     Mas ao voltar para a mesa, me sentar, remover o acar, beber um sorvo e me comportar com normalidade notei que me olhava de outra maneira. Ao fazer ou dizer algo,
inadvertidamente ou no, que faz que nosso interlocutor passe a outro nvel de relao, a outra maneira de nos ver, estamos acostumados a not-lo. s vezes  positivo e s vezes uma
desejaria ter sido mais circunspeta. No sabia em que caso estava, mas uma coisa tive clara: j no se tratava de que Mick me interessasse mas sim de que tambm eu o
interessava a ele.
     Agarrei de novo o bloco de papel e ele prosseguiu.
     -Faz quatro anos, depois de muito pens-lo, decidi-me a averiguar quem era minha verdadeira me. Fazia j sete anos que exercia o direito, embora eu no gostava.
 mais, detestava-o -disse-me me olhando risonho-. Estava casado e tinha um filho de quase dois anos. Minha esposa, Sally, deixou seu emprego ao nascer Jay para poder dedicar-se
a ele por completo.
     -No que trabalhava ela? -disse em plano profissional, como se fosse um dado imprescindvel para o artigo.
     -Trabalhava de estagirio. Assim nos conhecemos.
     -E averiguou o de sua me? -disse detrs tomar nota.
     -Sim. Mas antes devo te contar algo a respeito de mim. Eu sempre pintei, desenhado, esculpido e inclusive feito maquetes de arquitetura, tambm collages. Sempre
fiz algo criativo. Desde menino.
     -Ou seja que sempre foste artista, no?
     -Mais ou menos, embora eu no o chamasse assim. Nunca me tinha passado pela cabea. No havia artistas na famlia, nem remotamente. O mais aproximado  um primo
segundo aficionado  fotografia.
     -Mas localizou a sua me? Quem era?
     -Sim, localizei-a -respondeu sorridente-. Quando me deu em adoo estudava segundo curso no Instituto de Belas artes de Chicago.
     -OH, Mick,  assombroso!
     -J me parecia que te ia interessar.  uma boa histria para o artigo, verdade?
     -Brinca?
     o de meu agente imobilirio convertido em msico ambulante e o do mensageiro do UPS convertido em pregador parecia uma tolice em comparao ao do Mick.
     - incrvel! -exclamei-. Mida histria! E a v agora? O que faz? Segue...?
     -No a vi nunca.
     -Ah no?
     -Escrevi-lhe uma carta e sei que a recebeu, mas no me respondeu. De modo que tive que deix-lo correr. E no tentei v-la.
     Franzido os lbios de maneira que parece que esboce um sorriso quando algo o causar pena. Provoca ternura e compaixo. Mas eu no o compadeci mas sim me condol.
     -O caso  que averiguar quem era minha me foi como uma exploso -disse tocando-as tmporas com os dedos-. E quando a fumaa se dissipou todas as peas
encaixaram e compreendi o que devia fazer. Pela primeira vez me entendi mesmo.
     -Isso  estupendo -pinjente sentindo certa inveja-. Como o homossexual que decide sair do armrio, no?
     -Exato. Embora no foi da noite para o dia. A fumaa demorou quase um ano em dissipar-se.
     -Suponho que isso se deveu a seu lado de jurista. Refiro-me a ser precavido.
     -Em parte sim.
     No se estendeu sobre o tema e comecei a pensar como podia lhe formular uma pergunta a respeito de sua esposa, a respeito de como o tinha encaixado ela. Mas no me decidi.
Na mesma situao sim a teria feito a outra pessoa. Mas naquelas circunstncias minhas motivaes eram impuras.
     Em troca lhe perguntei a respeito dos primeiros tempos detrs abandonar o direito, e se lhe tinha resultado difcil deixar a profisso. Respondeu-me que sentiu pnico.
     -Meus ganhos se reduziram em noventa por cento -disse-me me observando enquanto eu tomava nota-. Agora levo trs anos me dedicando s a pintar e vendi
dois quadros, ambos a amigos. Pode que nunca consiga viver da pintura.
     Mas no acreditava assim em realidade, porque o disse com tom absolutamente despreocupado, e no dava a impresso de ser da classe de pessoas capazes de viver
a costa de outros indefinidamente.
     Uma alma geme-a.
     Mas ele tinha aberto a porta e eu tinha a obrigao de entrar.
     -Sua esposa...
     -Sally.
     -Parece-lhe bem tudo isto? -pinjente anotando o nome-. Est...?
     -levou-se maravilhosamente. De verdade -disse assentindo com a cabea de uma vez que eu transcrevia suas palavras: "levou-se maravilhosamente."
     Olhei-o espectador. Resulta assombroso comprovar o muito que lhe pode surrupiar a uma pessoa sem dizer uma palavra, limitando-se a aguardar em silncio. Mick
esfregou-se a bochecha descrevendo um crculo (necessitava um barbeado).
     -Jay vai  creche. Parece-me que j sabe porque conhece l Patterson. Sally teve que voltar a ficar a trabalhar.  ajudante administrativa em
o Departamento de Trabalho.
     -Estraguem.
     -No teve mais remdio. Do contrrio nos tivssemos morrido de fome. E tivemos que mudar a Columbia Heights.
     -Onde viviam antes?
     -Na rua Q, no Dupont Circle, perto do parque.
     -J.
     -Estamos restaurando uma velha casa encostada.
     -Conheo isso.
     -Ah sim?
     -Bom, no exatamente. Mas comprei uma dessas casas no centro da cidade, e a fiz restaurar.
     -J -disse ele sorridente, embora acredite que o que fez foi me imitar em tom zombador-. Bom, isso  distinto.
     -Suponho.
     A mudana de direo equivalia a ter perdida fila social e isso parecia preocup-lo. O que no estava claro era se o sentia por ele ou pela Sally, e no me
aventurei a perguntar-lhe Embora tampouco era meu assunto.
     -E, bom, como chamaria o tipo de pintura que faz? -perguntei-lhe elevando a vista.
     Apoiou o queixo no joelho e franziu o cenho.
     -Como o chamaria voc?
     Me escapou uma risita nervosa. Mas sua pergunta estava isenta de hostilidade e agressividade. Simplesmente parecia sentir curiosidade.
     -Olhe, Mick, serei-te franco: no entendo nem meio de pintura. De verdade. Sou uma ignorante absoluta na matria, de modo que se quiser que este artigo
resulte convincente e autntico, deveria me falar de um modo mais concreto. Em realidade, teria que me explicar isso como a uma menina. Ou pelo menos me explicar isso muito
devagarzinho.
     ps-se a rir. OH, Deus, como eu adorava faz-lo rir!
     E ao fim me explicou isso, com todo detalhe. A essncia da questo estava em que ainda no tinha encontrado seu prprio estilo, nem tampouco seus temas prediletos, mas
trabalhava dentro de uma representao formalista porque precisava exercitar-se, e porque a abstrao era para ele um beco sem sada. Opinava que o posmodernismo
no era uma verdadeira poca a no ser os ltimos estertores do modernismo antes do princpio da seguinte fase. No quis aventurar-se a dizer como podia ser essa fase
mas, ao pression-lo eu um pouco, disse que acreditava que podia caracterizar-se por um ressurgimento da representao em seu mais alto grau de excelncia tcnica, da
que a arte coetneo era incapaz e da que, portanto, tinha renegado cinicamente.
     Perguntei a que pintores admirava e me disse que ao Rembrandt, Fatin-Latour, Arshile Gorky, Alice Neel e Eric Fischl. E aos quais detestava? me prometeu dizer isso no disponer del tiempo ni del dinero para estudiar bellas artes, porque se hallaba en un momento en que su falta de formacin acadmica constitua un obstculo cada
mas s confidencialmente, e citou cinco nomes, todos eles homens, desconhecidos para mim. via-se deslizar-se progressivamente para o retrato, disse-me. Em realidade,
ultimamente aparecia em suas pinturas e esboos um personagem recorrente, um jovem, acaso um adolescente, a quem chamava "Joe" e que pensava que possivelmente fosse ele mesmo.
A cor era seu forte e o desenho o que menos dominava. Assistia a duas classes de desenho distintas, quatro dias  semana, e acreditava estar progredindo um pouco. Lamentava
no dispor do tempo nem do dinheiro para estudar belas artes, porque se achava em um momento em que sua falta de formao acadmica constitua um obstculo cada
vez maior.
     Anotei-o quase tudo, mas quando mais me falava mais perdia eu a concentrao. Era formoso v-lo to apaixonado pela pintura. Era quase uma obsesso, e eu
desejo muito pelos homens que adoram seu trabalho. v-los to resolvidos me resulta incrivelmente sexy e desejvel. Sobre tudo porque assim no tm que apoiar-se em mim para
dar sentido a suas vidas.
     J no soube que mais lhe perguntar. Olhei o relgio.
     -Comamos algo, comeo a ter tremores -disse Mick, alargou a mo e, em efeito, tremiam-lhe os dedos-. O caf me faz um efeito incrvel. No estou acostumado
a beber duas taas seguidas com o estmago vazio -acrescentou, e foi ao lavabo.
     Pedimos hambrgueres, batatas fritas e batidos de leite, a classe de comida que ambos jurvamos no comer nunca. Mas no deixamos nem os miolos. Enquanto comamos
foi ele quem comeou a me fazer perguntas. Ao princpio quase no me dava conta. Mas quando me disse "Sempre quiseste trabalhar para os peridicos?  Ou descobriu
um dia quem era sua verdadeira me e quis ser como ela?", compreendi que investia os trminos e se dispunha a me entrevistar.
     Senti-me adulada. A maioria das pessoas que conheo no se interessam pela vida interior de outros. mostram-se amveis, educadas, perguntam-lhe o que
tal est e, assim que comea a dizer-lhe desconectam. Deixam vagar o olhar, ficam em linha de espera e o que aguardam  que tome uma pausa antes de
te dizer que suas vidas so muito mais interessantes que a tua. No queria parecer cnica, mas acontece continuamente.
     A exceo,  obvio, so aqueles homens que querem deitar-se contigo. E quanto melhor lhes d a ttica com maior ateno lhe escutam; quanto mais
desejam-lhe, mais interessados se mostram em seu bate-papo. O curioso  que este manido mtodo funciona, pelo menos comigo. Deveria estar ao cabo da rua destas
coisas, mas no. Sempre pico.
     De modo que voltei a olhar com sentimentos encontrados aos inteligentes olhos castanhos do Mick Draco, que agora me olhavam com maior insistncia e mais espectadores,
pensando no que a seguir me perguntou. Trata de me seduzir?, disse-lhe telepticamente. Espero que sim.
     No, no, detesto-o.
     -Mary McCarthy.
     -A escritora? -exclamou arqueando as sobrancelhas.
     -Sim, ou ris Murdoch. Katherine Anne Porter. Embora no, no realmente. Perguntava-me quem tinha idade para ser minha me faz quarenta anos. Trinta e nove.
     Mierda! Acabava de lhe dizer minha idade. E ele era mais jovem! S um ano, mas mais jovem.
     -Ou seja que voc gostaria de escrever novelas, no?
     Isso me desconcertou. No o fato de lhe revelar minha idade a no ser meu sonho secreto. Em realidade no era to secreto, porque as Obrigado o conhecem, embora Rudy  a
nica que sabe at que ponto o desejo. Tambm sabe minha me; e um par de ex-noivos, porque fui o bastante estpida para confiar-lhe Mas passa por ser um
secreto. por que? Porque detesto fracassar. E porque a jornalista que aspira a escrever a grande novela americana  um esteretipo estpido e humilhante, e no me
gosta que me atribuam isso.
     Mas estava falando com um homem que tinha abandonado o direito para dedicar-se  pintura. E se algum podia entender meu sonho, sem dvida seria Mick. De
modo que no tratei de me sair pela tangente tomando-o a brincadeira mas sim o olhei aos olhos.
     -Sim,  o que eu gostaria. Algum dia.  o que mais eu gostaria de fazer. Mas... d-me medo.
     -Claro -disse como se fosse o mais natural do mundo-. Assusta.
     -me aterra -disse sem faltar  verdade.
     -E o que vais fazer?
     -Tenho escrito alguns relatos curtos que so uma porcaria. No interessam a ningum -pinjente de novo  defensiva, com os braos dentro de minha armadura-. E estou
tentando-o com um relato mais largo, mas no  bom. De verdade. No  falsa modstia.
     -Tem-no lido algum?
     -Brinca? -pinjente me jogando a rir-. Por sorte tenho um sentido do ridculo muito desenvolvido. Evita-me muitos problemas.
     Mick me sorriu e logo desviou o olhar. Fiquei fria ao notar que estava um pouco violento. Por mim. Porque o que acabava de lhe dizer era muito transparente.
     -Pergunto-me o que  mais pessoal uma pintura ou um poema -disse-. Perguntou-me o que  mais revelador.
     - fcil. Um poema.
     -por que?
     -Porque  mais fcil esconder-se detrs de uma pintura.
     -Ah sim? por que?
     Sorri, tratando de ganhar o de novo a base de ingenuidade.
     -Porque as pinturas no as entendo.
     -Eu no entendo os poemas.
     Pus-se a rir, mas ele no.
     -De acordo -pinjente-. Entendo seu ponto de vista.
     -Que ponto de vista?
     -Voc  mais valente.  um heri. Eu sou muito galinha. Olhe, no vou discutir contigo. Acredito que tem razo. Assim no h disputa.
     -No se trata disso. No  isso o que pretendia dizer...
     -Bom, estou equivocada. Esquece-o, d igual. Nem sequer sei do que falamos.
     Suspirou exasperado.
     -Estou seguro de no ser mais valente que voc, Emma.
     -Porque no me conhece.
     -Certo, mas noto que no tem nada de galinha.
     -Ah sim? -exclamei, me reprovando que minha atitude no podia ser mais pueril e imatura. Resultava pattica de puro precria-. No que te apia?
     No chegou a me responder. A ensurdecedora sereia de um carro patrulha e logo depois de uma ambulncia, depois de outro carro patrulha fez impossvel a conversao.
Mick se encolheu de ombros e sorriu. Inclinou o corpo para ver os carros policiais atravs da gordurenta janela.
     -OH, Deus! -exclamou-. So trs e cinquenta!
     Olhei o relgio de parede que havia junto  entrada.
     -E?
     Comeou a rebuscar a carteira pelos bolsos. Parecia atnito.
     -Tenho que ir recolher ao Jay. Sinto muito. No tinha nem idia de que fosse to tarde. Tenho que chegar ao Judiciary Square em dez minutos. No sei como pde me acontecer
o tempo to depressa. Crie que terminamos a entrevista?
     -Sim, suponho que sim -pinjente embora era incapaz de pensar. Tinha a mente em branco.
     -me deixe que eu pague -acrescentou.
     -No. Vai a conta de gastos do peridico.
     -De acordo. Sinto ter que partir j...
     -No importa. Se for em metro chegar em seguida. No h mais que uma estao.
     -Parece-me que vou a p, correndo.
     levantou-se, arqueou as sobrancelhas e se alisou o cabelo para trs.
     -Bom, se precisa me fazer mais pergunta, j sabe como te pr em contato comigo.
     -Toma meu carto. Pode me chamar se te ocorre algo mais para ampliar ou matizar.
     -Acredito que ser um artigo magnfico.
     -Obrigado por uma entrevista to estupenda.
     -foi um prazer -disse dirigindo de novo um olhar para o relgio.
     -Para mim tambm.
     -Boa sorte.
     -Obrigado. Estarei pendente de seu artigo no Art World.
     -Vale.
     Ao fim tive que deixar de sorrir. A expresso do Mick passou de inquieta a angustiada. Por uns segundos foi como se estivssemos ambos os nus. fui dizer
algo mas no me saram as palavras. A ele tampouco. acabou-se, terminado. Ol e adeus. Se nos estreitvamos a mo....
     Mas no. limitou-se a dizer meu nome e inclinou ligeiramente a cabea. Franziu os lbios com esse esboada sorriso que indica que algo no gosta. E logo se
afastou de minha vida sem me tocar.
     To melhor. Pelos cabelos. Possivelmente no tivesse podido me soltar jamais.
     Voltei para casa em nibus. Tenho carro mas eu gosto de viajar de nibus e em metro, porque assim tenho tempo para pensar. Se estiver de bom humor, eu gosto de contemplar
aos passageiros e especular a respeito de suas vidas, medi-los de acordo  estreita e imperdovel escala que utilizo para determinar a normalidade de uma pessoa.
Se estiver de mau humor me agrado em ensimismarme e olhar abstrada pelo guich do 42 ou do vago do metro da linha vermelha, fazendo de todo edifcio,
viandante ou cabine Telefnica uma metfora da corrupo, a deteriorao e o problema urbano. Isso me levanta o nimo.
     Mas hoje estava mais  frente do bom e do mau humor. Estava exasperada. No me entendia nem eu. Sou meu melhor amiga, tenho-me confiana, mantenho uma constante conversao
comigo mesma -e em voz alta se estiver sozinha- e  muito importante para mim me conhecer.  vital. Do contrrio seria o caos.
     por que me sentia to desolada? OH, por favor. A palavra desolada me ofende, porque  melodramtica. Tinha estado bebendo caf toda a tarde com um homem
e conversando. Tinha sido uma agradvel conversao e se produziram momentos de honestidade que me tinham entusiasmado, pequenas exploses de ingenuidade que
no se produzem muito freqentemente entre eu e outros, salvo com o Rudy, e raramente entre eu e os homens com os que sa ao longo dos passados cinco anos.
Sobre tudo estando sbria.
     A verdade  que no era to surpreendente. Se Mick chegar a me deixar gravar a entrevista, poderia ouvi-la e estou segura de que me arranharia a cabea e pensaria
onde est o extraordinrio? Aparentemente nada tinha acontecido. por que estava to afetada ento? Estava doda, machucada por dentro como se tivesse sofrido
um acidente.
     No devia tirar as coisas de gonzo. Tinha visto algo que desejava e no o tinha conseguido. Isso era tudo. Chamam-no perda, e a reao corrente  o pesar.
De modo que sou normal. E quanto pode durar? No muito, sou Emma DeWitt, no Emma Bovary.
     s quatro da tarde minha casa estava escura como se fora de noite. Acendi luzes e a calefao pensando que possivelmente devesse comprar um gato, ou um pssaro,
algo que fizesse muito rudo quando chegasse a casa. Preparei-me ch (ou seja, mais cafena como chamam alguns, no sei por que, a tena) e lhe joguei uma olhada a meu tedioso
correio. Logo contemplei a chuva deslizar-se pela janela da cozinha formando compridos e montonos sulcos.
     Soou o telefone e o corao me deu um tombo.
     -Sim?
     -Sondra?
     -Quem?
     -Ah, perdoe, equivoquei-me.
     Clique.
     O mesmo digo.
     Foi um percalo insignificante mas revelador. Tremiam-me os joelhos. Com os cotovelos no suporte, apoiei a cabea nas mos e estive me compadecendo
durante mais de um minuto.
     Mick no ia chamar me. E, no fundo, no queria que me chamasse. No ia utilizar o recurso de pretextar ter esquecido uma pergunta e cham-lo eu. No fomos
to torpes.
     Tudo o que conclui produz certo alvio, embora seja triste. dio a ambigidade. Sou partidria de tudo ou nada. Posso aceitar uma negativa se for inequvoca,
diluda na esperana ou em um "sim, mas sempre e quando...".
     Decidi me dar um banho. Sou das de ducha, mas reconforta escaldar-se na banheira quando uma est triste. Um banho ou um tigela de leite bem quente com flocos
de aveia so os melhores remdios que conheo quando se est deprimida. Bom, possivelmente no, mas ambos so muito ses. Levaria-me o telefone ao quarto de banho e chamaria
ao Rudy. Curtem ainda no teria chegado a casa e poderamos falar.
     Vamos, em meu estudo, a secretria eletrnica tinha uma mensagem.
     "Ol, Emma, sou L.  segunda-feira e aproximadamente as duas e meia da tarde. Chamo-te para saber se for dever jantar na sexta-feira."
     Estupendo! Assim me distrairia. Alm disso, fazia sculos que no via o Henry, que me levanta o nimo.
     "Segue vendo o tal Brad, o engenheiro?"
     Infelizmente sim.
     "Digo-o porque pode vir com ele, ou com quem quer. Ou sozinha, se o preferir. D igual. S que estaramos desemparelhados. Bom. Espero no lhe haver isso dito
com muito pouca antecipao e que possa vir."
     Adula-me a equivocada idia de minha vida social que tem L.
     "Ser algo informal. Todos trazem algo e o juntamos. De modo que pode te pr algo."
     Ou seja que eu me apresentaria com meias-calas e um pulver e ela ficaria um vestido de coquetel de duzentos dlares. Ainda os seguem chamando vestidos de coquetel?
     "Acredito que alm da ti s vou convidar aos Draco. Ontem me topei com a Sally e ento recordei que j conhece o Mick. E pensei que seria divertido reunimos.
Sally voc gostar.  simptica. eu adoro."
     Por Deus bendito!
     "Bom, me chame em seguida que possa. Estarei em casa toda a tarde. Ou amanh. me deixe a mensagem se estiver fora toda a noite de farra. Jaj. Ciao."
     Como hei dito, dio a ambigidade. Me faz muito custa acima assimilar a alegria e a desolao ao mesmo tempo. Baixei  planta porque precisava recorrer
 artilharia. Um tigela de flocos de aveia com leite bem quente para tomar o enquanto me escaldava na banheira.
Captulo 8
L
     Tivesse-o passado melhor durante o jantar se Emma e Mick Draco, o marido da Sally, tivessem simpatizado mais. Acredito que  uma grosseria evidenciar animosidade para
uma pessoa no trato social, porque cria mal ambiente. No  que se encetassem em uma discusso mas sim no se dirigiram a palavra, nem olhar-se sequer. E a
verdade  que isso me parece uma descortesia. Para com todos, certamente, mas sobre tudo para a anfitri. Ou seja eu. Est claro que sua entrevista da segunda-feira passada
no foi bem. Mas eu no tinha nenhuma culpa.
     Tratei de suavizar o ambiente o melhor que pude e uma pessoa pouco observadora possivelmente no tivesse notado nada anormal. Mas, me permitam dizer que isso s poderia
lhes passar inadvertido aos homens. As mulheres so muito mais receptivas pelo que  dinmica das relaes interpersonales se refere.
     depois de jantar servi a sobremesa no salo (mousse de ma com molho ao calvados).
     -Quanto tempo tm casados? -perguntou Sally em plano socivel enquanto tomvamos o caf.
     -Quatro anos -respondi-. E vs?
     -Seis, no? -reps Sally, que olhou a seu marido e este assentiu com a cabea-. No acreditava que fizesse tanto.  Como lhes conheceram ? eu adoro saber como se
conheceram os matrimnios felizes.
     Sally  uma mulher muito socivel e agradeci que tratasse de animar a conversao. Porque, ao igual a eu, devia ter reparado na tenso entre o Mick
e Emma.
     fui responder mas Henry me adiantou.
     -Pois eu voltava para casa no carro ao sair do trabalho pela tarde, e me chamou por telefone minha me, que estava inundada com uma reparao na zona
da Alexandria e queria que fosse em seu lugar a fazer outra reparao.
     -Ou seja que sua me ...
     -Sim,  fontanera, como eu. A empresa se chama Patterson e filho. Pois bem, eu sou o filho.
     -Ah, sim?
     -De modo que me pediu que fosse a Maryland, a casa de uma senhora que tinha um lavabo embuado.
     Sally se ps-se a rir.
     -Que romntico! -exclamou-. E resultou que a senhora de Maryland era L, verdade?
     -Exato. Fui ao Chevvy Chase, bati na porta, a esta porta, Y... a primeira vista.
     -Caray! -exclamou Emma-. Como foi vestida, L?
     -Ora, no me lembro.
     -Pois eu sim -disse Henry sorridente, me olhando com a extremidade do olho de um modo que me trouxe certas lembranas-. Levava um traje alfaiate com gravata-borboleta negro.
Uma indumentria varonil que me fez rir porque ela no podia ser menos masculina. Levava sapatos vermelhos, com salto de agulha, mas no me chegava nem ao queixo. Era
uma macacada. Como um cesto cheio de gatinhos.
     A verdade  que nunca tive sapatos vermelhos com salto de agulha. Tive-os que cor burdeos, isso sim, e do meio salto. Mas nunca o particularizo quando
Henry evoca aquele dia. Crie record-lo com tal preciso e carinho que me abstenho de corrigi-lo.
     Em troca eu sim que lembrana exatamente o que levava ele: uniforme azul, rionera de ferramentas e botas. Lembrana a impresso que me causou seu adocicado acento
sulino e que, embora comia com os olhos, esteve muito correto em todo momento. Lhe notava que tinha que esforar-se em que pese a que no falamos mais que de cisternas.
Em troca eu estava sada.
     -Quando tive terminado a reparao me serve uma taa de ch e umas bolachas.
     -Umas tortitas -corrigi-o.
     -Bom, pois tortitas. O caso  que nos sentamos  mesa da cozinha e estivemos falando coisa de hora e meia.
     -Do que? -perguntou Sally fascinada.
     Henry e eu nos olhamos e nos encolhemos de ombros.
     -Possivelmente no deveria diz-lo, mas antes de partir j me tinha encarregado que trocasse toda a instalao do quarto de banho.
     -E logo lhe encarreguei a da calefao.
     -E depois a do ar condicionado.
     -E logo tive que me casar com ele -brinquei-. Porque me arruinei.
     Sally se levantou para nos servir mais caf.
     -E vs, Emma? Como lhes conheceram voc e Brad? -perguntou Sally tratando de desarmar a Emma, que titubeou embora fingindo que a pergunta no lhe resultava
embaraosa.
     -Pois... do modo mais corrente. Em um bar.
     -Estraguem. Sonha interessante -disse Sally.
     -No muito.
     Brad estava sentado junto  Emma no sof e lhe ps a mo na coxa. Pareceu-me que estava muito bonita aquela noite. Bem grafite, para variar, e com
trana. Alm disso ia bem vestida. Fazia sculos que no via a Emma com saia. Brad devia lhe gostar de. Porque normalmente no se molesta em estar especialmente atrativa
para os homens com os que sai.
     -A verdade  que me pareceu muito interessante -disse Brad-. P-me isso to difcil que tive que recorrer a todo meu encanto masculino.
     -No teve mais que me convidar a uma ronda detrs de outra.
     -Brinca -assegurei a Sally. Porque as brincadeiras da Emma no sempre so fceis de captar at que no a conhece a fundo. E mesmo assim.
     -Eu estava com dois companheiros do escritrio e Emma com uma amiga.
     -Quem? -interrompi. Senti curiosidade porque no sabia como se conheceram.
     -No a conhece -disse-me Emma-,  uma companheira do peridico. Mas a verdade  que no tem excessivo...
     -Foi no Shannon's na rua L, entre semana, uma quarta-feira -prosseguiu Brad-, depois de sair do trabalho, antes de jantar. Uma hora que eu adoro porque pode
decidir entre voltar para casa ou ir de farra.
     Brad  engenheiro e, como tal, amante da preciso.  bonito mas no acredito que seja o tipo da Emma. Resulta muito corrente.
     -Eu estava sentado na mesa contiga  sua. No tinha deixado de olh-la em toda a noite. E quando se levantou para ir ao asseio, eu me levantei tambm. E
disse-lhe... Bom, conta-o voc.
     -No, conta-o voc -disse ela como se se ficou em branco.
     -De acordo. Disse-lhe "Quer que lhe conte uma piada?". E ela me disse "por que". E eu lhe respondi "Porque tem uma risada encantadora e eu gostaria de ouvi-la
de novo".
     -Precioso -disse Sally-. Muito bom -acrescentou olhando a seu marido.
     -Mas demorei uma hora em conseguir que aceitasse jantar comigo, verdade, Emma?
     -Vem-no? -disse Emma cruzando a perna para que lhe retirasse a mo da coxa-. Nada interessante.
     -Logo s demorei duas horas em convencer a de que me deixasse acompanh-la a casa. E ento...
     -Colorn avermelhado -atalhou-o Emma-. Fomos felizes e comemos perdizes.
     -Bom, bom -disse Brad rendo-. Fundido em negro. Temo-me que o resto o carregou a censura.
     -E quanto tempo levam juntos? -perguntou Sally.
     Emma se encolheu de ombros.
     -Logo far cinco meses -reps Brad-. Recordo-o bem porque foi a noite seguinte aos Quatro de Julho, e o metro estava ainda semeado de desperdcios. Lhe
acorda, Emma?
     -Sim -respondeu ela.
     Olhei a Emma atentamente para me certificar de se se tinha ruborizado. E sim. Baixou a cabea mas estava ruborizada. Bom, muito interessante. No  habitual em
ela conhecer um homem em um bar e levar-lhe a casa. Mas, por outro lado, no  uma mulher a que lhe importe o que diro. "Vete a mierda", espetaria a
qualquer que se metesse com ela. Mas o caso  que se ruborizou por haver-se deitado com o Brad a primeira noite. Muito interessante. Devia ser pela Sally,
que  uma pessoa recatada e devia temer escandaliz-la.
     -Pois Mick e eu nos conhecemos quando me resgatou -disse
     Sally deslizando a mo pelo brao de seu marido-. Meu cavalheiro andante. Atiou a um descarado que quis me tirar a bolsa de um puxo no MacPherson
Square.
     -Que galante! -exclamei.
     Mick se inclinou para fazer uma bajulao ao Lettice, que dormitava com a cabea apoiada em seu sapato. Eu no podia lhe ver a cara. Ele e Sally eram um casal
muito atrativa, acaso por quo distintos eram. Ele era alto, moreno e reservado e ela mida, loira e vivaz. Pareciam feitos o um para o outro.
     -Ah, pois isso no  nada -prosseguiu Sally-. No me deixou nem lhe dar as obrigado. Disse-me que tinha muita pressa, perguntou-me se estava bem e partiu. Fiquei
de pedra. Estava muito bonito, com um terno muito elegante. E com suspensrios! Desejo muito pelos homens com suspensrios.
     Pus-se a rir.
     -Nunca me tinha ocorrido pens-lo -pinjente.
     -E a ti, Emma? Voc no gosta dos homens com suspensrios?
     -Depende.
     -E os coletes... eu adoro que se tirem a jaqueta e fiquem com colete e em mangas de camisa.  muito sexy -disse Sally, e piscou em atitude coquete
olhando ao Mick, que deslizou o ndice por seus lbios e lhe sorriu.
     -Terei-o em conta -disse Brad lhe dando um golpecito com o cotovelo a Emma-. Me recorde que me tire a jaqueta mais freqentemente.
     Emma lhe dirigiu uma de suas maliciosas olhadas e ele ps-se a rir.
     -Era quinta-feira, ou possivelmente sexta-feira, e a que no sabem a quem me encontrei na festa de Natal do despacho? A ele!
     -V! -exclamei com incredulidade-. Ao Mick?
     -Resultou que trabalhvamos no mesmo edifcio de Vermont Avenue. Incrvel, no? E na mesma escrivaninha!
     -Mas no tnhamos coincidido nunca -disse Mick esclarecendo-a voz-. Ela era nova e eu levava uma temporada viajando continuamente.
     -Isso sim que  uma coincidncia -disse Brad.
     -me pareceu um milagre -disse Sally recostando-se no ombro do Mick-. Estvamos predestinados. Flechada!
     -Muito romntico -pinjente.
     -Sim, Romeo e Julieta -disse Emma, e se levantou. Olhamo-la e nos pareceu surpreendida de ver-se de p-. Sinto muito, mas tenho que partir j, que manh trabalho.
     -Em sbado? -exclamou Brad surpreso.
     -No h mais remdio. O peridico sai todos os dias.
     A todos entrou ento pressa por partir e a velada terminou muito antes do normal. Ao lhe trazer o casaco, Emma se desculpou.
     -Sinto muito, L. danifiquei sua preciosa festa.
     -Tinha que me haver isso dito.
     -Sinto muito. No tenho cansado. Estava-o passando estupendamente. Sinto-o de verdade. esteve tudo perfeito, como sempre.  a melhor anfitri.
     -Lamento que no te tenha cansado bem -murmurei enquanto outros ficavam os casacos.
     -Quem?
     -Mick.
     -Como? -disse Emma com perplexidade.
     -Nada. J te chamarei e falaremos.
     -De acordo -disse tornando-se a rir.
     Todos deixaram de falar e a olharam.
     -Do que te ri? -perguntou Henry.
     -De nada -pinjente.
     Enquanto ia abrir a porta pensei que acaso no devia hav-la convidado. Mas se despediu com naturalidade e nos deu um abrao a todas. Brad lhes estreitou a
emano ao Henry e Mick; Henry abraou a Emma; Mick me abraou Y... Mick e Emma nem sequer se olharam. Pode que no mximo murmurassem "boa noite". Isso foi tudo.
E ento o compreendi. No estou acostumado a me equivocar nestas coisas.
     -Um jantar estupendo -disse Henry j em casa, olhando-a dentadura no espelho do quarto de banho.
     -Sim.
     Eu tinha feito um thaazi saag aur narial (carne de vitela com espinafres ao curry e coco). Segundo a receita era para dez pessoas mas nos comemos isso entre
seis. A isso chamo eu sair bem o jantar.
     -Sally  encantadora, verdade? -pinjente.
     Henry balbuciou algo ininteligvel a modo de assentimento.
     -E parece que voc e Mick combinastes em seguida -acrescentei. No me surpreendia porque ainda no tinha conhecido a ningum a quem no lhe casse bem Henry.
     -Sim,  um tipo interessante -disse ele-. Sabe que me h dito? Pode que logo no resulte, mas nos vai recomendar para mim e ao Jenny aos donos de seu estudo
para o trabalho de encanamento. E sabe quem som os donos?
     -No.
     -Carney Brothers. Se pusermos um p em um desses velhos edifcios do centro... So uma mina de ouro, porque sempre h algo que no funciona. S com um
par de contratos de manuteno nos forraramos. Seria estupendo, no?
     - claro que sim.
     -Chamarei o Jenny amanh. Agora j  muito tarde. Pode que logo no resulte -repetiu-, mas foi todo um detalhe por parte do Mick oferecer-se. No tudo
o mundo o faria.
     Henry chama Jenny a sua me. Antes me resultava estranho, porque a mim nunca me ocorreria chamar Irene a minha me. Mas ele se criou em uma comuna de mulheres
da Carolina do Norte nos anos sessenta, e tinha muitas mes. Pais no, mas mes tinha um monto. De modo que em lugar das chamar a todas "mame", chamava-as
por seus nomes, inclusive a sua autntica me. E acabou por me parecer lgico.
     -Sim, foi uma festa muito agradvel. Embora se apalpava certa tenso -disse Henry, e se apartou um pouco para que pudesse me tirar a maquiagem frente ao espelho-.
Pareceu-me que a Emma no tem cansado muito bem Sally. Embora possivelmente tenha estado um pouco tensa por ter discutido com o Brad. No sei o que pde ver nesse tipo.
     -No Brad? me parece simptico. Alm disso, a Emma gosta das pessoas inteligentes e Sally o  muito. No devia tratar-se disso.  Mick quem no o
cai bem.
     -Mick? Voc crie?
     -No notaste que no se dirigiram a palavra em toda a noite?
     -Hummm -disse Henry com expresso pensativa.
     -olharam-se mas no se falaram. Parece bvio que a entrevista para o artigo do peridico no resultou bem.
     -Cansada? -disse Henry quando tive terminado de me lavar os dentes.
     Encolhi-me de ombros, embora a verdade  que sim estava cansada. No obstante pinjente que no, no caso de pensava em algo... especial. Embora em seguida rompi o
encanto com um comentrio pouco apropriado.
     -Recorda aquele frango cheio que estava acostumado a fazer? Crie que estaria bem faz-lo quando vierem meus pais em dezembro?
     Henry me tinha estado dando uma ligeira massagem nas costas. Ento retirou as mos e me olhou.
     -Possivelmente no -disse tornando-a toalha ao ombro e saindo do quarto de banho-. Embora, o que vais fazer se no?
     Terminei de me assear e o segui, com o Lettice trotando por diante. Henry j se colocou na cama. Tinha seu lamparita de leitura apagada, os olhos fechados
e as mos entrelaadas sobre o estmago. OH no, pensei. Pus ao Lettice em seu cestito, sentei-me no bordo da cama junto ao Henry para que no tivesse mais remdio
que me olhar.
     -No quer que venham? Sero s duas noites.
     -Claro que quero que venham. So seus pais.
     -Seguro que quer que venham?
     -Claro. Mas no so duas noites. So quatro.
     -No, s dois.
     -Duas  ida e duas  volta. Quatro.
     -No, uma e uma.
     Meus pais queriam ficar em casa  ida e  volta de sua viagem anual a Florida.
     -Ah bom -exclamou aliviado.
     Pus-se a rir. Retorci-lhe os extremos do bigode tratando de curvar-lhe para cima. O me sorriu e voltou a fechar os olhos.
     Meu marido tem pinta de hippie entrado em anos. Caberia pensar que eu no gosto desse aspecto, mas em seu caso sim eu gosto. Leva acrscimo mas sempre muito
cuidada. De noite a desfaz e se converte em uma povoada juba que resplandece no travesseiro como uma bandeira avermelhada. Nunca posso evitar acarici-la.
     -Alm no sero um aporrinho -disse-lhe-. Apreciam-lhe de verdade.
     -J.
     -De verdade.
     -Bom, L, deixemo-lo. Casou-te com um simples operrio. Um simples operrio, um caipira sulino. De acordo  mentalidade de seus pais, no lhes teria sentado
to mal que te casasse com um xeque rabe.
     -Pois sim que os conhece voc! -exclamei. Levantei-me irada, meti-me em meu lado e atirei da ponta do lenol que estava sob seu quadril-. Odeia-me sua me
por te haver casado com uma heterossexual ?
     Muito bom. Um a zero a favor de L.
     Henry se ps-se a rir. Mas no me pareceu divertido. No tinha querido fazer uma piada. Ao ver que no me fazia graa, inclinou o corpo, apoiou a cabea em
as mos entrelaadas detrs da nuca e olhou o teto, refletindo.
     Detesto reconhec-lo, mas minha famlia intimida ao Henry. Apreciam-no de verdade, mas ele no se d conta. No digere que meu pai seja fsico, minha me economista,
um de meus irmos psiclogo e o outro cardiologista. Enquanto que ele  rfo de pai, encanador e sulino, com uma mini empresa familiar com sua me como scia.
Certamente tenho mais dinheiro que Henry, embora no o tenha ganho eu. Minha profisso se centra nos primeiros estdios do desenvolvimento e educao infantil, uma profisso
prpria de mulher, ou seja que nem d prestgio nem dinheiro. O que ganho deve a que minha me me assessora muito bem sobre que aes convm comprar. Estranha vez se equivoca.
E sinto dizer que essa  outra coisa que Henry no digere. No  que albergue ressentimento para mim, mas sim se culpa e ento se encerra em si mesmo e fica
de mau humor. Por outra parte, o fato de que no consigamos ter filhos no ajuda.
     Toquei-lhe o tornozelo com o p e fingi que tinha sido sem querer. Henry se troca de cueca e camiseta antes de deitar-se. eu adoro quo bem cheira
o suavizante e o aroma que deixa a secadora. Pe-me em situao.
     Entretanto, o sexo entre ns se feito muito complicado. Nem sequer tem j que ver com o amor. Tudo se reduz a curvas de temperatura e a perodos
de fertilidade. A levantar-se fazer pip em uma terrina e introduzir uns bastoncitos de carto impregnados de uma substncia inteligente. Sei tudo a respeito do hormnio
LH. Tenho trs estojos de predio de ovulao no quarto de banho. Demos graas a Deus quando soubemos que Henry tinha uma veia varicosa no escroto, porque
isso eleva a temperatura testicular e  a causa mais comum da infertilidade masculina. De modo que se submeteu a uma operao de microcirurgia para solucionar
o problema e comeamos de novo. Nada. Agora voltamos para os termmetros para tomar a temperatura basal, aos perodos de fertilidade e aos bastoncitos rosados
que se voltam azuis. Tem que fazer o amor quando ficam azuis, tanto se gosta como se no.
     Movi o p lhe roando a pantorrilha. Era um bom momento para mim, hormonalmente falando. Mas ele j sabia porque o havia dito pela manh. Se o
fazia uma insinuao agora, pensaria que era pela oportunidade do momento. E a verdade  que assim era, em parte.
     OH, Deus, o que vai ocorrer? s vezes Henry no funciona. Bom... em realidade s lhe ocorreu duas vezes. Sem dvida se deve ao estresse, como ambos sabemos perfeitamente.
A segunda vez que lhe ocorreu me disse: "Nunca fui impotente!" E eu disse: "Bom, eu tambm s vezes sou impotente; s que no se nota!"
     O comentrio nos ajudou um pouco. E aps no tornou a acontecer.
     Desejo ter um filho. Minha vida est como entupida e no poderei sair do entupo at que solucione o problema. J sei que no  justo para ningum e menos ainda para
Henry, mas no sei o que fazer. No sei como sair deste crculo vicioso de provar, falhar e volta a comear.
     Suspirei e apaguei a luz. Sempre nos beijamos antes de nos dispor a dormir. s vezes, o beijo conduz a algo mais, mas pelo general  s um gesto amoroso
para nos dar as boa noite. Medimos s escuras nos buscando e nos beijamos.
     -boa noite.
     -boa noite.
     Comecei a me dar a volta, mas Henry me reteve a mo e me atraiu para si, para seu peito, to forte e largo que no resulta cmodo para dormir, como ocorre
com um travesseiro muito alta.
     -Carinho-pinjente.
     Mas ele levou as mos a meus quadris e me ps em cima dele.
     -Pensava que...
     Bom... isso estava melhor. Estirei-me e me opus cmoda.
     -O que pensava?
     Deslizou as mos por dentro do pijama at minhas ndegas.
     -Pensava que queria me seduzir.
     -Possivelmente, mas estou um pouco cansada.
     -Sim?
     -A verdade  que no -disse-lhe lhe rodeando o pescoo.
     Fizemos o amor. E resultou bem. Sempre resulta bem, embora no cheguei ao orgasmo. No acredito que Henry o notasse. Desejava-o, mas tinha a cabea em outra parte.
S podia pensar: Esta vez vai funcionar. Esta vez sim. Esta vez seguro.
Captulo 9
Isabel
     Ontem  noite me beijou Kirby. Se chegar a tirar uma pistola e me disparar no me tivesse surpreso tanto. Acreditava que era homossexual.
     Tinha-o acreditado assim durante meses e agora compreendo que meu encargo tinha muito pouca base, virtualmente nenhuma. No sabia que tivesse sado nunca com uma mulher
nem falava de nenhuma. Isso por uma parte. E  ator, por isso trabalha a salto de arbusto. Isso pela outra. A verdade  que me resulta muito embaraoso. De verdade.
Porque detesto os esteretipos. Kirby tem pinta de monge, um aspecto comtemplativo.  um homem aprazvel e muito gentil, que sempre prefere me escutar que falar
de si mesmo.
     Bem pensado, por que tive que imaginar outra coisa?
     Retornamos a casa depois de sair de ver uma obra no Church Basement Theater da rua Dezessete, uma obra experimental de um dramaturgo local na
que Kirby representava a um empregado mudo de um pedgio. Eu no tinha entendido nem mdio e, com supremo tato e deferncia, ele tratava de me explicar a obra. Acabava de
comear a cair a primeira nevada invernal e nos detivemos para contemplar os densos flocos que cruzavam o halo de uma luz. Nunca nos havamos meio doido, salvo as
mos. Mas me pareceu natural inclinar a cabea, descans-la em seu ombro e dizer: "A que  precioso?"
     Poderamos ter passado por atores em uma cena de um filme. Porque ele olhou aos olhos e me disse: "Precioso." Logo me tocou a cara com seus enluvados
dedos.
     Beijou-me na bochecha. Tudo o que pude fazer foi olh-lo, sbitamente coibida, tratando de me explicar um pouco to inesperado para mim. Mas... no foi gay?,
pensei. E ento me beijou na boca e compreendi que no o era. Foi como se algum a quem acreditava conhecer tivesse estado sempre disfarado. Exatamente igual,
como se descobrisse que uma amiga era em realidade um homem.
     tornou-se ligeiramente para trs e me sorriu. Mas fui incapaz de lhe corresponder. Tinha-me ficado sem fala. Estava estupefata. Meu silncio no demorou para lhe resultar
embaraoso.
     -Sinto muito. Sinto muito, Isabel.
     -No passa nada -pinjente de maneira automtica, sem pensar o que dizia.
     Seguimos caminhando e voltou para suas explicaes sobre a obra, embora agora resultava bastante embaraoso. E no soube fazer nada para suavizar a situao.
Estava muito ocupada para revisar tudo o que tinha pensado dele at ento.
     Vivemos no mesmo edifcio, em pleno centro do ruidoso bairro do Adams-Morgan. Seu apartamento est no terceiro andar e o meu na segunda. No  um
vizinho ruidoso. Mas como as paredes e os chos so de papel o ouo com uma claridade um tanto inquietante. Por exemplo, quase sempre sei em que estadia se encontra
e deduzo o que est fazendo. E me atreveria a dizer que tambm ele pode me ouvir. A primeira vez que falamos foi quando me telefonou para me pedir que subisse o
volume de minha cadeia para que pudesse ouvir Appassionata sem aplicar o ouvido ao cho. Sua voz profunda e cultivada me intrigou em que pese a que, em um primeiro momento, pensei
que sua petio era puro sarcasmo e que em realidade lhe incomodava a msica. Outra deduo falsa.
     Quando nos conhecemos em pessoa seu aspecto no confirmou nem desmentiu a equivocada impresso que, pouco a pouco, formei-me de que era homossexual.  um homem alto,
magro como um pau, quase completamente calvo. Poderamos dizer que tem uns olhos penetrantes, pela fixidez com que est acostumado a olhar, de no ter os de um castanho
to claro. Tem o nariz fino e os lbios suaves (muito suaves, como tive ocasio de comprovar). D a impresso de pessoa desnutrida mas em realidade  muito
forte. Sei porque me ajudou muitas vezes a trocar os mveis de stio e pelas reparaes caseiras que me tem feito em honra a nossa amizade. O que
aproximou-nos -nossa comum paixo pela msica-  o que segue cimentando nossa amizade. Ns gostamos de ir juntos aos concertos e agora nos assombra no nos haver
conhecido antes ou, pelo menos, reparado o um no outro, porque invariavelmente ocupvamos as localidades mais trocas no Kennedy Center, o DAR, o Lisner
e o Baird Auditorium.
     Ontem  noite, depois de nosso embaraoso caminho a casa sob a neve, Kirby me acompanhou at a porta, como faz sempre para nos despedir. Mas, claro, de um modo
distinto esta vez.
     -Quer entrar? -perguntei-lhe.
     -No, obrigado.  j tarde.
     Estive a ponto de deix-lo partir mas no pude. Aquilo no podia ficar assim. Fingir que no tinha acontecido nada seria insultante para ele e uma covardia por meu
parte. Por outro lado, no estaramos lhe dando muita importncia? E se seu beijo no foi mais que um impulso, um gesto de amizade, e nada mais? Mas no, foi algo mais
para ele, estava segura.
     -Minha vida est trocando, Kirby. Eu estou trocando, muito depressa atualmente. Com muita dificuldade consigo me esclarecer eu. Nestes momentos estou transbordada. No  o
momento mais oportuno para iniciar uma relao sentimental. Sou muito egosta; estou muito preocupada comigo mesma para ser justa com outros. Adoro voc
amizade, e prefiro deixar as coisas como esto. Tenho-te muito carinho. Entende-o, por favor.
     E lhe disse mais, embora no recordo o que. Ele me escutou com ateno, inclinado para mim. conheci a muito poucas pessoas que saibam escutar tanto como ele.
     Quando tive terminado meu pequeno discurso, senti-me coibida e insatisfeita, como se me faltasse algo.
     -Olhe, Isabel, por nada do mundo quereria te contrariar. No acreditei que fosse surpreender te tanto. A verdade  que fazia muito tempo que desejava te beijar.
     -Pois no o tinha notado -pinjente um pouco ruborizada.
     Arqueou as sobrancelhas como se isso o surpreendesse.  margem de como acabassem as coisas entre ns, nunca poderei lhe dizer o que tinha pensado dele. Porque a
verdade  que me resulta inconcebvel que at ontem mesmo acreditasse que era homossexual.
     Colocou a mo esquerda no bolso do casaco e se olhou os ps.
     -Bom, pensa-o um pouco mais. Deixa que te passe a surpresa. E logo... -disse fazendo um gesto esperanado e me olhando com olhos entreabridos.
     -Pode estar seguro que esta noite pensarei nisso.
     -Pois j seremos dois.
     Um bom mutis. Murmurou "boa noite" e se afastou. Soube dar a talha, provavelmente pelas pranchas que lhe dava o teatro. Neste sentido era a anttese de
Gary, que no podia ser mais inoportuno. Embora claro,  a anttese do Gary em muitos outros aspectos.
     Cumpri minha palavra e pensei nele de noite. Possivelmente tenha chegado para mim o momento de me vincular a algum. Faz quatro anos que me divorciei do Gary e no h
havido ningum em minha vida desde o Richard Smith Pnis, "o homem do grfico sobrenome", como o chama Emma. Trato de no pensar nele, porque me traz muitos maus
lembranas. Um ano e meio depois de meu divrcio, trs meses depois de comear minhas relaes com o Richard -que era professor da faculdade- notei o vulto em um
de meus peitos. Ou, melhor dizendo, notou-o Richard enquanto me sovava no cinema.
     -O que  isto? -murmurou enquanto vamos uma cena turbadora do imprio dos sentidos.
     Compreendi em seguida o que era. Imediatamente soube o que ocorreria desde aquele momento at minha morte. Por sorte s acertei pela metade. Mas foi suficiente
para o Richard Smith Pnis. Esteve a meu lado at que me operaram mas logo me disse que "no acreditava que o nosso fosse parar a nenhuma parte". No me enfureci (essas
reaes se as sotaque a Emma). O que faria eu sem ela? Tenho-lhe sub-rogada minha parcela averso aos homens.
     Mas o do Richard faz dois anos que acabou e aps no houve ningum. No o senti falta. Eu gosto de viver sozinha. Adoro meu atestado apartamento.
Pintei-o que cor pssego, branco e verde mar. Fiz arrancar os pudos carpetes e deixei o cho de pranchas nu. Em minha casa do Chevy Chase tinha
muitos mveis. E o agradeo ao Gary. Tenho minha biblioteca, minha cadeira de balano, um velho sof, vrios abajures de p antigas, e para meus amigos umas enormes almofadas
para que se sentem onde queiram quando vm a me visitar. Tenho baixela e faqueiro suficiente para servir a oito pessoas, o nmero perfeito. Tenho vizinhos
antipticos, vizinhos aprazveis e vizinhos excntricos. A zelador, a senhora Skazafava, logo que fala ingls. Diz L que vivo como uma hippie, e suponho que tem
razo (embora, claro, no me tocou viver aquela poca quando era jovem). Segundo Ramo krisna, nossas vidas se movem em ciclos em uma ordem no prescrita. E eu estou
passando por um ciclo que outras viveram faz trinta anos. D igual. O que vale  o caminho que se percorre.
     Pela tarde, sentada frente a meu escritrio, estava sumida em uma ensoacin, acariciando a Graa e olhando pela janela, em lugar de estudar para meu exame
sobre as famlias em perigo, e ouvi abrir e fechar a porta do apartamento do Kirby. Ouo-a continuamente e, de maneira inconsciente, sem querer, inteiro-me de
seus movimentos. Em seguida ouvi pisadas em meu patamar e que batiam na porta.
     Graa deixou de ladrar assim que abri e viu o Kirby. Ia "de uniforme": calas de pele artificial e um pulver muito folgado. Levava algo na mo.
     -Olhe o que comprei -disse-me me tendendo um compact do Beethoven, o Concerto Triplo-. Quer que o escutemos?
     De modo que preparei ch e nos sentamos a escutar o concerto. Foi como em nossos melhores momentos. Embora no. Ao terminar o concerto, renunciei a entrar
em uma conversao superficial e lhe fiz uma pergunta direta. Sem a menor ironia.
     -estiveste casado?
     -Sim.
     -V -tratei de dissimular minha surpresa brincando com o coador da bule-. Nunca me tinha comentado isso.
     -Estive casado dezenove anos. E tinha um filho e uma filha -disse-me enquanto removia o acar e bebia um sorvo-. Mataram-se os trs faz onze anos em um acidente
de automvel. Julie tinha doze anos e Tyler oito.
     -Sinto muito.
     por que tem que soar esta expresso sempre to dbil, to descorazonadoramente inadequada? Quereria encontrar outras palavras, mas acaso no existam.
     -Obrigado -disse ele como se o dissesse a srio. E assim acabou o pequeno protocolo do psames.
     -Onze anos -disse depois de uma pausa-. Fazem-se muito compridos vivendo sozinho. Ao princpio o encaixei bem. Mas j no -acrescentou me olhando com franqueza.
     Levantei-me, fui tirar o compact da cadeia e o voltei a meter no estojo. Passei um dedo por meu arquivo de compacts procurando um pouco adequado para acompanhar
o que pensava dizer a seguir. Mas no encontrei nada.
     -Kirby... -pinjente me recostando no alfeizar-. J sabe que tive cncer de mama.
     Kirby sabia. O tinha contado fazia meses. No  algo que eu mantenha em segredo, mas tampouco vou apregoando-o por a. Ao Kirby o havia dito, embora
me limitando ao feito em si, sem entrar em detalhes.
     -Supus que pensaria que simplesmente me extirparam o tumor e que logo me reconstruram o peito. Mas no. No tenho nada -pinjente-. Levo uma prtese no
sustento. Isso  tudo.
     Salvo as equipes mdicas ningum me viu nua aps. Ultimamente comecei a assimilar a idia de que ningum me ver nunca. De modo que deixei
de imaginar mantendo uma conversao to embaraosa com um amante potencial.
     Kirby se levantou do cho e ficou de p frente a mim. Eu cruzei os braos. Olhou-me com expresso severo.
     -Isso no me importa absolutamente.
     -Bom -pinjente. Acreditava-lhe.
     -Estou-me apaixonando por ti, Isabel.
     Separei-me dele, surpreendida. Isso no me acreditava isso. Alm disso, eu no queria me apaixonar por ningum. J me tinha apaixonado. E agora sou muito velha e egosta. Quero
me concentrar em mim, no em algum que se esteja apaixonando por mim.
     -OH, Kirby, oxal no me houvesse isso dito.
     deu-se a volta. Foi um alvio notar que no se sentia ferido nem zangado, nem violento. Parecia pensativo.
     -Pois ento eu tambm preferiria no hav-lo dito.
     Sorriu-me, tirou algo do bolso e me tendeu isso. Era uma argola mas parecia um anel. Eu retrocedi aterrada.
     -trouxe umas quantas para as provar -disse quedamente.
     -Como?
     -O grifo da cozinha segue gotejando, verdade?
     Eu assenti com cara de estpida.
     -Verei se lhe posso arrumar isso Saiu da salita, foi  cozinha e comeou a trabalhar.
     Eu me deixei cair ao cho. Graa se levantou de onde estava, junto ao radiador, e veio a tornar-se a meu lado. Graa quer muito ao Kirby, disse-me, lhe acariciando
seu suave focinho cinza. Foi o nico pensamento coerente que cruzou por minha mente.
     na tera-feira me faria meu ltimo reconhecimento mdico semestral. Depois, caso que tudo estivesse bem, s teria que visitar meu cirurgio oncologista uma
vez ao ano. Outra marco em minha histria de cncer de mama. Enquanto acariciava a Graa e voltava a esclarecer tomei uma deciso. Se tudo estava bem, se no se estendia,
se no havia mais vultos nem tumores (e estava segura de que no os haveria) ento pensaria seriamente a respeito de comear uma relao com o Kirby. Pensaria-o (nada
mais). No me pressionaria, no me fixaria um prazo. Simplesmente refletiria sobre isso.
     Enquanto isso, era agradvel estar ali sentada com Graa e escutar os rudos de um homem que tratava de me reparar uma avaria na cozinha. Eram rudos
misteriosos e masculinos, reconfortantes. Faziam-me sentir uma verdadeira mulher. Digo-o porque fazia tempo que no me sentia assim.
Captulo 10
Rudy
     Curtem opina que eu no deveria trabalhar porque no necessitamos o dinheiro. Diz que uma coisa  que faa um trabalho de voluntariado que me ocupe algumas horas
(embora me esquecendo do Telefone da Esperana), porque ajuda a outros e me satisfaz. Mas que um verdadeiro emprego remunerado que me obrigasse a trabalhar
todo o dia me resultaria muito estressante.
     No sei se tiver razo. Pode que sim.
     Mas fixa vos em L, toda uma licenciada, diretora de uma creche estatal. Trabalha no que sempre quis trabalhar e para ela foi s questo de ir
passo a passo. Mas eu no imagino assumindo tanta responsabilidade, nem com as idias to claras. E o da Isabel tampouco est nada mal: voltar para os estudos aos
cinqenta anos para conseguir uma licenciatura que lhe permite fazer o que quer. Como averiguaram o que queriam fazer em realidade? Inclusive Emma sabe, embora
no o comente com ningum.
     Emma tem tanto medo como eu. Mas seu temor procede de seu orgulho, porque no quer ficar em ridculo. O meu procede de ser consciente de minha incompetncia.
     Tratei de explicar-lhe ontem  noite enquanto retornvamos a casa depois de sair do cinema. Mas no pude. Curtem  o nico que realmente o entende. E Emma e eu
quase terminamos discutindo. Detive o carro frente a sua casa, lamentando no haver tomado umas taas em lugar de sorvete, porque assim tivesse estado mais em forma
para discutir.
     Emma me fulminou com o olhar, com uma mo no ponteiro de relgio da porta e a outra apagando o cigarro no cinzeiro. Quando faz mau tempo leva um gorro
negro de ponto impregnado at as sobrancelhas, e sua juba ruiva aparece pelos lados como uma labareda.
     -Olhe, Rudy, voc  uma artista. Tem muitssimo talento e poderia ser o que quisesse. Mas  como se algo te atendesse. Est como entupida e no acerto
a compreend-lo.
     Possivelmente fosse covardia, incompetncia, inrcia. Sentia-me  defensiva, mas no quis replicar lhe recordando a Emma seus prprios temores. Tivesse-a ferido.
     -Fao coisas, Emma. Ao melhor selecionam para um prmio de fotografia no Corcoran. E querem que d classes de cermica na Free School o ano que vem.
     -Outra vez classes de cermica? Mas se j no faz nada.
     Outro tema espinhoso. Emma culpou ao Curtis de que eu tivesse vendido o volto de oleiro. Tinha-o no poro, e  certo que sua equipe de ginstica tinha comeado
a invadi-lo tudo. Mas essa no foi realmente a razo de que vendesse o torno. Absorvia-me muito tempo e Curtis me disse, e coincidi com ele, que se no me ia dedicar
a srio no merecia a pena que lhe dedicasse tempo.
     -Embora agora no faa nada posso ensinar aos principiantes -disse a Emma-. De modo que fao algo, embora no sempre lhe comente isso.
     -J sei -disse quase a modo de desculpa, porque notou que tinha ferido meus sentimentos-. Sinto te haver falado como se fosse sua me; quer dizer, no como sua me
mas sim como uma me normal.
     -No, claro, como minha me no -pinjente rendo.
     Ela riu tambm e em seguida voltamos para tom amigvel. Mas ao me dizer que entrasse um momento em sua casa recusei. em que pese a que no ltimo momento suavizamos
as coisas, Emma estava um tanto agressiva e temi que voltasse para a carga se ficava.
     Ao nos despedir me deu um tapinha no ombro (no  muito efusiva). Aguardei at que teve subido as escadas do alpendre sob a chuva. Quando teve entrado
acendeu e apagou repetidamente a luz do alpendre (nosso sinal para indicar que estamos a salvo, que no nos topamos com nenhum violador apostado entre as
novelo). Eu fiz soar a buzina e arranquei.
     A chuva se converteu em aguanieve enquanto retornava a casa pelo Rock Creek. Alegrei-me de no ter arredondado a velada tomando umas taas. E, ao chegar
a casa e ver que na planta baixa estavam todas as luzes acesas, ainda me alegrei mais.
     Menos mal que estou sbria, disse-me ao dar a volta  ma em busca de um oco para estacionar. Curtem tinha retornado de Atlanta um dia antes do previsto,
e eu devia ter estado em casa. Odeia chegar e encontrar-se com a casa vazia.
     Pensei no conselho do Eric sobre o sentimento de culpabilidade injustificado (que me perguntasse o que era exatamente o que tinha feito mal, porque a resposta
seria quase sempre nada). Possivelmente tenha razo mas nunca me sinto inocente. Sempre tenho a sensao, sobre tudo em relao ao Curtis, de que poderia e deveria fazer
mais e faz-lo melhor.
     -Curtis?
     Tinha as luzes acesas mas no estava na planta baixa. De modo que subi me tirando o casaco. Mas Curtis no estava no dormitrio nem no quarto de
banho.
     -Curtis?
     Ouvi rudo em seu escritrio, que estava s escuras. Entrei mas no se deu a volta. Estava recostado no respaldo da cadeira frente ao ordenador, olhando ao monitor,
que estava apagado.
     -Curtis?
     No se tinha tirado o traje. Toquei-lhe o ombro. Como no se moveu, deslizei a mo por sua nuca e apalpei seus msculos. Estava tenso.
     -O que faz aqui s e s escuras?
     Tem um redemoinho na nuca. Detesta-o. Pede a seu muito caro cabeleireiro do Capitol Hill que o dissimule a cada duas semanas mas em seguida volta a formar-se o      -He ido al cine.
Antes brincava com seu redemoinho mas j no me deixa. Incomoda-lhe.
     -Onde estiveste? -perguntou-me com seu premente acento sulino.
     -Acreditava que no retornava at manh.
     Guardou silncio para me convidar a que respondesse concretamente  pergunta.
     -fui ao cinema.
     -Sozinha?
     -No; com a Emma, que queria ver um filme francs; uma histria de amor. lhe gostou mas me pareceu uma bobagem -pinjente embora no era do
tudo certo-. Possivelmente porque no dava tempo a ler os subttulos -acrescentei para indicar que no me tinha passado isso muito bem.
     Introduzi os dedos sob o pescoo de sua jaqueta e comecei a lhe dar uma suave massagem. Cheirava sua colnia, ainda fresca depois de seu comprido dia e a espuma com
aroma a almscar que fica no cabelo. Agachou um pouco a cabea e notei que comeava a relaxar-se.
     -Que tal em Atlanta? -perguntei. No devi hav-lo mencionado, porque ainda no estava de tudo depravado.
     -Um desastre.
     por que me senti responsvel? O que tivesse ocorrido em Atlanta no tinha nada que ver comigo, mas sua resposta me soou como uma acusao
     -O que ocorreu? -insisti.
     -Morris.
     -OH, no! -exclamei de uma vez que lhe oprimia os ombros para acelerar sua relaxao. Porque Morris  o inimigo do Curtis. Ocupa um posto inferior e quer
lhe tirar o seu. Sempre trata de deix-lo em evidncia diante do congressista.
     -O que tem feito esta vez?
     Silncio.
     -N? O que tem feito est vez Morris?
     -E a ti que mais te d?
     Suas palavras no fizeram a no ser intensificar meu sentimento de culpabilidade.
     -Sabe perfeitamente que sim me importa.
     Tive a certeza de que me reprovava algo, mas no sabia o que nem me atrevi a pergunt-lo.
     Passou um minuto comprido e compreendi que no me ia dizer isso Esse era o pior castigo: no me contar isso como se no se precavesse de que assim se castigava ele tambm.
     Rodeei-o com os braos e apoiei a bochecha em sua cabea.
     -Carinho... -sussurrei-lhe para confort-lo.
     levantou-se de repente. Minhas mos penduraram como se fossem de trapo ao me jogar para trs. E, sem me olhar sequer, saiu do despacho.
     Curtis e eu observamos um ritual. Aquilo formava parte dele; lhe passaria. Sua atitude no significava passar de mim. Ningum compreende que Curtis me necessita
a mim tanto como eu a ele. E s vezes mais. Mas ele  o forte. Sentiria-me perdida sem ele. Eric diz que no, mas se equivoca.
     Logo, levei-lhe uma taa de conhaque  cama.
     -No gosta -recusou.
     Bebi um sorvo. Pensava me pr a camisola que mais gosta, um negro curto, de seda muito suave.
     -Cansado?
     encolheu-se de ombros e esboou um sorriso.
     -Trabalha muito -pinjente de uma vez que deixava a taa na mesinha de noite. Logo me deixou lhe tirar o relgio e deix-lo ao lado da taa.
     Caa-lhe uma mecha sobre a frente, lhe dando um aspecto infantil. Pensei em nossos primeiros tempos, no Durham, quando comeamos a viver juntos. Foi a poca
mais feliz de minha vida. A poca em que me hei sentido mais segura. Estava muito apaixonado por mim por ento.
     -Morris  um perfeito imbecil -pinjente-. Nunca lhe suportei.
     Curtem emitiu um grunhido.
     -E dentro de quatro dias ter uma horrvel calva -acrescentei.
     Curtem deixou escapar um estranho rudo, entre risada e bufo. Alarguei a mo para ele e me sorriu de um modo que significava que comeava a me perdoar.
     -O vou deixar -disse atirando da cinta negra do dianteiro de minha camisola-. irei trabalhar com o Teeter e Jack.
     -Como?
     Seguiu atirando das cintas e tubo que lhe sujeitar a mo para que no me acabasse isso de tirar ( uma lata ter que voltar s passar).
     -vais deixar seu trabalho?
     -Decidi-o esta noite.
     -Mas...
     -So uns imbecis, Rudy. J no os agento mais. Nem tenho por que.
     -Claro. Far muito bem em partir. Tm-lhe vexado h anos.
     Que surpresa! Quase no dava crdito ao que acabava de ouvir. Mas o certo era que no era feliz com seu trabalho. Havia muitas punhaladas traperas no escritrio
do congressista Wingert, muita hipocrisia. Teeter Reese e Jack Birmigham eram ex-companheiros da faculdade de direito e amigos do Curtis. estabeleceram-se
por sua conta com uma escrivaninha e se estavam forrando, segundo Curtis. Pode que fosse perfeito para ele trabalhar com eles. Curtis no suportava que o mandassem. Ser scio
de seus amigos na escrivaninha seria outra coisa. Alm de que podia ser um trampolim para acessar a um cargo poltico, a verdadeira ambio do Curtis, to importante
como seu cargo atual.
     Comeou a me baixar a camisola pelos ombros e a me acariciar.
     -E ao Wingert que lhe dem pelo culo. -Dirigiu-me um sorriso radiante e acrescentou-: E ao Morris que lhe dem tambm. Que se dem os dois.
     Sua vulgaridade me surpreendeu, porque Curtis estranha vez diz tacos. Atraiu-me para si. Deixei-o que me tocasse porque era bvio que o necessitava. Mas deixou de me acariciar
ao notar que eu estava passiva. Ento optou pela ternura.
     A ternura me pode e Curtis me conhece. Sabe o que fao o que queira se ficar tenro. Limpou-me as lgrimas com os dedos.
     -Assim, Rudy -disse me separando as coxas com os joelhos. Desejei que me penetrasse. Nunca perde o controle.  dos que sabe dominar-se e consegue me excitar
muito. Comecei a ofegar para excit-lo eu a minha vez, a cham-lo carinho.
     -OH, OH...
     Desejava-o muito. Afundou sua cara em minha juba e de repente se deteve.
     -Mierda!
     Fiquei paralisada, surpreendida pelo tom desanimado de sua voz.
     -O que acontece?
     Apertou os lbios ainda midos por me haver beijado.
     -O que ocorre? Lhe vou dizer isso: ocorre que cheira como um cinzeiro.
     -Sinto muito -pinjente-. Sinto muito. Acreditei hav-lo deixado mas, como Emma fuma como uma chamin, tornei a picar, e fumei no carro. Sinto muito.
     Notei que no se tratava s de que tivesse fumado.
     -No me faa isto -sussurrei-lhe. Toquei-lhe a coxa com o dedo mas ele se apartou de mau humor-. Por favor, Curtis...
     No ia ceder embora o implorasse de joelhos. Resulta-me mais fcil me enfurecer comigo mesma que com ele. Mas s vezes consegue que me zangue a srio com
ele.
     Levantei-me e tomei um analgsico para a dor de cabea e um tranqilizador. Dormir profundamente  o nico remdio contra este tipo de dor.  lamentvel
que no saiba deixar que me passe de maneira natural. Mas no sei.
     Pela manh me chamou minha me por telefone. No falava com ela desde fazia trs meses. Suponho que parecer muito tempo, mas no  inhabitual entre ns.
Tinha uma voz horrvel e amaldioei ao pensar que devia ter tornado a beber.
     -Rudelle? Quanto me alegro de te ouvir. Como est, carinho?
     -Bem, mame. Ocorre-te algo?
     -August est ingressado.
     -OH, no... O que lhe ocorre? -Ouvi um forte rudo que me ensurdeceu e tive que apartar um pouco o auricular-: Segue a, mame?
     - que me tem cansado -disse tornando-se a chorar.
     Sa ao corredor com o telefone. Sentei-me no cho, sobre meu tapete de cor malva.
     -No chore, mame. O que ocorre ao August?
     Meu padrasto tinha completo os oitenta em setembro.  dezesseis anos maior que minha me.
     -Teve um enfarte ontem  noite. Chamei o Alan mas no podia vir. OH, Rudelle, se seu pudesse...
     -Mame...
     -No bebi. J no bebo.
     Pode que fosse verdade ou pode que no.
     -Um enfarte h dito?
     -Bom... uma crise cardaca, ho dito. No sei. No entendo.
     -Mas ento se repor, no?
     -Mandam-no para casa hoje mesmo.
     -Ento quer dizer que no  grave -pinjente.
     Sentou-me fatal que dissesse ter chamado primeiro ao Alan, que  um alcolico, divorciado duas vezes, drogado e sem emprego, e minha me vai e o chama primeiro
a ele. ia dar o enfarte.
     -Pode vir? Faz muito que no nos vemos, Rudelle.
     -Temo-me que no vou poder.
     -Poderia vir por Natal. Isto est precioso por essas datas. Lembra-te de quo bonito  isto em Natais? Esteve com Curtem, mas j faz muito.
     -No podemos. Curtem tem que trabalhar -pinjente, provavelmente sem mentir-. Bom, mame, tenho que te deixar agora. Chamarei-te logo.
     -Rudelle...
     -Tenho uma chamada em espera. Tenho que te deixar. Logo te chamo.
     Nada mais pendurar me perguntei se seguiria sendo to formosa como antes. Fazia quase cinco anos que no a via, desde minhas bodas. Quando falo com meus amigos nunca
refiro a ela como minha me, nem a chamo mame a no ser Felicia. E assim  como a chamam eles. "Que tal esto Felicia e o playboy?", pergunta-me s vezes Emma.
refere-se a um playboy ochentn, claro.
     August  suo. Minha me o conheceu em Genebra um ano antes de que meu pai se suicidase. Eram amantes. Estou quase segura.
     de vez em quando a minha me a d a veia de querer lombriga. Chama-me e me diz que faz muito que no nos vemos, que seria maravilhoso nos voltar para ver porque
joga muito de menos. Mas eu sou incapaz de lhe dizer o mesmo e de organizar uma visita. Eric me reprova isso. Acredita que se tiver problemas com minha me deveria
resolv-los. Mas sou incapaz de tomar nenhuma iniciativa neste sentido.
     Tenho uma imagem mental de meu aspecto naqueles momentos, feita um novelo no cho do corredor. Eric me ensinou a me visualizar quando temo me enjoar. E a
vezes funciona. Induz-me a fazer algo que dissipa a sensao de enjo.
     Levantei-me e fui ao quarto de banho. Mas, nada mais acender a luz, no pude dar um passo mais. Fiquei como petrificada junto aos ladrilhos. Tratei de me sobrepor
mas no pude. Apaguei a luz, retrocedi para o corredor, fui ao dormitrio e me sentei no bordo da cama.
     Seguia com o telefone na mo. Pulsei o nmero 2 da memria. A recepcionista do escritrio do Wingert me disse que Curtis estava reunido e que se queria
deixar uma mensagem.
     -No, obrigado -disse com uma voz que me era desconhecida. Desconectei e marquei outro nmero.
     Ouvir a voz da Emma atravs de sua secretria eletrnica me tranqilizou um pouco. Ao lhe falar com secretria eletrnica minha voz me soou quase normal.
     -Ol, sou eu. Acreditava que estaria em casa. Suponho que est no trabalho. No  nada importante -pinjente, quase lhe sussurrem porque acabavam de saltar-se me as lgrimas.
     Rudy, Rudy. Rudelle. dio esse nome.  um nome germnico que significa "famosa". Nasci na Alemanha. A meus pais gostava mais a Europa que a Amrica. Fiz-me
chamar Rudi desde menina. E fui Rudi Ou'Neill at que minha me se casou com o August e tubo que adotar seu sobrenome: Lacretelle. Rudelle Lacretelle. Na faculdade utilizei
o sobrenome de minha me, Surratt, e troquei Rudi pelo Rudy. Rudy Surratt. Eu gostava. Sentia-me cmoda com esse nome. Mas ao me casar Curtis me pediu que utilizasse
seu sobrenome. De modo que agora sou Rudy Lloyd. A Emma adora meu nome.
     Levantei-me da cama e marquei outro nmero. Respondeu a secretria eletrnica do Eric, que ficou a meia gravao.
     -Poderia verte hoje? -perguntei-lhe.
     -ocorreu algo, Rudy?
     -No, mas eu gostaria de verte, Eric. Em realidade sim ocorreu algo, mas no sei do que se trata.
     -Parece-te bem vir s quatro?
     -Obrigado, Eric, muito obrigado.
     -Os dois primeiros anos posteriores  morte de meu pai foram os piores. Vivemos na Austria, em um povo turstico, no sei por que. No lhe tinha contado isso
alguma vez? Meu irmo vivia conosco porque o tinham suspenso na escola preparatria no Rhode Island. E Claire e eu amos a um colgio de monjas do povo.
August estava quase sempre em casa mas ainda no se casou com minha me. Vivamos em um hotel. Isso j lhe tinha contado isso, no?
     -D igual.
     -J conhece essa parte. a de minha me. O do dia que a encontrei...
     -Conta-me o outra vez.
     -De acordo, voc o conto. Era no vero. Eu tinha doze anos e Claire quatorze. Alan, meu irmo, saa todos os dias, no sei aonde. A passear, dizia-nos. Meu
me no conseguia que ficasse em casa. Mas no podia fazer nada. No fazia mais que beber e dormir e, quando tomava no sei que pastilhas, era muito carinhosa, muito
doce. Eu a queria muito, Eric. Nunca hei sentido tanto dor por ningum desde aquele vero. Acredito que aps estive como embotada.
     Fiz uma pausa e fechei os olhos. Eric permaneceu em silncio aguardando a que prosseguisse. Voltava a representar-se me a cena, em branco e negro salvo pela
sangue.
     -Encontramo-la minha irm e eu; morta, pareceu-nos; nua nos ladrilhos brancos, com a banheira cheia de gua ensangentada. Corre, v pedir auxlio,
gritei a minha irm. Mas tinha que hav-lo notado por sua cara, semisonriente e obnubilada, como se se estivesse dormitada. E saiu de casa tal qual. Encontrou-a
no sei quem e a trouxe para casa ao dia seguinte. Que ia em bicicleta, disseram-nos.
     -Rudy... -disse Eric.
     -J o superei. No lhe tinha contado isso antes, verdade? Que estive junto a minha me eu sozinha durante horas. Estava quase to branca como os ladrilhos do quarto
de banho. E fria, parecia de borracha. Acreditei que se a deixava morreria. Tinha um hematoma na cara, pois se tinha cansado. Mas o sangue, gotas como moedas, era sangue
menstrual. Porque utilizou plulas e no uma cuchilla. Pastilhas e vodca.  que no sabia? Como ia ou seja quem a encontraria! Suas filhas, suas meninas. OH, mame.
Eu a abraava, pensando que tnhamos investido os papis; minha menina agonizava e eu no podia fazer nada.
     Me quebrava a voz. Eric tomou as mos e me apertou isso at que deixei de soluar.
     -Estou bem -disse-lhe-. Estou bem. De verdade.
     Quando me tive tranqilizado, contei-lhe o da chamada de minha me daquela manh.
     -E assim  como me ocorreu.  curioso. Passam anos e crie hav-lo superado. Mas no.  que no se supera alguma vez?
     -No acredito.
     -Temia-me isso -pinjente.
     -Mas no tem por que ser sempre to doloroso.
     -E como se consegue? Duvido que seja com o passado do tempo, porque aconteceram trinta anos. Trinta anos, Eric...
     -E?
     Sorri-lhe como para que acreditasse que brincava.
     - que jamais conseguirei me sobrepor?
     No contava com que me respondesse porque  a classe de pergunta que est acostumado a ignorar. Mas estava claro que o tinha assustado. Por uma vez, quando tomou as
mos e me apertou isso, sua cara no refletia serenidade.
     -Acredito que j o conseguiste -disse-me muito srio-. No te veria se no acreditasse.
     -No me veria? -exclamei me esfregando os braos. Porque me tinha ficado geada.
     -Quero dizer que no seguiria com seu tratamento se no acreditasse que foste superar o.
     Mas a verdade  que estou pior agora que quando comeamos. Eric quer que provemos com a terapia matrimonial. Hei-lhe dito que isso  impossvel, mas finge
ouvir chover. No o entende. Curtem no me acompanharia nunca  consulta. Embora me estivesse morrendo e pudesse me salvar a vida no iria  consulta de um psiclogo.
     -Bom, tenho que ir  -pinjente, embora faltavam dez minutos para que terminasse a sesso-. Curtem me h dito que possivelmente chegue esta noite cedo a casa e gosta
me encontrar ali.
     Eric guardou silncio. Apertou os lbios e nos despedimos.
Captulo 11
Emma
     "Isto no  coisa de mulheres." Cheguei a diz-lo, e com a boca grande. Embora, certamente, tive minhas razes. Cortar camares-rosa pode a qualquer, e passar-se vinte e cinco
minutos inclinada sobre a pia, sem mais companhia que a rdio, poderia levar a Patricia Ireland, ou a quem quer que seja nestes tempos, a dar-se  bebida.
Entretanto, sou feminista. Forma parte de minha identidade, de minha personalidade, encaixa no aspecto de uma irlandesa, agnstica e democrata tresnoitada. Uma solteirona.
Teoricamente estou por cima de acreditar que a excessiva dedicao a cortar camares-rosa, mas e ervilhas s merece a pena se os homens forem dever jantar.
     Ah, mas adoro a meus gueeerrls. Estava pensando em escocs, porque acabava de escutar a entrevista que lhe tinham feito na NPR a um tal Lonnie MAC no-sei-o que,
que tem escrito uma novela "de iniciao  experincia", com muitas pretenses, e o tratam como se fosse a encarnao do Segundo Advento. Mas no 
inveja, no. Absolutamente. Apaguei a rdio com o canto da mo e comecei a cortar outro monto de camares-rosa.
     A verdade  que tomo tantas molstias quando me toca cozinhar para o grupo como quando vm para casa matrimnios amigos. E muitssimas mais molstias que
pelos homens em geral, que podem dar-se por satisfeitos com que lhes prepare o caf pela manh antes de empurr-los a que se larguem quanto antes pela porta
(educadamente, isso sim, porque sou educada). Mas eu adoro cozinhar para meus gueeerrls. Trs de ns rivalizamos para ser a melhor segunda chef (porque para
a primeira no h nada a fazer, posto que Isabel  inacessvel a nosso talento culinrio), e os camares-rosa ao curry com ervilhas e mas  um prato dos
difceis. Alm disso tenho feito um bolo. Tenho-o feito eu de verdade. Inclusive tenho escrito em cima com nata: "2 Aniversrio das Quatro Obrigado." Esse  o tempo que
levamos, dois anos far este ms, desde que Isabel se notou o vulto no peito. Dizem que uma no comea a tranqilizar-se at que transcorreram cinco anos.
Mas, em que pese a isso, segue sendo um bom aniversrio e o celebramos de verdade.
     As sete e quinze. Rudy se atrasava. Tinha-lhe pedido que viesse s sete, porque sou tola. Conhecendo-a tinha que lhe haver dito que viesse s seis
e meia.
     Terminei de cortar os camares-rosa e me joguei sabo nas mos, me perguntando por que h tantas pessoas incapazes de tirar o aroma de pescado das mos sem
pensar na Susan Sarandon. No serviria de ideia para algo...? Ter que ver como penetra em nossa vida cotidiana a iconografia cinematogrfica americana. Algum promotor
listillo poderia interessar-se se for capaz de lhe jogar bastante sarcasmo.  minha especialidade. Deve haver centenares de exemplos -indelveis conexes psquicas
entre, ponhamos, assobiar e Lauren Bacall; os triciclos e os extraterrestres. Pergunta: por que se sente uma sexy quando for a um tipazo em um semeado? Resposta:
Harrison Ford, no Witness. De acordo, triste exemplo, mas contudo, deve haver centenares.
     -Stinks -disse-me.
     Muito bvio. No estende. E uma vez dito, dito est. E esse  precisamente o problema de noventa por cento de minhas idias para as novelas. em que pese a isso
rabisquei :
     "Sarandon/limones/ culto" na folha fixada  porta do frigorfico com um m. Porque nunca se sabe.
     Soou o timbre da porta. Acendi a luz do alpendre e vi o Rudy com o resplendor. Estava muito atrativa com seu comprido echarpe negro -o mesmo em que envolveu
a Graa faz oito anos no bulevar MacArthur-. Ainda sigo com vontades de comprar um. Sua expresso era abstrada antes de lombriga atravs do cristal da janela.
Ento me dirigiu um sorriso radiante e alegre. Abri a porta e entraram Rudy, uma rajada de vento gelado, cashemere, perfume Y... gasolina?
     -No lhe vais acreditar isso. Fiquei-me sem gasolina em plena rua Dezesseis e ningum se parou, ningum me ajudou. tive que ir at o Euclid para voltar
com uma lata.
     -Pois v brincadeira! -exclamei. A desculpa era das melhores.
     Rudy  de uma impontualidade crnica e no lhe d a menor importncia. Nem se molesta em desculpar-se.
     -Mas  algo que alguma vez entendi com certo acanhamento-. Como  possvel ficar sem gasolina?  que no olha a ver como est de gasolina quando
arranca?
     Rudy ignorou a pergunta e ps-se a rir.
     -Est preciosa! -exclamou-. foste ao cabeleireiro, verdade?
     No sou muito efusiva ou, pelo menos, isso me dizem elas. Mas a abracei, embora temendo esmagar o que levasse na bolsa de papel que levava.
     -Sim -pinjente-. J me tocava. No me deixaram isso muito curto, verdade? v ver meu novo armrio roupeiro.  um presente de Natal. E vem a cozinha, que tomaremos
algo.
     Tirei taas, abri uma garrafa de vinho e enchi uma terrina com amendoins enquanto Rudy rondava pelo apartamento, procurando coisas novas da ltima vez
que esteve em casa.
     -Penduraste-o -exclamou assinalando o "colage de cozinha" que me tinha feito para Natal-.  um bom stio a junto  porta.
     -eu adoro.
     Disse-o sinceramente. Parece-me uma obra professora: uma montagem de peas de bateria de cozinha uso anos cinqenta que formam uma cara, com colherinhas por olhos
e uma mo de morteiro por nariz. No sei como descrev-lo. Ter que v-lo para apreci-lo. Mas me criem, no se pode evitar rir ao v-lo. Rudy poderia ganh-la vida
perfeitamente fazendo estas coisas.
     -No posso evitar que eu goste tanto ser de verdade proprietria de uma casa -disse-lhe lhe passando uma taa de merlot, que  o que mais gosta-. Me cheia de uma repelente
satisfao pequeoburguesa.
     vivi em bairros melhores (Georgetown, Foggy Bottom, Woddley Park) mas no eram apartamentos de propriedade, ou seja que no contam. Meu casaro do centro de
a cidade, de princpios de sculo, no  uma maravilha, especialmente por fora, e o bairro  dos que chamam "conflitivos", com o que querem dizer que no
ter que ser to imbecil para sair de noite sem um rottweiler bem treinado. Mas  meu.
     -Pelos Sloan -brindei.
     -Pelos Sloan.
     Bebemos  sade dos antigos proprietrios, que restauraram a casa quando estava a ponto de vir-se abaixo e logo partiram, ao ficar a esposa grvida
e decidir criar a seu filho em uma zona residencial.
     -Sua psicose me veio de prolas. Inclusive comeam a me gostar das grades das janelas.
     -Claro -disse Rudy-. O ferro forjado  precioso. Tudo consiste em separar a forma da funo.
     -E em no ficar histrica.
     -Ah, amiga... Voc escolheu viver em nossa preciosa e histrica capital da nao.
     -s vezes ter que arriscar-se.
     Voltamos a brindar.
     -Bom -pinjente me sentando na cantoneira e fazendo sitio ao Rudy-. Como foi com o Greenburg? -perguntei. s vezes se adivinha quando foi a ver seu psiclogo,
porque tem os olhos inchados e avermelhados. Mas aquela noite no-. No te tocava hoje ir a sua consulta?
     -Sim -reps Rudy, e tirou dois Winston de um pacote e me ofereceu um-. foi bem. falamos que meu pai. E isso sempre provoca tenso. Segundo Eric no importa
pensar que pde no haver-se suicidado.
     -Que pde no haver-se suicidado? Mas o fez, no? Isso  o que sempre me contaste. Fez-o ou no o fez?
     -S digo que cabe a possibilidade de que no o fizesse. Ningum sabe. Para minha famlia est claro que o fez, mas tambm  possvel que simplesmente se embebedasse
e casse do navio.
     No s era sua famlia a que acreditava que se havia suicidado. Tambm acreditvamos no grupo. Nos tinha contado isso fazia anos, e o tenho to vivo na memria
como a cena de um vdeo caseiro. Aconteceu no lago de Como, faz trinta anos, quando Rudy tinha onze. Posso ver o cu azul, o veleiro branco e a suave luz
marfilea da anoitecida. O pai do Rudy, Alan Aubrey Ou'Neill, leva umas calas brancas folgadas e um pulver branco tambm. Vai descalo e fuma Camel. Se
parece com o Joseph Cotten. Apura o vodca que fica em uma cigarreira com capa de pele. Se sujeita ao castial e se apa. As gaivotas planejam e se lanam em picado.
Escuta durante uns momentos seus speros gritos e aspira por ltima vez a brisa. Logo salta e se mergulha no frio azul do lago.
     A termina o vdeo. No o vejo chapinhar nem boquear, nem tampouco afundar-se; nem trato de imaginar seu pnico nem seus horripilantes ltimos pensamentos. Simplesmente,
o arrumado e aristocrtico pai do Rudy se tirou de no meio.
     - possvel, claro -disse quedamente-. Bebia muito, no?
     -OH, Deus...
     -Sim. De modo que... por que no? -exclamei-. Tem razo em que pde cair pela amurada. Em cujo caso todo trocaria. OH, Rudy -acrescentei comeando a me fazer uma
idia do que isso poderia significar para ela-. Ou seja que no se suicid. Ou, pelo menos,  possvel que no se suicidase. E seria uma boa notcia, porque se s
foi que se embebedou e no...
     - verdade que bebia. Mas tambm que era um manaco depressivo. No significa que no estivesse louco, Emma.
     -J sei. Mas mesmo assim...
     - s algo que d que pensar. Isso  tudo.
     -Sim.
     -No  o importante.
     -De acordo -pinjente. E optei pelo humor para estacionar o tema-. Arrumado a que Greenburg consegue publicar mais artigos nas revistas especializadas obrigado
a sua famlia que ao resto de seus pacientes.
     Rudy sorriu e jogou a cabea para trs para exalar a fumaa para o teto.
     -Bom -disse com um tmido sorriso-. Acreditava estar preparada para confiar em uma coisa assim, mas parece que no. Pelo menos no sou capaz de verbalizarlo ante
outros.
     -Eu no sou outros.
     Rudy tem uns bonitos olhos cinzas, como estavam acostumados a dizer nos livros sobre amas de chaves inglesas. Reparei em seu tenro olhar.
     -No, certamente. -Deixou a taa na mesa e acrescentou-: Enfim... Oxal seja certo que agarrou um porre, caiu ao lago e se afogou. Porque assim s teria que
me preocupar com minha predisposio gentica ao lcool, a depresso, a dependente de drogas e a esquizofrenia paranoide. Mas no ao suicdio.
     No mencionamos a sua me e pomos-se a rir, no porque nos fizesse graa mas sim porque era parte de nosso repertrio teraputico, e to vital para nossa
relao como as palavras de nimo, ou mais. Com aquilo esgotamos o tema da morte do pai do Rudy. Resolvido.
     Servimo-nos mais vinho e pensei que devia me levantar e comear a cortar cebolas. Porque L, Isabel e a nova (Sharon) chegariam de um momento a outro. Mas estava
muito a gosto ali sentada na cozinha com o Rudy, fumando, bebendo e falando da vida; e, como diz um anncio de cerveja, era provavelmente o melhor do
mundo.
     -Eu tive um dia horrvel -disse em tom corajoso. E lhe contei que estava entupida com um artigo para o Washingtonian, que no tinha pinta de poder terminar
antes da segunda-feira, que era a data tope.
     Rudy me animou e me disse que queria estudar paisagismo. Eram dois anos, e o curso comeava na primavera. O ttulo podia lhe abrir a porta de alguma oficina de
arquitetura, ou lhe permitir estabelecer-se por sua conta com uma empresa de jardinagem. Estava entusiasmada com o projeto, embora logo disse que no era mais que uma
idia, que o mais provvel era que no o fizesse porque dois anos era muito tempo.
     -Ah, mas poderia ser estupendo. Porque a ti isso gosta de muito. E o faria fenomenal. Paisagismo? voc adora trabalhar no jardim e voc adora desenhar. 
perfeito para ti.
     -No sei, no sei... Duvido que tenha tempo. Ter que lhe dedicar todo o dia e muito a fundo. Duvido que...
     Rudy cruzou os tornozelos e deixou deslizar sua estilizada figura pelo respaldo da cantoneira. O que de verdade tivesse sido perfeito para o Rudy era ser modelo.
     -O mais provvel  que no me dita -acrescentou-. Nem sequer o falamos.
     O plural se referia a Curtem, claro. Mas j tinha aprendido a me morder a lngua para no fazer nenhum comentrio que pudesse zang-la.
     -Que tal est Curtis, por certo? -disse em meu tom mais desenvolto.
     -Bem -respondeu olhando a brasa do cigarro-. H-me dito que te sade.
     No faltava mais. Curtis me adora. No te digo!
     -Sada-o voc tambm de minha parte -correspondi com fingida amabilidade. Logo me levantei disposta a cortar cebolas.
     J fazia muito tempo que aprendi que, por isso ao tema de seu marido se refere, o nico modo de conservar a amizade com o Rudy  sorrir, mentir e morder-se
a lngua. dio esta espcie de acordo tcito. Detesto a hipocrisia e a falta de franqueza, mas me atengo ao acordo como se de um voto sagrado se tratasse. O que
alternativa tenho? Fao-o pelo Rudy. Mas no o faria por ningum mais.
     Ouvi-a levantar-se da cantoneira.
     -Bom, Emma, me conte. Que novidades h no fronte Draco?
     Fiquei de pedra. Desde no ser porque minha faca no tem fio me teria fatiado um dedo. Tive que baixar a cabea para que Rudy no visse que me tinha ruborizado.
Jo! Isto  mais srio do que pensava. E no que tampouco tinha cansado era em que ansiava falar dele.
     em que pese a tudo, no perdi a compostura.
     -Pouca coisa. Voltamos a tomar caf juntos na sexta-feira. Ou na quinta-feira. No, na sexta-feira. Na mesma tasca do outro dia, frente a seu estudo. Falar e nada mais.
     -Falar.
     -Sim, de todo um pouco. Seu filho, meu trabalho, sua pintura.
     -Sua esposa.
     -No, absolutamente.
     J faz trs meses que o conheci. Trs meses. Uma tortura. Estou acostumada a que os homens me atormentem, mas no assim. Chamamo-nos por telefone e dizemos
algo assim como "tive que fazer uma gesto por seu bairro. Quer que tomemos caf?", se for eu quem o chama, ou "Acabo de aprender a fazer litografias. Quer
as ver?", se for ele quem me chama. E como a nenhum dos dois ns gostamos de muito o caf, e eu nem sequer estou muito segura de saber o que  uma litografia, no
 exagerado dizer que no so mais que subterfgios, embora inocentes, insoportablemente inocentes.  como uma agonia.
     Rudy se inclinou com os cotovelos no suporte. Seu Acqua dava Gi acrescentava um toque de distino ao aroma de cebola.
     -Bom, o que ocorre? Anda, me ponha  corrente.
     -Nada. Nada trocou; s que nos vemos de vez em quando e conversamos. Somos amigos. Isso  tudo.
     Deixei a faca a um lado e vi que olhava aos olhos.
     -OH, Rudy -exclamei-. vou voltar me louca.
     Ela me sorriu com expresso solidria.
     -Pobre Emma -disse.
     -No posso suport-lo. Nem sequer temos feito manitas. Mas estou penetrada, de tudo, e acredito que ele tambm, embora duvide que me diga isso nunca. E nada pode trocar.
Nada poder trocar nunca.
     -minha me, como est! -exclamou Rudy com cara de preocupao. Ao me rodear a cintura com o brao senti o estpido impulso de me jogar a chorar e me apartei.
     -Estou bem -menti.
     No sabia se me desafogar de tudo (embora a verdade  que no havia nada que dizer) ou me reservar isso O que em realidade preferia era conseguir me esquecer dele
e comentar-lhe depois ao Rudy; dizer: "No lhe vais acreditar isso mas estava coladsima pelo tal Mick. Lembra-te dele?"
     -Se te faz sofrer possivelmente seria melhor que deixasse de v-lo -disse Rudy.
     -No me faz sofrer. Pelo menos no sempre -pinjente porque era certo que o sofrimento alternava com a euforia-. Sei que tenho que deixar de v-lo. Mas L d uma
festa e convida ao Mick e  encantada Sally. J vo duas vezes que os convida...
     -Pois tem que lhe contar a L quem  Mick.
     -No posso faz-lo.  muito tarde. aguardei muito. De modo que embora trate de no v-lo, tenho que v-lo. Acredito que vou perder a cabea. E ele ...
     Bateram na porta.
     -Mierda -dissemos ao unssono.
     -No importa. Estou bem, de verdade. J lhe acabarei isso de contar logo. Escuta -pinjente retrocedendo para o vestbulo-, no diga nada, nem seu nome nem nada,
j sabe...
     Rudy ps cara de sentir-se insultada. Isso me provocou uma risada nervosa e voltar a me ruborizar.
     -No importa... Estou como uma cabra, Rudy. OH, Meu deus.
     O caos preside os primeiros vinte minutos de toda reunio de mulheres, enquanto se abraam, beijam-se, servem-se vinho e tratam de encontrar uma tabela de cozinha,
uma faca, disputam-se a pia, inteiram-se das novidades que conta cada uma -tudo ao mesmo tempo e tudo, salvo no caso de L, em cozinhas do tamanho
de um quarto de banho grande.
     -Tem-te feito um penteado precioso, Emma.
     -Este queijo  muito bom.  brie?
     -Posso tomar banho ?Venho de classe de bal.
     -Isabel, ponha o arroz no microondas, quer? Necessito todos os foges. E que ningum me fale enquanto preparo os camares-rosa, necessito cinco minutos de quietude
e concentrao.
     -Ora... No me experiente.
     - muito mandona quando cozinha.
     Tudo isto eu adoro. Cozinhar algo apetitoso para meus amigas, escutar suas brincadeiras e rir com elas; lhes perguntar que tal esto, contribuir alguma "bomba" por mim
colheita de vez em quando.  quando melhor o passo. Veio, queijo e nossos bate-papos. Se pudesse incluir o sexo em tudo isto o teria tudo.
     Soou o telefone.
     -Pode responder algum? -pinjente, porque estava no momento crtico da preparao do molho de nata de leite e mostarda, que  muito delicada.
     ficou L.
     -Sim?... Ah, ol, Sharon. No; sou L. No? Pois sim que o sinto.
     -Sabia -murmurou Rudy.
     -No me caiu muito bem -pinjente. L me olhou com cara de poucos amigos e se levou o telefone ao salo-. No. Primeiro se depila as sobrancelhas e logo se as pinta.
No te digo!
     -Mas lhe revistam durar mais de duas reunies. Todo um recorde.
     L retornou junto a ns com cara de circunstncias.
     -Outra que remi o p -disse sentando-se em um tamborete-. O que lhes fazemos? -acrescentou com fingido abatimento. Rudy e eu pomos-se a rir-. Digo-o a srio.
 terceira em... quanto tempo?
     -Uns dois anos.
     -Bom, j sabia eu que no ia durar.
     -E eu -secundou-me Rudy.
     -H-te dito por que no vai vir? -perguntou Isabel.
     -Porque no tem tempo.
     -J.
     -Ah, eu-dijo Rudy-. E que mais h dito?
     -Nada. S que esperava que tratssemos os temas mais a fundo.
     -Temas? Por favor... -exclamei com desdm-. As mulheres no trabalho. O posfeminismo em uma poca de preliberacin. lhe dar autenticidade  vida. Fazer compatvel
o trabalho e a famlia em um...
     -No lhe h dito que j faz anos que deixamos de tratar temas sistematicamente? -interrompeu Isabel.
     -Sim, mas...
     -Temas -disse Rudy-. Falar de temas concretos  o que fazem as pessoas quando no se conhecem bem.
     -Falar de temas concretos  o que gosta aos homens -pinjente.
     L meneou a cabea e nos olhou com cara de decepo.
     -Suponho que tem que ser difcil para qualquer integrar-se em um grupo como o nosso -disse Isabel.
     Sharon tinha sido um dos descobrimentos de L, e Isabel no queria que se sentisse mau.
     -Formamos um grupo muito slido -prosseguiu Isabel-.  inevitvel que toda recm chegada se sinta como uma estranha, por melhor que a acolhamos.
     -Pois... no vejo por que -pinjente, em que pese a ser consciente de que Isabel tinha razo. Em realidade queria que segussemos comentando-o-. No acredito que seja porque somos
aborrecidas, verdade? -acrescentei olhando ao Rudy-. Lembram-lhes da calva? Daquela espcie de punky de mdia idade. Como se chamava?
     -Moira, e era simptica -disse Rudy  defensiva, porque foi ela quem a convidou a formar parte do grupo.
     -No hei dito que no fosse. Hei dito que era calva, como uma bola de bilhar.
     -Quanto faz que formamos o grupo? -perguntou Isabel para me atalhar.
     Cada quatro ou cinco reunies sempre h algum que o pergunta. L sabe a resposta e todas reagimos com expresso de incredulidade.
     -Em junho far dez anos -respondeu L.
     -Dez anos!
     -meu deus!
     -Quem ia dizer o!
     -Por ns! -disse Rudy levantando sua taa.
     -Por ns -brindamos todas.
     Enquanto bebamos pensei duas coisas: Que afortunadas somos! E oxal dure sempre.
     -Bom... amanh faro ao Henry a terceira anlise de esperma -disse L-. at agora no resultou nada... consistente. A ver se esta vez sim.
     -Que seu esperma no  consistente? Ah, pois se no ser consistente eu no gosto -pinjente rendo.
     -Refiro aos resultados. Depois do primeiro disseram que tinha poucos espermatozides; e depois do segundo que era normal. A morfologia resultou normal
no segundo, mas anormal no primeiro. E em ambas as provas a motilidad foi do grau II, que significa lenta e sinuosa.
     -A que se referem com a morfologia? -perguntou Rudy.
     - forma dos espermatozides. Se o espermatozide for muito irregular, poderia no encaixar no acrosoma, que  o pacote de enzimas de um extremo
que o ajuda a penetrar pela capa do vulo.
     -Vale, que estou comendo -disse por alegrar o tema. As batalhas de L contra a infertilidade faz j dois anos que duram, quase a metade do tempo que leva
casada, e comeam a obcec-la.
     Estou to acostumada a que ela seja a alegre, a equilibrada e a competente do grupo que me faz costa acima v-la instar e perder sempre. H pessoas
que se saem sempre com a seu de um modo quase insultante, e uma no pode evitar certo comicho de satisfao quando algo lhes torce. Pelo menos isso
acontece comigo. Mas no com L. Tem um trabalho fabuloso, muito dinheiro, um cu de marido que a adora. Faz quase dez anos que a conheo e em minha opinio merece
tudo o que tem. Eu no gosto de v-la decepcionada. Nunca.  mais, di-me.
     Faz um par de reunies, durante seus "quinze minutos" disse-nos com lgrimas nos olhos o muito que desejava ter um filho. Isso  tudo, mas no pude suport-lo.
Tive que me levantar e ir  cozinha. No podia olh-la.
     -Bom... Pelo menos depois da anlise de amanh sabero algo mais -disse Isabel-. O pior  sempre a incerteza.
     -Certamente -assentiu L, e se jogou o cabelo para trs com os dedos. Uma mudana de tema a cargo da linguagem corporal.
     L logo que chega ao metro sessenta,  mida e delicada, mas nada frgil. Joga a golfe e tnis, nada, dana -atividades fsicas da classe alta- e o faz
tudo bem. Uma noite, depois de me haver passado um pouco com os gim-tonics a desafiei a que jogssemos um pulso. E me esmagou o punho contra a mesa quase sem me inteirar.
     -Bom, eu j estou -disse ela risonha-. Agora toca a ti, Rudy.
     -Isso  tudo? Que o trabalho vai bem, que seus pais lhe envenenam e que ao Henry fazem uma anlise de esperma amanh?
     -Pois sim, isso  tudo -reps L sorridente-. Ou seja que assim tem vinte minutos e estou segura de que os utilizar.
     Rudy se ps-se a rir.
     -De acordo. Vero, ultimamente -disse Rudy inclinando-se para L e lhe tocando a mo- Curtis e eu estivemos pensando...
     -Porque decidimos que possivelmente tenha chegado o momento de que vamos por um filho.
     Rudy o disse olhando a L mas no a mim. Uni s surpreendidas exclamaes de bons desejos, mas por dentro fiquei geada. Enquanto no tivessem filhos,
a inevitvel ruptura de seu matrimnio s faria mal a duas pessoas, e s me importava uma delas. OH, no, um filho no. Do outro lado da mesa Isabel
dirigiu-me uma velada olhar. Estava pensando quo mesmo eu. Sua opinio sobre o Curtis Lloyd  mais suave e gentil que a minha, mas quando a pressiono convimos
no essencial:  um imbecil.
     -Dei-lhe muitas voltas antes de me decidir a lhes dizer isso estava-lhe dizendo Rudy a L-, mas me pareceu pior lhe ocultar isso como se no te acreditasse capaz
de digeri-lo...
     -O que vai! Me alegro de que me haja isso dito. E me alegro muitssimo por ti, Rudy.
     -Mas logo me hei dito: E se fico grvida? Como vou ocultar se o ento?
     puseram-se a rir e comearam a brincar dizendo que podia dar ao menino em adoo a uma famlia cigana para que o criasse em segredo. No estava segura de se
L fingia ou no. Mas se algum em sua situao podia alegrar-se de que Rudy pudesse ter um filho era L. Por outro lado, L  humano e o momento no parecia
muito oportuno. Se Rudy ficar grvida  inevitvel que a L-lhe aduela pensar que ela no possa.
     Levantei-me por mais po e quando retornei Rudy estava falando de seu projeto de estudar paisagismo. Eu no abri a boca e deixei que L e Isabel a animassem a
faz-lo. Mas acredito que no o vai fazer. O ano passado se entusiasmou com um trabalho de assessoria de uma sociedade dedicada  compra de obras de arte, para uma de
as grandes empresas da cidade, no sei se era uma imobiliria ou uma empresa de gesto de franquias. No o recordo. Seria um milagre que o conseguisse porque
abandonou a carreira de belas artes quando o nico que lhe faltava para acabar era sua tese de licenciatura. Mas era bom v-la interessar-se por tudo, e por isso
animamo-la a que o fizesse. Ao final nem sequer o tentou. No chegou a enviar o curriculum. OH, Rudy, por que no?, perguntamo-lhe. Porque a teria obrigado
a viajar muito. E bem? Porque Curtem no queria.
     No posso suportar a esse retorcido paranico.
     Quando me tocou falar lhes contei uma histria bastante divertida a respeito de uma entrevista s cegas que tive em Vspera de ano novo (que, me criem, no foi absolutamente divertida
enquanto a tive). L riu de to boa vontade que teve que tirar uns kleenex para limp-las lgrimas.
     -OH, Emma, isso no tem preo -exclamou-, onde encontra a esses homens?
     -Sou como um m de ligue. Me pegam como soldas de chumbo. No sabem a sorte que tm vocs. Enfim... j contei o meu. Agora toca a
Isabel. No tenho mais que contar, salvo que tenho que entregar na segunda-feira minha colaborao ao Washingtonian. Assim j est. Vamos, Isabel...
     -Um momento. No to depressa -atalhou-me L-. E o desse casado? No h novidades?
     Faz um par de semanas, em um momento tolo, cometi o engano de lhe falar do Mick a L e Isabel. Mas no mencionei seu nome nem lhes dava detalhes que pudessem
identific-lo. S os pinjente que via de vez em quando a um homem casado, e que no tnhamos relaes mas que estava comeando a me voltar louca por ele. Isto trivializa
meus sentimentos mas supus que o grupo me conhece o bastante bem para decifrar meus cdigos autodefensivos. O caso  que me justifiquei, no pude evitar me desafogar.
Mas no me contribuiu nenhum alvio nem satisfao j que no podia entrar em detalhes acidentados. L vai a classe de bal com a Sally e Henry est intimando com o Mick.
De modo que se formou uma boa confuso, ou melhor dizendo me formei isso eu. De modo que os pinjente que "era algum de meu trabalho", algo que ter que reconhecer  em
certo modo verdade.
     -Ou seja que no -pinjente-, nada novo no caso do homem casado.
     -deixaste que v-lo?
     -Encontro-me isso de vez em quando. E s falamos.
     -Significa que ainda segue interessada por ele?
     -Olhe...  algo impossvel -pinjente sorridente. Encolhi-me de ombros e brinquei com os talheres.
     L captou o trasfondo.
     -De acordo -disse-. Porque ultimamente no falava dele. Mas est bem, no, Emma?
     -claro que sim. Estou perfeitamente. Se no falar dele  porque no h nada que dizer.
     -De acordo.
     -De acordo -pinjente rendo. Rudy me dirigiu um olhar srio mas a ignorei-. E bom, Isabel, que tal vo as classes?
     -Estupendamente. Puseram-me um notvel no exame final sobre problemtica familiar.
     Vivas e palmadas na mesa. Isabel terminar por acabar a carreira de cincias sociais.
     -Alm disto...
     Aguardamos espectadores, mas Isabel se limitou a menear a cabea e sorrir. Parecia especialmente sossegada aquela noite. Notei-o. Olhei-a com maior parada.
Cada vez me d a impresso de estar mais jovem e bonita. Durante a poca em que lhe estiveram aplicando quimioterapia lhe caiu bastante o cabelo, mas j o
tinha muito grisalho. Entretanto, ao voltar a crescer lhe saiu mais suave e vioso, como o de uma jovencita. E fica bem, no resulta incongruente ou muito
juvenil, porque em seu sereno rosto logo que h rugas. No obstante, no d a impresso de placidez mas sim de serenidade. Sua natural quietude me recorda mais ao dos
Santos medievais que aos estudantes de cincias sociais. Mas o certo  que no recorda a ningum. Porque Isabel  nica.
     -De verdade no tem nada novo que contar? -urgiu-a L.
     -Pois no. Apenas nada.
     -E seu vizinho? E no tinha que ir ao mdico?
     -pensei no Gary -disse Isabel-. Ou, mais exatamente estive pensando na infidelidade e o perdo. Na infidelidade sexual, no distinta que  nos
homens e nas mulheres. Para ns  imperdovel. Para eles... no significa nada.
     -No para todos os homens -corrigiu-a L.
     -No.
     Disse-o com tal suavidade, e lhe tocou o brao a L com tal delicadeza que, ao reparar no enorme afeto que se tinham, senti cimes.
     - verdade. No para todos os homens -reconheceu apoiando o queixo nas mos entrelaadas-. pensei no Gary ultimamente -repetiu- e lhes contarei algo aproxima
de sua ltima noiva.
     -Refere a Betty Cunnilefski? -perguntamos com uma risita, como sempre que saa a colao o nome da Betty.
     -No. Betty foi a primeira. Ou pelo menos a primeira de que me inteirei. Houve outras.
     -Outras? Em plural, Isabel? -exclamei olhando ao Rudy, que parecia to surpreendida como eu. L guardou silncio porque j devia sab-lo.
     -E por que no nos contaste isso antes? -exclamou Rudy me lendo o pensamento.
     - que... -reps Isabel encolhendo-se de ombros com expresso de impotncia-. Porque no lhes queria dizer isso... at agora.
     -Resultava-te embaraoso? -teorizou Rudy.
     -No... Ou possivelmente sim. Em parte. No  fcil reconhecer ter querido a um homem que te foi infiel durante os vinte e dois anos que viveste com ele.
     -Sim, mas...
     -Acredito que tive que aguardar ser capaz de perdo-lo para poder lhes contar isso.
     -Perdo-lo? Perdoar a esse bode? Olhe, Isabel, j se passou com aquela zorra cunnilingual. Por quantas mais ter que perdo-lo?
     Eu destrambelhava interiormente contra Gary mas tambm estava furiosa com a Isabel, por nos haver oculto aquele pequeno detalhe a respeito de sua vida. E ela o notou.
Alargou a mo para mim do outro lado da mesa.
     -Era um assunto muito desagradvel. No teria servido de nada cont-lo antes. S me teria produzido mais amargura.
     -Vamos, mulher!
     -De verdade no te d conta de que no me teria ajudado em nada? Teria acentuado meu rancor.
     -J. esperaste at conseguir o equilbrio; o equilbrio csmico. No faz falta que diga mais.
     Isabel me dirigiu um olhar pormenorizado.
     -No te zangue. Cada coisa tem seu momento. E ainda no tinha chegado o momento adequado para lhes contar isso tudo a respeito do Gary e de mim. Agora  distinto.
     -Muito bem -pinjente sorridente. No ia zangar me com ela e optei por no lhe replicar que para contar-lhe a L sim que lhe tinha parecido que era o momento, fazia
muito tempo. Mas dizer-lhe assim teria sido tanto como reconhecer um cimes infantis, um de meus enguios de carter que prefiro no pr muito em evidncia.
     Rudy interveio para romper a embaraosa pausa que se produziu.
     -E que tal essa ltima zorrita, Isabel?
     -chamava-se Norma e no era precisamente uma zorrita. Era contvel, outra das conquistas do Gary no escritrio. depois do da Betty sempre notava quando
estava deitando-se com outra.
     No pude me calar.
     -Por Deus, Isabel! A quantas se atirou?
     Gary Kurtz? Parecia-me inimaginvel.  dessa classe de tipos achaparrados de mdia idade, barbudo, uma espcie de Papai Noel mas sem a cordialidade que aquele
irradia. Um chupatintas que trabalha em um organismo do Departamento de Comrcio, realizando uma tarefa to cinza que nem sequer recordo o que .
     -No sei -respondeu Isabel, e me olhou com as sobrancelhas arqueadas e uma expresso severo, pouco habitual nela-. S sei que a ltima no ia deix-lo. De modo
que fui ver a.
     Todas afogamos uma exclamao de surpresa.
     -Srio?
     -foste ver a?
     -Procurei seu nmero de telefone na guia: Normatiza Stottlemeyer. Vive em um apartamento no Colesville Road.
     -E como sabia seu sobrenome?
     -Disse-me isso Gary. Nunca negou nada. Isso devo reconhecer-lhe Nunca me mentiu.
     -Pois a mim isso parece ainda pior -disse L visivelmente indignada.
     -Um sbado pela manh, aproveitando que ele estava em casa lhe disse que ia ao Safeway. E fui no carro at o Silver Spring, um desses blocos ajardinados
que h junto  estrada no Colesville. Muitos meninos jogando no parque, brinquedos de plstico por toda parte. Horrorizei-me ao pensar que podia destroar
sua famlia. Mas tinha uma desculpa preparada se por acaso me abria a porta um homem, ou um menino: que arrecadava recursos para a leucemia.
     -Boa desculpa.
     -No de tudo. Porque no tinha nada que te identificasse -assinalou L, sempre prtica.
     -Bom, o caso  que foi ela quem abriu a porta. Levava um penhoar rosa de toalha. Mas j antes de entrar compreendi que vivia sozinha. No sei... em seguida
deu-me essa impresso.
     -Que idade tem?
     -Veintitantos; menos de trinta.
     -Mida cabrona! Que aspecto tinha?
     -Era cedo e a pilhei despreparada. Ainda no se tinha arrumado.
     Rudy e eu meneamos a cabea e nos olhamos com expresso de incredulidade. A melhor da Isabel tinha a delicadeza de justificar o aspecto da zorra que
estava-se atirando a seu marido.
     -Ou seja que  feia? -pinjente.
     -No, feia no. Mas no estava muito atrativa. No me pareceu nada sexy nem interessante. Muito corrente. Quando lhe disse quem era ficou branca. Acreditei que ia deprimir se.
     -Ou seja que no sabia, no?
     -Sim, sabia que ele estava casado, mas foi a surpresa de lombriga o que a desconcertou. Retrocedeu um pouco para me convidar a entrar e em seguida compreendi
que nossa conversao no ia degenerar em nenhum drama. No estava agressiva.
     -Ardilosa, a muito cerda.
     -Seu apartamento parecia mobiliado e decorado com trastes de segunda mo. Essa foi a impresso que me deu. Seguro que te teria inspirado para escrever algo
divertido, Emma -disse Isabel, e o interpretei como um completo-. Fez-me passar at a cozinha, no ao salo. ouvia-se msica procedente do apartamento contigo. Em
o suporte tinha um bol com sopa, pela metade. Ou seja que tinha tomado o caf da manh sopa. Feijes e beicon. -Sorriu do meio lado, com uma careta entre amarga e pensativa,
e prosseguiu-: Tinha um desses suportes de especiarias de seis frascos em cima da cozinha; frasquitos etiquetados. Comprava especiarias, jogava-as nos frasquitos
e lhes punha etiquetas: canela, pimenta, estrago em p, etc. S tinha seis.
     Isabel nos olhou entre compadecida e perplexa. Mas no sei o que lhe parecia mais pattico, o fato de que Norma etiquetasse as especiarias ou que s utilizasse seis.
     -E na porta do frigorfico havia uns gatinhos esmaltados e imantados. Tinham msica. Ao retroceder e tocar a porta lhe caiu um gato e ficou a cantar:
" o sol de minha vida."
     -Est-me matando, Isabel -pinjente morta de impacincia.
     -V o gro -apressou-a Rudy.
     -Como vi que ela no ia abordar o tema lhe disse que queria ver que classe de pessoa era; ou seja, a pura verdade, porque a isso exatamente tinha ido, a v-la,
a tratar de entender o que era o que Gary encontrava to atrativo. Mas ela o interpretou como uma recriminao e rompeu a chorar.
     -Ai, Deus.
     -E voc o que fez?
     -Pois chorar tambm. Srio. Demo-nos as costas, levamo-nos as mos  cara e choramos a muco tendido. Eu me limpei as lgrimas com um leno e
ela com um guardanapo de papel.
     -Que quadro! -exclamou Rudy, que teve que dominar-se para no rir.
     -E a partir desse momento perdi interesse na visita. Resultava uma inimizade to digna de lstima que no podia odi-la. Mas pela primeira vez senti desdm para
Gary. S um intenso desdm.
     -Gary  um porco -pinjente.
     -Norma deixou de chorar e disse que o sentia, que o sentia muito e que deixaria de v-lo. Perguntei-lhe se estava apaixonada por ele e me respondeu que sim. -Esboou
um sorriso e acrescentou-: Mas no acredito que seja verdade. E tambm acredito que ela se precaveu disso nesse momento. Disse-lhe que no me importava que o seguisse vendo
ou que deixasse de v-lo, porque eu o ia deixar. E que possivelmente ela deveria fazer o mesmo.
     -Muito bom -pinjente dando uma palmada.
     -Depois voltei para casa e disse ao Gary que tnhamos terminado. Meu nico engano foi que...
     -Deix-lo em lugar de jog-lo -adiantou-se L a terminar a frase que adivinhava. E todas assentimos.
     Aquele gesto to digno custou a Isabel ficar sem a casa no acordo de divrcio ao que chegaram. O porco do Gary segue vivendo ali, com o luxo prprio
das urbanizaes da zona; segue cortando a grama, enquanto Isabel tem que resignar-se a viver em um exguo apartamento de um s dormitrio em uma srdida
rua do Adams-Morgan.
     Isabel contraiu cncer de mama dois anos depois de deixar ao Gary, que demonstrou a classe de pessoa que  tentando deix-la sem sua aplice da Segurana Social.
Isabel interps recurso e ganhou, mas era uma batalha que pde economizar-se em um momento de sua vida to doloroso para ela. Acredito que mais que por seus excessos de
mulherengo detesto ao Gary por lhe haver feito aquilo.
     -A verdade  que no sei por que lhes contei isso -disse Isabel meneando a cabea-. Porque o certo  que fazia sculos que no pensava em Norma.
     - uma triste historia -disse Rudy.
     -Tudo comeou quando comentaste que ultimamente estiveste pensando no tema da infidelidade -recordou-lhe L.
     -Sim, mas sem nenhuma razo em especial.
     Foram minhas representaes, impulsionadas pelo sentimento de culpabilidade, ou realmente me olhou ento Isabel? Foi uma escrutinadora olhar para ver se havia
captado eu a mensagem? Porque tambm eu tinha pensado muito ultimamente sobre a infidelidade. No sei se seria capaz de cometer adultrio. Mas se tinha tratado de
me insinuar algo, fez-o com soma inteligncia. Convm-me ter em conta que se chegar a manter relaes com o Mick Draco no me diferenciarei das Norma Stottlemeyer
deste mundo mais que nos mveis de segunda mo.
     Isabel apoiou os antebraos na mesa e se inclinou para frente.
     -A verdade  que... o dito: no sei por que lhes contei isso -disse com tom suave mas firme-. No fundo o que queria que soubessem  que lhe perdoei.
-Fiz um gesto desdenhoso mas Isabel me atalhou com outro e prosseguiu-: No, escutem, que  importante. Ningum sabe por que faz um homem o que faz...
     -Mas Isabel... h normas que...
     Repetiu o mesmo gesto, embora agora com maior energia. E me calei.
     -Ningum sabe por que determinada pessoa atua como atua. Pelo menos no sabe todas as razes, nem tudo o que a impulsionou a isso, nem de que armas dispe
em seu interior para combater a tentao. Nunca podemos sab-lo. Tudo o que pretendo lhes dizer  que a vida  muito curta. Muito curta, e no posso esbanjar
a meu com o ressentimento. Perdoar no implica debilidade, nem tampouco que algum carece de critrio moral. Buda dizia que desejar vingar-se  como lhe cuspir ao vento,
que te devolve o escupitajo.
     Isabel separou as mos em atitude beatfica. Parecia um anjo iluminado pelo resplendor das velas que cheiravam a baunilha.
     -Acredito que  certo que todos somos um -disse sonriendo com acanhamento, consciente do grandilocuente que podia lhe soar aquilo a algum ponhamos como eu-.
Pensar s a ttulo individual  uma miragem. Se perdoar ao Gary perdo mesma.
     -Mas esquece o pequeno detalhe de que no fez nada que tenha que te perdoar -atravessei, mais que nada por romper o silncio. O triste sorriso da Isabel
devia dizer que eu no acabava de entend-lo, mas que isso no diminua em nada o carinho que me tinha.
     Levantei-me fazer caf. Reduzi a luz para servir a sobremesa (um bolo com velitas que tinha feito Isabel). Uma pequena obra de arte. E cantamos: "Porque 
uma garota excelente, porque  uma garota excelente..." E ela soprou as velas.
     -Tinha que ter trazido a filmadora -lamentou-se L-. Estou muito orgulhosa de ti -acrescentou olhando a Isabel e beijando-a em ambas as bochechas.
     -E eu tambm -disse Rudy inclinando-se para abra-la-. Me alegro muito de que ao fim ditas fazer algo por ti. Estou segura de que em adiante todo ir
melhor.
     -Claro que fui-dije-. A segunda metade de sua vida ser maravilhosa.
     -Pela segunda metade da vida da Isabel! -disse L, e fizemos um brinde do menos ortodoxo, com taas de caf, taas de gua e de vinho.
     No acreditei que Isabel pudesse dizer nada, to afligida estava. E quase me fez chorar. O azul de seus olhos brilhava.
     -Por ns! -disse entretanto.
     -Por ns! -secundei-a-. E por que vivamos eternamente! -acrescentei com meu brinde favorito.
     Rudy ficou quando L e Isabel partiram. fui pr me o casaco e samos ao alpendre a fumar e contemplar a Lua. Em meu bairro uma terceira parte so
negros, outro tero so brancos e o resto hispanos. E eu gosto que assim seja. Reflete a realidade. Embora s vezes resulta muito real, como quando as sereias
dos carros patrulha e as rdios da polcia despertam s quatro da madrugada; os que roubaram na casa da esquina ou te topa com um camelo
frente  loja de comestveis. Contudo, eu gosto da mescla de raas e classes sociais. Alm disso quase todos somos respeitosos com a lei e no tratamos mais que
de sair adiante. Aquela noite foi aprazvel, com uma tranqilidade realada pela luz opalina que flua das janelas de meus vizinhos. No saa ningum mais que
a passear ao co.
     -Isabel estava muito tranqila, no crie? Salvo quando contou o de Norma -disse-me Rudy.
     -No me fixei.
     -De verdade crie, Emma, que a L no lhe importa que Curtis e eu procuremos um filho?
     -Suponho que tem que ser duro para ela no poder ter filhos -disse com todo o tato que pude-. Embora possivelmente no seja ainda consciente disso. Acredito que a ela e
ao Henry os espera uma temporada difcil.
     Rudy suspirou e eu segui com o olhar meu flego condensado no ar como chapeados farrapos.
     -De modo que procuram um filho, no? Pensei que Curtis no estava pelo trabalho.
     Dirigiu-me esse olhar to festivo e malicioso que utilizamos ambas quando falamos dele.
     -No o estava, mas o convenci. No novo trabalho de que te falei ganhar mais do dobro. E isso s para comear. J esto quase de acordo para assinar.
     -Com dois scios, no? Ou seja que ter escrivaninha prpria. Perfeito.
     -Sim. De modo que o dinheiro no ser problema.
     -E era pelo dinheiro pelo que no queria?
     -Virtualmente. No sabe a iluso que me faz, Emma! No quis exterioriz-lo para no ferir l. Mas imagina? Ser me!
     -E o que opina Greenburg? -perguntei me saindo pela tangente.
     Aspirou nervosamente a fumaa do cigarro e atirou a cinza pelo corrimo do alpendre.
     -No me dir isso. limita-se a me perguntar o que opino eu -disse risonha-. Provavelmente no o v bem.
     -Bom, mas no pode condicionar sua vida ao que opine seu psiclogo -pinjente, embora s vezes penso que no seria to m idia.
     Sempre trato de lhe surrupiar, de um modo um tanto sinuoso, o que opina Greenburg do Curtis. Mas Rudy nunca me diz isso. De modo que ou ela sabe me esquivar
muito bem ou Greenburg sabe esquivar muito bem a ela. Embora no estou muito segura de querer que Greenburg a desiluda a respeito do Curtis. s vezes acredito que
deve seguir a mesma ttica que eu, que se traduz em no falar mal do Curtis para no ferir o Rudy.
     - obvio que no. Nem pode uma pospor ter um filho at estar em perfeita sade mental. Terei-me morrido quando estiver corda!
     -Bom, pois espero que seja menina e se parea com ti, no ao Curtis -brinquei.
     Ela se rodeou os ombros com as mos, rendo. Brilhavam-lhe os olhos com expresso esperanada. E ento compreendi o muito que desejava um filho.
     -dentro de nove meses poderia ser me, Emma -disse olhando a lua. estremeceu-se de frio.
     -Oxal -repus sinceramente-. De verdade, e acredito que ser maravilhoso.
     -Obrigado. Significa muito para mim que te alegre. Bom, j  tarde. Tenho que ir.
     Abraou-me com fora e eu lhe devolvi o abrao com menos vigor. Lhe tinha esquecido me perguntar pelo Mick. E estou to afetada por este assunto que no me senti
com nimo de tirar o tema.
     -De verdade te tem que partir j? S so as onze.
     Uma indireta muito direto: Anda, fica um momento mais e me pergunte por esse homem que me tem to obcecada.
     -No, de verdade, tenho que ir. Ao Curtis no gosta que conduza de noite -disse comeando a baixar as escadas do alpendre.
     -Quer que o chame e lhe diga que vai de caminho?
     -No faz falta. Levo o mvel -disse dando um tapinha na bolsa-. Obrigado pelo jantar. esteve tudo estupendo. Quer que vamos ao cinema na segunda-feira?
     Estou segura de que me iluminou a cara.
     -Claro. Chamarei-te no domingo de noite.
     -De acordo. boa noite, Emma -disse me lanando um beijo ao ar.
     Rudy tinha estacionado meia ma mais acima, pensei, ao v-la saltar a franja de erva entre a calada e o meio-fio com a percia de um washingtoniano perito
em cacas de co. Despreocupao, ensimismamiento, negligncia, espera uma das amizades correntes, mas no de seu melhor amiga. De seu melhor amiga espera a
perfeio. Quer que te leia o pensamento.
     Estacionar em minha rua  um pesadelo. O carro que estava atrs do Wrangler de cor cqui do Rudy a tinha encaixotado. Teve que manobrar atrs e adiante
pelo menos dez vezes at conseguir tirar o focinho. Ao arrancar, passou-lhe roando um carro a toda velocidade, total, para ir deter se menos de vinte metros
quase em frente de casa. Me encolheu o corao e comecei a correr para minha porta quando reparei no carro, um Volto station wagon, e em quem descia do carro:
L.
     Rudy e eu a abordamos quase de uma vez.
     -O que ocorreu? Onde est Isabel? O que passou?
     Estava chorando, sem fala. Tive que sacudi-la.
     -Acompanhei-a a casa... e me h isso dito, embora me pediu que no o diga.
     -O que?
     -O cncer.
     -OH, Meu deus!
     L tragou saliva. Tremia-lhe a mo.
     -Lhe reproduziu. O mdico est quase seguro. Mas lhe tm que fazer outro exploratrio.
     L se desmoronou. Rudy a abraou. Eu as rodeei a ambas com os braos. E ficamos ali na rua, como se nos escapasse a vida.
     aproximou-se um carro e fez soar a buzina.
     -Vamos -pinjente indo para o carro de L, que o tinha deixado em marcha-. Conduz voc, Rudy.
     -Aonde? A casa da Isabel?
     -Aonde se no?
     -Mas...  que me pediu que no lhes dissesse isso -disse L chorosa-. Supe-se que no lhes hei isso dito! -gritou.
     Eu a olhei com fixidez.
     -De acordo -disse ela, um pouco mais refeita-. Vamos.
Captulo 12
Isabel
     Lembrana boa parte de minha juventude de um modo impreciso, com grandes lacunas, como se periodicamente tivesse contrado amnsia, igual a se contrai o sarampo
e a varicela na infncia. Mas a noite em que me desiludi de meus pais a tenho to viva na memria como se tivesse sido ontem. Eu tinha oito anos. O
lembrana porque o marquei em minha memria como a pgina de um livro com um sinal, consciente de que algo importante tinha ocorrido. Tenho oito anos, pensei. Acabo
de compreender um pouco de papai e mame.
     Foi no Marshalltown, Iowa, ao anoitecer de um dia de inverno. Lembrana as chamas dos quinqus que vaiavam no salo e o aroma de um radiador; o som
da pgina de um livro ao volt-la e logo a seca e forada tosse de minha me. Baixei com sigilo pela escada e me detive olhar a meus pais apoiada no corrimo.
Em nossa pequena casa no havia sitio para um despacho e meu pai escrevia sermes no salo, sentado em sua poltrona Morris, utilizando os largos braos a modo
de escritrio, com seu caderno de notas a um lado e a Bblia no outro. Estava sentado com os ps apoiados em um tamborete, com um cotovelo apoiado em um joelho
e a frente no carpo da mo. Lentamente, sem interromper-se, redigia o seco e inefablemente aborrecido sermo que pronunciaria em um frio monlogo no domingo
seguinte na capela da Igreja Evanglica Luterana da Concrdia.
     Ao outro lado da trancado tapete azul de forma ovalada, junto a um abajur de p de bronze  luz de uma lmpada de 60 vatios, minha me dava cabeadas
com uma grosa tecido no regao -possivelmente uma cortina ou alguma das fnebres vestimentas de meu pai-. Franzia ligeiramente o cenho a cada ponto e lhe relaxava
um pouco a frente ao atirar do fio para cima. No soava msica, no havia televiso nem rdio. Nem conversao. Meus pais estavam um frente ao outro mas de
perfil, to mudos e imveis como esttuas.
     Naquele momento compreendi -embora naturalmente sem saber a palavra- o significado do ensimismamiento. E a futilidade de esperar que algo pudesse trocar,
pelo menos ali, naquela estadia. Reinava o silncio, um silncio saturado. No podia haver a menor comunicao entre eles, entre ns. Meu pai falava
mais os domingos na capela que durante o resto da semana em casa. E isto  o que compreendi e o que me salvaria: Algo mau ocorre. As demais pessoas no
so assim.
     Pasmada, acabei de baixar a escada, aproximei-me de minha me e fiquei de p junto a sua cadeira. Fez-me um gesto, no sei se assentiu com a cabea ou se encolheu
de ombros, mas nem elevou a vista para me olhar nem me falou. Levava um pulver de l cor torrada, uma blusa tom mostarda, meias trs-quartos brancos at o joelho
e pantufas. Tinha cinqenta e trs anos. Recostei-me em suas duras e tensas costas, observando suas mudanas de expresso, pensando em quo cinza tinha seu cabelo ondulado.
Ao aproximar meu brao ao seu me olhou sobressaltada.
     -O que acontece? -perguntou-me, e me tocou a frente com a mo, fria e ossuda, para ver se tinha febre.
     No soube o que lhe responder. Podia lhe haver dito que no me encontrava bem, como tinha feito outras vezes. Eu era uma menina inteligente, que no duvidava em me fingir
doente para que me emprestassem ateno, embora o certo  que tambm era algo hipocondraca.
     Mas aquela noite foi distinto. Aquela noite me fiz maior.
     -Nada -pinjente, e me afastei.
     Meu pai no deixou de escrever nem levantou a vista. E naquele momento me decepcionaram, perdi toda esperana.
     Que lgubre soa isto. Pobrecita de mim. De fato, no foi to duro. Foi muito melhor desiludir-se claramente, acredito, que ansiar e desejar e albergar falsas
esperanas de uma proximidade que nunca se produziria. Meus pais no eram monstros. Nunca os odiei. Anos depois, quando meu pai agonizava, velamo-lo com
minha me e minha irm junto a sua cama do hospital, to inexpressivo e mudo como sempre. "Quero-te, papai", disse-lhe uma vez (s uma vez).
     Naquele momento ainda estava consciente. Olhou-me com seus plidos olhos azuis e piscou. umedeceu-se os lbios com a lngua e acreditei que ia dizer algo. Mas
no. S assentiu levemente com a cabea. E pensei que possivelmente acreditou que com isso bastava para que o entendesse. Pode que durante todos aqueles anos o tivesse dado
por sentado e acreditasse desnecessrio verbalizarlo. Possivelmente.
     Minha irm  igual a eles. Apenas a conheo. Como me leva dezoito anos  mais uma tia que uma irm, como um parente ao que estranha vez vejo. Escrevo-lhe
alegres nota de agradecimento quando se lembra de meu aniversrio e me envia uma felicitao. Embora ultimamente sei mais freqentemente dela. s vezes me pergunta se
acredito que deveramos ingressar em mame em uma residncia. Eu acredito que sim. Porque nossa me tem noventa e quatro anos e j vai a cabea.  estranho: minha me
nunca se derrubou em mim, no me deu mais que o essencial, nada de efusivos abraos, brincadeiras, risadas nem conversao. Entretanto, agora que virtualmente no est, jogo-a
muito de menos. E a meu pai tambm.  estranho.
     por que no cresci eu distante e fria, assustada e possessiva, procurando um homem atrs de outro at dar com o enganoso abrao da aceitao? Possivelmente s nos
manuais de autoayuda ou nos reality shows se diga que  o destino que aguarda todo menino ou menina que cresce solitrio. A vida real  muito mais complicada.
Ou muito mais singela. Mas uma coisa sim sei: o amor ou a busca do amor  mais forte que a falta de ateno, a indiferena ou o rechao. Eu o procurei
em outros lugares, no em casa de meus pais, e o encontrei. s vezes.
     Ao final, as Obrigado no vieram para ver-me aquela noite, quando L retornou a toda pressa a casa da Emma e disse a ela e Rudy o que lhe acabava de dizer
que no lhes dissesse. Ao chegar a minha rua e estacionar frente a casa ficaram no carro discutindo o que fazer. Optaram por uma operao de "reconhecimento", rodear
com o carro at a parte de atrs e ver se tinha as luzes acesas. Se estavam acesas, desceriam do carro, bateriam na porta e me pediriam entrar.
     Mas as luzes no estavam acesas. Seguiram discutindo e optaram por voltar para casa da Emma. Embora, em realidade, ficaram dentro do carro de L frente
a sua porta e estiveram falando de mim durante mais de uma hora. Fizeram bem porque falar de mim aquela noite tinha que ser mais agradvel que falar comigo.
     -Nenhuma queramos descer do carro -explicou L depois-. No queramos aterrissar. No queramos entrar, nos sentar, tomar caf e nos olhar. De modo que ficamos
no carro olhando pelo pra-brisa. Como se estivssemos em um autocine.
     Emma se sentiu ferida porque o contei a L mas no a ela. Mas, naturalmente, no me disse isso. Disse-me isso Rudy. Emma ainda imagina que se oculta suas debilidades
ningum notar que as tem. Mas no havia mais remdio. No pude fazer mais que o que fiz. A notcia era muito recente. E eu estava muito afetada. No tinha
que ter ido a casa da Emma aquela noite, mas no ltimo momento me disse que no podia deixar de ir. Compreendi que ali encontraria calor, porque estava geada
por dentro.
     -Metstase, estou quase seguro -disse o doutor Glass-. No sabe quanto o sinto.
     Foi duro ouvir o seguinte. Ouvi que diziam "quarta fase" e ouvia que diziam "ssea" e pensei na leve dor de quadril que eu acreditava uma simples distenso muscular.
Logo fiquei com a mente em branco, geada, glida, paralisada pelo pnico. Lembrana ter sado da consulta do doutor Glass mas no ter entrado no
elevador nem sado do edifcio. Lembrana que uns operrios trabalhavam com martelos reservatrios de gua na rua. O estrondo era to ensurdecedor que me tirou de meu ensimismamiento
e reparei em que estava chovendo. A parada do nibus ficava a vrias mas de distncia. E se tomasse um txi?, disse-me. Para que? Para ir a casa? O que
sentido tinha? Que sentido tinha j nada?
     Fiquei na calada olhando aos viandantes ir e vir pelo passo de pedestres, atenta a que trocasse a luz do semforo. Uma mulher chocou comigo. "OH, perdo",
desculpou-se esboando um sorriso, e eu a olhei como abobalhada. Que mais d!, exclamei para mim ao me apartar. O que pode me importar que me empurre, que se desculpe, comprar
um jaqueto muito quente, uma boa maleta, ler o peridico ou ir ao oftalmologista para que me receite culos novos, ou me reunir com meus amigas para jantar, ou dormir o
suficiente ou sonhar com umas frias, ou conhecer um homem ou tomar as vitaminas ou comprar um ramo a florista da esquina? Nada importa j. Sei. Por
que no sabe voc?
     J estava psicologicamente afundada da ltima vez que me disseram que tinha cncer. Mas me tinha acostumado. Uma chuva glida empapava as ombreiras
de minha gabardina. Sobressaltou-me tanto como os martelos reservatrios de gua. A realidade cotidiana me obrigava a me mover. Podia ir a casa, me esquentar e tratar de digeri-lo.
Enquanto uma no est morta est viva. Levantei a mo. Imediatamente freou um txi e me ps os sapatos perdidos. Indiquei-lhe ao taxista a direo e me levou
a casa.
     Aps, sobrevivi a apie de viver o momento. Dou-lhe a comida ao co, abro o correio, Quito os miolos do suporte da cozinha. Contrariamente
ao que acreditei, minha vida no se deteve na consulta do doutor Glass. Sigo adiante e o futuro me parece to misterioso como sempre. Bom, no. Isso no  de tudo
certo. O nico positivo que tirei que minha situao  isto: pelo menos se acabou a incerteza. Parece que Isabel Thorlefsen Kurtz morrer de cncer
de mama, no em acidente de automvel, nem de velha, plcidamente dormida na cama, nem de sida nem de enfarte, nem tiroteada em um supermercado. J se acabou lhe dar
voltas. Ao fim sei. E algo  algo.
     Tinha que estar aberta  verdade, no fingir nem dissimular, prescindir da ironia e a passividade. Mas a aceitao  a morte -perdo pelo sarcasmo-
na famosa lista dos cinco estdios. Primeiro vem a negao, mas essa fase parece que a superei. Suponho que devido  anterior experincia. Haver
tido cncer antes me endureceu, pelo menos em certa medida. Que diferena h entre uma esperana e uma falsa esperana? Quem pode dizer qual  o
"melhor modo" de morrer? Como vou ou seja o eu? Como vai ou seja o ningum? OH, j vejo que est justo comeando. Logo estarei muito familiarizada com estas e todas as
pergunta sem resposta.
     Mas tenho coisas que fazer, decises que tomar. Tenho que manter a cabea clara e no me ofuscar. Para isso vou ter tempo de sobras. No estou preparada para
encaixar a comiserao de quem me quer (isto  o que Emma no podia entender). Mas o farei entender, embora ainda no. Ainda no posso.
     Tenho que me aferrar um pouco mais de tempo a minha normalidade, a mim mesma. Por isso no chamei a ningum. Devo pr minha casa em ordem.  crucial manter-se ativa,
fazer planos, seguir com minha vida igual a antes, como se ainda tivesse significado. E devo admitir que em meu foro interno algo insiste em que cabe a possibilidade
de que saia desta; uma voz fica mas firme que diz: "S tem cinqenta anos, no vais morrer. No pode haver-se terminado."
     Os dois ltimos anos foram os melhores de minha vida, e no os tivesse vivido de no ter adoecido. De modo que indevidamente devo me perguntar se mereceu
a pena. foi justo? Aparentemente j o tinha tudo. A vida  para viv-la, no para sentir prazer no passado. Foram-me concedidos dois esplndidos anos de
mortificante incerteza e de inesperada satisfao. Compensa? Temo a essa pergunta.
     Tudo conspira contra mim, todas as coisas que amo. Preparo um ch ndio e o bebo com mel de aafro e degustao o almiscarado e defumado sabor como nunca. Se me
tomo um usque me sirvo um dedito e o bebo a pequenos sorvos, saboreando-o. Logo sotaque que seu vigoroso sabor varonil descenda por minha garganta. Ontem  noite caram pouco
mais de dois centmetros de neve. Abri a janela, fiz um montoncito e o deixei fundir na palma da mo. Provei-a com a ponta da lngua. Tinha um sabor
metlico, a terra, A... Um sabor delicioso. No me sacio com nada. A msica... Mas quando ponho a sonata do Beethoven que sempre me faz chorar ao chegar o
adgio, desmorono-me.
     Graa suspeita algo. Observa-me. Surpreendo-a freqentemente me olhando com seus grandes olhos marrons. Me olhe com fixidez e preocupao.  um amor de perrita. Dbito
de ter j dez anos e possivelmente me sobreviva. No contava com isso.
     Pequenas coisas. A idia das perder as faz muito mais queridas.  fcil esquecer em momentos como estes que a vida tambm entranha crueldade, indiferena,
brutalidade, perverso, intolerncia, misria, cobia, venalidade, loucura e corrupo. Mas s penso nos aspectos amveis. Nas coisas singelas. Na lua
em quarto crescente, no sabor de uma laranja. O aroma das pginas de um novo livro. Se me detiver escutar posso ouvir o Kirby movendo-se em seu dormitrio
que est justo em cima do meu. Podia ter sido meu amante? Escuto as vozes de meus amigas que me chamam e me deixam mensagens: "Isabel, OH Deus, no sei o que dizer";
"Isabel, por favor, me chame. Quero-te". Sei que no posso me manter afastada delas muito tempo. Tenho que dizer-lhe a meu filho, a minha me, a minha irm. OH,  como
se o mundo me viesse em cima, como se todas as peas de meu corao se equilibrassem sobre mim de uma vez. Se no tomar cuidado, o amor me esmagar e me deixar
Lisa como um papel de fumar.
     na tera-feira me faro um exploratrio de ossos.  uma pura formalidade, porque Glass j sabe. E na quarta-feira terei que ir de novo a sua consulta. me prometeu dizer isso educadas.
tudo. Levarei-me um caderno e anotarei quanto me diga. Tenho que estar atenta e no perder a concentrao. Levarei-lhe uma lista de perguntas. Ou possivelmente no.
     O que sim farei  lhe pedir a L que me acompanhe.
Captulo 13
L
     Ao princpio acreditei que eu era quo nica no podia suportar ao doutor Glass, mas resultou que todas o detestvamos. Embora, salvo Emma, todas nos mostrssemos
educadas.
     -voc olhe, no entendo nada do que diz -disse Emma inclinando-se, e alargando o pescoo como se instasse com uma trailla que atirasse dela para trs-.
Ver, voc  mdico mas ns no. Importaria-lhe utilizar palavras compreensveis ?
     Nunca a tinha ouvido to crispada. Normalmente me tivesse resultado muito embaraoso, entre outras coisas porque acredito que ganha muito pouco nos mostrando belicosos.
Mas eu tambm estava furiosa e, a sua maneira, Emma expressava o que todas sentamos.
     detrs da mesa do doutor Glass a parede estava cheia de diplomas emoldurados. Tinha um despacho rgio, muito pessoal e colaborava com prestigiosos hospitais.
Mas carecia do dom de infundir confiana e transmitir a sensao de que, quem ia  consulta temerosos de ouvir o pior, importavam-lhe pelo menos um
pouco.  possvel que sim lhe importassem, mas ningum o houvesse dito, a julgar pela inexpresividad de seus olhos e seu esboada sorriso, e menos at de suas palavras,
quase inaudveis. Movia os lbios como um ventrloquo (ou seja que apenas os movia). Tnhamos que nos inclinar para ouvi-lo, eu com o caderno pego ao peito (como
encarregada oficial de tomar notas) e alargar o pescoo para captar sua rpida balbucia.
     -Digo que no existe cura cirrgica para um cncer que j se estendeu alm de seu lugar de origem. Contudo, toda paciente com metstase de mama
em fase quatro tem vrias opes de tratamento, embora algumas podem no ser indicadas em um caso concreto, e s vezes em nenhum. Neste caso, temos...
     -No caso da Isabel -atalhou-o Emma-; a paciente se chama Isabel.
     -Emma... -disse Isabel, que estava branca como a cera mas serena, mais serena que ns.
     Inclusive quando o doutor Glass mencionou que havia metstase na coluna vertebral e a plvis, em ambos os fmures e as costelas, Isabel seguiu com as mos
entrelaadas no regao. Olhava-o com fixidez, sem logo que piscar. me tremiam tanto os dedos que quase no podia tomar notas. Era s a maneira de expressar-se
que tinha o mdico o que me fazia to difcil transcrever suas palavras. Era como se minha mente funcionasse de maneira intermitente. Produzia-me uma sensao muito estranho,
como se o medo provocasse um curto-circuito em meu crebro.
     Pelo menos no chorei. Mas Rudy sim. Para que Isabel no o visse se levantou e foi para a janela, fingindo olhar o trfico do Reservoir Road. Mas a vi
tirar o leno do bolso e passar-lhe pelos olhos. No te ocorra te desmoronar!, senti o impulso de lhe gritar. No nos tivesse faltado mais que isso. O mal
aspecto da Emma atuou como elemento de distrao. Podamos nos centrar nele em lugar de nas horrveis e desoladoras explicaes que o doutor Glass ia debulhando.
     -No caso da Isabel -disse entreabrindo os olhos atrs de seus bifocais-, no que temos carcinomatosis afastada da origem, com uma paciente em situao de menopausa,
com um status de positivo estrognio mas negativo de progesterona, assim como um antecedente de quimioterapia, digo que as modalidades de tratamento disponveis
reduziram-se e so um pouco limitadas.
     -E o que h do transplante de medula ssea? -perguntou Emma sujeitando-se aos braos da poltrona como se fosse saltar-. Isso poderia cur-la, no?
     O doutor Glass uniu as gemas dos dedos e franziu os lbios.
     -Teramos que considerar muitos fatores antes de poder recomendar um ABMT/BCT...
     Emma desentrelaz as pernas e golpeou o tapete com o salto.
     -... a um transplante de medula ssea me refiro -esclareceu Glass-. por agora, eu no descartaria uma terapia antiestrgena, embora o fato de que j tenha provado
o tamoxifen, com resultados obviamente negativos, no me permite albergar muitas esperanas. O ltimo recurso  a quimioterapia. E no h modo de saber se responder
voc melhor a uma ADQ...
     -J. A altas dose de quimioterapia se refere, verdade? -interrompi-o-. Tenho-o lido em Internet.
     -Exato -confirmou Glass sorridente. Mas a surpresa que refletia sua voz resultava insultante. Me deu vontade de imitar a Emma, que estalou a lngua com expresso
desdenhosa.
     -Ainda  logo para estar seguros, mas possivelmente mais adiante poderia voc optar pela quimioterapia de induo, um preldio para aqueles pacientes que
querem tentar o transplante de medula ssea. No se trata propriamente de uma terapia, mas s vezes ajuda a determinar se um cncer responder aos frmacos utilizados
na quimioterapia de altas dose. Por outro lado, o fato de responder  terapia de induo no significa que a quimioterapia em altas dose combinada com
o transplante de medula v ser mais eficaz que a quimioterapia padro. Significa, simplesmente, que o cncer  sensvel  quimioterapia. Por outra parte,
tampouco implica que voc v a viver mais tempo ou que v ter uma melhor qualidade de vida com altas dose que com dose padro.
     -Em definitiva, que no significa nada, no  assim?
     -Significa exatamente o que hei dito que significa.
     O doutor Glass e Emma se fulminaram com o olhar. Ele se dominava melhor mas Emma parecia uma bruxa, uma autntica fria. Teria jurado que nesse momento
Emma tinha o cabelo arrepiado como uma gata furiosa. Inclusive Rudy desviou o olhar, muito violentada pela hostilidade que se apalpava na consulta.
     Isabel optou por romper o embaraoso silncio e se levantou.
     -Chamarei-o. Sobre o da terapia hormonal e para concretizar o das provas. Isso que h dito voc... a terapia de induo Y...
     Isabel se encolheu de ombros para indicar que o nome era o de menos. E todos, inclusive Glass e especialmente Emma, sentimo-nos cruis e violentos.
Porque durante uns minutos nos comportamos como se o problema do que ali tratvamos fosse um conflito de personalidade, em lugar da vida de uma pessoa. De
a vida da Isabel.
     Descemos no elevador sumidas em um estranho e coibido silncio, at que Rudy perguntou aonde amos almoar. Decidimos ir ao Sergei's, no Georgetown,
porque estava perto e podamos ir a p. Parecamos incapazes de nos olhar em que pese a que estvamos amontoadas no elevador, ombro com ombro, como se participssemos
em uma manifestao. Isabel me tinha pedido que a acompanhasse a ver o doutor Glass, no ao Rudy nem a Emma. Mas no sei como se inteiraram e insistiram em ir
conosco. Incomodou-me muito porque pensei que demonstravam muito pouca sensibilidade. Mas agora... OH, Deus... agora no quero nem pensar o que teria feito eu sem
elas.
     Escolhemos uma mesa de um compartimento com biombo no restaurante, e eu fui chamar a meu escritrio para lhe dizer a minha secretria que chegaria bastante mais
tarde do que tinha pensado. Ao voltar para a mesa, Rudy estava pedindo umas taas.
     -Um usque dobro com gelo -disse como um homem, como meu pai.
     Isabel e eu pedimos ch gelado. Isabel foi protestar porque no pedssemos lcool mas Emma a atalhou.
     -Eu beberei contigo -disse-. Cerveja. O que seja.
     Quando trouxeram as bebidas no brindamos.  algo que sempre fazemos, pelo menos na primeira ronda. Mas nesta ocasio nos limitamos a beber um sorvo
sem logo que nos olhar. Tudo o que me ocorria dizer me desejava muito muito superficial ou lgubre. De modo que no abri a boca.
     -So minhas representaes ou esse medicucho  um estpido exmio? -disse ao fim Emma.
     Suas palavras serviram para que todas comessemos a falar. A verdade era que o doutor Glass tinha estado odioso, mas no me atrevi a diz-lo no caso de
Isabel seguia confiando nele, que ao fim e ao cabo era seu oncologista desde fazia dois anos.
     -Recorri a ele porque me disseram que era bom -disse Isabel-, e logo no tive nenhuma razo para trocar de mdico. Acreditei estar curada. Mas sempre me h
parecido uma pessoa muito arrogante.
     -Arrogante? Esse tio  um tmpano! -exclamou Emma-. Tem-me cansado mal nada mais v-lo. Fixaste-lhes em que cara ps ao nos abrir a porta? O muito bode
sorria com um sarcasmo repugnante.
     Emma o dizia porque no tinha querido que entrssemos todas a seu escritrio. "S uma -disse com fingido sorriso-, no lhes parece?" acrescentou devendo dizer que
era uma bobagem, uma criancice querer entrar todas. Mas no nos parecia isso. E embora em parte o mdico tivesse razo, optei por replicar do modo mais
firme "Acreditam que  importante que todas ouamos o que voc tenha que lhe dizer, doutor. Estamos aqui em qualidade de famlia subrrogada da Isabel." O doutor Glass
riu e separou as mos com gesto de impotncia, querendo dizer que era absurdo. Mas ns o olhamos com firmeza e no teve mais remedeio que ceder. E, certamente,
Emma tinha razo. Sustentou-nos a porta com aspecto sarcstico.
     Pedimos o almoo. Estamos comendo, pensei. como sempre, como se nada horrvel tivesse acontecido. Isabel tinha pedido salada de frutos do mar. Podamos falar
de umas coisas mas no de outras. Por exemplo, no podamos dizer: "Como te encontra hoje? Como te sentou que te dissesse todas essas coisas sobre o cncer? Tem
medo ?"
     No parecia que pudssemos fazer mais que estar juntas, seguir unidas, como sempre.
     Foi Emma quem fez a primeira pergunta pessoal.
     -O h dito j ao Terry ou a sua me?
     -Ainda no. preferi esperar a estar segura -respondeu Isabel; deixou o garfo na mesa e se recostou no respaldo. J o tinha comido quase tudo-.
Minha me no o entenderia e provavelmente no o direi. No tem objeto.
     Sua me acabava de ingressar em uma residncia e padecia Alzheimer.
     -Mas a minha irm terei que dizer-lhe prosseguiu Isabel-. E ao Terry. OH, Deus -murmurou fechando os olhos.
     O rosto do Rudy se congestionou, e se levou as mos  boca. Emma desviou o olhar.
     -Posso chamar o Terry, se quiser -pinjente.
     Isabel alargou a mo e me esfregou o brao, vigorosamente, sonrindome sem separar os lbios.
     -Obrigado. Chamarei-o eu esta noite.  melhor -disse me apertando o cotovelo-. Obrigado -murmurou, quase chorosa mas sem chegar a verter uma lgrima. No chorou em tudo
o dia.
     -Posso investigar em Internet -propus-. J o tenho feito s vezes no trabalho. Assombra a quantidade de informao que se pode obter facilmente.
     -Sim, Kirby j o est fazendo.
     -Refere a seu vizinho?
     -Sim.
     -Um momento... Sabe Kirby?
     No me pude acreditar isso Isabel o havia dito ao Kirby e em troca no havia dito ainda nada ao Terry. Incrvel.
     Voltou-lhe um pouco a cor s bochechas. Brincou com a colherinha do ch.
     -No lhes havia isso dito antes porque no tive ocasio.
     -nos dizer o que?
     -Kirby... -comeou elevando a vista e tornando-se a rir-. Kirby est apaixonado por mim. Isso diz.
     -Como?
     -Mas se for gay!
     -Disse-nos que era gay.
     -Sim,  verdade. Mas pelo visto me equivoquei.
     -No te digo! -exclamou Emma rendo e recostando-se no respaldo..
     -E voc? -perguntou Rudy risonha-. Voc gosta?
     Isabel se limitou a encolher-se de ombros.
     -E vos...?
     -Que se nos deitamos? No -adiantou-se Isabel a responder  pergunta que adivinhou.
     -Mas no o descarta, n? -disse Emma deixando de rir.
     Por uns momentos o rosto da Isabel se animou mas voltava a estar abatido.
     -Possivelmente. Ainda no o decidi -disse meneando a cabea-. Em qualquer caso  um amigo, um bom amigo.
     Um bom amigo. A primeira notcia. E lhe dizia o de sua enfermidade antes de dizer-lhe a seu filho. E me havia isso dito antes, e isso era...
     Embora possivelmente no fosse certo. Possivelmente o houvesse dito ao Kirby antes que a mim.
     Detesto o cimes. No servem mais que para fazer-se danifico. Fazem-me sentir fatal.
     Ao cabo de um momento comeamos a falar de outras coisas, de coisas correntes. Pergunto-me se as demais estariam to surpreendidas como eu de que fssemos capazes
de falar com normalidade. E assim vai ser em adiante, compreendi. Ocorresse o que ocorresse, Isabel tentaria nos fazer as coisas o mais suportveis possvel.
     Durante o caf, Isabel perguntou pelo Henry.
     -Que tal resultou a anlise de esperma, L? Tm j os resultados?
     -Sim. Ontem chamou a enfermeira. J terminaram o contagem.
     -Que contagem?
     -Do que vai a coisa?
     Eu me havia sentido culpado por ser feliz, por ter um comicho de satisfao pese ao drama de meu melhor amiga. Mas agora os espectadores rostos das
Obrigado e o entusiasmo, o entusiasmo da Isabel, apagou-o tudo.
     -No lhes ides acreditar isso: o que ocorre ao Henry  que tem muitos espermatozides.
     ficaram boquiabertas e logo riram a gargalhadas. Figurava-me isso.
     -No lhes podem imaginar que alvio h sentido. O normal  ter entre vinte e duzentos milhes por milmetro, e Henry tem um bilho.
     -Vamos!
     -Um bilho?
     - um caso estranho.
     -V tio! -exclamou Emma-. Lhe diga que estou impressionada.
     -E agora o que?
     -Porque provavelmente no poderei ficar grvida de um modo normal.  um problema de motilidad (assim o diz o relatrio). Tem tantos espermatozides que
entorpecem-se e no podem mover-se. De modo que teremos que recorrer  inseminao artificial.
     -Com doador?
     -No, podem utilizar os espermatozides do Henry.
     -Ento  maravilhoso, L!
     -No sabe quanto me alegro.
     -Segundo a enfermeira, dentro de seis meses poderia estar grvida.
     Isabel se inclinou para mim e me beijou. Essa era a notcia que me mantinha animada. Como podia perder a esperana a respeito da Isabel se acabava de me ocorrer algo
to maravilhoso?
     - formidvel -disse Emma-. Faz cinqenta anos no tivesse havido nada que fazer. Ter que dar graas a Deus pelos milagres da medicina moderna.
     Reparei em que ia elevar a taa mas se deteve.
     fez-se um tmido silncio. Emma tinha tido o impulso de brindar pelos milagres da medicina moderna. E em seguida tinha cansado em que quem de verdade
necessitava um milagre era Isabel.
     -De acordo -pinjente apartando meu prato a um lado-. Como nos organizamos? Como vamos confrontar o? Eu voltarei a indagar em Internet. Kirby tambm.  estupendo,
porque assim seremos dois (digo-o a srio). Como parece que o primeiro que tem que decidir  se te submeter ou no a uma terapia hormonal por a comearei. E temos
ainda muito tempo para optar pelo transplante de medula e a quimioterapia a altas dose ou a normal, se  que opta por isso. Meu pai conhece um dos principais
oncologistas do Sloan Kettering. Jogavam juntos ao golfe. De modo que posso cham-lo e que recomende a algum, preferivelmente de por aqui. Necessitar pelo
menos contrastar a opinio do doutor Glass com a de outros dois mdicos, no crie? O que te cobre a mtua? comprovaste se incluir cirurgia experimental alm disso
da corrente?
     Emma se ps-se a rir.
     -O que? -exclamou Isabel tambm risonha.
     Inclusive ao Rudy pareceu divertido.
     -pode-se saber do que lhes riem?
     -De nada -disse Isabel me rodeando com o brao.
     -O que lhes passa? Parece-lhes que quero lhes dirigir?
     -No.
     -Ao contrrio.  formidvel.
     -Certamente que fui-dijo Rudy.
     - que... algum tem que organizar isto, no? E suponho que o fator tempo est essencial. Esto de acordo nisso, no?
     Deixaram de sorrir.
     -Tem razo -reps Isabel ao ver que no o faziam as demais.
Captulo 14
Rudy
     -Superar-o, Emma. Tem um aspecto estupendo. Est preciosa.
     - verdade. Nunca teve to bom aspecto.
     -por que teve que ocorrer? Como pde recair assim?
     -No sei -disse Emma meneando a cabea.
     Tnhamo-nos ficado a ss. Isabel e L tinham sado do Sergei's por volta das trs, mas Emma e eu nem sequer fizemos gesto de nos levantar. dava-se por sentado
que amos ficar nos. Como nos velhos tempos.
     -Querem mais caf? -perguntou a garonete.
     -No; tomarei outro usque -pinjente-. Mas no duplo como antes.
     Emma arqueou as sobrancelhas e me olhou.
     -Bom, diga-o j. Tenho que tomar outra cerveja, no?
     De modo que comeamos a beber. s vezes o lcool me ajuda, sinta-me realmente bem. No sempre. Mas s vezes... no sei como explic-lo. O caso  que muito
de vez em quando sei que tomar umas taas vai sentar me bem.
     Naquela ocasio me infundiu o valor necessrio para dizer o que pensava.
     -Estou muito assustada.  em quo nico posso pensar -pinjente-. OH, Emma, e se morrer? E se Isabel morrer?
     Emma se levantou de sua banqueta e vinho a sentar-se na minha.
     -Eu tambm estou assustada. No deixo de pensar.
     - que no posso acredit-lo. A semana passada estava perfeitamente e esta semana pode estar agonizando. Como  possvel?
     -No se est morrendo. Muitas pessoas o superam, tm remisses durante anos, durante dcadas; curam-se. Lemo-lo continuamente.
     -Sim, isso  verdade.
     Emma riscou linhas verticais atravs da condensao de vapor de sua taa de cerveja.
     -Meu pai morreu de cncer -disse.
     -Mas voc foi muito pequena, no? No deveu te dar nem conta.
     -Tinha oito anos e meus pais j estavam divorciados. No recordo nada, s que morreu de cncer de fgado.
     -dio o cncer.
     -Porque  lento e sabe que vais morrer com muita antecipao. meu deus, preferiria que me atropelasse um nibus. Algo menos isso.
     Eu deixei de fazer migalhas meu guardanapo e me olhei as mos. E se fssemos ns quem estivesse morrendo ?Minha pele, meus dedos, as veias azuladas
de minhas bonecas... Como poderia deixar de ser eu? Ser algo e logo no ser nada. Deixar de ser.
     -No vai morrer -pinjente-.  muito jovem -acrescentei, embora em realidade quis dizer sou muito jovem.
     -Tem um cigarro? -pediu Emma.
     -Deixei-o -repus.
     -Ah, pois estupendo. Deixaremo-lo as duas...
     -Compraremos.
     -De acordo -disse.
     levantou-se e foi comprar um pacote do Winston.
     -Sabe que esta noite tenho uma entrevista? -disse ao voltar para a mesa de uma vez que exalava um anel de fumaa para o teto.
     Havia tornado a sentar-se em sua banqueta e queria trocar de tema, de aspecto. Por mim. Sempre  muito considerada comigo.
     -E com quem  a entrevista?
     -Com o Brad. Com o mesmo.
     -Acreditava que o tinha deixado.
     -E o deixamos, mas tornamos. Acredito que por pura inrcia. Mas esta noite penso lhe dizer que se acabou definitivamente.
     -O que te tem feito?
     -Nada.
     Sorrimos, possivelmente ao reparar em que tnhamos tido conversaes similares sobre diferentes homens milhares de vezes.
     -O que  o que voc no gosta dele?
     -Nada -disse Emma, que poderia ter escrito um livro sobre tudo o que no gostava dos homens com quem tinha sado. Olhou-me enquanto arranhava com a
unha a etiqueta da garrafa do Sam Adams.
     Ela levava aquele dia um penteado alto para que se vissem os pendentes esmaltados que lhe dei de presente por seu aniversrio. Emma acredita que tem a pele muito plida,
os quadris muito largos, que seu cabelo  muito avermelhado ou muito acobreado ou eu o que sei. No acabo de entend-lo. Porque no me parece que nada disso seja
certo. Antes me preocupava quo equivocada estava a respeito de seu aspecto, mas j me acostumei. Emma  assim. Alm disso, tenho a teoria de que o fato de que
uma pessoa no esteja satisfeita consigo mesma a faz mais amvel e tolerante. Induz-a a ser mais socivel e solidria.
     -Est apaixonada?
     -Que se estou apaixonada? -disse sorridente, simulando acreditar que referia ao Brad. Fez pelotitas com as tiras da etiqueta e as deixou no cinzeiro-. Como
vou estar apaixonada se apenas o vejo?
     -E por que no deixa de v-lo definitivamente?
     -por agora, porque me est ajudando a escrever um artigo sobre o mundinho artstico de Washington.
     -Outro artigo?
     -Este  distinto.  um encargo. No foi minha idia -respondeu  defensiva-. Ao chefe de redao de Capital gostou do artigo que escrevi para o peridico
e me sugeriu que fizesse algo para eles, sobre a situao do mundinho da arte em Washington.
     -E sabe voc algo sobre o mundinho artstico de Washington?
     -No -reps tornando-se a rir-. Por isso se ofereceu Mick a me ajudar.
     -E no te faz sofrer, Emma? No crie que seria melhor que...?
     -Somos amigos, Rudy.
     -J. Mas... amigos secretos.
     Arrependi-me de lhe dizer isso. ficou lvida. Acendeu um cigarro sem me olhar e guardou silncio.
     Pensei na noite que resolvemos nossa disputa sobre Curtem. Chamou as duas da madrugada e fui a sua casa. Encontrei-a sentada no sof do salo de
seu velho apartamento do Foggy Bottom, chorando a lgrima viva e amaldioando ao Peter Dicken so, a quem acabava de jogar de casa. Tinha estado com ele mais tempo
e mais a srio que com qualquer outro homem que eu lhe conhecesse. Inclusive tinham chegado a pensar em casar-se.
     Assustou-me muito aquela noite mas, em certo modo, o de agora era pior. No foi como aquela dor violenta, aquela fria descorazonada, que nunca esquecerei.
o de agora era calado e quase imperceptvel. A reconcoma, destroava-a por dentro.
     Pedimos outra ronda. Emma se animou e me animou. eu adoro o calorcillo adormecedor que sinto quando bebo. Comea em stios estranhos, nas bochechas, nos
tricpite, nas coxas... at que me alaga toda. No sente saudades que a gente se deite com qualquer quando se embebeda. Eu sinto uma relaxao to deliciosa,
tal harmonia, como se eu fosse todo mundo e todo mundo estivesse em mim. Agora posso control-lo, mas quando era mais jovem me teria atirado a qualquer, literalmente
a qualquer, se levava umas taas em cima.
     Justo ento, dois tipos que estavam na barra nos aproximaram. A gente era bastante bonito. No Sergei's se come bem e  um bom restaurante mas, a partir
de meia tarde, converte-se em um local de ligue. Emma torceu o gesto. Tinham pinta de advogados e eram mais jovens que ns. Tocou-me a mo por debaixo de
a mesa.
     -Que tal se nos deixassem tranqilas? No vo os pnis.
     -Bom, bom! -exclamaram ao unssono. Deram meia volta e voltaram para a barra.
     Pedimos outra ronda.
     -Colocamo-nos? -disse Emma.
     -OH, no.
     -por que?
     -Porque Curtem chega hoje. E havia ficado de ir recolher o! OH, Meu deus!
     -A que hora? De todas maneiras, no se preocupe. Pode ir a casa sozinho. Faz-o sempre...
     - que fiquei com ele em ir esperar o ao aeroporto.
     -Ao aeroporto? Ah, isso troca -pinjente rendo-. A que hora?
     -s seis menos dez.
     -Anda! Pois ento o deixa cru, Rudy. Porque so as seis.
     Tampei-me os olhos com as mos para v-lo tudo to negro como estava. Emma ria a gargalhadas, de uma maneira contagiosa. E pus-se a rir tambm, mas
minha risada soou histrica.
     -Com que companhia voava? -perguntou-me.
     -Com a Delta.
     -Vale, pois espera aqui que vou chamar para lhe deixar uma mensagem. Chamarei a National e eles o chamaro o busca. "Senhor Curtis Lloyd, senhor Curtis Lloyd,
tenha a bondade de ir a uma das cabines gratuitas."
     -E o que lhe dir?
     -Porque est cozida e no pode conduzir -disse Emma, que deveu lombriga aterrorizada, porque me apertou a boneca-.  brincadeira. O que quer que lhe diga?
     -lhe diga que... estou com a Isabel.
     -Boa idia. Alm disso, tampouco  to complicado. Pode tomar o metro at o Eastern Market e logo ir a p at casa, no?
     -Tomar um txi.
     -Claro,  obvio, no faltava mais -ironizou imitando a voz do Curtis-. No se preocupe, Rudy, que isto o arrumo eu.
     Ao voltar de fazer a chamada, Emma me olhou com cara de preocupao, embora risonha e coibida.
     -H-a jodido.
     -Porqu?
     -tive que deixar uma mensagem -reps voltando a sentar-se a meu lado.
     -E o que?
     -Agora o sistema funciona de outra maneira. Com rolha de voz. De modo que saber que fui eu quem chamou. Digo-o porque no ouvir a operadora da
central de buscas a no ser a mim, com uma mensagem de sua parte. Ou seja que saber que chamei eu e no voc. Tinha que ter pendurado.
     -E o que h dito?
     -Hei dito que estvamos no Sergei's consolando a Isabel; que pensava ir recolher o, mas que Isabel parecia p e no quisemos deix-la sozinha.
     -OH, Emma -exclamei. Porque assim no era s uma mentira; eram trs.
     -J sei. Mas quando tenho cansado j o havia dito.
     Pus-se a rir, mas sabia que ia ter problemas embora Curtis acreditasse o que Emma havia dito.
     aproximou-se a garonete a nos perguntar se queramos outra ronda. Olhamo-nos. E de repente me senti exultante.
     -Que complicao! -exclamamos ao unssono-. Vamos l!
     Sentamo-nos como nos velhos tempos, quando acabvamos de nos transladar a viver a Washington e saamos para jantar e de taas, e conversvamos durante horas.
Podamos comear  hora do almoo e seguir at depois de jantar. antes de nos casar, claro.
     -N, Rudy. No lhe tem medo, verdade? -disse Emma, que devia estar j muito bbada. Porque sbria nunca me tivesse feito aquela pergunta.
     E tambm eu devia estar cozida, porque no me importou. Nem lhe menti.
     -s vezes sim, mas no  culpa dela -repus.
     -por que diz que no  culpa dela?
     -Porque me assusta algo.
     -Por exemplo?
     Encolhi-me de ombros.
     -Pegou-te alguma vez? -perguntou-me.
     -No, Por Deus!
     -Perdoa. No sei por que o pergunto.
     -Pois no. Nunca me levantou a mo.
     -Vale.
     -Pois isso: vale.
     Mas lhe menti. Tinha-me pego uma vez; s uma vez e fazia j muito tempo. No havia tornado a pensar nisso.
     -Do que tem medo ento? -insistiu Emma.
     -De tudo.
     -A ver, me faa uma lista.
     -Pois... que deixe de me querer, que no cheguemos a ter filhos, que se os temos lhe destroce a vida -respondi apoiando o queixo nas mos e olhando meu
taa-, que termine por me voltar louca e me suicide ou faa qualquer barbaridade, que mora Isabel, que no saiba represar minha vida, que termine como minha me, que meu
irmo acabe matando-se com as drogas...
     -Caray, Rudy! -exclamou Emma me rodeando com o brao-. No siga.
     Fiz-lhe caso e deixei de pensar em tudo o que temia.
     -E isso  s o que temo de cintura para acima -pinjente.
     Pomos-se a rir como loucas, com uns lagrimones como gros-de-bico-. OH, Emma, que estamos chamando a ateno... -acrescentei me soando com um guardanapo.
     -Devem acreditar que somos lsbicas.
     Recostamo-nos no respaldo olhando em redor sorridentes, abstradas. Olhamos s pessoas e comeamos a picar amendoins das bandejitas que serviam com
as taas.
     -Teramos que ir j -disse Emma.
     -Sim. No esquea sua entrevista.
     -Mierda! Pois sim que a esqueci. Ser melhor que o chame para cancel-la. -levantou-se algo cambaleante.
     -A vais cancelar?
     -Pois claro. Com este porre o mais provvel  que lhe atice ou lhe faa proposies. Prefiro cancel-la -disse afastando-se para os telefones.
     Aguardei, sem pensar em nada concreto. Sentia-me bem. Ento voltou a aproximar-se um dos advogados.
     -N, deixou-a sozinha seu amiga?
     -No -repus-, foi a chamar por telefone.
     -Ah sim? Como se chama?
     -Rudy.
     -Eu Simn, tudo bem?
     Simn tinha um sorriso afvel e era alto. Levava uma gravata amarela. Estava claro que era advogado.
     -No  lesbi, verdade? -Dirigiu-me um olhar amistoso, sem hostilidade nem acanhamento.
     -No, mas estou casada -repus.
     -Lstima.
     sentou-se no lado da Emma e entrelaou as mos sobre o regao. Eu gostei da falta de agressividade de sua linguagem corporal. Mas em seguida desviou o olhar
e arqueou as sobrancelhas. Um sinal. Seu amigo se levantou do tamborete da barra, recolheu a mudana, os cigarros e as taas e vinho para a mesa. Emma me vai matar,
pensei, enquanto Simon me perguntava se trabalhava perto.
     E ento ocorreram trs coisas simultaneamente. O amigo do Simon se sentou a meu lado, Emma voltou com outras duas taas e o cenho franzido, e vi o Curtis ao
mesmo tempo que ele me via .
     Devia ter vindo diretamente do aeroporto, porque levava seu colete Hartman com uma jaqueta ao ombro.
      Me aproximou lentamente, me olhando com seus grandes olhos escuros, visivelmente ferido e pensativo. Tratei de me levantar, mas o amigo do Simon era grandalho
e como no sabia o que ocorria no se moveu.
     -Ol, Curtis -saudou-o Emma com tom jovial. Deixou as taas na mesa e se interps entre ele e eu a modo de escudo-. Que agradvel surpresa! J vejo que
recebeste minha mensagem. Estupendo. Sinta-se? Lstima que no tenha visto a Isabel. Estes meninos... -mordeu-se o lbio e acrescentou em tom normal-: Quais so
estes?
     -Curtis, por favor, no... -pinjente. Seu tenso e violento sorriso me paralisava.
     -Vamos a casa?
     Disse-o em tom educado, razovel. Depois da dor que refletia seu rosto, respirava uma espcie de resignado entusiasmo. Pilhei-te, devia estar pensando.
     O amigo do Simon se levantou o fim e eu tambm, lentamente, recolhendo o casaco, as luvas e a bolsa.
     -No a deixe conduzir -advertiu-lhe Emma.
     -No tem que me dizer o que tenho que fazer com minha esposa! -espetou-lhe Curtis.
     O descarnado dio que se professavam me afetou mas no me surpreendeu. Crie que ao Curtis cai de verdade bem Emma?, tinha-me perguntado Eric em certa ocasio.
     Emma me aproximou e me tocou o brao.
     -Est bem?
     -Sim, mulher, claro -pinjente. Tratei de rir para distender a embaraosa situao. Ela parecia muito excitada mas hesitante. Flamejavam-lhe os olhos.
     -N... por que no nos sentamos todos e nos acalmamos?-disse inesperadamente.
     Compreendi que temia por mim. Curtem seguia de p. Quis lhe dizer a Emma que no tinha nada que temer dele mas sim por ele.
     -No; vamos -respondi abraando-a-. Me chame. E no conduza, de acordo?
     Emma assentiu com a cabea. Curtem nem sequer a olhou ao aproximar-se me e posar sua mo em minhas costas, me fazendo caminhar por diante dele.
     Ao sair  rua fiquei uns momentos com a mente em branco. No recordava onde tinha estacionado. Fui em direo a Wisconsin Avenue, mas ento recordei
que o tinha deixado na rua K.
     -Ah, no,  por a -pinjente como se tal coisa.
     Curtem se girou comigo sem dizer uma palavra. Mas notou que estava bebida. E eu notei que o notava. ficou ele ao volante.
     -Sinto muito, sinto no te haver ido recolher ao aeroporto -disse-lhe acurrucndome no assento, transida de frio porque a calefao do jipe ainda no se havia
esquentado.
     Mas no me disse uma palavra. Ps a rdio.
     Seu formoso rosto se via com toda nitidez recortado no resplendor da luz das janelas ao passar. Nunca envelheceria. Morreria com aquela boca infantil.
Por um momento tentei no am-lo (como se de um experimento se tratasse), mas me horrorizou comprovar que o consegui. Desviei o olhar para alm das luzes,
para o glido e deserto passeio. A calefao comeou a funcionar, mas no acabei de entrar em calor.
     J em casa me sentei no bordo da cama e o observei enquanto desfazia a bagagem. Os meias trs-quartos e as cueca ao cesto da roupa suja; a camisa
ao monto para a tinturaria; os sapatos ao sapateiro e o traje ao gal de noite. Tem um perchero eltrico para gravatas que as move de uma em uma de um lado
a outro para que escolha. O dei de presente como uma brincadeira, mas adora.
     Voltei a tent-lo.
     -Escuta... sinto muito. Aqueles tipos do bar... no havia nada...
     Silncio.
     -E sim estvamos com a Isabel antes, mas j se partiu; antes de que chegasse voc.
     O certo era que partiu quatro horas antes. Vi-me no espelho da cmoda. Tinha os olhos avermelhados e me tinha deslocado a maquiagem. Feita um cromo
estava. Alm disso tinha aspecto de bbada, que  como estava. J comeava a notar os efeitos da ressaca.
     -Que tal por Atlanta?
     -Fatal -respondeu-me indo por volta do quarto de banho. No fechou a porta.
     -O que ocorreu?
     -lhe pensava contar isso esta noite; que sairamos e falaramos.
     O sentimento de culpabilidade faz que se sinta como se te tivesse cansado em cima uma montanha de escombros e te enterrasse viva.
     -Ainda podemos sair. Visto-me em seguida. No so mais que as oito.
     -Seria incapaz de provar bocado agora -disse-me.
     Saiu do quarto de banho com o pijama, azul marinho com pintitas brancas, e o penhoar de toalha a quadros escoceses. Parecia um modelo do Brooks Brothers,
loiro e corado, saudvel e educado. Surpreendeu-me que se sentasse a meu lado na cama.
     -Sinto muito -repeti porque se o fizer, se o reiterar, est acostumado a apaziguar-se-. foi minha culpa. bebi muito e me aconteceu a hora. E Emma ps
a desculpa de que ainda estvamos com a Isabel, que j fazia muito que se partiu. OH, Curtis, pobre Isabel, foi horrvel ouvir o que o mdico lhe h dito
na consulta...
     -Ou seja que Emma me mentiu, no?
     -te mentir? Bom, no exatamente...
     -Olhe, Rudy, j sei quanto a aprecia, mas no acredito que Emma seja to boa amiga como cria.
     -OH, no...
     -Escuta -disse-me amavelmente.
     Tocou-me e eu me recostei nele, relaxada e aliviada. Tinha-me perdoado. Me tinha vindo o mundo em cima ao v-lo no Sergei'S.
     Inclinei a cabea para beijar seu pescoo, que cheirava a limpo, e lhe rodeei a cintura com os braos, mas como vi que seguia rgido me apartei.
     -Eu no gosto que a veja muito.
     -Refere a Emma? -perguntei olhando-o com cara de estpida.
     -Olhe como est por sua culpa -disse tocando minha manchada bochecha com desagrado. At eu notava que me cheirava a roupa a tabaco, at o cabelo-. J sei o que faz
muitos anos que so amigas. E no pretendo que deixe de v-la.
     -Deixar de v-la?
     -No. Mas acredito que seria melhor que no a visse fora do grupo -disse me olhando aos olhos e posando ambas as mos em minhas bochechas-. Por seu prprio bem, Rudy.
Em certo modo, surpreende-me que Greenburg no lhe tenha aconselhado isso ainda.
     Dava-me voltas a cabea. Tomei suas mos entre as minhas.
     -Ao Eric cai bem Emma. Nunca me diria algo assim.
     Suspirou e se apartou. Eu tratei de lhe reter as mos.
     -No te zangue. No...
     -J vejo que no vais fazer me caso. Mas lhe digo isso por seu prprio bem -disse levantando-se e indo para a porta.
     -Deixar de ver a Emma?  meu melhor amiga!
     -Quer dizer... que no.
     -No me faa isto, Curtis. Por favor-disse com a sensao de que ia dar uma portada. Senti um calafrio. ia se partir, e ia se levar seu amor com
ele. O ia levar tudo-. Por favor -supliquei-. Por favor, Curtis.
     -Sim ou no?
     Por meu bem, pensei. Mas era cruel.
     -No, no posso. Sinto muito. Emma  meu melhor amiga, Por Deus, Curtis!
     Mas j se deu a volta.
     Ouvi-o baixar as escadas com suas sapatilhas de pele. Iria  cozinha, torraria po na torradeira e se faria um sndwich de queijo, com margarina desce em
calorias em uma fatia e nada na outra. O comeria na cozinha acompanhado de um copo de leite desnatado enquanto folheava os ltimos nmeros de Teme, E.U.A.
News e Money.
     Eu fui ao quarto de banho e tomei trs plulas para dormir. No quis tomar mais porque tinha bebido muito usque. Com trs bastaria. Uma vez na cama
tampei-me at a cabea. Queria me sumir nas trevas. Precisava meditar para esclarecer tudo. Tocaria-me um tempo de penitncia e s Curtis sabia quanto ia
a durar. Dependia dele.
     Entrei em um sonho a respeito de Deus. Estava sentado em uma poltrona dourada, rodeado de anjos de vagos rostos que o adoravam. Olhou o relgio, um Rolex como
o de Curtem.
     -chegou tarde -disse muito triste-. Sinto muito, mas chegou tarde.
     E comeou a derramar lgrimas de retido. Elevou a mo, atirou da correntinha de um abajur Tifanny e se fez a noite sobre o mundo.
Captulo 15
Emma
     Em maro terminei trs chatas tarefas em minha lista principal de coisas que fazer. Por ordem crescente de dificuldade: rompi com o Brad de uma vez por todas, conduzi
at a Virginia para ver minha me e apresentei minha demisso no peridico. Em realidade, as duas ltimas esto empatadas pelo que ao grau de dificuldade se refere.
     Brincava. Minha me no  to m. Quando teve deixado de me repreender por quo imbecil tinha sido ao deixar meu trabalho, quase esteve amvel comigo. Acredito haver
descoberto o segredo dos bons maneiras que empregamos: nos ver s duas vezes ao ano.
     O mais horrvel da visita foi me precaver do muito que comeo a me parecer com minha me, que se chama Kathleen. Ou que ela comea a parecer-se comigo. D que
pensar. Pareceramo-nos mais se ficasse ali uma semana, bebendo, fumando, lanando invectivas e me atirando todo inseto vivente. E me preocupando. Nisso a converte
a uma ter sessenta e cinco anos, suponho, porque o nico passatempo dessa lista em que minha me sente prazer  no ltimo. Mas, nisso,  toda uma superclase
internacional.
     Parece-me que sou muito dura com ela.  o costume. Mas me estou fazendo muito velha para reagir a suas torpes manipulaes e maquinaes
como a taciturna e insuportvel adolescente que fui. O caso  que venci. Venci faz muito. Parti-me do Danville, Virgina; no me casei; no fui  universidade
estatal para me converter em "professora" e "fazer um pouco de proveito" se por acaso, como ocorreu a ela, meu marido me abandonava. E, alm disso, soube me forjar essa encantadora
personalidade de sabihonda s por lhe fazer a complicao.
     Deixar meu trabalho resultou mais duro do que supus. Devido ao dinheiro. Tinha-me acostumado a ter um pouco. Tinha comeado a comprar coisas que via nos
cristaleiras das lojas -passa por diante, detm-te, miras, entra e compras-. "Quero isto", "Comprarei-me aquilo". Isso  o que significa ser maior, acredito,
desencapando meu Visto Oro e meu Master Card de platina. Enviei a minha me um vdeo por Natal. Pensava comprar um carro novo na primavera, um esportivo, acaso
um Miata. E lhes deixava umas gorjetas filantrpicas s garonetes.
     Mas havia algo que me ardia mais que a pobreza: minha desculpa para no escrever uma novela, o que considerava meu maior desejo: "No tenho tempo." Dava igual
que isso fosse certo ou no; trabalhar para o peridico, escrever artigos e contos que ningum comprava deixava exausta minha capacidade de escritora ao cabo do dia.
De modo que teria que prescindir de algo. Optei por deixar meu emprego de jornada completa, que me ocupava no peridico das nove da manh at as cinco
da tarde, seguir com os artigos para pagar a hipoteca e renunciar a seguir escrevendo contos. A ver se agora averiguo se tiver madeira.
     Digo isto me divertindo, morta de risada. Como se no tivesse estado me dando larga desde que nasci para no averigu-lo. Seria possvel? Seria possvel que estivesse
maturando?
     No, por desgraa. A razo  mais pacata e no me deixa em muito bom lugar.  Isabel. Ao longo dos anos me ensinou muitas coisas, mas esta  uma
que no quis realmente aprender, no dela e no dessa maneira. trata-se da lio de quo curta  a vida e de quo estpido  esbanj-la.
     Trato de entender por que aconteceu a ela e por que no ao Rudy, a L ou a mim. por que a Isabel?  a melhor de ns, a que tem o corao maior.
Ela acredita em tudo e eu no acredito em nada. Deve ser o azar o que se enfureceu com ela, no? Isabel diz que no, que no existe o azar mas sim tudo ocorre por
alguma razo. Que razo?
     " possvel que eu possa suport-lo e voc no", havia-me dito. Mas me parece um sinsentido.
     Isabel prescindiu daquele estpido de mdico e ficou em mos de outro oncologista. chama-se Searle. Comeou a lhe aplicar uma terapia a base de antiestrgenos, de
um frmaco chamado Megace que a fez engordar e ter sufocos, mas que pelo resto resultou ineficaz. Agora est provando com dois novos frmacos, Armidex e outra
coisa que no recordo como se chama, e todas cruzamos os dedos. A ver tudo bem. No o percam: ao princpio, Isabel quis prescindir da medicina oficial
e confiar na autocuracin. Auto cura, ou seja, a base de clisteres de espigas de trigo e caf, saunas ndias, acupuntura e hipnose. Visualizao dirigida
e uma biorretroaccin de dois pares de narizes.
     Mas no abri a boca. Mordi-me a lngua e no disse uma palavra. Rudy e L conseguiram dissuadi-la e, pelo visto, tambm Kirby, o persumido gay que resultou
um ladro de coraes. (Perdo, isto  uma sada de tom. Desculpo-me ante o Kirby, a quem ainda nem sequer conheo. Segundo Isabel no h entre eles mais que amizade.
Pode. Mas no sei por que, eu no gosto. E se a razo fossem o cimes e que sou uma pessoa possessiva?)
     No posso suportar que lhe esteja acontecendo isto a Isabel. Quando falo com ela nunca sei o que lhe dizer. Sinto-me coibida e estpida, porque isso que h entre
ns e do que nenhuma das duas quer falar de maneira nenhuma se aumentou de tal modo que no podemos super-lo. De modo que optei por espaar
chamada-las e passam dias inteiros sem que nem sequer pense nela. E isso  o pior: poder me esquecer de meu amiga mais verdadeira e mais amvel, cuja vida se converteu
em um autntico pesadelo.
     No, no  verdade. Seria minha vida a que se converteria em um pesadelo se estivesse eu na pele da Isabel. Embora quem sabe? Mas d a impresso de agent-lo
com a mesma integridade que agentou as duras provas a que a submeteu a vida. Quanto ao Gary... no a chamou, nem sequer lhe enviou uma postal
para lhe desejar que se reponha. Terry tinha a inteno de ir visit-la; de tomar um avio e vir de Montreal para passar com ela um fim de semana comprido, mas
Isabel lhe h dito que no venha.  um bom menino. Sempre me tem cansado bem. Oxal tivesse quinze anos mais.
     minha me! No h nada como que um ser querido tenha um problema grave para que algum se encerre em si mesmo. A enfermidade da Isabel nos afeta a todas. Me
afeta a mim. Como trocar minha vida se sua enfermidade se agravar em lugar de melhorar? Como vou viver sem ela se morrer? Ah, o sentimento de culpabilidade!
     Acredito que foram os judeus quem carregou de por vida com o sentimento de culpabilidade e no ns, os ex-catlicos agnsticos. Mas L  feijo e 
a pessoa mais livre de culpa e menos neurtica que conheci jamais.  irritvel mas no neurtica. A situao da Isabel est fazendo a L mais eficiente e
organizada. E mais mandona tambm.
     Ainda no se ficou grvida, por certo. Mas est muito animada. Ultimamente, em lugar de chamar, envia-me mensagens por correio eletrnica. Acredito que  mais
eficiente.
     Para: Emma (DeWitt@Dotcom.com)
     De: L.P. Patterson (LeePatt@Dotcom.com)
     Assunto: Crculo Curativo
     Emma:
     S um aviso sobre o quarta-feira de 9.00 a 9.30. O mencionei duas vezes ao Rudy, mas se falas com ela a partir de agora at ento, quereria
voltar a recordar-lhe J sabe como .
             nimo. L
     na quarta-feira realizaremos nosso segundo "crculo curativo" para a Isabel. A uma hora predeterminada, todas -no s as Obrigado mas tambm suas outras amizades e parentes
de todo o pas, alm daqueles conhecidos que o desejem- deixaro de fazer o que estiverem fazendo e meditaro sobre a Isabel e sua recuperao. Uns rezaro, outros
imaginaro que s clulas cancerosas ocorrem todo tipo de catstrofes, outros lhe enviaro "luz branca", seja o que seja o que isso signifique. Rudy olhe com
fixidez a chama de uma vela e entoa invocaes. "Que classe de invocaes"?, perguntei-lhe fascinada. "Coisas.  algo pessoal", respondeu-me.
     Pois bom. O perguntei s para me orientar, porque sou uma calamidade para estas coisas. Nunca me tinha importado muito ser to ignorante em todo o
relativo a New Age, porque a verdade  que sou a viva imagem da Velha Era. Mas agora, quando quero rezar, fazer invocaes ou enviar luz branca e termino
fantasiando a respeito do Mick ou de um bolo, ou penso em que tenho que passar a ITV, tenho a sensao de deixar a Isabel na estacada.
     Para: Emma (DeWitt@Dotcom.com)
     De: L.P. Patterson (LeePatt@Dotcom.com)
     Assunto: Aniversrio
     Emma:
     Est tudo concretizado. Podemos contar com o chal de Cape Hatteras o segundo fim de semana de junho. Eu preferiria o terceiro, como sabe, porque  a data
exata o 10 aniversrio das Quatro Obrigado. Mas j o tinham alugado. Henry pensou baixar a ltima hora do domingo, quando as demais se partiram,
e ficar trs dias mais. H sitio para outro matrimnio. Gostaria de pass-lo conosco? Com ou sem seu Romeo, como prefere.
     At na sexta-feira.
             L
     Para: Emma (DeWitt@Dotcom.com)
     De: L.P. Patterson (LeePatt@Dotcom.com)
     Assunto: Sexta-feira noite
     Emma:
     Vir a minha festa, no? (Pergunto-lhe isso porque no confirmou o recebimento de meu convite.) Caso que venha, poderia me fazer um pequeno favor. Henry e eu temos
hora amanh com o mdico s 15.30 ( a quarta tentativa e esta vez acredito que ser a definitiva). De modo que pode que no cheguemos a casa a tempo para recolher
a mousse de salmo no Fresh Fields. Como vai de caminho, poderia recolh-la voc? Muito obrigado. J est paga. S tem que pedi-la. Outras coisa: Sabe quem
vir  festa com outra pessoa?
     Pois, pensa, pensa, que tenho muita pressa.
             L
     Ja! Tinha que ser Jenny, a sogra de L. E com outra pessoa! Seria digno de ver. eu adoro observar ao liberal superego de L lutar com sua conservadora
identidade.
     Disse-me que quo nica teria acesso de ansiedade na festa de L ia ser eu, tratando de me comportar com naturalidade diante do Mick e Sally, da
famille Draco ao completo. ia ser uma velada muito divertida.
     No vou negar que estava pendente da porta, mas no vi entrar no Mick. Quando ao fim o vi estava recostado no arco do salo que dava ao jardim, com
uma taa na mo. O sol penetrava pelas persianas e iluminava a contraluz a mesa em que se instalou o bufei. Tambm iluminava a contraluz a estilizada
silhueta do Mick. Olhamo-nos. Esbocei um sorriso mas se interpuseram vrios convidados entre ns, um grupo que conversava e que se abria para deixar passar a L
com sua bandeja de canaps de caranguejo. Quando teve o caminho livre vi que Mick se inclinava a lhe dizer algo ao ouvido a sua esposa.
     Sally se mostra tmida nas festas. Precisa tomar um par de taas antes de aventurar-se a entrar em conversao.
     Que como sei? Porque me disse isso ele. No sei em que contexto, embora suponha que seria um comentrio de passada, sem malcia. Nossas conversaes esto isentas
de malcia e o imundo local do Murray's segue sendo nosso lugar de encontro. No me ajuda a me pr o casaco, nem me tira do brao para cruzar a rua.
Salvo quando nos roamos os joelhos sem querer por debaixo da mesa, nunca nos tocamos. Mas estou vivendo o mais ardente, aventuroso e intenso amor de minha vida.
E acredito que lhe ocorre o mesmo.
     Leia me aproximou.
     -Obrigado por trazer a mousse, Emma -disse-me-. Espero que no te tenha criado nenhum problema.
     Estava em plano de anfitri com traje de noite largo e um leno de seda; que o tinha comprado no Emanuel Ungaro, havia-me dito em uma mensagem por correio
eletrnico.
     -No, o que vai -pinjente-, pilhava-me de caminho. Est fantstica! E a casa preciosa.
     -Voc tambm est estupenda. Esse conjunto  muito bonito.
     Acredito que o disse sinceramente porque os sarcasmos eram mais prprios de mim que de L. A verdade  que eu no estava segura de ter eleito bem: no levava
blusa sob a jaqueta curta de coquetel a jogo com uma saia que apenas me chegava na metade da coxa. Ensinava mais do que era habitual em mim.
     -Bom... como  uma festa... -disse  defensiva-. Onde se no ir exibir uma garota seus encantos?
     -Na praia? -sugeriu L risonha-. OH, Emma, tinha esquecido te comentar uma coisa. No podemos falar muito agora, mas...
     -Do que se trata?
     Olhou para trs e baixou a voz.
     -O que te pareceria convidar a Sally a formar parte do grupo? -perguntou-me-. Do nosso -esclareceu ao ver que eu a olhava estupefata-. Parece-te uma boa idia?
     Fiquei sem fala.
     -J a viu um par de vezes. Cai-te bem? Eu acredito que  muito agradvel. Lista e interessante. E o bastante distinta do resto de ns para contribuir
algo novo ao grupo.
     A diversidade era importante para L. Em certa ocasio vetou a uma companheira do peridico porque trabalhava em quo mesmo eu. "Teramos dois jornalistas
-disse-me-. ... redundante. Queramos variedade, no?"
     Sally contribuiria com variedade, isso estava claro. Uma me jovem, sulina, trabalhadora. O problema da Sally, tal como eu o tinha pensado mais de uma vez,  que
no havia nada anmalo nela.
     Recorri a uma desculpa pacata mas lgica.
     -No crie que no  o momento mais oportuno para pensar em incorporar a outra? No sei... pela Isabel. Onde est, por certo?
     -H dito que chegar mais tarde. No, no acredito que...
     -Hummm, que delcia! Est para te comer! -exclamou Henry me dando um abrao de urso.
     L franziu o cenho por ver-se interrompida e distradamente o tirou do brao e se inclinou para ele. A partir um pinho estavam. Tinha-o no bolso. Fazem
to bom casal... so to "pouco liberais" ou como se digo agora.
     -No vejo por que -disse-me L-. Assim que dem com o frmaco adequado para a Isabel, tudo ficar atrs. E ento acredito que seria bom para ela. Alm disso, j
conhece a Sally -acrescentou voltando a baixar a voz-. O perguntei e me h dito que lhe cai bem.
     - Que o perguntaste ?  Perguntaste a Isabel se... ?
     -No o de que se incorpore ao grupo; s se lhe caa bem. E me h dito que sim.
     -Ah -exclamei, embora a Isabel cai bem todo mundo. Neste aspecto  mais ou menos como Deus-. No sei, L. No tenho nada contra Sally.  s que... no
estou muito segura de que seja um bom momento para convidar a ningum mais.
     -Bom. No estou de acordo. Mas se essa  sua opinio...  obvio, perguntarei- tambm ao Rudy o que opina.
     Faz-o, faz-o, pensei.
     -Claro -pinjente assentindo, convencida de que Rudy no me ia deixar na estacada-. E a Isabel,  obvio.
     -Naturalmente.
     L seguiu cumprindo com suas obrigaes de anfitri. Henry ficou a meu lado, falando pelos cotovelos e contando suas estpidas piadas verdes.
     -Sabe, Emma -disse-me de repente-, pode que esteja equivocado, mas...
     Afundou a ponteira do sapato no tapete e me olhou.
     -O que?
     -Parece-me que L no est sendo muito realista a respeito do da Isabel. De seu estado. No o digo porque no quero desanim-la. E s vezes ocorrem milagres
-disse inclinando a cabea e arranhando-a nuca-. O que opina voc?
     -Acredito que todas estamos nos esforando ao mximo, cada uma a seu modo. L  otimista e o confronta com otimismo -pinjente. Era um modo educado de dizer que no
queria aceitar a realidade-. Rudy est asustadsima, mas o dissimula.
     -E voc?
     -Sou pessimista -respondi-lhe abertamente.
     -J -assentiu. Distendeu o cenho e sua expresso se suavizou-. O que me d medo  que L se desmorone. Refiro a se ocorrer o pior. No est preparada.
     -J sei -pinjente, consciente de que se ocorria tampouco eu o estaria-. Mas ela ao menos poder apoiar-se em ti -acrescentei me aproximando um pouco mais-. E, bem, ardente
Superman, que tal vai pelo departamento de fertilidade ultimamente?
     Henry  to simptico que no s no lhe incomoda que lhe fale do tema mas tambm adora. Eu sempre brinco com ele sobre o tema desde que L nos contou o de
sua superproduo de esperma. Acredito que o alivia poder falar de seu problema com naturalidade, coisa que no podamos fazer antes. A que  ridculo? Era tabu quando
o problema podia estar em que tivesse poucos espermatozides, e agora que resulta que tem muitos, deixa de ser tabu. Ridculo, no?
     Depois de seguir brincando um momento a respeito de seus espermatozides ficou srio.
     -O momento  perfeito para ns, tendo em conta como est o resto do panorama. L confia em que esta vez funcione. E embora no seja assim teremos
outras duas oportunidades. Se ficar grvida superar qualquer outra coisa. Se...
     -Funcionar -atalhei-o para que no seguisse especulando-. Porque, com essa tua potncia, provavelmente tero trigmeos. E todos meninos.
     Riu a gargalhadas e se ruborizou. Henry eu adoro.  como um urso grandote dormitado, tranqilo e muito torpe, em quem se pode confiar tanto como no amanhecer.
 bom com L e lhe modera essa "reteno anal" como um bom sedativo.  como se L vivesse com ele por prescrio facultativa.
     A festa se fez mais buliosa e mais frvola. Embora no muito. As festas de L nunca se desmamam. L convida quase sempre a todas suas companheiras da
escola de pr-escolar e maternais: mulheres acordadas, interessantes e de bom corao cujos maridos ganham mais dinheiro que elas. Conversei com as que j conhecia
de outras ocasies e apresentei a outras dois. s festas de L assistem muito poucos homens sozinhos, no sei por que. Suponho que porque seus amigos so to retos e
normais que nunca se divorciam.
     Aquela noite eu no estava predisposta  caa do solteiro, certamente. Embora no o olhasse, sabia em todo momento onde estava Mick. Radar. amos de um
lado para outro, mas sempre mantnhamos a conveniente distancia, separados por um nutrido grupo de pessoas. Eu de forma deliberada, e ele... no sei. A verdade
 que me agradava em um jogo to aditivo como doloroso. Certamente, sofria devido a meu amor sem esperana, mas ao mesmo tempo nunca me havia sentido
to viva.
     Como de costume, Rudy e Curtis chegaram tarde. Pode que seja um estpido -a verdade  que estpido rematado- mas  inegvel que Curtis Lloyd  um homem atrativo,
embora seu atrativo seja o desses achulados jovens nazistas. E quanto ao Rudy, alm de ser bonita tem essa elegncia natural que faz que as demais mulheres a
seu lado se sintam diminudas, muito compostas e corrientuchas. Mulheres como eu. Fiz-lhe um gesto para ver se se separava do Curtis e devia conversar comigo.
Mas o que vai. Como se no soubesse. Curtis no lhe tira olho de cima nas festas. No sei se for porque no se confia nela ou porque no se confia em si mesmo. Provavelmente
deva-se a ambas as coisas.
     Rudy e eu nos beijamos nas bochechas mas Curtis e eu nos compusemos isso para nos abraar sem chegar a nos tocar.
     -Onde est Isabel? -perguntou Rudy depois de um breve intercmbio de frases superficiais.
     -Ainda no chegou. Diz L que chegar algo tarde.
     -Estou impaciente por conhecer tal Kirby.
     -E eu.
     No posso falar com o Rudy quando Curtis est presente.  como tentar falar por telefone atravs do cristal enquanto o funcionrio das prises te observa.
S h outra coisa pior: falar com o Curtis quando Rudy no est presente.
     Por isso me entraram vontades de estrangul-la quando me fez certo comentrio.
     -Ah, olhe, veio Allison Wilkes. Faz sculos que no a vejo. Em seguida volto -disse-me afastando-se.
     Desde no ter tido ningum que me importasse especialmente, pude me haver dito "Ao fim sozinha", em um momento como aquele, pensando que tirar-se de no meio quanto
antes o mais chato ajuda a dissipar a tenso. Reservo-me o que de verdade penso do Curtis -o daquele dia no Sergei's foi uma exceo-. Rudy diz que no
tem medo dele mas eu sim. um pouco. Porque  retorcido. De modo que me mostro educada, assptica e deliberadamente cinza com ele, quase abobalhada  fora de me dominar.

      elogivel, no acreditam? Porque o que de verdade eu gostaria de  lhe dar um guantazo. Tudo seja pelo Rudy.
     Com as mos vazias (Curtis no bebe em pblico por temor a perder o controle) ficou um pouco nas pontas dos ps para lhe jogar uma olhada geral aos convidados;
para ver se algum podia lhe ser de alguma utilidade, estava segura.  um poltico nato, mas no gosta da gente.
     -Bom, Emma -animou-se a me dizer-, h-me dito Rudy que deixaste seu emprego.
     -Sim.
     -E que est decidida a escrever um livro. Uma novela -disse tornando-se a rir de um modo nada espontneo.
     -Resulta-te divertido? -pinjente sorridente, limitando minha hostilidade a meu olhar.
     No se incomodou em me responder. Minha irritao era desproporcionada, mas  que ele atira sempre com bala e me acertou na fibra sensvel.
     -E seu novo emprego como vai? -contra-ataquei-. o de pleitear parece que te quadra, Curtis.  de verdade... -acrescentei fingindo procurar a palavra- uma profisso...
nobre.
     limitou-se a um sorriso fingido. Meu dardo no tinha feito alvo. Pensei que nossa escaramua tinha terminado. Mas no.
     -E do que trata seu livro?
     Essa  a pergunta que mais detesta um escritor. Surpreendeu-me que soubesse que eu estava escrevendo um livro.
     -Est ainda em perodo de incubao -disse sem deixar de sorrir. O eufemismo me pareceu adequado-. Prefiro no falar disso.
     Ao outro lado do salo vi o Mick falar com o Henry. Ria com ele, gesticulando muito como revestem fazer os homens. Sua recente amizade me surpreendia um pouco.
Porque so muito distintos.
     -Dizem que sempre ter que escrever sobre o que conhea um melhor -disse-me Curtis.
     -Sim, possivelmente. At certo ponto.
     -Ou seja que sua histria tratar provavelmente... -Arqueou as sobrancelhas, franziu os lbios com expresso pensativa e prosseguiu-: De escuros sonhos de adultrio de
uma solteirona promscua... ou algo assim, no?
     Fulminei-o com o olhar. Ele voltou a arquear suas loiras sobrancelhas com cara de inocente, esboando um sorriso. Olhou-me de cima abaixo detendo-se desdenhosamente
nas partes de meu corpo que ensinava.
     O sentimento de culpabilidade e a ira so uma m combinao. Irritei-me at as orelhas. Detestava a aquele tipo, odiava aquela expresso ufana. Estava
segura de que se abria a boca o ia insultar.

     -Bom, parece-me que vou com minha esposa. te cuide, Emma -disse afastando-se displicentemente com as mos nos bolsos.
     Fui ao asseio sorridente e intercambiando algumas palavras com os que me cruzava. Mas uma vez dentro fechei a porta, apoiei-me com ambas as mos nos borde
do lavabo e me olhei ao espelho. Era aquele rosto gasto o que tinha visto Curtis? No era de sentir saudades que estivesse to ufano. No replique  provocao,
adverti-me, rebuscando na bolsa o lpis de lbios e a mscara de olhos. Curtis tinha querido me ferir e que me sentisse trada pelo Rudy.
     Como tinha podido Rudy lhe revelar meu segredo? Embora a verdade  que no lhe pedi que no o dissesse. No me pareceu necessrio. Acreditava que ela tratava minhas confidncias
como eu tratava as suas, com o maior respeito, como se fosse algo sagrado. "Solteirona promscua." Por favor! A chatear! Sua atitude no faz a no ser corroborar
o que sempre pensei que ele: que  um doente. Mas, OH Rudy, como pudeste lhe contar o do Mick?
     Bateram na porta.
     Mierda.
     -Um momento.
     Necessitava cinco minutos, pelo amor de Deus. Que tinha cara de ter chorado.
     -Perdo.
     Reconheci a voz jovial e amistosa da Sally Draco.
     Perfeito.
     Sorri. Joguei a cabea para trs e simulei uma risada divertida. Tinha que me pr a cara de festa. Alisei-me a saia e tomei a deciso de me ter isso com
Rudy em outra ocasio, no aquela noite, no ali, com duas taas de mais. J. fizemo-lo uma vez e no se voltar a repetir.
     Sally estava recostada contra a parede do salo contiga ao asseio. deu-se a volta para ouvir que se abria a porta.
     -Ah,  voc, ol! -exclamou.
     A segunda taa devia ter feito efeito. Parecia alegrar-se de verdade de lombriga. Tanto  assim se no chegar a cruzar os braos provavelmente me houvesse
abraado. Teria sido uma efuso excessiva, tendo em conta que, at aquela noite, s nos tnhamos visto uma vez, em outra das festas de L.
     -Que tal vai, Emma? -perguntou-me-. Sempre penso em te chamar, mas j sabe o que acontece...
     -Claro -disse com voz fica-, trabalhando e tendo filhos, deve estar muito ocupada. Que tal vai o trabalho? -acrescentei, porque me pareceu que gostava de verdade
conversar, que no era s um intercmbio amvel de saudaes.
     -Digamos que no  meu ideal mas... -respondeu pondo os olhos em branco.
     -No?
     No recordava bem no que tinha trabalhado anteriormente. No sei se era estagiria ou assessora jurdica; algo que tinha que ver com as leis. Nunca recordo no que
trabalham outros. Mas... sim.
     Quando Mick a conheceu trabalhava de estagirio em uma escrivaninha; e agora no Departamento de Trabalho.
     -Parece-me que no samos a mais de um por famlia que faa o que gosta -pinjente.
     Sorriu, mas acreditei notar uma soterrada agressividade.
     -Leva um modelo espantoso, de onde ?
     De modo que falamos de trapitos enquanto eu a observava e lhe devolvia o completo, lhe dizendo que eu adorava o vestido curto de coquetel que levava. Era
branco e precioso, a verdade. Era uma mulher atrativa, disso no cabia dvida, com um cabelo loiro liso e sedoso. Levava-o curto e com um penteado que as mulheres admiravam
mais que os homens. Seus olhos, muito separados, e os mas do rosto salientes davam a seu rosto um ar extico. Tinha a boca grande, muito, e no a favorecia. Mas
resultava sensual; toda sua cara era sensual e eclipsava seu corpo, nada exuberante.
     -H-me dito Mick que quase terminaste seu artigo. Alegra-me que tenha podido te ajudar.
     -OH, sim, foi que grande ajuda. No tivesse podido escrev-lo sem ele.
     -Quando sair?
     -No sei. Pode que em junho. Quando decidirem program-lo.
     -Estou impaciente por l-lo -disse ela me dirigindo um franco olhar.
     Deus sabe que tratei que ser objetiva. Perguntei-me: Cairia-me bem Sally de no existir Mick? Se a conhecesse em uma festa e comessemos a conversar,
sentiria-me impulsionada a intimar com ela? E a resposta sincera  que no, embora por nenhuma razo slida. Refiro-me a que no a vejo absolutamente como uma m
pessoa. Transborda cordialidade, embora tambm produz a sensao de no ser de tudo sincera; e quando mais fala uma com ela, menos autntica parece a impresso
inicial que d de grande segurana em si mesmo. Observa-te atentamente, espectador, como se desejasse algo. Depois de seus grandes olhos percebo uma grande carncia.
     Nossa conversao no se alargou muito. Entrou em asseio e eu entrei no salo, pensando nela. por que se tinha casado com o Mick? No podem ser mais opostos.
Ele  autntico e ela no (e no acredito diz-lo porque sou parcial). Ele estranha vez fala dela e quando o faz  sempre do modo mais genrico e educado, que  o
prprio dele. Resulta lhe frustre, mas eu gosto de sua discrio, seu cavalheirismo.
     Vi que L estava no centro do salo, com uma bandeja de mini kebabs de cordeiro. Olhava para a cozinha com cara de circunstncias.
     Estraguem. Era Jenny, com uma pessoa. notava-se em seguida que eram amigas porque foram do bracete.
     -Mido casal! -exclamei sem poder me reprimir.
     L fechou os olhos um momento.
     -me acompanhe, quer? -disse-me.
     -Claro.
     Inclusive me adiantei uns passos. Jenny me cai bem.
     Henry estava falando com ela e com seu amiga enquanto tirava umas mini quiches Lorraine do forno e ia pondo em uma bandeja.
     -OH, L! -exclamou Jenny ao nos ver-. L e seu amiga. OH, olhe, Phyllis,  L, minha encantadora nora -acrescentou propinndole a L um tremendo abrao que a levantou
do cho.
     me aplicou o mesmo tratamento, embora compreendi que se esqueceu de meu nome. No acaba de entender muito bem o das Quatro Obrigado, mas nos adora.
     -Emma -pinjente lhe recordando amavelmente meu nome, e lhe tendi minha mo a aquela mida cinqentona chamada Phyllis.
     Jenny o fazia bajulaes. Phyllis me dirigiu um faiscante olhar e me saudou.
     O mais claro sintoma de que Jenny pretendia no dar m imagem era que se ps um vestido (pela primeira vez que eu saiba). Era um vestido bonito e o
sentava bem, mas resultava to incongruente nela que recordou a um travest. Jenny mede 1,76 -metro oitenta com botas, adora dizer- e  robusta. Se
tinge o cabelo de cor castanha escura e leva um penteado alto, antiquado, uso Pompadour. Salvo por seu acento sulino recorda a Julia Child.
     -L, esta  Phyllis Orr, meu amiga ntima -disse com seu forte deixe da Carolina, como um Jesse Helms feminino. A seu lado o acento do Henry resultava do
mais acadmico.
     -Bom, e que tal esto? Estou encantada de lhes ver -balbuciou L como se no queria desafinar com a balbucia do Phyllis-. Bem-vindas. As amigas do Jenny
so... -deu-se uma palmada na frente para ouvir-se e ver que Henry e eu nos olhvamos risonhos. Logo acrescentou-: Como lhes conhecestes? Bom, se no ser indiscrio.
 curio...
     -Phyllis regenta meu edifcio de apartamentos -respondeu Jenny como assombrada ante as surpresas que proporciona a vida-. Tentaram entrar em roubar em meu apartamento...
j lhes contei isso. Recorda-o, Henry? Mas no fizeram mais que saltar a fechadura. E ela me arrumou isso -acrescentou lhe dando um golpecito com o cotovelo ao Phyllis.
     -O que so as coisas -disse L com cara de pasmo-. E aps so amigas.  maravilhoso.
     Phyllis era uma mulher estilizada, muito magra e atrativa, com cara de entender o suas de fechaduras. Olhou a L com curiosidade.
     -Falando de amigas... -disse Jenny-. O conte ao Phyllis o de seu grupo, L, carinho, cuntaselo. L formou um grupo exclusivamente feminino faz muitos
anos, Phyllis, e ainda seguem. Emma  membro do grupo. Quanto tempo levam j?
     -Em junho far dez anos -reps L.
     -Ah sim? -exclamou Phyllis.
     -vamos celebrar o dcimo aniversrio em Cape Hatteras -atravessei.
     A famlia de L tem um chal que alugam por todo o ano, menos duas semanas em junho e outras dois em setembro. As Quatro Obrigado tinham celebrado quatro
de seus nove aniversrios ali. De modo que podia considerar uma tradio espordica.
     -Ah, pois se eu fosse ali, desfrutaria nadando.  maravilhoso.
     Jenny descansou afetuosamente um cotovelo no ombro do Henry. Patterson e filho tinham um aspecto estupendo, vestidos de um modo to imprprio deles para aquela
velada. L olhou em redor esfregando-as mos e sonriendo impaciente. Duas companheiras dos cursos de formao entraram na cozinha a por gelo e se aproximaram
a escutar.
     -Quando eu tinha sua idade, Henry. Quando foi isso? -disse Jenny.
     -A finais dos setenta -reps Henry detrs refletir uns instantes.
     -Isso, faz vinte anos, quando tinha sua idade, tambm tivemos a idia de viver com mulheres em um grupo. Sabe que vivi em uma comuna? -perguntou dirigindo-se
a mim-. No campo, perto do Ahsville, em um stio precioso. E ali cresceu Henry. Preocupava-me que no tivesse um pai (ao seu o mataram no Vietnam, sabe?).
Mas fixa lhe como saiu -acrescentou. Passou-lhe o brao pelo pescoo ao Henry quase como se fosse fazer lhe uma chave e apertou.
     -Estraguem! -exclamei, como se no o tivesse ouvido nunca a L, ao Henry e  prpria Jenny muitssimas vezes.
     -Uma quiche? -ofereceu L lhe aproximando a bandeja a sua sogra.
     -Mulheres unidas jamais sero vencidas! -quase gritou Jenny-. No h nada que no possamos conseguir se nos unimos. Verdade, Emma? N, L, carinho? Mida tropa
fomos por ento. Amor livre Y... nada de homens. Puseste-lhe nome ao grupo? Nos chamvamos As Marimachos.
     Todos pomos-se a rir.
     -Mas o nossa no  dessa classe de grupos -particularizou L assinalando ao Henry, que era o nico ali que tinha pnis, como dizendo: olhem, a prova vivente
de minha heterossexualidade.
     -Fomos radicais! minha me! Montvamos uma manifestao por menos de um cigarro, sempre e quando fosse por um pouco comprometido. Lembrana que uma vez fomos
a uma assemblia antibelicista no Raleigh e hasteamos uma pancarta que dizia "Lsbicas pr o Mao". Minha noiva e eu nos tiramos a camisa e nos pusemos a lhes dar o
assumo a nossos filhos na escalinata do Capitlio. Acredito que voc viu essa foto, Henry.
     -Sim, tinha oito anos.
     -No! -exclamou L estupefata.
     -Mas no durou. No podia durar, suponho. E, alm disso, fomos todas muito jovens. Fomos partindo uma a uma, e tenho entendido que ali agora no h nem sequer
uma granja. Bonito que  aquele stio! Lembra-te do Sue Ellen Rich? -perguntou Jenny olhando ao Henry-. Recebi uma felicitao seu a passada Natal.
Ainda seguimos em contato e diz que agora montaram ali um hipermercado. Hummm. -Meneou a cabea com expresso desconsolada, deu-lhe um tapinha no brao
ao Phyllis e exclamou-:  Ai!
     -No somos muito polticas -disse L sorridente-. Tudo se resume em jantares.
     -Mas ainda seguem juntas; isso  o que lhes invejo. Dez anos, e ainda so um grupo. E seguro que ainda lhes querem muito.
     -Ah, claro que sim -assenti, rodeando a L pela cintura-. Seguimo-nos querendo muitssimo.
     L adivinhou o que me propunha fazer (beij-la na boca) e jogou a cabea para trs aterrorizada. Tive que me conformar com a bochecha.
     -Bom, vou passando isto -murmurou L soltando-se-, que se no se esfriam. Perdoam-me?
     L sempre to educada. Mas me olhou como se tivesse vontades de me estrangular.
     -Sinto chegar to tarde. Kirby acaba de me deixar abaixo -disse Isabel sem flego-. foi a estacionar.
     L foi tirar lhe a jaqueta mas Isabel recusou.
     -Me vou deixar isso -disse me olhando-. Ol -saudou-me.
     Correspondi de longe simulando um abrao. sentia-se bem, como sempre, muito longe de desmoronar-se nem nada parecido.
     Rudy se aproximou e lhe sorriu radiante. Logo a estreitou entre seus braos com a afeio de sempre.
     -Estava preocupada. J temia que no fosses vir.
     - que demorei para me organizar.
     -Que tal est? -perguntou-lhe L de uma vez que tomava ambas as mos e a olhava aos olhos.
     -Est maravilhosa! -exclamou Rudy.
     Era em parte certo e em parte no. Isabel levava um vestido precioso, dessa classe que nos recorda que o negro  sempre elegante, e se tinha feito um penteado
que a favorecia. Mas estava gasta, plida e amarelada, e os olhos davam a sensao de ser muito grandes para sua cara. Assegurava no ter emagrecido
nem engordado um s quilograma desde que tomava os novos medicamentos. por que ento parecia ter a cara torcida sob o queixo, como se tivesse papada? No era
muito proeminente, e qualquer que no a conhecesse no o teria notado. Mas eu no podia lhe tirar olho a aquele estranho abultamiento. Ultimamente a observo e a controlo
como uma me a um filho doente. Fazemo-lo todas. E ela o detesta.
     -Como te encontra? -insistiu L voltando a me fulminar com o olhar.
     -Estupendamente. No poderia me encontrar melhor. Que bonita est sua casa! -disse Isabel olhando em redor e soltando-as mos-. Esse espelho  novo, verdade?
No sei o que daria de ter seu gosto, L.
     Bem. Inclusive L captou a mensagem: no vamos falar de minha sade, de acordo? De modo que ficamos as quatro no centro do salo formando um protetor
crculo fechado, rendo e falando de coisas intrascendentes; dos bonitos pendentes da Isabel; de meus preciosos sapatos novos; e de se o perfume que se havia
posto L era Obsession ou no (at que inclusive eu esqueci que algo escuro e ameaador se posou sobre nossa preciosa solidariedade e nos tinha trocado para
sempre).
     Chegou Kirby. Isabel nos apresentou isso ao Rudy e a mim (L j o conhecia) sem a menor insinuao respeito de que esperava que lhes casse bem, como teria feito
eu em sua situao.
     Kirby resultou um tipo inquietante. Era muito mais alto que ns, embora duvide que pesasse mais de setenta ou setenta e cinco quilogramas; quase calvo, com faces
angulosas e ombros altos. Embora desajeitado, dava a impresso de ser fibroso, forte e atltico. Seus olhos de cor castanha clara e triste dominavam seu rosto.
No sei por que mas me pareceu que tinha cara de padre.
     Limitei-me a saudar sem acrescentar mais  frmula de cortesia. Formamos um pequeno grupo no salo exterior, ns quatro e Kirby, e mantivemos um bate-papo
com tmidos intentos de nos conhecer mutuamente. Ele tampouco disse grande coisa, embora no pode dizer-se que se mostrasse distante ou taciturno. Mas no cabe dvida de que
notou que o estvamos examinando. Curiosamente, L assegurou que lhe caa bem, em que pese a que se mostra muito mais possessiva com a Isabel que ns. Mas tambm  proverbial
sua falta de olho clnico para julgar o carter de outros (no so meus prejuzos; baste pensar na Sally) e, portanto, sua opinio no me influiu em nada. Francamente,
Kirby no acabava de me gostar de, mas tratei de ser objetiva pelo bem da Isabel.
     No foi por nada que ele dissesse e, de no estar eu to suscetvel e escamada, tampouco o tivesse atribudo a nada que ele fizesse. No  exatamente que no se
separasse da Isabel mas sim dava a impresso de vigi-la. Era uma impresso que me transmitiu sua linguagem corporal; e outra coisa: como L tinha retirado todas
as cadeiras do salo para que houvesse mais espao, Kirby se esfumou durante uns segundos e logo reapareceu com um tamborete da cozinha, que situou detrs da Isabel
quase imperceptivelmente (sua manobra foi vista e no vista, como por arte de magia). E, com o mesmo aspecto, primeiro lhe trouxe um copo de tnica com uma rodela de
limo, e logo um prato com o que ele tinha eleito do bufei. Ao ver que ela no parecia muito apetente, olhou-a primeiro com cenho e logo com desenvoltura, quando ela
comeou a picar um pouco. Parecia haver-se adotado o papel de anjo guardio.
     Era fcil precipitar-se e consider-lo um tipo estranho e um tanto macabro por seu modo de apegar-se a uma mulher que, como mnimo, estava gravemente doente. E ento
compreendi por que Isabel pensou ao princpio que era gay: no porque fosse efeminado, mas sim porque era diferente e no encaixava com o tipo de homem habitual. Entretanto,
no demorei para notar que era uma pessoa gentil. E decidi lhe dar um voto de confiana. Ao cabo de meia hora me alegrei pela Isabel. No tivesse podido encontrar um homem
menos parecido ao Gary Kurtz nem que o buscasse com lupa.
     Kirby sugeriu que fssemos sentar nos ao salo, e me precavi de que o fazia porque pensava que Isabel estaria mais cmoda ali. Ao nos dispersar, Isabel me
abordou na entrada.
     -O que?
     Demorei uns momentos em responder mas, ao ver seu olhar de impacincia, fingi no ter entendido a pergunta.
     -Refere a ele? Pois eu gosto.
     -De verdade, Emma?
     No saberia expressar como me senti ao comprovar que a Isabel importava o que eu opinasse de seu noivo. Era como se nossa lder me consultasse primeiro
sobre uma entrevista s cegas. Comoveu-me. Isabel  minha mentora, embora nenhuma das duas o expressaramos nunca assim em voz alta, e certamente nunca o expressamos
assim.  ela quem aprova ou desaprova minha conduta, mas no  inversa.
     -Claro que eu gosto. por que no ia gostar de me? -pinjente-. No que ficou o de que foram simplesmente amigos?
     -Seguimos assim. Isso  exatamente o que somos.
     -E o h dito voc assim?
     Isabel sorriu e baixou a vista.
     -Est apaixonado por ti, no?
     -Se alguma vez o esteve, j no.
     -Porqu?
     No me respondeu.
     -E como  isso? por que tornaste a adoecer? Pois se for assim...
     -As coisas so agora muito complicadas, Emma. Isso  tudo. Tem que reconhecer que so complicadas.
     -Tudo  complicado, Isabel. Pretende me dizer que Kirby s pode te querer se transbordar sade?
     -No, no  isso o que pretendo te dizer -replicou um tanto perplexa-. No o entende.
     Me acendeu a lucecita e o vi tudo claro.
     - tua coisa -pinjente.
     -O que  minha coisa?
     -Voc  a que se torna para atrs porque est doente, no Kirby -disse com certo alvio, sobre tudo porque acabava de me convencer de que Kirby me inspirava
confiana.
     Isabel me olhou pensativa e meneou a cabea.
     -No  to singelo, Emma. No  to singelo.
     -Se voc o disser... Mas acredito que  importante que veja as coisas com claridade.
     At me assombra pontificar dessa maneira a respeito dos problemas de outros assim que me d um pouco de p.
     -Certamente s vi ao Kirby uma vez -acrescentei-, mas no me deu a impresso de ser uma dessas pessoas que no suportam as complicaes. No tem
pinta de ser dos que pem-se a correr.
     Isabel foi dizer algo, mas L nos interrompeu.
     -Meninas, ao set! -disse com voz cantarina assinalando  temvel cmara de vdeo-. Todas ao salo, que Henry quer nos filmar no sof.
     Pus-se a rir.
     -Do que te ri? -exclamou L com cenho.
     -De nada -repus. No conheci a ningum to torpe para entender os subentendidos.
     O melhor do Henry se emprestou. Usar a cmara para pr em evidencia a outros era uma das mais irritantes maneiras de divertir-se que tinha L. J
chateava bastante quando o fazia ela, mas quando o arrastava a ele a fazer o mesmo, Henry demonstrava ser um santo.
     Apertamo-nos as quatro no condenado sof. Eu fiquei entre o Rudy e Isabel. Rudy no estava bbada mas o fazia piscadas  cmara e fingiu me colocar a
lngua na orelha. Eu no tinha vontades de rir -estava zangada com ela-, mas ao final o conseguiu. Vi o Curtis revoar entre os convidados que nos olhavam.
No riu com outros, nem sequer sorriu. E isso me ajudou a me decidir.
     Tinha sido uma ingnua ao acreditar que Rudy no revelaria meus segredos ao Curtis. Quando vais maturar?, reprovei-me. Os matrimnios o contam tudo. O
matrimnio passa por cima da amizade, embora esteja uma casada com um imbecil. A verdade  que j no estava zangada com ela e no ia fazer um problema de
o que lhe houvesse dito ou deixado de dizer ao Curtis; nem sequer pensava tirar o tema a colao. Isso era precisamente o que ele queria que fizesse. Porque se
joda. No ia pr pedras no caminho de minha amizade com o Rudy porque a ele lhe desejasse muito.
     Reparei em que Curtis me olhava e aproveitei para rodear ao Rudy com o brao e beij-la na tmpora. te chupe essa, estpido!
     Mas no foi uma vitria total. Porque em adiante teria que tomar cuidado no que contava ao Rudy a respeito do Mick e eu. E a s idia voltou a me pr furiosa
com ela.
     -Ol.
     -Ol.
     Durante toda a velada me havia sentido como um pssaro que revoa sobre um matagal de urtigas sem atrever-se a posar-se.
     A parte de atrs do jardim de L era como um suave prado que eu esquadrinhava a vista de pssaro. E ali estava Mick me esperando.
     Bom, a verdade  que no sei se estava me esperando. Mas estava ali, fumando um cigarro junto  cerca descolorida e coberta de hera que separava
a casa dos Patterson da do vizinho. Nem sequer estava sozinho. Porque ao fundo do jardim outros convidados, trs ou quatro homens e uma mulher, riam, bebiam
e fumavam charutos ao redor de um balano oxidado, to velho como a casa. A temperatura era agradvel, estava nublado e a lua no era mais que um risco curvo
logo que entrevido em um cu cinza e sem estrelas. A diferena de meu bairro e do do Mick, o de L era muito tranqilo os sbados de noite.
     -No  como por nossos bairros, verdade? -pinjente.
     Mick sorriu, retrocedeu um passo me convidando a ir com ele junto ao bordo da grama. Eu tambm sorri mas baixei a vista para que no o notasse. Porque a euforia
me fazia ccegas no peito. A tenso que havia entre ns era alarmante. Significava que tudo era certo; todo aquilo que eu desejava e temia.
     -Surpreende-me que fume -pinjente.
     -No cria... Deram-me isso. Mas no estou acostumado a fumar -disse olhando a brasa do cigarro como se tambm lhe surpreendesse-. Fumo um cada tanto.
     -Eu sim fumo, mas s quando estou com o Rudy.
     -Quer que te pea um?
     -No -pinjente rendo, de novo eufrica.
     Os mosquitos danavam  luz do jardim. Duas casas mais  frente um co ladrava de puro aborrecimento. ouvia-se o zumbido de um avio invisvel. Pouco a pouco,
embora no falssemos, comeamos a nos relaxar. amos tecendo uma rede a nosso redor, quase como um casulo. Era o mesmo que fazamos no Murray's, ou seja que
j tnhamos prtica. Entretanto, estava perplexa. Que cmoda me sentia com ele!
     -Tenho o artigo quase terminado -pinjente-. S me falta comprovar uns dados e a reviso final.
     Assentiu com a cabea, mas reparei em que se abstinha de dizer nada que indicasse que se alegrava. Porque terminar o artigo sobre o mundinho da arte em
Washington para Capital significava no ter mais desculpa para cham-lo a seu estudo ou tomar caf com ele para lhe fazer mais pergunta. No teria mais justificaes
para seguir em contato com ele em adiante. Salvo a amizade. A secreta amizade, como Rudy o tinha expresso muito acertadamente, algo que, em certo modo, a deslegitimaba
como pura amizade.
     -Obrigado por sua ajuda -disse em tom protocolar-. Sem ti no tivesse conseguido escrever o artigo.
     -No acredito te haver ajudado em nada.
     -Isso no  certo. No teria sabido a quem entrevistar e a quem no de no me haver orientado voc. Nem sequer teria sabido por onde comear.
     O redator chefe de Capital me aconselhou enfocar o artigo do ponto de vista de uma pessoa profana em arte, algo que me vinha ao cabelo, pois era o nico
enfoque que eu podia lhe dar.
     - jornalista -disse Mick-, j tivesse encontrado o modo de faz-lo.
     -No sei por que te empenha em no reconhecer que me ajudaste. Claro que no ter que descartar que no gostem; inclusive de que me rechacem isso.
     -Em tal caso pode dizer que foi minha culpa.
     -Disso nada...
     Estava pecando de falsa modstia, porque me sentia muito satisfeita de como tinha ficado o artigo. Surpreenderia-me muito que o rechaassem. Mas  inegvel
que sou uma especialista em lanar pedras sobre meu prprio telhado.  como aquele que se cobre nas apostas, que respira a esperana sem descartar a decepo
para que logo no aduela tanto. Pelo menos em pblico.
     Atravs dos cristais da porta do jardim, que agora estava fechada, vimos que os convidados foram lentamente do bar  mesa, em pequenos grupos.
No ouvamos o que diziam. S vamos os movimentos de sua boca e ouvamos suas risadas. A esposa do Mick estava enfrascada em uma conversao com o Curtis Lloyd e em seguida
assaltou-me a fantasia de que surgisse entre eles uma flechada fulminante, abandonassem a seus respectivos cnjuges e se largassem juntos a Ibiza.
     -falei com sua amiga Isabel -disse-me Mick.
     -J a conhecia, no?
     Tinha-a conhecido ali mesmo, na ltima festa que deu L.
     -Sim, embora logo que falamos. Mas esta noite sim. E me cai muito bem.
     -Surpreenderia-me que no te casse bem.
     - duro -disse-me.
     Um dia, no Murray's, lhe confiei quo assustada estava e pus-se a chorar (algo que detesto). De modo que agora ele se mostrava diplomtico, expressando sua solidariedade
mas sem me dar pie a se aprofundar no tema.
     -L contou a Sally o do Crculo Curativo e Sally me contou isso  -disse-me.
     -E o tem feito?
     -Sim. E voc?
     - obvio. Mais ou menos. Como o fizeram vs? -perguntei, tratando de imagin-los a ele e a Sally frente a uma vela e fazendo invocaes ao unssono.
     -No metro, de volta de uma classe de desenho. No me lembrei at as dez menos quarto.
     -E o que fez?
     -Pois meditar. E voc?
     eu adorava falar com ele assim. Com o Rudy e com L resultava muito ntimo e,  obvio, com a Isabel no podia fal-lo.
     -Eu tentei meditar, mas no me d nada bem. Como lhe compe isso voc para deixar a mente em branco? Eu no posso desconectar.
     -A verdade  que no sei se posso chamar meditao ao que fiz -disse tratando de no me desanimar-. Simplesmente pensei nela. Fechei os olhos e desejei que se
curasse.
     -Pois isso  o que fiz eu tambm. Desejar que se cure.
     Uma mulher a que eu no conhecia abriu a porta do jardim e apareceu na penumbra. Algum -sem dvida L- tinha tirado a cinta dos Drifters e havia
posto uma do Stephane Grappelli. Sincopada-las notas do jazz romperam o silncio, como um carro que irrompesse em um campo de rugby durante o descanso. A
mulher sorriu, desistiu de sair ao jardim e fechou a porta. Voltou a fazer o silncio.
     Ao ver que me tirava os sapatos, Mick me perguntou se queria voltar a entrar.
     -No. est-se muito bem aqui -repus-. Mas se quiser, entramos.
     -No -disse me olhando, olhando meu corpo, algo que estava acostumado a lhe custar trabalho no fazer ou, pelo menos, isso me parecia .
     A que se deve que alguns homens lhe olhem e lhe faam sentir a mulher mais sexy do mundo; e que em troca quando lhe olham outros sinta a tentao de lhes soltar
um chute na entrepierna? Uma fantasia irrompeu em meus tmidos intentos por falar de temas superficiais: imaginei abraando-o. Nas pontas dos ps, rodeando-o
com meus braos e inclinada para ele. Me secou a boca e esqueci o que estava lhe dizendo. Notava a roupa muito rodeada, muito ntima. Ensinava muito,
mas desejava oferecer-lhe tudo. Queria me entregar a ele.
     Deixei minha taa no bordo de uma jardineira de ferro forjado. Aquilo no era como uma paquera com algum convidado bonito em uma festa. O que eu sentia era uma
luxria perigosa que podia destruir vistas. Pensar nesse potencial perigo me limpou como se me tivesse mergulhado em gua fria.
     -No que est trabalhando agora? -perguntei-lhe, agradada por ter conseguido trocar de tema.
     -Em algo novo. Em uns retratos  aguada. Vem v-los -convidou-me-. Vem quando quiser, Emma.
     Ou seja que voltvamos a estar como ao princpio.
     Tentei esquiv-lo.
     -Eu gostaria. Algum dia irei.
     No me perguntou a respeito do que estava escrevendo, porque fazia tempo que lhe tinha pedido que no o fizesse.
     -No estou contente com o que estou escrevendo -pinjente, surpreendida por meu acesso de sinceridade-. Eu no gosto. Pode que deixar meu emprego no peridico haja
sido um engano.
     -No acredito.
     -Bom... -pinjente, para que se estendesse. Porque de momento me havia dito o que queria ouvir.
     -Em todo caso,  muito logo para diz-lo. Quanto tempo leva?
     -Um ms.
     -Muito pouco tempo.
     -E quanto tempo tem que passar para saber se tiver sido ou no um engano?
     -Isso no sei.
     -No o teria feito de no me haver inspirado em seu exemplo -disse sonriendo do meio lado-. No o teria feito de no te haver conhecido. De modo que se a pifio
parte da culpa ser tua.
     -Ir bem. Seguro.
     -No que te apia?
     -Em que tem fora, entre outras coisas.
     -Fora narrativa?
     -alm de que lhe joga corao. Est viva.
     Contigo sim que estou viva, pensei.
     -Tem... no sei como cham-lo, uma atitude que sem dvida atrair aos leitores, pelo menos aos leitores inteligentes.
     Por sorte estava escuro, porque me ruborizei.
     -Daria algo porque isso fosse verdade -reconheci quase sem flego-. Mas nem sequer sei ainda sobre o que devo escrever.
     -J o descobrir.  muito impaciente.
     -Certo. Detesto esperar. Pergunto-me se for consegui-lo, se for funcionar, se for ter xito. Sim. Sou muito impaciente.
     -E se a resposta fosse que no, e j soubesse, o que faria?
     -No sei.
     -Eu compreendi que o que devia fazer era pintar ao me precaver de que era quo nico queria fazer, embora nunca triunfasse. Essa era a prova de fogo. Porque
no se trata do que outros opinem de minha obra. trata-se de mim, de minha evoluo; de lombriga melhor, de compreender coisas que antes eram um mistrio para mim. De mover-se.
De trocar.
     Assenti com a cabea repetidamente. A conversao me fez sentir exultante e animada, de uma vez que me preocupou. Serve-me para refletir logo sobre isso.
     E me confirmou uma coisa que suspeitava desde fazia tempo: Mick era mais amadurecido que eu.
     -Bom, d igual. Mas queria te dizer que, de no te haver conhecido, provavelmente no teria deixado meu emprego. Pareceu-me que era correr um grande risco. No reparei
no que pde significar para ti. Agora sei. E te admiro.
     Baixou a vista. S lhe via o cocuruto. meteu-se a mo no bolso traseiro da cala. Por um momento acreditei que ia tirar um leno para enxugar-se
as lgrimas. Senti-me como uma estpida, mas aliviada quando tirou a carteira.
     -Quer ver uma fotografia do Jay?
     Seu filho era precioso, loiro, de bochechas rosadas e sorriso anglico.
     -parece-se com ti -pinjente-. Mas no sei exatamente no que. Porque suas faces no...
     -Pois no. Todo mundo diz que se parece com a Sally.
     -Sim, mas h algo, algo que...
     Na foto, Jay estava fazendo um boneco de neve com papai no jardim. Reconheci a fachada da casa porque em uma ocasio passei por diante com o carro.
No foi por acaso mas sim queria ver onde vivia Mick; queria encher aquela inocente lacuna no que sabia dele. Na fotografia ia abrigadsimo, com um
agasalho impermevel acolchoado, cachecol, gorro com brincalhonas, luvas de l, e botas amarelas. Dava a impresso de no poder mover-se, de estar enraizado na terra do jardim
como as rvores. Uma vez minha me me fez uma foto com uma indumentria parecida, com a clssica pose dos meninos: sujeito meu tren com uma corda e o vizinho
detrs de mim, mais alto, algo major, com uma picasse olhar. Mas no recordo nada daquele dia. Olhar aquela Jay de major sem recordar tampouco nada?
     -OH, Mick,  precioso. O que tem?, seis anos?
     -Cinco e mdio. Cumprir os seis em dezembro.
     -Sempre quiseste ter filhos?
     -A verdade  que no. Jay veio... por surpresa.
     Elevei a vista. Sua expresso se feito grave, retrada. Estava medindo as palavras.
     -Nunca acreditei que a vida de ningum pudesse me importar mais que a minha. Acredito que Jay  feliz. Acredito que  de verdade feliz. O que mais me assusta  sua inocncia.
Quero proteg-lo e sei que no posso -disse com uma voz cada vez mais baixa-. No poderia fazer nada que fizesse mal ao Jay. Por mais que o desejasse. Por mais que...
-deixou a frase sem acabar. Devolvi-lhe a fotografia sem dizer uma palavra. Mensagem recebida.
     A verdade  que foi um alvio. Ao igual aos meninos, funciono melhor quando me pem limitaes. Agora que sei as regras, seguirei-as ao p da letra.
No que estava pensando?, perguntei-me.
     abriu-se ento a porta do jardim. Inclinamos a cabea com renovada inocncia. Sally nos aproximou com L a poucos passos. Mick pareceu aguardar a que seu
esposa estivesse a seu lado antes de voltar a guardar a foto de seu filho na carteira. Equivalia a uma declarao de inocncia.
     Cercamos conversao (ns, porque Mick no abriu a boca). Eu estava aliviada e, de uma vez, abstrada. L disse que Sally queria me colocar a um noivo
de seu escritrio. Um advogado quarento, divorciado, que trabalhava como assessor jurdico.
     -No diga que no sem nem sequer pens-lo, Emma, porque parece um homem realmente simptico Y...
     -De acordo.
     L piscou com expresso inquisitiva.
     -Obrigado, Sally -pinjente-. Lhe d meu nmero de telefone e lhe diga que me chame.,
     Pareceu surpreender-se tanto como L. Estava visto que minha reputao era de levanta.
     -Descuida que o farei -disse Sally, e tomou entre suas mos o brao do Mick e recostou a cabea em seu ombro. Mensagem de esposa: vamos logo, carinho, que
estou cansada.
     Cometi o engano de olh-lo. Pergunto-me quanto dor pude me haver economizado se ele tivesse desviado o olhar ou se tivesse dissimulado seus sentimentos ou, simplesmente,
se tivesse havido menos luz. Mas havia luz suficiente e Mick dissimula muito pior que eu. Vi todo seu sofrimento, enorme, descarnado e humilhante. Durante todo aquele
tempo tinha dominado meu amor por ele. A miragem que me induzia a pensar que tinha alguma possibilidade se evaporou.
     Compreendi duas coisas que tivesse preferido ignorar: que nunca poderia o ter e que estvamos apaixonados.
Captulo 16
Isabel
     A primavera  minha estao favorita. Maio  o ms que prefiro. Adoro a inocncia de maio depois do traioeiro abril, a esperana isenta de argcias
que oferece. A doura. No sei se atribuir  boa sorte, ou a um dos golpes baixos do destino, que a pior experincia de minha vida tenha lugar no amvel
maio.
     O tratamento com antiestrgenos no funcionou comigo. Dado meu histrico, o doutor Searle no se fez iluses desde o comeo mas, por distintas
razes, ambos quisemos interromper a terapia o maior tempo possvel. Minha razo era que j tinha seguido o tratamento de quimioterapia e me aterrava. No s
no tinha servido para evitar uma recidiva mas sim tinha agravado minha enfermidade.
     O doutor Searle ideou um novo coquetel de frmacos desde minhas ltimas juerguecitas com a quimio. Chama-o CAC (Cytoxan, Adriamycin e 5-fluororacil) e, se
no me mata, quase terei que ter piedade de minhas pobres clulas cancerosas.
     Kirby quis me acompanhar para minha primeira sesso de tratamento, mas o dissuadi. Disse-lhe que j tinha passado por aquilo uma vez e que j sabia o que me esperava.
Alm disso (isto no o disse) se surgiam problemas, comeariam depois, entre sete e dez horas depois das instilaciones.
     Tinha hora para a uma e meia e s doze e quinze chamou L  porta.
     -Tomo a tarde livre e te acompanho -disse-me.
     Compreendi antes de que me dissesse isso que, a diferena do Kirby, a L no poderia dissuadi-la e no me equivoquei. Mas devo reconhecer que junto a uma ameaa de exasperao
senti um alvio enorme.
     O mdico j tinha escrito as receitas de meu quimio, mas ainda teria que aguardar um bom momento antes de comear o tratamento a que me fizessem novas anlise
e a que na farmcia do hospital tivessem a frmula magistral preparada, como a chamavam. At passadas as trs no entrei no pequeno cubculo e me joguei em
a cmoda maca. L se sentou em um tamborete a meu lado e conversamos. Fofocas. Embora eu estava muito nervosa para escut-la. Duvido que se conhecesse tanto
como ela acreditava, porque estava mais nervosa que eu, que j quer dizer. Mas, em certo modo, pude lhe haver dito que as instilaciones de quimioterapia em si no so
nada.  depois quando comea a farra.
     O pessoal no era o mesmo que dois anos atrs. No conhecia o Dorothy, uma enfermeira moria, menudita e muito agraciada que entrou muito sorridente com uma bandeja
cheia de medicamentos.
     -Uma amiga, verdade? Isso est bem -disse com um bonito acento ingls de uma vez que me buscava a veia. A espetada foi quase imperceptvel e rpido. Dava obrigado
a Deus de que fosse to hbil. Porque algumas som umas aougueiras.
     -O que leva isso? -perguntou L ao ver a seringa de injeo de cor vermelha brilhante que a enfermeira Dorothy conectava ao cateter.
     -Adriamycin -respondeu-.  o frmaco que provoca a queda do cabelo, carinho -acrescentou me olhando aos olhos com expresso maternal.
     Sua simpatia era autntica, mas quase excessiva. Eu parecia p, porque no h nada neste mundo que me faa me compadecer mais que a quimioterapia. Acredito
que se Ler no chega a estar comigo me tivesse posto a chorar. Mas sempre me sinto obrigada a levantar o nimo de todo aquele que me pretenda levantar isso ,
e no me ocorreu mais que um golpe de humor to negro como manido.
     -Logo todos calvos.
     Fechei os olhos enquanto Dorothy me injetava lentamente a vermelha substncia na veia.
     Logo me instilou Cytoxan, com um lento gota a gota. J me tinham administrado isso anteriormente. Estava preparada para seus desconcertantes e instantneos efeitos
secundrios. Produz a mesma sensao que se acabasse de comer mostarda a China, sente frio nas fossas nasais e como se se dilatassem. depois de me instilar o
5-fluororacil a enfermeira me retirou o cateter e me disse que no me movesse, que voltaria dentro de um momento a tomar meus constantes vitais e me dar instrues
em relao aos efeitos secundrios.
     Segui ali arremesso com os olhos fechados, com os cinco sentidos aplicados enfermizamente a captar o que sentia. No muito. Era muito logo. L apenas
falava. Supus que comearia a falar outra vez para ouvir que aproximava mais o tamborete a mim. Posou uma mo na minha; tremia-lhe.
     -vamos fazer um experimento de visualizao -sussurrou-me-. Visualizaremos s clulas cancergenas morrendo  mos da quimio. Parece-te?
     No sei que forma adotaria sua visualizao, mas a minha me fez sorrir.
     -O que acontece? -perguntou L.
     Mas eu me limitei a menear a cabea. Duvidei que lhe fizesse tanta graa como a mim (com meias-calas ajustados, L empunhava uma espada de plstico e, qual
gladiador, descabeava uma a uma s clulas cancergenas).
     -Henry eu estamos de ponta -disse-me um dia que fomos jantar cedo a um restaurante espanhol perto de meu apartamento.
     Foram os olhos vendo-a atacar um prato de arroz com camares-rosa. Eu tive que me conformar com uma sopa de lentilhas e uma pequena salada. E, mesmo assim, temi
me exceder.
     -E por que esto de ponta?
     -Discutimos por tudo. Tudo o que diz ou faz me pe furiosa. No posso evit-lo.
     - o estresse. Esto os dois...
     -J sei. Ontem  noite lhe gritei que tinha que deixar de beber, e no nos dirigimos a palavra aps.
     -Deixar de beber? Mas se Henry logo que bebe! Ou sim?
     -s vezes se toma uma cerveja depois do trabalho. E o lcool afeta  produo de espermatozides, Isabel. Est comprovado. No acredito que seja lhe pedir muito.
Sou eu quem o est fazendo tudo. Tudo o que tem que fazer ele  quebrar-lhe e correr-se em uma garrafa cada trs ou quatro semanas, e eu tenho que fazer todo o resto.
     Deixou o garfo no prato e se tampou a cara com as mos.
     -OH, L, carinho... -exclamei, porque me pilhou despreparada. Tudo o que me ocorreu fazer foi alargar a mo e lhe dar uns tapinhas no brao.
     -Perdoa -disse rebuscando um leno na bolsa-. tive um dia horrvel -acrescentou com a cara vermelha como um tomate-. Veio-me a regra.
     Rompeu a chorar.
     -OH, no. Sinto-o muito...
     -No sei o que me ocorre. No deveria haver lhe contado isso precisamente nestes momentos, mas...
     -No se preocupe.
     -... no posso evit-lo. Estou fora de mim. No posso controlar minhas emoes. S tenho vontades de chorar e empreend-la a patadas contudo. Estou muito assustada,
Isabel. Aterra-me pensar que no cheguemos a ter filhos. Porque se no os temos...
     levou-se a mo ao pescoo, olhando em redor com cara de sofrimento, angustiada ao pensar que algum pudesse hav-la ouvido.
     -Mas podem provar muitos outros sistemas, no? Se a inseminao no funcionar...
     -H milhes de coisas que se podem provar: a fecundao in vitro, as mes de aluguel... No estamos mais que comeando, e tudo  muito lento e costa uma
fortuna. Henry no pra de dizer "E o que fazem os pobres nestas circunstncias?". Sei que o tira de suas casinhas gastar tanto dinheiro. Mas  meu dinheiro, e quando
o digo se sente ferido e fica furioso.
     Nunca a tinha visto assim. Emma e Rudy se burlam da serenidade de L, de seu racionalismo, de sua tendncia a v-lo tudo branco ou todo negro, incapaz de matizar.
Mas o certo  que pode ser to temperamental como qualquer de ns. Embora tenha uma idia mais rgida sobre o que pode exteriorizar ante outros, mais
rgida e mais antiquada. E por isso me surpreendeu tanto seu estalo daquela noite.
     Demorou pouco em recuperar a compostura desfazendo-se em desculpas. Eu quis seguir com o tema, lhe pedir que terminasse a frase que tinha deixado pela metade: "Porque
se no os tivermos..." Mas no era o momento nem o lugar.
     Quando terminamos de jantar insistiu em me acompanhar a casa.
     -Se se sentir indisposta,  conveniente que esteja com algum.
     Protestei sabendo de que seria intil. Mas como em outras ocasies, tambm senti alvio. Provavelmente me sentiria indisposta. J contava com isso. Mas
disse-lhe que em tal caso nada poderia fazer ela.
     -Alm disso, e Henry? Deveria ir a casa, L.  sexta-feira...
     -E o que? J est bem sozinho. Chamarei-o e lhe direi que vou chegar tarde. No se preocupe por ele.
     Era sua maneira de castigar a seu marido quando estava desconsolada. Oxal todos os matrimnios soubessem desafogar sua ira de um modo to incuo, pensei, ao recordar
minhas relaes com o Gary.
     Embora eram s as oito, ao chegar a casa despi e me meti na cama. Provavelmente no dormiria. Mas, pelo menos, poderia me relaxar umas horas antes
de comear a me encontrar mau ou se por acaso me encontrava mau (tentava ser positiva).
     -Como te encontra? -perguntou-me L, que se inclinou para mim, agasalhou-me melhor e alisou o bordo do lenol.
     -No saberia como lhe descrever isso Tenho calor e noto a pele tensa. Sinto-me estranha. Como um formigamento.
     L se sentou no bordo da cama.
     -Febre no tem -disse detrs me pr a mo na frente-. No se preocupe, Isabel, que ficarei contigo. vamos sair desta, j o ver.
     Quis lhe dizer que tinha sido para mim como uma me maravilhosa -que o seguiria sendo-, mas temi que nos jogssemos ambas a chorar.
     -Quer que te traga um pouco de gua?
     -Sim, por favor. Aconselharam-me beber muita gua. E  lgico. No convm que todas essas beberagens fiquem na bexiga e nos rins mais tempo do necessrio
-disse incorporando-se.
     -Quer que apague a luz?
     -Sim, por favor.
     -Bom, trarei-te gua. Logo tenta dormir.
     -E voc o que far?
     -Pois ficarei aqui sentada e meditarei um momento. Importa-te que ponha a televiso baixa?
     -No, claro que no.
     -Bom, porque durma bem, Isabel.
     -boa noite. E obrigado por tudo, L.
     Lanou-me um beijo da entrada e, ao cabo de uns minutos a ouvi falar em voz muito desce por telefone. Com o Henry, supus. Desejei que fizessem as pazes. Agucei
o ouvido, tratando de me inteirar de como se encarrilhava a reconciliao, mas devi perder o fio e ficar dormida. Sobressaltei-me para ouvir soar o telefone.
     L respondeu.
     -Est bem -ouvi-a dizer, com voz tensa e muito sria, quase grosseira. Deduzi que devia ser Kirby. E ao cabo de uns segundos me senti fatal.
     Levantei-me cambaleante. O quarto de banho estava quase junto ao dormitrio. No havia mais que dar dez ou doze passos no corredor para entrar. Mas no cheguei.
     Vomitei no tapete do corredor, nos ladrilhos rosados e na catapora do lavabo. Foi como uma exploso. Tudo o que tinha comido: o jantar, o
almoo e o caf da manh, e uma enorme quantidade de blis negruzca e espessa saiu como um giser incontrolvel. Apoiei-me no lavabo, dando arcadas e tossindo, enquanto
L me rodeava a cintura com o brao.
     -Bom, assim... Agora se sentir melhor -disse-me.
     -minha me...! -exclamei quando pude-. Mas no te ocorra limp-lo. J o farei eu, s...
     -Cala, Isabel. J est?
     No. Voltei a vomitar, me sujeitando o estmago, sem parar de dar arcadas at que no ficou nada nele. Mas ao ir enxaguar me a boca no lavabo, tive
outro acesso.
     L me ajudou a voltar para a cama e me acurruqu; fiquei feita um novelo, suarenta. Ouvi-a limpar o tapete esfregando com uma escova e logo esfregar o cho.
O aroma de detergente me produziu nuseas. L acabava de deix-lo tudo como uma patena, e voltei a lhe pr perdido o lavabo.
     Aquilo no parava.
     -No sei de onde o tiro. joguei j at a blis!
     E ao final j no ficou nada, mas isso no acabou com minhas nuseas.
     -vou chamar ao mdico -disse L, que j me tinha repetido isso vrias vezes. Soava a carinhosa ameaa. Mas eu lhe repliquei que no ia servir de nada porque
j me tinha tomado a medicao para combater as nuseas.  parte dos efeitos secundrios. No podem fazer nada.
     O certo  que naquela ocasio foi pior que outras vezes. Devia ser a Adriamycina, o novo frmaco que o mdico tinha incorporado ao coquetel. Voltei
 cama e tentei descansar, mas no podia estar quieta mais de uns segundos; no encontrava a postura. Tinha os msculos do estmago flccidos e doloridos,
e todos os nervos em tenso. L quis me fazer beber gua, mas no pude. S me pensando-o entravam arcadas.
     Bateram na porta e olhei o relgio. Eram as doze e vinte. L foi abrir e ouvi a voz do Kirby interessando-se por meu estado. Afundei a cabea no travesseiro,
absurdamente mortificada. No cabia dvida de que me tinha ouvido porque seu quarto de banho estava justo em cima do meu. Alegrei-me de que L no o convidasse a entrar.
     -Bom, j te chamarei. Agora no h nada que possa fazer. Mas obrigado -ouvi-a dizer, e logo fechar a porta.
     Lamentei que Kirby e eu tivssemos tido aquele abortado escarcu semirromntico em dezembro passado; que me tivesse beijado e que dissesse palavras de amor.
No teria sido to embaraoso que a coisa no seguisse adiante. Emma tinha em parte razo ao dizer que era eu quem deu marcha atrs na relao. Mas em outro
sentido estava equivocada. Kirby desapareceu. No me chamou nem me visitou durante seis dias depois de que lhe contasse o de meu novo diagnstico. E seis dias era muito
tempo, porque estvamos acostumados a nos ver diariamente. Quando reapareceu, comportou-se como se nada tivesse acontecido, e aps tinha sido a solicitude personificada, um
modelo de solidariedade e de desprendida amizade. Era bvio que o impulsionava a decncia, no o amor e,  obvio, eu no o reprovava. Ele tinha perdido a seu
esposa e seus filhos de um modo to absurdamente trgico como prematuro. Teria tido que estar louco, ser uma pessoa patolgicamente autodestructiva para derrubar-se
em uma relao amorosa com uma mulher em minha situao. No, absolutamente, no podia reprovar-lhe mas me mortificava pensar que Kirby teria que as ver-se com outra
desgraa.
     -Vete a casa -disse-lhe a L  uma-. Acredito que j estou melhor -menti. Porque tinha calafrios. Notava-me afiebrada, esgotada e incapaz de me relaxar.
     -J chamei ao Henry e lhe hei dito que fico. Oxal pudesse fazer algo. Quer que te d uma massagem nas costas?
     -No, obrigado. Tenho a pele como descarnada. Di-me at o roce do lenol.
     -Quer que ponha msica? Algo suave que te ajude a desconectar?
     -No sei. Possivelmente no.
     -Anda, sim. Provamo-lo.
     Disse-lhe que sim por no desprez-la.
     -Pode pr os intermezzi do Brahms do Glenn Gould. Enviou-me isso Terry.
     P-lo e, ao cabo de uns minutos, eu voltava cambaleante ao quarto de banho.
     -Tira-o, OH Deus, no o danifique... -pinjente chorando de pura debilidade e frustrao. No queria que a enfermidade me fizesse chegar a detestar algo to formoso,
algo que tanto amava-. OH, tira-o, L, tira-o, por favor.
     Notei-a assustada  lombriga voltar a entrar no dormitrio e me sentar a seu lado, medrosa.
     -Acredito que deveramos chamar o mdico -insistiu-. Isto no pode ser normal.
     -No o . Essa  a questo.  veneno -pinjente me abraando as pernas at me tocar o estmago com os joelhos-. Tudo o que me do tem por objeto devorar
as clulas cancergenas.  como um cido corrosivo.
     -Mas acredito que isto  excessivo. me deixe chamar, Isabel. S para lhe consultar.
     -Digo-te que no serve de nada.  o efeito que produzem os frmacos.
     -S chamar...
     -Pois anda, chama -acessei ao fim, muito fraco para seguir discutindo.
     L foi chamar. Ouvi-a murmurar ao telefone, mas no escutei. Dava-me igual.
     -deixei a mensagem em urgncias -anunciou-me da entrada-. Logo chamar o mdico.
     Resmunguei. Mas, enfim, pelo menos ela se sentia agora melhor.
     Ao cabo de uns minutos soou o telefone.
     -vai chamar ao servio noturno de Columbia para que preparem uma receita -disse-me detrs falar uns minutos em voz muito baixa-. irei recolher a. Crie que posso
te deixar vinte minutos?
     -Mas... no vai  farmcia  uma e meia da madrugada -pinjente. me esforar para falar voltou a me provocar nuseas.
     -No seja tola.  um passeio.
     -Que no, L. Digo-o a srio. Voc o prohbo.
     Fez bem em no tornar-se a rir. Olhou-me escrutadoramente.
     -Bom, pois ento chamarei o Kirby. Ele pode ir  farmcia.
     Insisti em que no e soltei um par de juramentos, mas L se limitou a me olhar com o cenho franzido at que comecei a gemer.
     s trs da madrugada, estava acurrucada no sof do salo, abrigada com uma manta, escutando a L e Kirby que conversavam amigablemente. J me sentia
um pouco melhor. As pausas entre os acessos de vmito se alargaram at coisa de meia hora, e j no me notava afiebrada. Mas seguia sem poder beber gua,
e minha reao  sugesto do Kirby de que tentasse tomar sal de frutas foi a previsvel. L fez ch e o acompanharam com subrepticios salgadinhos de bolacha
quando acreditavam que eu no olhava. Aquela noite foi quo pior recordava, e no queria estar sozinha lambendo minhas feridas, por assim diz-lo. No senti o nobre impulso
de no faz-los sofrer com meu sofrimento. Desejava companhia.
     Kirby se sentou no cho como um iogue, com as pernas cruzadas e as bonecas elegantemente posadas nos joelhos. A seu lado, na poltrona, L bocejava
sem tamp-la boca, um grave lapsus nela e um claro sintoma de fadiga.
     -Quanto faz que vive em Washington? Kirby  nome ou sobrenome?
     -Sobrenome. Vivo aqui desde 1980. Minha esposa e eu vivamos antes em Pittsburgh.
     -Pittsburgh? Tenho amigos ali. Conhece os Newman? Patty e Mark Newman?
     Kirby disse que no.
     -Ou seja que  de Pittsburgh, no?
     -No; nasci em Nova Iorque, no norte. E voc?
     -Minha famlia procede de Boston.
     -Estraga.
     Silncio.
     -Como conheceu a Isabel? -perguntou Kirby.
     -Fomos quase vizinhas, no Chevy Chase, quando ela estava casada com o Gary. Primeiro conheci seu filho Terry, uma noite do Halloween.
     Sorri ao record-lo.
     -Pois a primeira vez que vi a Isabel -disse Kirby- estava falando com uma vagabunda que "acampava" na esquina. Estava sentada na calada, com todos seus
bens ao redor e Isabel estava acuclillada a seu lado. Isabel levava uma saia verde escuro, uma blusa azul celeste e sapatos de salto baixo. A vagabunda era
a que mais falava. Vi-as rir um par de vezes. Isabel no lhe deu dinheiro mas ao despedirlhe deu uns carinhosos tapinhas na perna. Mas pareceu um gesto
muito... afetuoso.
     Inclinei a cabea e o olhei.
     -A segunda vez que a vi -prosseguiu Kirby com a maior naturalidade- ia sentada a meu lado no nibus. Ao princpio no a reconheci. Pensei que se parecia
 mulher que tinha visto falar to amavelmente com aquela vagabunda, mas no estava seguro de que fosse ela. Levava umas calas folgadas e um pulver marrom.
E botas. E um monto de livros. Pareciam livros de texto mas no pude ler os ttulos. Tinha os dedos manchados de tinta. -Olhou s duas sorridente e prosseguiu-:
Ao chegar  rua F, tirou um walkman da bolsa e ficou os auriculares. Eu a observava pela extremidade do olho. Sua expresso se relaxou e sorriu. Foi um sorriso
logo que esboada. Tambm observei que as mos, entrelaadas sobre o regao, relaxavam-se. A msica apenas se ouvia. Por mais que o tentava no conseguia discernir
o que estava escutando. Eu j me tinha feito uma composio de lugar: era perfeita e, entretanto, aterrou-me a idia de que sorrisse beatficamente escutando a
os Megadeath ou aos Beastie Boys. Imagina meu alvio quando, ao chegar ao Dupont Circle, abriu o walkman para lhe dar a volta ao toca-fitas e vi que era uma sinfonia
do Mozart; a sinfonia em sol menor.
     -Que barbaridade! -exclamou L quedamente.
     -apeou-se na mesma parada que eu e ps-se a caminhar por Ontario Road para o Euclid. No pode dizer-se que a seguisse, porque era meu caminho, mas sim fui detrs.
Ao v-la subir pelas escadas da entrada deste edifcio e logo entrar, temi padecer uma alucinao, uma fantasia. Ela me viu do elevador e me agentou
a porta. Subimos em silencio at seu piso. Tudo o que me ocorria lhe dizer me soava frvolo. No o bastante importante para a ocasio. abriu-se a porta
e ento sim disse algo, embora no recordo o que, e ela terminou por me dizer seu nome e eu o meu. Logo soou o alarme por estar a porta aberta muito tempo.
Ela deu um passo atrs, disse "Bom" e se despediu me saudando com a mo.
     Quando teve terminado de contar a histria no me olhou mas L sim, fascinada.
     Incorporei-me. No sabia o que dizer, mas parecia obrigado dizer algo. Apesar de minha boa inteno, tinha-me incorporado muito bruscamente. E ocorreu o
pior. Voltei a me sentir mau e logo que tive tempo de dizer nada.
     -Desculpem...
     E de repente vomitei na manta e tubo que ir correndo de um modo nada digno ao quarto de banho.
     Quando voltei falavam e riam muito animadamente sobre outra coisa, sobre um tema absolutamente assptico. A tenso emocional do momento tinha passado. Foi um
alvio, embora em meu foro interno desejei sentir de novo aquela tenso, por mais embaraoso que me resultasse. Joguei-me de flanco observando ao Kirby, olhando escrutadoramente
sua cara, seu plido rosto e seus marcados mas do rosto, seus olhos castanhos ligeiramente afundados. Escutei enquanto contava algo a respeito de sua filha, Julie, que morreu aos
doze anos. Reparei em que, com um tato sem dvida inconsciente, ganhava a L, que deixava seus receios a um lado e se convertia em seu amiga. Me nublou a vista
e acabei me adormecendo.
     Amanheceu.
     -Andem, parte os duas a casa -pinjente.
     Kirby se tinha ficado dormido no cho e L na poltrona. Eu me acurruqu sob a manta, tremendo. J no tinha calor. Estava geada.
     -Crie que te sentaria bem um ch? -perguntou-me L, incorporando-se e estirando-se.
     Pude tomar o Todo um milagre. Nos tomamos em silncio. No sei qual dos trs estava mais gasto. Provavelmente eu, mas no pensava me olhar no espelho.
     -V noite! -exclamei, me arranhando a cabea com ambas as mos-. Pica-me -acrescentei-.  a Adriamycine. Deixa calvo a tudo o que toma. Sem remdio. dentro de
duas semanas estarei como uma bola de bilhar.
     -OH, Isabel... L vinho a sentar-se a meu lado. Rodeou-me com o brao e me beijou na cabea. Eu me enrijeci, notando que ia jogar me a chorar. E me tivesse gostado,
para me desafogar, de no ter estado Kirby presente.
     -E por que no lhe o curtas voc mesma? -disse Kirby.
     -Como? -exclamei olhando-o.
     -Sim, que lhe o voc corte antes de que comece a cair -respondeu me olhando aos olhos.
     -cortar-me isso eu? -pinjente tocando meus cachos com os dedos-. Agora?
     -Toma voc a iniciativa -disse L com corajosa firmeza-.  melhor que o jodas voc antes de que lhe joda ele.
     -Posso faz-lo eu, se quiser -ofereceu-se Kirby me olhando como se tal coisa-. Raparei-te a cabea com meu barbeador eltrico eltrico. Podemos faz-lo agora, aqui os
trs.
     Pus-se a chorar, mas s um pouco. Chorei por tudo o que ia perder; porque ia perder o amor de meus amigos e porque, s vezes, a amabilidade  to mortificante
como a crueldade. E tambm chorei, embora solo um pouco, por meu cabelo.
Captulo 17
L
     Onde mais aniversrios tnhamos celebrado as Quatro Obrigado tinha sido no Neap Tide, no chal que tinha minha famlia no Outer Banks. Como j tnhamos celebrado
quatro no tinha nada de particular que celebrssemos ali o 10.
     Partimos na sexta-feira pela manh, mais tarde que o que planejamos porque Rudy teve problemas para que Curtis lhe deixasse o carro. Demoramos sculos em chegar porque
Rudy e Emma tinham que parar cada hora para ir ao asseio. Embora o negaram  mais que possvel que levassem uma cigarreira de usque, que se passavam a uma  outra em
o assento dianteiro.
     -Esto bebendo, verdade? -disse-lhes depois da terceira parada discrecional.
     Emma se girou e me olhou como se acreditasse que havia me tornado louca. De modo que no estou segura. O que sim sei  que alvoroavam mais  medida que avanava o dia;
rendo por algo e cantando ao compasso das toca-fitas que se trouxeram; velhas canes roqueras que no me disseram nada quando saram e logo outras
country que eram ainda pior, cantadas pelo Tammy Wynette, Dolly Parton e Deus sabe quem mais. Ao final tive que lhes dizer que Isabel estava tratando de dormir, que era
a verdade. Tinha o costume de dar uma cabeada pelas tardes desde que lhe administravam a quimioterapia, e nem sequer Rudy e Emma eram to imaturas para no
respeitar isso.
     Neap Tide  em realidade Neap Tide II, porque Neap Tide I sofreu tais destroos durante o furaco Emily que tiveram que reconstrui-lo. O novo chal 
maior e tem algumas costure novas: o telhado, a instalao eltrica e ventiladores no teto. Mas, em linhas gerais, resulta to acolhedor e pouco sofisticado
como o antigo. Dito de outro modo, no tem nada que ver com as manses de meio milho de dlares que constrem atualmente em primeira linha de mar. Henry
e eu amos ali um par de vezes ao ano; meus pais pode que uma vez cada dois anos e meus irmos nunca. Preferiam Cape Cod. O resto do ano minha famlia lhe alugava
o chal aos turistas.
     Estvamos esgotadas quando Rudy deteve o carro sob o desvencilhado alpendre dianteiro. Emma teve que ir ver o mar em seguida enquanto Rudy e eu descarregvamos
nossa bagagem (e o seu) e o subamos pelos dois lances de escadas e escolhamos as habitaes. Sugeri que Isabel e eu ocupssemos o mesmo dormitrio e
que Rudy e Emma compartilhassem a habitao de convidados. A todas pareceu bem. Quando Emma teve retornado e tivemos desfeito a bagagem, reunimo-nos na
cozinha para (de novo a minha proposta) organizar as comidas, a partilha de responsabilidades e outros acertos domsticos. E ento foi quando tivemos nossa
primeira briga.
     No foi realmente uma briga. Deveria comear por a. Nosso primeiro choque emocional, chamemo-lo. Disse-lhes que era mais lgico que jantssemos ali aquela noite
e sassemos ao dia seguinte, porque estvamos cansadas de conduzir e tnhamos filetes no congelador que podamos fazer  brasa; e sugeri certas tarefas que
pareciam mais apropriadas para umas que para outras (a Emma, por exemplo, lhe d bem cozinhar mas o pe tudo perdido, enquanto que Rudy  menos criativa mas
limpa-o tudo  medida que cozinha).
     Emma j tinha aberto uma cerveja e bebido a metade. ergueu-se e me fez uma saudao militar. "Senhor,  ordem, senhor", disse qual marinhe.
     Como estou acostumada a seus sarcasmos no dava importncia. Mas ao cabo de uns minutos, enquanto tentava organizar turnos de limpeza para as partes
comuns da casa: o salo, o comilo, a cozinha e os alpendres (no por vontades de manipular mas sim porque algum tem que organizar estas coisas ao princpio para evitar
roce), Emma se burlou de mim. Disse-o pelo bajinis e como para si, mas o ouvimos todas. Fez uma aluso a minha vida sexual e a quem "encarregava-se" dela, se Henry
ou eu.
     Eu olhei para outro lado. E no ocorreu nada at que falou Isabel.
     -Mas Emma...
     No sei se foi por causa da brincadeira da Emma ou da desaprovao da Isabel mas pus-se a chorar.
     No podia parar. Eu tentava daras costas a todas e Isabel se empenhava em me dar a volta. Sentei-me na mesa da cozinha e me cobri a cara com as
mos.
     -OH, L, perdoa -disse Emma sentando-se a meu lado-. Sinto-o muito -acrescentou quase assustada. Isabel me acariciou o cabelo e Rudy me trouxe um copo de gua.
     Aquilo me mortificava.
     -So os frmacos para a fertilidade -disse-lhes-. Tomo Clonid, que produz mudanas bruscas de estado de nimo. No posso evit-lo.
     -No; foi minha culpa -disse Emma-. No devi dizer semelhante estupidez. Por favor, L, no me faa conta.
     -No; sou eu. No funciona. No fico grvida e me sinto como uma imbecil. esperei muito tempo, e no me falta tanto para cumprir os quarenta e dois
anos.  minha culpa.
     -No, no  tua culpa -disse Rudy-. A culpa  dos espermatozides do Henry.
     -No pode ser. O mdico diz que pode haver outro problema, porque j tinha que haver ficado grvida. Parece-me que o problema est em mim. E com franqueza...
acredito que Henry se alegra de que no seja s culpa dela!
     Tratei de conter o pranto porque me precavi de que as estava assustando. Mas no pude. Tampouco podia deixar de falar.
     -E o que tenho feito eu? O que tenho feito eu? -clamei-. Deve-se a que fui muito promscua quando era jovem? No vem que saa a tio por p! -acrescentei ao ver que
Emma e Rudy punham-se a rir e que inclusive Isabel sorria-. Pude ter contrado qualquer infeco sem me inteirar. Tive que me pr um DIU aos trinta anos para
me fazer mais fcil ter relaes sexuais, mas agora se sabe que produzem muitos efeitos indesejveis!
     -Olhe, L, isso no ...
     -esperei muito. quis o ter tudo: minha carreira, minha casa, meu marido. por que no me casei antes dos trinta? OH, Deus. O problema est em que
sempre acreditei saber o que queria; sempre o planejei tudo, esforcei-me por consegui-lo e o consegui. E agora todo se derruba.  como se estivesse
paralisada. No posso faz-lo tudo. No posso remedi-lo j.
     E de novo me entrou a llantina. Resultava muito embaraoso para express-lo com palavras.
     Rudy se tinha aproximado uma cadeira e se sentou a meu lado.
     -Deve ser muito duro trabalhar com meninos -disse-me-. No parece o trabalho mais adequado para ti nestes momentos.
     -Claro -assenti soluando.
     Foi um alvio que algum o dissesse ao fim em voz alta. Possivelmente fosse muito bvio, mas pela razo que seja a nenhuma lhe tinha ocorrido express-lo assim:
que o fato de ter a meu cargo uma creche era uma terrvel crueldade, uma m passada que a vida me jogava.
     - horrvel -acrescentei-. No acredito que seja capaz de seguir muito tempo.  muito doloroso.
     -Pobre L -disse Emma posando suas mos em meus joelhos.
     - muito.  uma tortura constante. Mas o que posso fazer? Possivelmente poderia me dedicar a assessorar, a escrever artigos, pode que um livro de texto. Mas at
e assim...
     -Seguiria tratando-se de meninos -disse Rudy-. Continuamente.
     -Sim, e alm o que trocaria se fosse cajera de um banco e visse os meninos em seus cochecitos, aos meninos em seus sillitas nos carros, aos meninos enquanto
suas mes lhes do o peito no lavabo de senhoras no Nordstrom? Quando vejo as mes comprar fraldas no super tenho que desviar o olhar; no suporto essas histrias
de mes que abandonam a seus bebs recm-nascidos em contineres de lixo.
     Isabel me abraou desde atrs e apoiou sua bochecha na minha, mida de pranto.
     -te desafogue.  bom chorar. O h dito ao Henry? Estou segura de que tem muitas vontades de falar contigo.
     Soltei-me do abrao da Isabel. Sentia-me envergonhada, indigna de seu consolo. Alm disso, tinha vontades de dizer outra coisa.
     -Estou furiosa com ele. Intento no est-lo porque sei que  irracional, mas no posso evit-lo. Tenho que tomar esses horrveis remdios, tm-me feito no sei j quantos
anlise. urinei em no sei quantos tubos; me toquetean, injetam-me, colocam-me a mo Y... tudo o que tem que fazer ele  masturbar-se -pinjente. Tive que sorrir
quando Emma aproximou sua cara a minha coxa e soprou-. Digo-lhes isso a srio. Em meu foro interno estou furiosa com ele, embora no seja culpa dela e esteja segura de que ele
passa-o to mal como eu. Para o Henry o sexo  um pouco privado e no pode suportar que se fale to descarnadamente disso; todas as perguntas que tem que responder
a um monto de enfermeiras e mdicos a respeito de nossa vida ntima. Inclusive destrambelha contra o grupo.
     -Ah sim?
     -No contra ningum em concreto, s que supe que j sabem tudo a respeito dele, todas suas intimidades, e o detesta, como detesta ter que ir  clnica
A... fabricar seu esperma, enquanto as enfermeiras sabem o que est fazendo. Faz-o sentir ridculo. Alm disso, como pelo visto todo se reduz a seu esperma...
     -sente-se culpado -disse Rudy-. Deseja que tenha tudo o que desejas e se sente culpado por no poder te dar o que mais quer.
     -Claro -assenti-. No o diz, mas uma das razes de que queira ser pai  para compensar o fato de no hav-lo tido ele. Acredito que agora aflora parte
pelo que sofreu de menino. E isso piora as coisas.
     -meu deus...! -exclamou Emma quedamente-. Se no querer caldo, trs taas.
     -Exato.
     Senti um grande alvio ao poder me desafogar, notar que me compreendiam e que se solidarizavam comigo. Mas havia outras coisas que no podia dizer. Como meu segredo
desejo de me haver casado com outro, com qualquer outro, sempre e quando pudesse me dar filhos. E,  obvio, tampouco podia lhes dizer quo mau foram as relaes
sexuais entre o Henry e eu. Nem sequer o fazamos j mais que quando tnhamos que faz-lo. Que sentido tinha? Por "paixo"? J no ficava. Eu no me sentia
atrativa nem sexy, e Henry se considerava um desastre. Fazer o amor se converteu em algo mecnico e medroso. A ltima vez que o tentamos no pude chegar
ao orgasmo e ele apenas tampouco. Pude ter fingido mas nem me incomodei. Resultou-nos to embaraoso aos dois que no o tornamos a tentar.
     -E se recorresse a um psiclogo? -disse Rudy-. E se fsseis ver algum e lhe expuseram seu caso?
     -Henry no querer. E eu no penso ir sozinha.
     -Tudo se arrumar -disse Emma-. Tudo pode trocar da noite para o dia, L. Ao melhor lhes chamam da clnica e resulta que est grvida.
     -Faz meses que me repito isso! Espera. Tenha pacincia. Se no fazer outra coisa, Emma!
     -E no pensaste na possibilidade da adoo? -perguntou-me Isabel.
     -No. Porque Henry no quer. Quer ter um filho prprio. E eu tambm. E meus pais.
     -Seus pais?
     -Um momento, L -disse Emma-. Henry no quer adotar? Isso diz?
     -Jenny diz sempre que ao pai do Henry o mataram no Vietnam, mas a verdade  que... que fique entre ns, n?, mas Henry acredita que ela no sabe sequer
quem foi seu pai. De modo que quer ter um filho prprio. Falamo-lo faz tempo, e estivemos de acordo.
     -Bom, mas possivelmente agora...
     -No. No penso me render. vou ficar me grvida custe o que custar.
     -Mas se isso te desenquadra...
     -No me desenquadra, Rudy. Estou decidida a ter um filho. Isso  tudo. No penso me render. H uma diferena entre estar desenquadrada e estar resolvida.
     -Claro. No quis dizer que esteja realmente desenquadrada. Eu sim que estou como um guizo. Voc, L,  a mais corda de ns -disse Rudy.
     -V! E eu que acreditava que era eu! -exclamou Emma.
     Fez-nos rir a todas, que lhe agradecemos seu distendido comentrio.
     -Bom, j est bem -pinjente.
     Sentia-me incmoda por ter monopolizado a ateno das trs tanto momento. Alm disso, no queria falar de meus pais. E lamentava ter deslizado o tema; que
quisessem um neto autntico, outro pequeno Pavlik que levasse os autnticos gens. A postura de meus pais me incomoda. Imagino o que diria Emma.
     -Bom -pinjente me levantando-. Tm razo. De um modo ou outro funcionar.  s que leva tempo e estou um pouco farta. Enfim... j consumei com acrscimo
minha quarto de hora -acrescentei rendo-, e me sinto muito melhor.
     No me acreditaram mas deixaram de me mimar. foram preparar umas taas para tomar as no alpendre dianteiro. Foi como se todas nos precavssemos de que nosso
fim de semana para celebrar o aniversrio comeava com mau p, e que era melhor trocar o chip se no queramos danific-lo tudo. Embora estava segura de que falariam
de mim assim que eu no estivesse diante. "OH, pobre L. No tinha nem idia. No a vi nunca assim. No  normal nela." A verdade  que eu tampouco me havia
visto nunca assim. Apenas me conheo j. Quero que minha vida volte a ser como era.
     O crepsculo nos deslumbrava. Tivemos que inclinar as cadeiras at que o sol se inundou no horizonte. "Isto  vida", dissemos todas por turno, recostadas
no respaldo e com os ps descalos apoiados no corrimo. "No h nada como isto."
     Rudy no recordava se era a terceira ou a quarta vez que celebrvamos nosso aniversrio no Hatteras, e todas comeamos a tratar de record-lo.
     -por que no vamos dar um passeio pela borda? -propus. Reservava-lhes uma surpresa, mas no pensava dar-lhe at a noite do dia seguinte. Um excesso de
nostalgia de boas a primeiras podia danific-lo tudo.
     Baixava a mar. fomos passear pela borda de dois em dois; Rudy e Emma metidas na gua at o joelho, com as calas arregaadas; e Isabel e eu
pela areia. Isabel levava um bonito leno verde que lhe cobria a cabea. Estava preciosa. Ningum houvesse dito que estava doente. Segundo ela, as pastilhas
que tomava engordavam, mas no me pareceu isso.
     -Como te encontra, Isabel? -perguntei-lhe.
     -Estupendamente.
     -A viagem  muito comprido e eu estou cansada. De verdade est bem?
     -De verdade.
     -E que tal est Kirby?
     -Estupendamente. H-me dito que te sade de sua parte.
     -Cai-me muito bem. Ao princpio no acabava de me gostar de -reconheci-. Mas depois daquela noite, depois da primeira sesso de quimioterapia...
     -Mida noitinha, n?
     submeteu-se  segunda sesso na semana anterior, e foi muito melhor que a primeira. No se tinha encontrado to mal nem as nuseas duraram tanto. No
fiquei eu com ela a no ser Emma, e no toda a noite.
     -E o que, ainda segue apaixonado por ti? -perguntei.
     Isabel meneou a cabea mas no a modo de negao a no ser para soslayar o tema.
     Quando se abordava a questo, limitava-se a dizer que o platnico amor do Kirby tinha chegado em um momento inoportuno, mas que se alegrava de conservar
sua amizade. E no estou muito segura de se for isso o que prefere. A serenidade da Isabel no  sempre algo positivo mas sim s vezes  como uma muralha.
     Eu tinha que diminuir o passo para me compassar ao dela, at que ao fim se deteve.
     -Segue voc, L. Eu vou sentar me um momento a contemplar o mar.
     -Est cansada. Sentarei-me contigo.
     -No, v; v com o Rudy e Emma. Seguirei com vocs  volta.
     Isto  o que no posso suportar dela, que pretenda me fazer acreditar que est como uma rosa. Porque s vezes inclusive consegue me fazer esquecer que est doente,
cansa-se muito e a vejo sentar-se trabalhosamente, como uma anci com artrite. A realidade se impe e no acabo de me acostumar. Cada novo episdio me afeta
tanto como a primeira vez. Suponho que para ela  ainda pior. Muito pior, claro.
     Jantamos no comilo, com velitas, msica suave e um centro de flores que Emma roubou do jardim do vizinho. Tudo estava delicioso, inclusive as batatas cozidas
no microondas. Fizemos muitas torradas e s sobremesas estavam muito alegres. No vou dizer que meu estalo na cozinha se esqueceu. Em realidade acredito
que se abateu sobre ns durante toda a velada e nos induziu a ter mais tato com as demais. Sobre tudo Emma, estava-se comportando estupendamente, me falando
com soma amabilidade e sem rastro de sarcasmo. Cada vez que algum brincava, tocava-me a mo carinhosamente para compartilhar suas risadas. Minha reao na cozinha
devia hav-la alarmado.
     Tomamos o caf no alpendre, nas tumbonas, escutando o murmrio do fluxo e vendo as nuvens passar frente  lua. A noite era esplndida, clida
e estrelada, com uma suave brisa. Neap Tide no est exatamente em primeira linha de mar mas, do alpendre dianteiro, v-se facilmente a borda  esquerda
e o estreito do Pamlico  direita; e, de noite, quando o trfico diminui na estatal 12, oua-se o fluxo quase com a mesma nitidez que se estivesse
sentada na borda.
     -Bom, pois tampouco eu estou grvida -disse Rudy sem vir a conto, quando a conversao comeou a decair-. Digo-o se por acaso algum pensava que sim.
     Tinha as pernas estiradas na tumbona e a cabea apoiada nas mos entrelaadas depois da nuca. As demais ficavam em penumbra, mas a luz da lua
refletia-se no cabelo negro do Rudy e em seus olhos cinzas. Inclusive s escuras destacava. fui dizer algo mas se incorporou e se inclinou para mim.
     -No queria que pensasse que o ocultava, que o mantinha em segredo para no te ferir. Porque nunca faria isso. Seria uma atitude...
     -Condescendente -apressou-se Emma a dizer-. E desnecessria -acrescentou sonrindome.
     -Sim -assentiu Rudy-. S queria que soubesse.
     Para falar a verdade, eu tinha esquecido que Curtis e ela procuravam um filho. Suponho que o apaguei de minha mente.
     -E est preocupada? -perguntei-lhe-. Quanto tempo levam tentando-o?
     -Desde janeiro. E a verdade  que sim estou um pouco preocupada. Porque li no sei onde que, se aos seis meses no fica uma grvida, pode ser sintoma
de que existe um problema.
     -Sim, isso dizem -assenti, pensando que oxal o tivesse sabido dois anos antes.
     Emma olhou ao Rudy na escurido.
     -Crie de verdade que pode haver um problema? J toma a temperatura e todo isso?
     -Ao princpio no, mas h dois meses sim.
     -Dois meses? Isso no  nada! -exclamou Isabel.
     -J sei -disse Rudy exalando um profundo suspiro, como estava acostumado a fazer quando algo a contrariava.
     -E como est Curtis? -perguntei-. Que tal vai em seu novo emprego?
     -Curtis... -Sua hesitao foi to comprido que nos induziu a deixar de olhar a paisagem e a olh-la a ela, que acrescentou-: Pois...
     De novo um comprido silencio.
     -Est bem -disse ao fim em tom alegre, levantando-se-. Vou por uma cerveja. Querem vocs?
     Que estranho. Enquanto estava ausente nos olhamos, deixamos escapar fica exclamaes: "hummm", "aaah", mas no falamos. Possivelmente houvesse novidades, mas ainda no
sabamos o que pensar. Se  que havia algo que desse que pensar. Emma era a que parecia mais perplexa.
     -Que noite mais preciosa! -exclamou Isabel-. A brisa... Importa-lhes que me tire o leno da cabea?
     -Mas bom! -exclamamos quase ao unssono.
     -Por Deus, Isabel que coisas tem! -arrebitou Emma.
     Mas o certo foi que nos impressionou v-la calva, embora uma se acostuma em seguida e a verdade  que inclusive acabou me parecendo que lhe sentava bem. Em
srio. Ela no est de acordo, claro; e no  menos certo que me faz costa acima separar seu aspecto da causa do mesmo.
     -Tudo bem? -perguntou quedamente Emma, que apoiou a mo no respaldo da tumbona da Isabel.
     -Bem -reps Isabel sorridente-. Embora me fatigo com facilidade. Isso  o pior.
     -E o quadril? -perguntou Emma, porque Isabel tinha tido dores ultimamente e, embora lhes subtraa importncia, quando lhe doa muito coxeava.
     -H-me dito o mdico que, se se agravar, aplicaro-me radiaes. E problema resolvido.
     -Se se agravar? -pinjente.
     -Sim.
     -Pois isso significa que a quimioterapia te curar.
     Isabel assentiu sorridente. s vezes acredito ser mais otimista que ela.
     -Bom... e que tal de estado de nimo?
     -Pois tambm muito bem. Estou esperanada.
     Guardamos silncio para saborear o bom sabor de boca que nos deixava aquela frase. Isabel est acostumada dizer a verdade. E se era certo o que dizia, no podamos
pedir mais.
     Rudy se levantou e se situou atrs do respaldo da tumbona da Isabel.
     -Provemos uma coisa. Tenho lido algo sobre as propriedades curativas do tato.
     -E crie que voc as tem? -disse Emma sonriendo do meio lado.
     -Possivelmente. E pode que voc tambm, listilla. Se no se provar no se sabe.
     -Suponho que acreditar nisso ajuda -disse sem muita convico. s vezes o cinismo da Emma me exaspera. Isabel fechou os olhos e sorriu.
     -Chist... -disse Rudy-. Pensem todas em curar. Se puser as mos assim, perto mas sem chegar a te tocar, noto sua aura, Isabel.
     Rudy moveu seus largos dedos lentamente, como se abrangesse o ar, a dois centmetros da cabea da Isabel. Logo os deslizou para a nuca, os ombros e os
braos.
     -Estou abrangendo todo seu corpo -murmurou Rudy. Isabel assentiu lentamente com a cabea-. Notas algo?
     -Noto o calor de suas mos.
     Inclinei a cabea e olhei a Emma com expresso vitoriosa, mas ela tinha os olhos fechados, concentrando-se.
     -Sei que posso notar sua energia -disse Rudy muito convencida-. Qual  o quadril que te di?
     -Esta -disse Isabel, e Rudy lhe aplicou seu tato curativo.
     Eu fechei os olhos e fiz minha meditao curativa favorita. Imagino um peloto de fuzilamento. As clulas cancergenas da Isabel so delinqentes vestidos de
negro, com rifles em bandoleira (embora a verdade  que no tm peito mas sim parecem feijes) e se situam em fila enquanto um peloto de soldados bons
aponta-os com compridos fuzis negros e lhes disparam. Caem fulminados, mortos, e ento se situa outra fileira de clulas cancergenas que vai correr a mesma sorte:
pam, pam, liquidados. e assim sucessivamente.  muito eficaz e se pode repetir quantas vezes seja necessrio.
     Rudy terminou sua sesso curativa e voltou a sentar-se.
     -Quer provar voc? -disse a Emma.
     -Nem pensar. Isabel  uma amiga. E ao melhor quo nico consigo  que se agrave.
     puseram-se a rir, mas me pareceu que no tinha sido uma brincadeira de bom gosto.
     Levantei-me para ir ao lavabo. Inclusive com a porta fechada podia ouvir que Emma elevava gradualmente a voz, cada vez mais furiosa. Ao voltar a toda pressa, estava
de p de costas ao corrimo, vociferando.
     -Detesto isso de que tudo  psicosomtico, se quiserem que lhes diga a verdade, e no posso suportar a esse Shorter. Acredito que tem feito mais machuco aos pacientes que
qualquer outra coisa desde que se inventaram os lychis.
     -Quem  Shorter? -perguntou Rudy.
     -O mdico que escreveu o livro a respeito de...
     - um estpido que me tira de gonzo. Se tivesse uma que acreditar em suas teorias, acreditaramos que Isabel se provocou o cncer por estar sentimentalmente ferida.
Anda e que lhe jodan, Shorter! Isabel no tem a culpa de ter cncer.
     -Emma, isso no  exatamente...
     -O que me irrita  que um mdico possa acreditar tais estupidezes a respeito da medicina. So idias corrosivas. Porque, postos assim, cada vez que Isabel se deprima,
como  bastante lgico que lhe ocorra, no lhes parece, dadas as circunstncias?, Shorter poderia lhe dizer que est provocando que seus tumores se agravem. Mido imbecil!
     -No acredito que ele diga realmente que... -tratou Isabel de apazigu-la.
     -Digo-o a srio,  um estpido absoluto!  isso cincia? Que te diga que voc te provocaste a enfermidade? E os vrus ou o que seja? N? E o fator hereditrio?
E o tabaco e as emanaes do cimento? Os nitritros? A contaminao?
     A brisa lhe alvoroou o cabelo e por um momento sua juba pareceu uma vassoura. balanava-se atrs e adiante, e deu um par de patadas no alpendre. No estava
absolutamente bbada. Estava como louca.
     -Que diferena h entre que Shorter atribua seu cncer a seu estado de nimo e que Jerry Falwell atribua o sida aos pecados? O cncer  uma loteria. Voc
no  responsvel pelo ter. OH, Deus, que injusta  a vida! Deus tem estas brincadeiras. E deve pensar que... bom, ao melhor a prxima vez tem mais sorte.
     -Entendo seu ponto de vista Emma... mas... sente-se, por favor.  Quer deixar de te passear de um lado para outro ? Mas, ns gostemos ou no, existe uma relao
entre o fsico e o espiritual. As pessoas sem f religiosa vivem menos, por exemplo. Est demonstrado.
     -No me demonstrou isso ningum.
     Isabel estalou a lngua.
     -Olhe, no lhe saberia explicar isso mas tem que ver com os neuropptidos, as clulas T, as endorfinas e no sei que mais. O crebro se comunica com o corpo.
De verdade. Pode estar segura.
     -Est bem -disse Emma deixando cair na tumbona com cara de poucos amigos.
     -Eu tambm entendo sua postura -disse Rudy-. Eu no gosto da idia de que seja uma mesma a que possa provocar uma enfermidade....
     -Que Isabel se provocou...! -voltou para a carga Emma-. V estupidez! Nada, mulher, nada. Vive uma como pode, luta e um bom dia, paf, contrai cncer.
E logo vai esse imbecil e escreve um bestseller expondo a teoria de que o cncer o provoca uma mesma. Isso  acrescentar injria ao dano!
     -Exageras, Emma -repreendeu-a Isabel-. Nem Shorter nem nenhum outro autor que eu conhea h dito nunca que seja culpa de uma.
     -Mas fica implcito.
     -Tambm crie que nossos crculos curativos so uma estupidez, Emma? -disse Rudy-. Crie que no serve de nada que Isabel faa meditao?
     -No, no acredito que seja uma estupidez.
     -Pois ento -disse Isabel-, se crie que posso contribuir a me curar com energia mental positiva, por que no pode aceitar o contrrio, que minha energia negativa
possa ter contribudo  enfermidade?
     -De verdade crie isso? -revolveu-se Emma furiosa.
     -No sei. S acredito que  possvel.
     -Bom, pois eu no. Possivelmente em outra classe de pessoa seja possvel, mas no em ti. Em ti no.
     fez-se um comprido e tenso silncio. Possivelmente terminssemos por nos jogar todas a chorar. Optei por ser eu quem rompesse o silncio.
     -Estou de acordo com a Emma -disse com um fio de voz.
     Olharam-me todas com curiosidade. Ento eu me esclareci garganta.
     -Acredito que s vezes podemos nos provocar uma enfermidade -pinjente-. Ocorre. Mas Isabel no ... txica para si mesmo. No pode haver uma pessoa mais pura. Digo-o
srio. No por ser amvel. Nem acredito que haja ningum que merea isto menos.
     Isabel me tendeu a mo, tomei entre as minhas e me atraiu para si. Em lugar de nos pr a chorar, olhamo-nos as quatro com intensidade. Senti uma mescla
de temor e entusiasmo. No sei at que ponto acredito em que tudo seja psicosomtico, mas se tudo o que dizem sobre o tema  certo, acredito que as quatro estvamos
nesse momento to transbordantes de energia que teramos podido curar a um hospital cheio de despejados.
     Passamos na sbado pela manh na praia, encaixando as advertncias da Emma sobre que no terei que tomar muito o sol.
     -No confiem porque esteja nublado -disse, feita um novelo em uma rede, tampada com uma toalha e lubrificada como uma torrada com nata solar de mxima amparo.
     No o reprovo porque  muito branca de pele. Primeiro lhe saem sardas, logo se queima e depois se corta. Mas parece um disco rajado.
     -Est bem. Mas quando formos velhas e me perguntem como algum, de aspecto to jovem como eu, aceitou um emprego de enfermeira de companhia de trs vejestorios
com mais enruga que uma passa, j vero...
     -Bom, de acordo. Lamentaremo-lo -murmurou Rudy com a boca pega ao antebrao, de costas sobre uma toalha a raias.
     Rudy nunca seria um vejestorio enrugado como uma passa. Ao v-la to estilizada e bronzeada, em biquini, senti inveja. Todas sentamos inveja. Era inevitvel.
E at ontem  noite tambm tinha inveja de sua vida amorosa. Refiro a sua vida sexual, no a sua vida amorosa, certamente, nem seu matrimnio nem a nada que tenha que
ver com Curtem Lloyd. Mas sempre tinha imaginado que ela e Curtem deviam pass-lo bomba na cama, embora no tinha mais raciocine para pens-lo que o fato de
que ambos eram muito atrativos. De modo que saber que, pelo menos at a data, no tinham podido ter filhos me fez sentir superficial e estpida, por confundir
o atrativo fsico com a fertilidade. Faro bem em pensar que, precisamente eu, estando casada com o Henry, tinha que ter pensado de outro modo sobre aquilo Y...
sobre algo mais que resulta duro confessar. Em meu foro interno havia um rinco sinistro que se alegrou em segredo quando nos contou seu problema. Envergonha-me reconhec-lo,
mas  a verdade. Quero que Rudy tenha filhos,  obvio, mas eu gostaria que Henry e eu os tivssemos primeiro.
     -Vou dar um passeio -anunciou Isabel sacudindo a areia da toalha e tornando-lhe logo pelos ombros.
     -Quer que te acompanhe? -perguntei-lhe.
     -No, obrigado. Ser curto -disse afastando-se.
     Seguimo-la com o olhar e, quando j no podia nos ouvir, falamos dela.  o que fazemos agora quando estamos sozinhas as trs. Ao princpio nos desejava muito
uma deslealdade. Mas j o superamos. Intercambiamos informao sobre a enfermidade, sobre o que ouvimos ou lido, comentamos o que nos disse Isabel a
ltima vez que a vimos, que aspecto tinha, que impresso nos causou ao falar por telefone com ela.
     -Tem bom aspecto.
     -Mas caminha muito devagar.
     -Ainda no nadou.
     -Criem que nadar? adora.
     -Est muito dbil. Se se meter na gua, alguma de ns tem que ir com ela.
     -Parece-me que no come o suficiente.
     -Diz que a quimioterapia faz que a comida no lhe saiba bem.
     -Mas me parece que tem uma atitude muito positiva.
     -E no criem que talvez finge? Que se mostra mais animada para no nos fazer sofrer?
     -Embora assim seja,  bom para ela. Recordam esse estudo que assegurava que sorrir contribui a que algum se sinta mais feliz?
     -Recuperar-se. Faz tudo o que lhe mandam os mdicos e a quimioterapia est resultando.
     -Se antes no o arbusto.
     -Dou graas a Deus de que tenha ao Kirby.
     -Criem que acabaro juntos?
     -Sim. Assim que recupere as foras.
     -Viram seu collage?
     -No.
     -Que collage?
     -que tem na parede de seu dormitrio. Fez um pster de sua vida; de seu passado e seu futuro; de seus marcos, dos acontecimentos mais importantes. H
recortado fotografias de quando era pequena, e de seus pais, de suas bodas, fotografias do Terry e nossas.
     -Nossas?
     -E desenhos de si mesmo depois de contrair o cncer, e do que est fazendo para combat-lo.
     -Isabel no sabe desenhar.
     -So s esboos, figuras que a representam.
     -E o que ps para representar seu futuro?
     -Ilustraes de catlogos de agncias viagens; de lugares como a ndia, Nepal. Um desenho de um diploma; sua fotografia com o Terry; outra conosco.
Ah, e o banner de um e-mail com um anncio que oferece de tudo. E, ao final, a fotografia de um beb.
     -De um beb?
     -Diz que  ela, reencarnada.
     -Ah -exclamou Rudy assentindo com a cabea.
     -De tudo, v -disse Emma sonriendo esperanada.
     Tal como tnhamos pensado, jantamos fora, em uma nova maris queria de moda do Hatteras. Tinha estado nublado todo o dia e enquanto retornvamos a casa em
o carro comeou a chover.
     -chateou-se nosso passeio pela praia  luz da lua! -exclamou Rudy contrariada-. Paremos na loja de vdeos e aluguemos um filme.
     Eu fui quo nica no quis.
     -No, faamos outra coisa -pinjente.
     -Como o que?
     No soube o que responder. A conversao se fez progressivamente mais ridcula. E ao final tive que diz-lo.
     -Bom, est bem. J me danificastes a surpresa. J tenho um filme para esta noite.
     -Ah sim?
     -Qual?
     -No penso ver um musical de desenhos animados -advertiu-me Emma que, pelo visto, no se cansava de ser amvel comigo.
     Era uma aluso maliciosa  ltima vez que aluguei filmes para as ver na casa da praia. Aluguei O jorobado do Notre me D, Pocahontas e Aladino
e o abajur maravilhoso. Tinha que ter reparado em que Emma  a classe de pessoas perfeitamente capaz de odiar ao Disney.
     -No  de desenhos,  de ns -pinjente-. Dez anos das Quatro Obrigado. Encarreguei uma montagem de fragmentos de todos os vdeos que filmamos, para fazer
um sozinho filme de nosso aniversrio. Dura vinte e seis minutos.
     -OH, isso  maravilhoso -exclamou Isabel.
     Rudy soltou o volante um momento para aplaudir. Inclusive a Emma pareceu lhe gostar do invento, embora teve que deixar cair a China.
     -OH, Deus. Vdeos caseiros!
     Mas lhe tinha gostado da idia. A todas gostou e eu me senti satisfeita. de vez em quando, embora no muito freqentemente, o membro previdente, organizado e competente
do grupo obtm o reconhecimento que merece.
     -te domine, DeWitt -disse Emma, que fez uma careta de desagrado ao ver-se na tela-. Parece que levasse um ano brigada com o cabeleireiro. Como no me disse isso
ningum?
     -Cala, que no ouo.
     -Queria saber quem me deixou sair de casa com esse vestido -disse Rudy-. Estou de pena. S me sintam bem as cores vivas; no deveria me pr nunca nada
bege.
     -Deus! Lembram-lhes quando nos tingimos o cabelo?
     -Acredito que esto as duas preciosas -disse Isabel-. Bom... todas o estamos.
     -Anda! Olhem que delgadita estava! -exclamou Emma maravilhada, assinalando  tela-. Em que ano foi isso?
     -Segue estando delgadita.  que no te olha ao espelho? -disse Rudy.
     -Se voc o disser...
     -Tenho lido que as mulheres que tm uma imagem positiva de seu corpo tm o dobro de orgasmos que as mulheres que no a tm.
     -Ah, a mim isso no preocupa. Levo bom mdio.
     -Chist! -tentei as sossegar.
     Se guardvamos silncio, s vezes podamos ouvir o que dizamos no vdeo, ou seja, quase nunca, porque nossas vozes se ocultavam com as do som. Falvamos
todas de uma vez. Ao ver os velhos vdeos, sempre me surpreende que no paremos de falar e que no digamos mais que banalidades. Entretanto, acredito que somos o bastante
lcidas.
     -O acampamento de ginstica! Lembram-lhes? -exclamou Emma assinalando a sua imagem-. Perdi trs quilogramas e mdio em seis dias.
     -Eu perdi um e mdio.
     -Eu dois, mas os recuperei nada mais voltar.
     -Na primeira semana.
     -Deveramos voltar a ir -disse Rudy-. Foi divertidsimo.
     Rimo-nos ao ver o Rudy e a Emma discutindo na casa de campo em que estivemos durante uma semana em 1990. O "acampamento de ginstica" -o balnerio
das pobres- no era mais que um acampamento que a Associao de Jovens Catlicas organizava no Poconos. Fomos ali em lugar de ir a outro stio mais bonito porque,
por ento, Emma no tinha dinheiro.
     -Olhe que  palhaa! -exclamou Rudy com tom afetuoso lhe passando a mo pelo cabelo a Emma-. por que no ter alguma vez um aspecto normal?
     Era verdade. Sempre que a cmara enfocava a Emma dava as costas, fazia uma careta ou algum gesto obsceno, como pass-la ponta da lngua pelo lbio
inferior com expresso lasciva. No sei quantas fotografias ter quebrado por lhe pr chifres  cabea de alguma com os dedos no ltimo momento.
     Eu logo que apareo nestes vdeos, porque sou a cmara, um trabalho ingrato que as demais desdenham, at que chega o momento de ver o produto acabado.
Ento no h quem as arranque de diante do televisor.
     -Ah, agora vem o bom -disse Emma esfregando-as mos-. Incluste-o, L? Arrumado a que o tiraste.
     Tinha que hav-lo feito. Mas no o fiz, e suponho que isso compensa por todas as vezes que alguma possa dizer que no sou esportiva. E por isso eu gosto de ser
eu quem dirige a cmara. Porque ter que ver o que ocorre quando  outra (Emma) quem a dirige.
     Estvamos jantando na casa do Captol Hill que Rudy e Curtem acabavam de comprar, e eu levei a cmara para film-la, com a idia de dar a cinta ao Rudy
e que pudesse enviar-lhe a sua me ou a sua irm (porque sua famlia nunca a visita e pensei que esse era o nico meio de que vissem sua nova casa). Mas eu acabava
de sair de classe de bal, esta acalorada e suarenta e pedi ao Rudy que me deixasse tomar banho antes de jantar.
     -Agora, agora! -disse Emma exultante.
     Rudy e Isabel j riam. A cmara, tremente, inexpertamente sustentada, mostrava uma porta fechada e uma mo que ia fazer girar o pomo. A inocente

voz da Emma na cinta dizia: "Hummm. No sei o que deve haver a. O que poderia haver detrs dessa porta? vamos ver o?"
     Saiu uma nuvem de vapor quando ela a abriu. E se ouvia minha voz confundida com o rudo do jorro da gua. "Sim?"
     Isto  algo que me repatea. Sempre dou a sensao de ser muito digna ou no sei o que.
     A cmara seguia movendo-se. Atravs do vapor se viam as franjas azuis e brancas da cortina da ducha.
     -Sim? -repito desde detrs da cortina.
     -S estava tomando... (algo ininteligvel).
     -Ah, bom -digo, ainda em tom amvel.
     Uma mo corre a cortina e a estou eu. Em couros vivos. Toma frontal. Mas me estou lavando a cabea com os olhos fechados e, durante quinze segundos, no
precavo-me de semelhante indignidade (sei que foram quinze segundos porque Henry se tomou uma vez a molstia de cronometr-los). Quinze segundos so muitos para estar
nua em um filme sem sab-lo. E puderam ser mais se Emma no tivesse terminado por dizer com voz ofegante e sexy.
     -OH, nenm...
     Ento abri os olhos, fiquei boquiaberta e gritei.
     Fundido.
     Mido sarro! Meus amigas se empurravam umas a outras no sof, presas de um ataque de risada compulsiva. Inclusive Isabel. Eu ri tambm, embora com menos
vontades. Aquilo ocorreu faz sete anos, e ainda estou lhe dando voltas para ver como o fao pagar a Emma. Ainda no me ocorreu nada que esteja a sua altura.
Mas j me ocorrer.  claro que sim que me ocorrer!
     A cinta passou ento a cenas das bodas do Rudy.
     -OH, olhem ao Henry! Note em seu cabelo!
     -Mido tipazo!
     Esta  minha parte favorita do vdeo, nossa primeira entrevista. Rudy teve umas bodas clssica, mas Henry ficou uma jaqueta informal de veludo cotel, calas marrons
folgados e sem gravata Y... no importou. me dava o mesmo! E ao reparar nisso compreendi que estava apaixonada. E seu cabelo, ah, levava-o comprido. Era sedoso
e reluzente, mais bonito que o da Emma e da mesma cor.
     -notava-se que estavam coladsimos! -disse.
     Era totalmente certo. Acredito que foi Isabel quem nos filmou danando depois do banquete das bodas do Rudy. A orquestra tocava Seja oflove e Henry e eu estvamos
que ardamos. De ter tido idia de que dvamos essa imagem, de que nos movamos como nos movamos, me teria desacordado. Porque resulta embaraoso, embora tambm
 bonito. Eu gosto de ver esse vdeo. Ponho-o freqentemente e no me canso de v-lo. Filmaram-me quando Henry me rodeou a cintura com os braos me atraindo para si, enquanto
eu lhe acariciava a nuca, passava os dedos entre o cabelo e os flexionava. Danvamos com as bochechas pegas. Dvamos a impresso de ir beijar nos de um momento
a outro, embora no chegamos a faz-lo. Foi como os prolegmenos de fazer o amor, s que em pblico. Porque ao cabo de umas horas estvamos em minha cama, fazendo
o amor pela primeira vez.
     O vdeo recolhia ento umas cenas de uma festa que Isabel organizou no jardim de sua casa. Foi no vero de 1955. Emma deixou escapar um vaio de desaprovao
quando apareceu Gary, mas Isabel s ps cara de contrariedade, entristecida. Acredito que  verdade que o perdoou. Gary tinha aspecto de pessoa paga de si
mesma (dizem que a cmara no minta nunca). Levava calas a quadros e um pulver arregaado que deixava ver o denso plo de seus antebraos. Sorria ao ver a
cmara, elevava os braos e os separava como dizendo: me olhem, pareo um urso. Lembrana que por ento me caa bem. Pensei que sua maneira de paquerar era
agradvel e inclusive me resultava adulador. Agora no posso v-lo nem em pintura.
     -Lisa Ommert -disse Rudy-. O que ter sido da Lisa? soube algum dela? Quanto durou, L? Um ano?
     -Nove meses -respondi olhando a Lisa, que foi una do grupo at que se transladou com seu marido a Sua. Estava em animada conversao com o Gary, Emma e o
que por ento era o noivo da Emma, Peter Dickenson.
     -J eu gostaria de saber do que estvamos falando! -exclamou Emma entre dentes.
     -Eram as ltimas rabadas da festa -assinalou Rudy-. Provavelmente estvamos todas mais que achispadas.
     -Ah, isso seguro.
     Olhei a Emma pela extremidade do olho. Ela e Peter romperam da noite para o dia (agora te quero, agora te deixo) e nunca quis nos dizer por que. Rudy
sabe, mas Isabel e eu no. Bom, acaso Isabel tambm saiba mas s por intuio. A minha me diz que devia haver outra mulher e que Emma deveu descobri-lo
de um modo horrvel e humilhante. Porque no sei o que outra coisa pde feri-la at tal ponto que, depois de tantos anos, ainda siga sem querer cont-lo.
     -Que tal vai com o Clay? -perguntou de passada.
     Clay  o menino com quem Sally Draco tratou de emparelhar a Emma. Pareceu-me incrvel que Emma aceitasse e ainda me surpreendeu mais que sassem outra vez. A primeira
entrevista tinha que ser em principio com a Sally e Mick que, no ltimo momento, disseram que Sally no se encontrava bem ou algo assim.
     -Bem -respondeu Emma.
     -S bem?
     Emma se encolheu de ombros e seguiu olhando  tela. ficou muito sria, como est acostumado a fazer ultimamente cada vez que se fala de homens. Sua expresso vem
a dizer: deixemo-lo correr.
     No sei por que me ocorreria ento dizer o que pinjente.
     -Faz muito que no nos contas nada daquele menino casado. Deixaste-lo j?
     -Bom, como em realidade alguma vez comeou, suponho que se acabou -reps ela de mau humor-. E se nos limitssemos a ver o vdeo, L?
     -Bom, perdoa. No acreditava que fosse to suscetvel.
     -N, n, garotas -ps paz Rudy.
     Emma se inclinou para frente, com os antebraos sobre os joelhos e o olhar tenso.
     -Sinto muito -disse ento voltando a recostar-se no respaldo e sonriendo.
     -Nada -pinjente, embora em realidade quis dizer: "Eu tambm o sinto", em que pese a que no sabia do que tnhamos que nos desculpar. Mas no estava de mais no zangar-se.
     Os ltimos minutos do vdeo eram de exatamente fazia um ano, ali mesmo no Neap Tide quando estivemos para celebrar o nono aniversrio. Ao v-lo agora
reparei que, em alguns aspectos, era perfeito. A cmara nos tinha captado s quatro em atitudes muito representativas de nossa idiossincrasia. Fomos assim. Ali
estava Emma, sentada em uma rede da praia, envolta em uma toalha e com uma sudadera com capuz, enfrascada em um livro; Rudy, bronzeada e esplndida a seu
lado, bebendo de um recipiente trmico cheio de bloody marys; Isabel de volta de dar um banho, trotando pela areia, com o cabelo jorrando, os lbios morados e rendo de
nada em especial, de pura satisfao, certamente. Inclusive o que Rudy filmou de mim  caracterstico, parece-me. Estou na cozinha, pegando com cinta adesiva
uma folha de papel em que acabava de detalhar nossas tarefas. "Diviso de trabalho, de 14/6 a 17/6." (Lembrana que Emma acrescentou uma nova tarefa: "dormir", e
escreveu seu nome em todas as casinhas.) Foi um alegre fim de semana, sem dvida, e entretanto, ao ver as imagens das quatro, as bobagens que fazamos, as
tolices que dizamos e a ternura que irradivamos, entristeci-me. Parecamos to inocentes... Ento ignorvamos que nos aguardavam duras provas. Estvamos
ensimismadas, convencidas de que sempre poderamos ser como fomos, e no pensvamos no futuro.
     Os ltimos fotogramas eram muito artsticos, disse-me. Filmei-os contraluz, por detrs das cabeas da Isabel, Rudy e Emma, que estavam no alpendre e olhavam
para o horizonte avermelhado pelo crepsculo. S se via a silhueta de suas cabeas, negras e recortadas em um fundo que, por contraste, parecia purpreo. Se
ouvia o murmrio de suas vozes. Estremeci-me. No ltimo instante, Isabel me tinha ouvido e se deu a volta. Ficava a luz justa para ver seu sorriso.
     Fundido.
     -Recordam do que falamos aquela noite? -perguntou Isabel depois de um plcido silncio.
     -Eu sim -reps Emma, que agarrou o mando a distncia e apagou o televisor.
     -Eu tambm -disse Rudy.
     -De nossos objetivos -pinjente.
     -Sim -confirmou Isabel sorridente-. Contei-lhes que queria terminar minha licenciatura, procurar um emprego para ajudar a pessoas da terceira idade e viajar.
     -Eu disse que queria ter um filho.
     -A mim no me ocorreu nada -recordou Rudy olhando a Emma-. E voc disse que queria viver em uma granja e ver um concerto do James Brown.
     -E passar uma noite com o Harrison Ford -recordou Emma-. Por certo, agora preferiria pass-la com o David Duchovny.
     Recordei como surgiu o tema. Comeamos falando dos objetivos que algum se prope na vida em geral, mas a conversao derivou para o que queramos
conseguir antes de nos fazer velhas (coisas que em nosso leito de morte pudssemos lamentar no ter feito). Eu ansiava ganhar um leilo de objetos que pertenceram
 a Pavlova e danar o Quebra-nozes. Ento nos pareceu um tema do mais incuo, fazia s um ano. Era divertido, como um jogo.
     No podia olhar a Isabel, que no demorou para romper o silncio que se fez.
     -Meus objetivos no trocaram muito desde aquela noite -assegurou como se me adivinhasse o pensamento-.  curioso, no? Agora tenho mais coisas do que me lamentar,
mas ambicione as mesmas.
     -Que coisas tem que lamentar? -perguntou Rudy.
     Pareceu-me a pergunta mais absurda e falta de tato que tinha ouvido em muito tempo.
     -Pois...
     Isabel levava aquela noite a cabea coberta com o leno. Brincou com as borlitas que pendiam do mesmo e lhe roavam um ombro. Dirigiu-nos um olhar
doce e melanclica.
     -Pois o que mais lamento segue sendo no me haver esforado mais para que meu matrimnio funcionasse -respondeu-. Em bem do Terry -particularizou ao ver que amos
a interromp-la-. Pode que me engane mas, se Gary e eu tivssemos sabido seguir adiante, acaso Terry no se foi to longe. Possivelmente. No sei.
     -No, claro que no sabe -disse Emma apertando os lbios.
     -Embora agora, a verdade, tenho outras coisas do que me lamentar -prosseguiu Isabel-; costure nas que nunca antes tinha reparado.
     -Como o que?
     -No ter aprendido a tocar o piano nem a pintar  aquarela. No ter conhecido ao Carlos Castaeda para lhe perguntar se tudo era certo -disse rendo-. No haver
aprendido astronomia nem o canto dos pssaros; sou incapaz de distinguir um reyezuelo de um pinzn. Nem tampouco sei nada de flores silvestres.
     Rudy aproximou seu brao ao da Isabel e apoiou a cabea em seu ombro.
     -E nunca serei a garota do tempo do Canal Cinco -murmurou Isabel-. No atuei em uma pea teatral nem danado, nem sequer tenho escrito um poema. E alm no
tenho netos.
     -E por que no te prope fazer todo isso? -disse Emma depois de uma pausa que nos entristeceu. Senti o impulso de lhe dar um beijo-. Pode consegui-lo tudo. Pode
que o de ser a garota do tempo no, mas eles o perdem.
     -Tenho entendido que Carlos Castaeda j morreu -comentou Rudy.
     -Vale. Mas o resto, por que no vais poder consegui-lo, Isabel? Falo a srio. Poderia escrever um poema agora mesmo. Costurar e cantar. Eu te ajudo. E a
semana que vem-te compras uma caixa de aquarelas e um livro de astronomia Y... que mais era?
     Isabel se ps-se a rir.
     -Ah, fui-record Emma-. O canto dos pssaros. Compra-te um desses compact que incluem todos os cantos havidos e por haver, enquanto uma voz diz a
que pssaro corresponde. E quanto s flores silvestres, facilsimo, compra-te outro livro e vais passear pelo parque Rock Creek. Que mais? Netos? A pode
contar comigo. Fala-o com o Terry e j ver voc....
     -V, v -disse Isabel recostando a cabea no respaldo do sof.
     A tristeza tinha desaparecido de seu rosto. Parecia relaxada, divertida e tolerante. De verdade, no sou uma pessoa invejosa, mas no sabem como eu gostaria
ter o dom que tem Emma para fazer trocar de humor a uma pessoa (quando quer, claro).
     -Sabem o que lamento eu? -perguntou Emma levantando o ndice da mo direita-. No ter conduzido nunca um carro a cento e setenta por hora. Segundo -acrescentou
mostrando o polegar-, no ter tido um largo bate-papo com a Batata para tratar de faz-lo trocar de atitude. E terceiro, que no exista um pas que se chame Gracialandia.
     -Um momento -atravessou Rudy-. Um momento. Queria dizer algo. A ti, Isabel, e para todas ns. Sei que falo por todas. No preciso pergunt-lo. Quero dizer
em voz alta que ns... bom, acima de tudo, que estamos seguras de que vamos curar nos. Isso para comear.
     Emma e eu assentimos veementemente.
     -E para seguir -prosseguiu Rudy-, acredito que seria bom que nos comprometssemos agora mesmo em uma coisa, embora j sei que se d por sentada. Mas s vezes 
bom dizer as coisas em voz alta. Quero dizer para todas que, acontea o que acontea, estamos aqui. Quero dizer que estamos aqui para confrontar o que for. Nunca
estar sozinha. Nunca. No o digo por...
     -Est claro por que o diz. E estou de acordo -disse Emma-.  bom verbalizar as coisas. E  bom dizer que nunca ter que confrontar nada sozinha, Isabel.
Nada. Em realidade, embora quisesse, no poderia te liberar de ns.
     No pude exteriorizar meu assentimento, embora sabia que isso era o que se esperava de mim. Assustava-me tanto a idia de me jogar a chorar que no me saram as
palavras. Embora, se chorava, seria mais de raiva que de pena. Como se atreviam a lhe falar assim, como se estivesse agonizando? Porque no o estava. estava-se recuperando.
Mas no acreditavam que se estava recuperando, e isso me pareceu uma traio, no s a Isabel mas tambm tambm a mim.
     Isabel se emocionou, claro. Abraou-as s duas, piscando para evitar que lhe saltassem as lgrimas. Quis proteger a de seu pessimismo, mas, o que podia
fazer eu? Quando ela me sorriu com os olhos umedecidos e alargou a mo para mim me levantei.
     -vamos tomar um sorvete, n? -propus.
     E me fui chorar  cozinha.
Captulo 18
Rudy
     -No crie que L se est voltando um pouco louca?
     Emma o disse em voz baixa, quase lhe sussurrem. L dormia na habitao contiga; Isabel ao outro lado do corredor; e ns tnhamos deixado a porta e a
janela aberta para que circulasse o ar.
     -Pelo de ter filhos? No -pinjente-. Acredito que  bom que nos tenha contado todo isso. s vezes se encerra muito em si mesmo, se...
     -No, no o digo porque se justificou um pouco conosco. Estou de acordo em que  bom para ela. Digo-o por sua atitude ante a maternidade.
     -Ah.
     -Parece que no visse nada mais. E acredito quando diz que nunca renunciar. por que no adotam um, Rudy? por que? Est obcecada. Trabalha com meninos, e est
to apanhada no mundo da maternidade que no v nada mais.
     -J sei.  O que h dito a respeito de seus pais ?
     -No me lembro, exatamente. Mas  sinal de que segue com a idia fixa na cabea. Oxal pudssemos fazer algo.
     -Mas o que?
     -Nada. No podemos fazer nada.
     -S estar a seu lado -pinjente.
     -Sim -assentiu me olhando-. Sabe, Rudy? esteve muito bem o que h dito a Isabel.
     -Ah, pois no sei... S tentei me pr em seu lugar e imaginar o que era o que mais podia assust-la. Pensar como se fosse eu a que temesse ir morrer logo.
E estar sozinha. Por isso quis que soubesse que nunca estar sozinha.
     -Crie que isso  o que mais assusta?
     -me parece que sim.
     Em cima da mesita que separava os beliches inferiores nas que dormamos havia um velho quinqu adaptado para lhe acoplar uma vela, que ardia com uma chama
viva. Entre a vela e a luz da lua, podia ver a Emma com nitidez, estirada, com sua camisola azul, apertando-a parte superior de sua branca coxa com um dedo
para comprovar se tinha tomado muito sol pela tarde.
     -Eu acredito que o que mais assusta  o esquecimento. Estar e deixar de estar. Embora todos aqueles que nos tenham importado em nossa vida estejam conosco at
o final, e todos lhe tirem da mo e lhe digam que tudo foi estupendo, que lhe amaram e todo isso, segue estando sozinha no ltimo momento. L onde v
ningum vai contigo.
     -Hummm. Isso sonha um pouco morboso.
     -No, no o . por que? No irs dizer me que no pensa nessas coisas?
     -Claro que penso nessas coisas -pinjente, embora ultimamente o via com mais otimismo-. Quer acreditar que L pensava que ontem estivemos bebendo no carro?
-acrescentei.
     Suponho que isso soou como se queria me sair pela tangente, mas reparei em que ela captava a relao.
     -Bom, j conhece l. Se lhe est passando isso em grande d por sentado que bebeste.
     -Pois no  que tenha bebido muito ultimamente -disse-lhe-. O que bebi ontem  noite  virtualmente quo nico bebi em vrias semanas.
     -J o notei. Por alguma razo especial?
     -No sei. Possivelmente porque agora me sinto mais forte. Mais a gosto com minha vida real.
     -E isso a que se deve?
     -No sei. Suponho que, em parte, porque vai muito bem o tratamento com o Eric. No  fcil, mas parece que, para variar, estamos chegando a concluses
positivas. Diz que  normal que no se consiga avanar durante muito tempo e que, de repente, tudo comece a esclarecer-se.
     -Como com as dietas de emagrecimento.
     -Exato.
     -Bom, a estas alturas j teria que sab-lo. Eric  to amvel, verdade? To paciente... -ironizou Emma-. No lhe importa ir devagar.
     Pareceu-me ler outra coisa entre linhas.
     -Quer dizer que assim no vou a nenhuma parte, no? Que no me serve de nada. Crie que a terapia  uma perda de tempo, verdade?
     Emma inclinou a cabea no travesseiro e me olhou.
     -Antes sim, mas comeo a pensar que Greenburg sabe melhor o que se diz que eu.
     Surpreendeu-me que o reconhecesse.
     -OH, Emma, esse sim que  um completo -exclamei-. Ficar muito contente quando o disser.
     Sorrimos na escurido.
     -Ah, Emma...
     -O que?
     -Recorda o que te disse sobre o curso de jardinagem e paisagismo?
     -Claro que me lembro.
     -Pois decidi faz-lo.
     -Isso  estupendo, Rudy -disse ela incorporando-se.
     -Comea em setembro.
     -Fantstico! E o que diz Curte?
     -Hummm. Pois...
     -Ainda no o h dito, verdade? -adivinhou Emma, que se recostou no cabecero, me olhando.
     -Ainda no. Estou esperando um momento oportuno.
     -Bom. Rudy, voc como interpreta o fato de no haver-lhe dito ainda porque sabe que no lhe vai gostar?
     -Sei ao que te refere. Falas como Eric, Emma. E s vezes me assusta.
     -O que responde?
     -Porque eu no gosto, que eu no gosto do que revela de mim e de Curtem..
     -E de Curtem. Menos mal...
     -Temos que confrontar as coisas, j sei. Tenho que lhe dizer o que penso. Uma coisa  dizer-lhe ao Eric ou a ti. Mas a ele devo dizer-lhe      Afirm los pies en el colchn y flexion las rodillas.
     Emma se inclinou para mim.
     -Isto  novo, Rudy, e acredito que  positivo. Representa uma mudana importante em sua atitude.
     -J sei. E j era hora, no crie?
     Emma guardou silncio. de vez em quando tem tato.
     -Tampouco se deve ao efeito dos medicamentos.
     -Estraguem...
     Afirmei os ps no colcho e flexionei os joelhos.
     -Tomo antidepressivos -pinjente, embora possivelmente devi dizer novos antidepressivos-. Mas no acredito que essa seja a nica razo. Como diz Eric, que os antidepressivos
ajudem a que no v a panela no significa que esteja assobiada.
     A frase nunca me tinha feito muita graa, mas a Emma fez tanta que ps-se a rir to forte que tive que sosseg-la.
     Eric diz tambm que a risada  uma catarse purificadora, que  boa para o esprito e para o corpo e que, quando  autntica,  melhor que o sexo.
Quantas horas teremos passado Emma e eu desternillndonos nos ltimos treze anos? Pergunto-me isso porque se ainda no acabar de estar muito equilibrada no sei que haveria
sido de mim se no chegar a conhec-la.
     Outro aspecto positivo de ter a algum com quem rir  que implica confiana. E essa deveu ser a razo de que lhe fizesse a seguinte confidncia.
     -Em todo dezembro no fizemos o amor nenhuma s vez.
     -Dezembro do ano passado?
     -Sim.
     -Voc e Curtis?
     -Quem se no?
     -Hummm. Por alguma razo concreta? -perguntou Emma me olhando.
     -Pois o caso  que no sei que razo pudesse haver. No acredito que fizesse eu nada para que me castigasse. Simplesmente no o fizemos. No o comentei. Embora saiba
que devi faz-lo. Nem sequer o hei dito ao Eric.
     -No o comentou ao Curtis?
     -No -respondi. Fiz uma careta de contrariedade porque me resultava muito embaraoso reconhecer que tinha sido uma covardia-. E ento, em Vspera de ano novo o fizemos,
como se nada tivesse ocorrido. E lhe disse "Bom, pois feliz Ano Novo", ou algo assim, com certo retintn, a ver se ele o captava e fazia algum comentrio. Mas se
limitou a me olhar com frieza. E nisso ficou. J no houve mais. Aps todo se normalizou. Sexualmente.
     - Sexualmente ?
     -Sim.
     -E no resto no?
      curioso comprovar que s vezes resulta mais fcil falar da prpria vida sexual, por mais ntimo que seja o tema, que a respeito de como vai todo o resto.
     -Pois... trata-se de um conjunto de coisas. De idias que me passam pela cabea e das que penso falar com o Curtis logo.
     -Como o que? -perguntou Emma suspirando-. Me ponha um exemplo, a ver se nos esclarecemos.
     -Pois, por exemplo, o que vimos esta noite no vdeo; quando estamos todas frente a minha casa, listas para ir ao acampamento de ginstica. Essa imagem de
Curtis me dando um beijo de despedida.
     -Sim, foi um pouco estranho.
     Vieram a me recolher a ltima, e estvamos um pouco atordoadas e nervosas, impaciente por sair. Todas amos com a idia de perder peso, mas parte do plano
era nos deter pelo caminho a nos atiar um glorioso almoo, a base de tudo o que engorda, em um restaurante que recomendava uma guia. Assim, pesaramos o mximo
quando nos pesassem a primeira noite. No parvamos de rir e de dizer tolices, com a mente j na estrada. Tinha que ter reparado, e suponho que em meu foro
interno o fiz, em que essa falta de ateno ou de desentendimento por minha parte fere os sentimentos do Curtis.  mais, acredito que o aterra. Necessita-me para afirmar-se
continuamente. Precisa ser o centro. Do contrrio tem a sensao de no existir.
     O caso  que, quando me beijou, no me deu esse carinhoso besito que do os maridos quando esto diante de outros e que deve dizer "adeus, carinho", "tenha
cuidado", "quero-te", esse beijo sem logo que toc-los lbios seguido de um rpido abrao. trata-se de um beijo tenro e desenvolto, mas um tanto assptico como
beijo. Aquele beijo no foi assim. Nem muito menos. Sem logo que me separar do grupo, e consciente de que L o estava filmando, Curtis me rodeou com seus braos e me deu
um comprido beijo de cinema, apaixonado, sensual e forado (pois embora eu tratava de me soltar no me deixava). Obrigou-me a que por um momento s pensasse nele. Fez-o
a propsito. me beijar daquela maneira, me sujeitar assim, era seu modo de dizer "pensa em mim" e de lhes dizer a meus amigas " minha". Em certo modo foi pior ver o vdeo
aquela noite, anos depois, que quando aconteceu. Porque agora encaixa com muitas outras lembranas, similares e em alguns casos mais inquietantes.
     -E eu j no quero que me possuam. Antes sim -disse quedamente.
     -Possuam? J. Entendo -disse Emma-.  uma palavra antiquada.
     -Suponho. Mas tambm temo que tudo troque. Detesto as mudanas.
     -Est segura? Est segura de que no  Curtis quem detesta as mudanas? No ser que o que no quer  desafi-lo, contrari-lo?
     -Hummm. -Dava que pensar.
     -Bom, vai devagarzinho mas isso est bem;  provavelmente bom. Como perder peso com uma dieta, embora no  uma analogia que possa te aplicar. Enquanto avance,
embora seja pouco, temos boas razes para pensar que seu psiquiatra sabe o que se faz.
     -fumei sem me preocupar com o que diga -pinjente.
     -Quem? Eric?
     -No. Curtis.
     -Vamos!
     -De verdade. No quando ele est em casa, porque me pareceria uma descortesia, mas quando no est sim. E logo no jogo ambientador nas cortinas para que no
note-o, como fazia antes. E fumo diante dele quando estamos fora, em um restaurante ou em um bar. Eric diz que isso  estupendo, que  fantstico. E Eric detesta
que fume, mas adora que no o oculte ao Curtis. Diz que isso  muito mais saudvel para meu equilbrio.
     -Suponho que sim. E embora de um modo um pouco retorcido,  uma amostra de valor. Assim, pelo menos, faz-te p os pulmes por uma boa causa.  maturidade
pelo enfisema.
     -Fumamos um?
     -Claro.
     Acendemos os cigarros.
     -Quando era jovencita no tinha estas coisas -disse-lhe.
     -Que coisas?
     Com os cotovelos apoiados em nossos beliches, alargando a mo de vez em vez para nos passar o cinzeiro no cho, parecamos adolescentes em colnias.
     -Pois ter uma amiga ntima a quem lhe fazer confidncias na escurido. Fumar... Nunca fazia estas coisas.
     -Porque estava muito jodida -disse Emma dando-o por sentado-. Sua famlia lhe puteaba, mas agora o est superando. Pouco a pouco est sendo voc mesma.
     -De verdade o crie?
     -De verdade.
     Disse-o to convencida que me joguei para trs me separando da vela para que no me visse a cara. Minha esperanada expresso. No queria parecer pattica.
     -Isso espero -pinjente.
     -Me imagino: voc fumando diante do Curtis. minha me! A isso lhe chama valor -disse sem indcio de sarcasmo-.  fantstico.
     Pensei naquele dia em que Curtis me disse que deixasse de ver a Emma. "Por seu prprio bem", havia-me dito. Ao me record-lo pareceu desprezvel. Mas no podia
contar-lhe a Emma. Era muito embaraoso. Sentia-me envergonhada pelo Curtis. Era uma prova de que Curtis mentia ao me dizer que Emma lhe caa bem quando em realidade
detestava-a. Com a ajuda do Eric acabei de me precaver disso. No o faz assim Emma (mord-la lngua para no dizer o que realmente pensa dele). O cala
por mim. Faz-o por respeito, por tato e por amor. Curtis finge porque  desonesto.  outra maneira de me possuir.
     Emma bocejou e em seguida apagamos os cigarros e a vela.
     -Sempre falamos de mim-pinjente dormitada.
     -Fui-dijo ela com os olhos entreabridos-. Deve-se a que  uma egocntrica.
     - que sempre me obriga a que eu seja quem pergunta. Nunca me conta nada espontaneamente; tenho que lhe arrancar isso com saca-rolha. Ah, esquecia te dizer uma
coisa: L me perguntou o que me pareceria convidar a Sally a formar parte do grupo.
     -J. H-me dito que lhe ia perguntar isso a ti tambm. O que lhe respondeste?
     -Que encantada.
     -Vamos!
     Pus-se a rir.
     -Ser...! -exclamou Emma, que se voltou a deixar cair no beliche (quase se tinha dado com a cabea na de acima ao incorporar-se bruscamente)-. Me diga de
verdade o que lhe h dito.
     -Pois o mesmo que voc, que no acredito que seja o momento mais oportuno, pela Isabel.
     Notei que Emma sentia alvio.
     -Crie que isso contrariou a L?
     -No, absolutamente; nem sequer entendo por que me perguntou isso . Suponho que s para ficar bem com todas. Mas a amizade entre L e Sally
est-se esfriando. Por certo, como te ocorreu lhe dizer a L que ficaria aqui outro par de dias? -perguntei. Emma abriu um olho-. No me parece prudente
nem sensato.  mais, parece-me totalmente desconjurado.
     -E quem te h dito que eu sou prudente e sensata?
     -Mais que eu,  obvio.
     -Ah. Mais que voc... -Inclusive na escurido pude ver seu sorriso.
     Aquela noite L nos tinha rogado que uma de ns, dois ou as trs, dava-lhe igual, ficssemos at na tera-feira e que logo retornssemos com ela e Henry.
Nenhuma nos oferecemos, mas insistimos em lhe perguntar por que, at que ao fim reconheceu que lhe tinha cansado a atadura dos olhos respeito a Sally Draco. Havia
convidado aos Draco a seu chal fazia meses, mas agora no queria ficar com a Sally, sem mais companhia que seus respectivos maridos.
     -E por que j no te cai bem? -tinha-lhe perguntado Emma em tom desenvolto.
     -Pois no sei, por nada em especial -respondeu L-. No h nada na Sally que me desgoste especialmente, s que agora no me sinto to cmoda com ela como
antes. Isso  tudo.
     me ocorria o mesmo. Quer dizer, tinha-me ocorrido sempre. Acredito que Sally tem muitos problemas e provavelmente Emma  o menor.
     Isabel e eu no podamos lhe dar uma mo a L naqueles momentos, porque ambas tnhamos que estar em casa no domingo. Notei que Emma o estava pensando, mas
fiquei de uma pea quando me comunicou sua deciso.
     -Bom, ficarei, se quiser. Trouxe-me trabalho. Posso faz-lo igual aqui que em casa.
     Olhei com fixidez a Emma, que no me devolveu o olhar enquanto L lhe dava as obrigado e lhe assegurava que no passava nada grave; que no tinha nada contra Sally,
s que assim as coisas lhe seriam mais fceis.
     Isabel no disse uma palavra.
     -Bom, Emma, por que h dito que foste ficar te? -repeti- No crie que  perigoso? No crie que estar tanto tempo vendo o Mick e Sally pode te resultar...
hiriente? N, Emma? -sussurrei-. Ficaste-te dormida?
     No sei. O caso  que no me respondeu.
Captulo 19
Emma
     Rudy e Isabel partiram bastante tarde no domingo, depois de almoar. E assim que se partiram fui dar um passeio pela praia. Tinha que me haver
ficado para ajudar a L a limpar (Mick, Sally e Henry chegariam dentro de uma hora). Mas no fiquei. No sei por que. No foi por preguia mas sim porque no queria
estar ali quando chegassem. No poderia suportar estar com L junto ao corrimo do alpendre, saudando-os com a mo e sonriendo. "N, tudo bem? Bem a viagem?"
Alm no queria que ao Mick o pilhasse despreparado, porque no esperava que eu estivesse ali. Dissimula fatal. No convinha que se notasse que se alegrava muito
de lombriga e menos ainda que parecesse..., no sei como express-lo, especular a respeito de minha presena? Possivelmente.
     Suponho que deveria dizer que fazia um dia esplndido. O cu estava muito azul, sem mais que algumas nuvens brancas e dispersas, um suave fluxo, gaivotas, umas
zancudas que no sei como se chamam e conchas. A areia. Subia a mar. Sei porque vi que a gente retirava as toalhas e as sombrinhas e voltava s colocar mais
vamos. Mas em realidade eu estava alheia a tudo. Poderia ter estado perfeitamente nas ruas do centro do Poughkeepsie. "No crie que poderia te resultar...
hiriente?" Sim, Rudy, acredito que sim. por que no o pensei antes? Possivelmente porque o amor no s  cego mas tambm masoquista.
     Da festa de L s tnhamos falado duas vezes, uma em seu estudo e outra por telefone. E em ambas as ocasies ficamos com um gosto de insatisfao;
tudo entre ns eram meias palavras, subentendidos. Criasse ou no, no me busco problemas com os homens; no sou uma dessas mulheres que caem uma e outra vez
em interessar-se por homens com a mesma pega, sem castigar nunca. No. O meu  dar com uma pega distinta cada vez, e pr-se a correr assim que a descubro. De
modo que, por que me atormento respeito do Mick que no tem nenhuma? por que me segue chamando? Nem ele nem eu somos pessoas temerrias.  por que fazemos isto
?
     Se atalharmos pela parte de atrs dos jardins dos trs chals que separam o de L e a praia, no ter que cruzar a estrada, o que vem muito bem
se uma for descala. Leia nos tem proibido isso porque diz que  "ilegal". Mas quando no est conosco, atalhamos por ali. Eu estava a um chal de distncia
do Neap Tide II quando ouvi a estridente e entusiasta risada da Sally Draco. Ento compreendi que tinha cometido um dos mais graves enganos de minha vida.
     Ainda no podia v-los, s ouvia o Henry arrastar palavras ininteligveis com sua voz de bartono, a voz clara e cortante de L, o "apito" da Sally, a assptica
risada do Mick.
     Como me tinha ocorrido ficar ?Eu no pintava nada ali. Eles sim. Muito tarde para fugir. Embargou-me uma intensa sensao de solido. Estremeci-me,
abatida e desolada ao me precaver de que me ia levar meu castigo.
     Nenhum deles reparou em mim, em que pese a que tropecei nos degraus do alpendre. Estavam muito enfrascados em conversar e rir. Embora sim reparou algum em
mim. Dava-me a volta sobressaltada como se uma animlia se cruzou em meu caminho. Era um menino: Jay, o filho do Mick. Tinha-me esquecido por completo dele. Contava
L com que fossem com o menino? Estava sentado com as pernas cruzadas no alpendre dianteiro. Era loiro como o trigo. Elevou a vista, absolutamente sobressaltado
e sem distrair-se da absorvente tarefa de lhe fazer os ns  cauda de uma cometa. Seus olhos azuis me estudaram com sria e medrosa curiosidade durante uns segundos.
Ao ver que sorria olhou para seus pais. "A mim a tropa!", quase podia uma lhe ouvir gritar.
     -Ah, est a-disse Henry sorridente  lombriga.
     Outros se deram a volta e eu fui para eles sem deixar de sorrir.
     -Ol, que tal a viagem? -saudei.
     Logo beijei ao Henry e abracei a Sally. Ao Mick o saudei com a mo desde dois metros de distncia. Apenas o olhei. Limitei-me a mant-lo em meu campo visual,
como se do sol se tratasse. Mas reparei em que se cortou o cabelo. Assim estava mais jovem. Parecia um pipiolo. Mas no o tinham talhado bem, porque se o
via um pouco o couro cabeludo por ambos os lados. Alm disso, estava muito plido e gasto. A sombra negro azulada de suas bochechas contrastava fortemente com sua pele
branca. Teria estado doente?
     -No sabe quanto me alegro de que te tenha ficado -disse Sally, e me tirou das mos e olhou aos olhos-. Que tal vai? Que tal vai ultimamente}
     Aterrou-me pensar que pudesse sab-lo tudo e que sentisse prazer em me torturar. Que tal vai? Que tal vai ultimamente? Nem a minha me respondo com franqueza
estas perguntas.
     -Bem, bem -pinjente tratando de dar a mesma intencionalidade a minha resposta-.  esse seu filho?
     A manobra de distrao funcionou. Soltou-me as mos e o chamou.
     -Vem saudar a Emma, Jay!
     Pobre pirralho. por que faro estas coisas os majores? ir saudar uma velha amiga de seus pais no era precisamente o que Jay queria fazer nesse momento.
Mas apareceu por detrs do alpendre, balbuciou "ol" como um menino obediente e me tendeu a mo sem lhe tirar olho a meus joelhos. Mick posou as mos nos ombros
do pequeno, que elevou a vista e se relaxou. Tinha a mesma cara que na fotografia, anglico. Levianamente se parecia com sua me, porque era loiro e tinha
os olhos claros. Mas a forma de sua cabea tinha uma dignidade e uma nobreza que s podia ter herdado de seu pai. E no o digo porque seja imparcial.
     -Vai, todos a trocar-se, que vamos  praia! -anunciou Henry para jbilo do Jay.
     -Eu no -recusei-. J tomei bastante sol por hoje.
     Isto provocou as habituais risadas de incredulidade e brincadeiras a minha costa. Henry me disse que estava mais branca que o leite e comparou minha tez a do Casper, o
fantasma amistoso.
     -Vale, vale. Red, red. J vero quando carem fulminados pelo melanoma.
     Mas a verdadeira razo,  obvio,  que no queria assistir ao folguedo familiar, s risadas, aos jogos na gua e na areia para major glorifica de
a Kodak.
     Quando se tiveram partido e fiquei sozinha me preparei um gigantesco gim-tonic e me levei isso a ducha. No me tivesse importado me afogar, que me tivesse tragado
o desge coberta de espuma. Ningum me ia sentir falta de.
     Cheguei sbria ao jantar. Amontoamo-nos os seis no station wagon dos Patterson e fomos ao Brother's, onde nos pusemos morados de carne  brasa, pescado
frito com batatas e salada de couve com montanhas de maionese. Sentei-me frente a Sally, que no parava de falar. Levava o cabelo tingido de loira platina, que contrastava
com suas sobrancelhas negras e arqueadas e seus enormes olhos azuis. O penteado a favorecia. Teria sido uma mulher fascinante de no falar tanto. Cada vez que dizia algo,
por mais banal que fosse, olhava-nos escrutadoramente, como se queria controlar nossas reaes. Pespunteaba quase cada frase com uma risada artificiosa, como
dizendo: "J vero o que divertido." Inclusive cheguei a pensar que estivesse colocada. Provavelmente no, mas estava tensa como um mole, e atuava muito.
     Possivelmente tivessem discutido. A seu lado, Mick sorria educadamente. Logo que abria a boca, embora no deixava de mostrar-se solcito com ela. Eu seguia sem poder olh-lo
aos olhos, mas me pareceu fatigado. No, conclu. No deviam ter discutido. Devia ser seu aspecto habitual quando estavam juntos.
     -Pode que Mick fique a trabalhar -anunciou Sally.
     Estirei o pescoo para ouvi-lo. Ela soltou seu risita nervosa e se apoiou um momento no enrijecido ombro do Mick com aspecto brincalho. Olhei-o um instante e me
pareceu not-lo abatido.
     -Refiro-me a trabalhar em um verdadeiro emprego -prosseguiu Sally-, no que ganha dinheiro de verdade.
     L se reanimou no assento incmoda. O descontentamento da Sally resultava embaraoso de puro transparente. Alm disso, falar da situao econmica de cada qual
infringia uma das principais regra de etiqueta de L. Mas olhou ao Mick espectador. Todos o olhamos.
     -Sim, pensei aceitar um emprego a tempo parcial -confirmou ele.
     -Mas no vais deixar de pintar, verdade? -pinjente.
     -No, no -respondeu. Olhou-me um instante e desviou o olhar.
     -Lstima que o encanamento no seja o teu, porque poderia trabalhar comigo -brincou Henry e dissipou a tenso-. Que classe de trabalho te interessa?
     -Vigilante noturno -disse Jay.
     Mick se ps-se a rir e Jay o olhou surpreso.
     -Isso era uma brincadeira -explicou-lhe o pai a seu filho-, como o de trabalhar no McDonald'S.
     -Mas  que se fosse vigilante noturno levaria pistola...
     Sally voltou para propinarnos uma de suas falsas risadas.
     -Jay quer que seu pai trabalhe no zoolgico, no McDonald's ou que se dedique ao rodeio.
     -Ou nas foras areas -particularizou Jay.
     -Por mim estaria encantada se trabalhasse como cbeer leader, com tal de que tivesse ganhos regulares. Ja ja!
     Eu brinquei com uma batata frita sem levantar a cabea. fez-se um silncio que se podia cortar. O que mais me repateaba era que Mick dava a impresso de
no lhe reprovar a Sally sua atitude. Devia hav-lo convencido de que a tinha decepcionado, embora no o dissesse com essas palavras. Sally era das que preferia
criticar.
     -Subiram-me o aluguel no estudo -explicou Mick fazendo caso omisso da tenso que se apalpava-. E, como de momento tudo so gastos e no h ganhos,
provavelmente voltarei a trabalhar na escrivaninha de antes, a tempo parcial -acrescentou me olhando-. Pode que seja uma boa frmula.
     Ah, mas e suas pinturas? Suas queridas pinturas! Senti nuseas. Revoltava-me o que considerava uma injustia. E de no ter sabido que aquilo era amor,
tivesse-o sabido ento, porque a verdade  que suas pinturas seguem sem me dizer nada.
     depois do jantar, durante o trajeto de volta a casa, pensei que no poderia suportar acontecer mais tempo em companhia do Mick e Sally. Sinto muito, L, m sorte,
ides ficar lhes solos com eles, pensei.
     -Encontra-te bem? -perguntou-me quando disse que me ia deitar cedo.
     -Sim, estou bem; s que acredito que tomei muito sol.
     Era uma boa desculpa que sempre d p a uns minutos de desenvolto sarro (desenvolto sobre tudo por minha parte). Dava-lhes as boa noite e desapareci.
     J na cama os ouvi falar e rir no alpendre. s vezes ouvia o que diziam e outras s vozes que subiam e desciam de volume, enrgicas ou tmidas. Sentia-me
como uma menina a quem seus pais tivessem mandado  cama em plena festa. E falando de meninos, Jay dormia em uma turca aos ps da cama da Sally e Mick.
Pude me haver devotado para que dormisse em minha habitao, no beliche que Rudy tinha deixado livre. Mas no o fiz. Adivinhem por que.
     Por volta das onze ouvi passos de duas pessoas que desciam pela escada do alpendre e que logo seguiam pela rampa arenosa pela que acessavam os carros. Apareci
 janela mas j no me deu tempo a ver quem eram. Ao cabo de uns minutos ouvi a voz do Henry. De modo que eram Mick e Sally quem tinha sado. Deviam
de ter ido dar um passeio. Aquela noite havia uma romntica lua enche. E o menino estava no dormitrio, de modo que...
     No tem muita graa expor-se a que lhe mortifiquem o cimes sexuais. O tictac de meu despertador de viagem me martilleaba o crebro. Instei por no imagin-los
entrelaados na fria areia, sob a luz azulada da lua, mas em vo. Sally  muito atrativa, de verdade, quando no fala; e ele  um homem apaixonado. De
isso estou segura, embora jamais me haja meio doido.
     O relgio marcava as 11.34 quando ouvi o Henry e L ir nas pontas dos ps pelo corredor e fechar a porta de seu dormitrio. s doze menos vinte levantei e
fui ao quarto de banho que compartilhava com os Draco, com a idia de tomar um sonfero, embora me surpreendeu lombriga bisbilhotando no estojo de barbear do Mick, a ver
o que estava acostumado a levar quando viajava. Era uma maneira bastante pattica de me aproximar dele, mas j tinha perdido todo sentido do decoro.
     Usava sabo Mennen e um barbeador eltrico de barbear Gillette e, pelo visto, no usava loo ps-barba. Tirita. Pente, mas no escovo. Cortauas.
Um tubo de aspirinas, uma barra de desodorante e ataduras. culos de sol, das que ficam em cima das correntes. No havia preservativos. Fio dental. Elixir.
Pasta de dente e escova. Nem rastro de preservativos. Uma caixa de fsforos, imperdveis e uma cajita de gazes.
     por que no levava preservativos? Trs possibilidades. Uma: que fosse ela quem velasse pela anticoncepo. Dois: que queriam ter outro filho. E trs: que
j no tivessem relaes sexuais.
     Eu preferia a terceira possibilidade.
     O floreado estojo de penteadeira da Sally estava em cima da tampa da taa, mas no o toquei. A pesar do descobrimento de que no levava preservativos, eles
asseguro que no era informao o que procurava. S queria ver o que levava Mick. De verdade. J sei que sonha pattico, mas queria tocar seu pente, ver quantas
aspirinas ficavam no tubo, cheirar sua espuma de barbear; ver se havia algum cabelo das axilas pego  barra do desodorante. No me importa que riam.
Deixo-o claro: ia a panela.
     Retornaram s doze menos quatro minutos. Foram ao quarto de banho por separado e, s doze e dez, j estavam de novo na cama com a porta fechada
e a luz apagada. No, no  que bisbilhotasse pelo olho da fechadura. Vi-o pelo reflexo da luz no pinheiro que ficava em frente de nossas janelas contigas.
     Silncio.
     Agora tinha motivos para me obcecar.
     No  fcil reconhecer que, imaginar  pessoa amada em braos de outra, no  s uma tortura mas tambm excitante. Sinto-o mas  assim; tem morbo.
E por que no? A angstia emocional e a excitao fsica no sempre se anulam. Certamente que no. A angstia no faz a no ser intensificar a excitao. Mais morbosa.
E aliviar-se dela, se acabar uma fazendo-o, no faz a no ser acentu-la, que se sinta ainda mais s e suprflua. Dispensvel. Na hora cinza e doentia antes do
alvorada pensei fazer a mala e partir, mas a logstica se imps. Porque tivesse tido que roubar um carro.
     Quando ao fim me dispus a dormir, fiquei como um lenho e no despertei at meio-dia. Me est acostumado a ocorrer. A noite que joguei ao Peter Dickenson de meu apartamento,
faz anos, nem sequer sei j quantos, deitei-me e dormi todo o dia, como se me tivesse ficado morta. Mas isso no  mau,  melhor que tomar pastilhas ou embebedar-se,
e muito mais barato. Eu o chamou "Valium natural".
     Ao me levantar subi  planta, onde esto as zonas comuns do chal e, pelo visto, todos tinham sado. Bom, pensei, at que me tive tomado a terceira
taa de caf e o segundo sndwich de queijo com tomate. Ento compreendi que no devia passar deles to olmpicamente, pu-me o traje de banho e enfiei para a praia.
     O panorama no era precisamente muito original. Eles jogavam a lanar o sabido disco de plstico e elas olhavam. Suportei as sabidas perguntas sobre
se me encontrava bem e, depois de lhes assegurar que estava perfeitamente, encaixei tambm suas brincadeiras sobre minha preguia. Para aproveitar a sombra da sombrinha de L estendi
minha toalha junto  sua. Sally estava ao outro lado de L. Tirei toda minha parafernlia: o livro, a loo, os culos de sol, o chapu e uma toalha enrolada
para utiliz-la a modo de travesseiro e me joguei de barriga para baixo. Segui com elas as evolues de seus maridos.
     Em realidade jogavam trs: Henry e Mick cada um em um extremo e Jay no centro. Mick e Henry lanavam o disco com preciso olmpica para faz-lo chegar
s mos do Jay. Produz certa sensao de segurana ver que os homens jogam com os meninos. Quando so pacientes e considerados, quando fazem concesses,
quando dissimulam sua superioridade, em outras palavras, quando se comportam como as mulheres, reforam nossa iluso de que so pessoas civilizadas.
     Pese ao prazenteiro espetculo, eu estava preocupada com L e pelo Henry. Estudava seus rostos, mas s revelavam uma plcida diverso. Dizia-me que por
fora tinham que sofrer. Ao igual a Rudy, alegrei-me quando L se justificou um pouco, tudo o que ela  capaz de justificar-se, e se abriu a ns a respeito de seus
temores e de sua raiva pelo fato de no conseguir ficar grvida. Como  a mais auto-suficiente, L no utilizava o grupo como terapia tanto como as demais.
De maneira que embora j supunha que o ressentimento, o cimes, a raiva e o sentimento de culpabilidade a afetavam, no deixou de me surpreender que o reconhecesse.
E agora, ao ver o Henry jogar to alegremente com o Jay, que  um verdadeiro anjo, um modelo de menino, o filho com o que sonha todo homem, pensei que a L tinha
que lhe destroar o corao.
     Mas acredito que seguem levando-se bem. Isso espero de todo corao. Porque L e Henry parecem o um para o outro. Desde o comeo L foi muito franco
conosco a respeito de sua paixo pelo Henry, e o certo  que quando uma est com eles o apalpa. No se trata de que faam alardes efusivos, absolutamente, mas os
asseguro que a atmosfera se carrega de eletricidade positiva quando esto juntos. Em parte se deve ao modo que tem ele de olh-la, como se fosse a deusa do sexo
e ele levasse sculos sem fazer o amor; e, em parte,  atitude recatada e discreta de L. v-los juntos sempre me induz a imaginar cenas de sexo. Pe-me
um pouco brincalhona, se formos a isso.
     antes de dar a espantada to cedo ontem  noite, sa ao alpendre a tomar o afresco. L e Henry j estavam ali, junto ao corrimo em um rinco escuro. V!
Estive a ponto de balbuciar uma desculpa e voltar a entrar. Mas no faziam nada. Ele a tinha rodeado com seus braos desde atrs e ela recostava a cabea nele, com
as mos rodeadas a suas bonecas. Sorriram-me e logo seguiram olhando a lua. Minha presena no os incomodou o mais mnimo, mas eu me senti como se tivesse irrompido
em uma cena de amor. Isso d idia da intensidade do halo de ternura que os envolvia. Quando ele se inclinou para ela e roou sua bochecha com a sua, com suavidade,
em atitude puramente amorosa, me fez um n na garganta. Disse-lhes boa noite e me afastei.
     Como eu gostaria de ter o que eles tm!  o que todo mundo deseja, no? Uma doce e intensa intimidade com o casal. J sei que  uma quimera, um
sonho que, no melhor dos casos, s se materializa fugazmente, e que quase nunca  o que parece. Mas no me importa. O modo de entrelaar-se, a sensao
que davam de ser um ali na escurido, afundava o poo de minha solido. E, seja real ou no, s vezes no me importaria me entregar ao sonho, embora saiba que os sonhos...
sonhos so.
     -Sentirei falta do bal -disse Sally incorporando-se para ficar nata nas pernas. Eu a olhei abstrada-. O estava comentando a L -acrescentou em um
tom diferente, ansiosa por me incluir na conversao-. tive que deixar as classes. J no nos podemos permitir isso porque temos outras prioridades.  a nica
atividade que fao para mim mesma, e  duro. Mas o que vai fazer uma? -Dirigiu-nos um sorriso de garota corajosa, com os lbios apertados.
     -Sim,  uma pena -pinjente.
     L no fez o menor comentrio e apenas a olhou. Hummm. Ali havia mais tenso da que eu imaginava. E eu me tinha desentendido da misso que L me encomendou:
servir de colcho entre ela e Sally durante aquele fim de semana. Tinha remorsos por isso, mas a verdade era que tinha eleito  pessoa equivocada para
aquela misso.
     No vi o disco at que me golpeou no ombro. E me fez mal. Henry se aproximou correndo, suarento, sorridente e ofegando como um perrillo.
     -Perdoa, Emma. Tenho-te feito mal?
     -No, no  nada -repus lhe devolvendo o disco com um esportivo sorriso.
     O traje de banho a raias azuis e brancas lhe chegava por debaixo dos joelhos, muito folgado. Levantou o disco por cima da cabea do Jay. Mick deu um assombroso
salto que fez gritar a seu filho de jbilo. Tampei-me um lado da cara com a mo para que Sally no me visse olhar fixamente a seu marido. Tinha emagrecido. Estava
fraco. No tinha por que atribuir-lhe a ela, mas o atribu. Salvo nos antebraos estava quase to plido como eu. Desejei tocar seus bceps bronzeados, beij-los,
mord-los. Tudo nele me excitava, atraa-me. Tinha a sensao de fazer algo indevido; de que olhar o daquela maneira me estava proibido; olhar suas coxas, seus
pantorrilhas, seu peludo peito. Segui-lo com o olhar quando saltava e corria.
     O fato de que aquele corpo me estivesse proibido o fazia to atrativo. Eu era consciente disso, mas era de verdade formoso, embora estivesse fraco, plido
e levasse o cabelo muito curto. parecia-se um pouco ao Daniel Day-Lewis, comentou tempo atrs Isabel.  obvio, eu no fiz a menor observao a respeito,
mas lembrana que pensei: Que mais quisesse Daniel!
     por que sigo to obcecada com ele? A que se deve esta autodestructiva necessidade de no tirar-me o da cabea? por que no posso me esquecer dele? por que
no pode ele esquecer-se de mim?
     O caso  que no posso evit-lo. Cada vez com maior claridade, precavo-me de que minha necessidade (no meu desejo, porque disso j estou ao cabo da rua)  mais
forte que minha discrio (no que minha conscincia, porque ainda no temos feito nada que possamos nos reprovar). Digo-me que nossos espordicos encontros so imprudentes
mas no imorais. No fazem mal a ningum, s a mim. E a ele.
     OH, Deus, isso  o que mais seduz, e o mais perigoso, a possibilidade de que ele sinta quo mesmo eu. E acredito que assim . No sabe dissimular (eu dissimulo muito
melhor) e, portanto, no oculta sua alegria quando estamos juntos nem sabe mostrar-se frio por telefone. Nossas conversaes so cada vez mais ntimas. Um dia
contei-lhe o da ltima vez que vi minha me e terminei por lhe falar de minha infncia; como foram as coisas quando meu pai partiu de casa, e quando morreu. Mick
sabe agora coisas de mim que at a data s sabia Rudy.
     Tambm eu sei coisas dele. Posso imaginar a poca em que ansiava destacar, ganhar medalhas esportivas e tirar sobressalentes a major glorifica de papai e mame;
dedicar sua adolescncia e os primeiros anos de sua juventude a que seus pais adotivos se sentissem orgulhosos dele e no lamentassem hav-lo adotado. Contou-me que
no s era a Sally a quem tinha decepcionado ao deixar a escrivaninha, mas tambm a seus pais. Em certo modo resultava ainda mais duro decepcion-los a eles, porque
aspiravam a muito mais para ele. Agora, em troca, brincavam a respeito dele com seus amigos, embora sem critic-lo, "tomando-lhe com filosofia". "O que lhe vamos fazer?",
imaginava que diriam. E isso di muito ao Mick.
     Temo-nos feito muitas confidncias sobre questes muito pessoais. Cultivamos uma intimidade parecida com a de uns companheiros de cela que se comunicassem dando
golpes nos encanamentos ou na parede com os copos metlicos. Compartilhamos secretos sem chegar a nos tocar.
     Jay se cansou de jogar e deveu repor foras sob a sombrinha de nosso acampamento. deixou-se cair em cima de minha toalha e a de sua me e pediu um refresco
da geladeira que levvamos. Bebeu-o ruidosamente sem deixar de olhar a seu pai e ao Henry, cujo jogo tinha subido muitos inteiros na escala varonil agora que
eram s eles dois.
     -Ol -saudou-me com um tmido sorriso.
     -Tudo bem?
     -dormiste muito, verdade?
     -Sim. Estava cansada.
     -Porqu?
     -Pois... porque tive pesadelos.
     -Ah... Eu tambm tenho pesadelos. Me acordado e vem meu papai. E s vezes mame. E em seguida me volto a dormir.
     -Eu tambm -pinjente, fazendo abstrao do de papai e mame, claro-. E que pesadelos tem?
     -Monstros. E voc?
     -s vezes sonho que chego tarde a algum stio mas sem saber aonde -pinjente. E era verdade, porque sonho freqentemente que me perco e chego tarde-. No sei onde est
a estao do trem, ou do nibus, e todos me indicam direes diferentes. E ento chega o nibus ou o trem, mas no sei aonde vai, no vejo bem que nmero
, e chego tarde, muito tarde e todo se repete uma e outra vez at que acordado.
     Jay me olhou e arrotou.
     -Perdoa -desculpou-se olhando a Sally, que se limitou a sorrir arqueando as sobrancelhas.
     eu adoraria poder dizer que  uma m me... Mas no, no  isso o que quero dizer,  s uma maneira de falar, um dito. No estou to tarada como
para lhe desejar uns maus pais a um menino indefeso. No  uma m me absolutamente. O minha  pura inveja.  mais, parece muito boa me, solcita, serena e
afetuosa. E entretanto, apalpava-se um sim, mas... Jay se comporta de modo distinto quando est com o Mick que quando est com sua me. Com ele se mostra risonho
e depravado, alegre e travesso, como um menino normal e equilibrado. Mas com sua me est muito srio, pendente de seu olhar. A partir das cinco e meia,
quando sua me chega a casa, deve converter-se em um menino formalito.
     A verdade  que no sei muito de meninos, porque lhes tenho pnico. Parecem-me muito independentes, de uma sinceridade que em um adulto resultaria imperdovel.
No sabem o que  a ironia e, portanto, nunca me riem as obrigado. Estou acostumado a procurar os ter longe, mas compreendero que aquele me fascinasse e por isso lhe estivesse
emprestando tanta ateno. Parecia-me um menino bem educado, inquieto, tmido e muito doce, mas receoso e muito observador para sua idade, como se se sentisse impulsionado
a tomar a temperatura ambiente, a medir a atmosfera emocional a seu redor.
     Por incrvel que parea Jay decidiu que lhe caio bem. Chegou a essa concluso ontem  noite no Brother'S. O notei com toda claridade. Vi a deciso refletida
em seu rosto, cndido e inocente.
     No sei como veio a conto, porque esqueci o contexto, mas eu me tinha embarcado em um discursito sobre as perversidades do antropocentrismo e da pasmosa
arrogncia dos humanos para os chamados animais inferiores (certamente me tinha tomado j um par de cervejas) e como exemplos mencionei designaes como
"co pastor", "galo de briga", "burro de carga", "touro de luta", "vaca leiteira", pobres animais cuja existncia os humanos tinham limitado e definido nomeando-os
exclusivamente de acordo a sua relao conosco.
     o de "vaca leiteira" fez- graa ao Jay, que se ps-se a rir a gargalhadas. No podia parar de rir com uma risada cantarina e encantadora, to contagiosa que
terminamos todos rendo.
     Henry e eu comeamos ento a ripiar com os nomes de animais mais cmicos que conhecamos.
     -... o pssaro caganido...
     -... o ltimo da ninhada que nasceu...
     -.... o mosquito cagachn...
     -Tachn, tachn...
     E volta a rir. O que divertido. Duvido que tenha tido jamais melhor pblico. Quando ao fim Jay se recuperou esteve sonrindome toda a noite.
     Pergunta: ser a pura vaidade a que me induz a diz-lo ou aquele era o menino mais simptico e inteligente que tinha conhecido?
     O dia me fez muito curto, possivelmente porque me tinha levantado muito tarde. Jantamos em casa, hambrgueres e salsichas  churrasqueira. Depois, L fez um  parte
comigo e me perguntou o que me passava.
     -me passar? Nada. por que me pergunta isso? -disse com fingida surpresa, mas aterrada. O teria notado? Sabia?
     -trata-se do Mick, no?
     -No -neguei horrorizada.
     -O que no entendo  por que te cai to mal...
     -No, no me... -balbuciei aliviada.
     -No tinha que te haver pedido que ficasse. Sinto muito, Emma.
     L tinha estado limpando os foges. sentou-se frente  mesa da cozinha, com um pano de cozinha em uma mo e um copo de gua na outra. Parecia cansada
e nervosa.
     -No, de verdade -insisti-. Me alegro de haver ficado. Estou-o passando estupendamente.
     -No te reprovo que me negue isso. Eu faria o mesmo. Porque para falar a verdade j no me sinto a gosto em companhia da Sally -disse lhe sussurre. Era uma precauo
desnecessria porque estvamos sozinhas na casa. Henry, Mick, Sally e Jay tinham ido passear  luz da lua pela praia. passou-se os dedos por seu curto cabelo
castanho e logo acrescentou-: Estou farta de que me conte coisas que no quero ouvir.
     -Coisas pessoais?
     -Sim. Quando comeamos a intimar lhe contei algumas costure minhas; minhas e do Henry. No era nada realmente muito ntimo -apressou-se a matizar-, nada parecido ao que
poderia lhes contar a vocs no grupo.
     -J.
     -Mas sim costure pessoais.
     -Estraguem.
     -E embora j no o fao, ela segue me contando as suas.
     -Como o que? -perguntei espectador, com um hilillo de perversa esperana.
     -Como que assistem a terapia de grupo, de matrimnios, h cinco anos, e levam seis casados.
     -minha me! -exclamei.
     Mick no me tinha insinuado nada semelhante. No cabia dvida de que era discreto. Em suas mesmas circunstncias a maioria dos homens o tivessem comentado,
no acreditam? De gaveta: "Como meu matrimnio  um desastre, joguemos um p."
     -Detesto ouvi-la falar de seu marido como o faz -disse L inclinando-se para mim-. Em troca ao Henry adora Mick, e tambm me cai bem. Sentimo-nos
mais inclinados a ser leais com ele que com ela.
     -E o que diz Sally dele?
     -Pois... que a decepcionou muito que tenha abandonado o trabalho, ter tido que descender de nvel de vida, que tudo tenha trocado tanto. Ela  de
Delaware e, pelo visto, sua famlia tem dinheiro. Inclusive me disse: "Se o chegar ou seja no pico." Embora logo ps-se a rir como se brincasse. Mas no brincava.
     -Est claro.
     -E me revolta. Eu me casei com um encanador, e nunca me envergonhei que o Henry, nunca.  parte dele e parte do que amo dele. -recostou-se no respaldo,
olhou-me se irritada e acrescentou-: E o que, se um bom dia decidisse deixar o encanamento e ficar a trabalhar em outra coisa? D igual; de garom, ponhamos por caso. Como
reagiria eu?
     -Isso. Como reagiria?
     -No me importaria.
     -No, claro que no. Porque Henry seguiria sendo o mesmo Henry.
     -E o amo.
     Pensei na Sally e na quem amava em realidade. Presumivelmente amava ao Mick o advogado. Dom Michael Draco era merecedor de seu amor, sobre tudo com seu terno
de cor cinza marengo e com suspensrios. Mas Mick o pintor arruinado, no. No contava com isso.
     Mido elemento a tal Sally. Dava lstima. Sua falta de sinceridade induzia a detest-la. Mas era uma boa me, como se Jay a fizesse superar todas seus
neuras.
     Pobre Mick. Inclusive eu compreendia que estava apanhado.
     Por volta das dez da noite Jay despertou gritando. No o ouvi em seguida porque estvamos os cinco acima com o televisor aceso, embora s Henry o olhava.
Transmitiam um partido de basquete. Mick se disps a ir, mas Sally o deteve.
     -J vou eu -disse. E saiu correndo do salo.
     L deixou a um lado a revista que estava lendo.
     -Tem pesadelos freqentemente, Mick?
     -Ultimamente sim, quase cada noite.
     Os gritos e o pranto do Jay cessaram quase imediatamente. Mick se tranqilizou e a tenso desapareceu de seu rosto.
     -A esta idade  normal que tenham o que chamam terrores noturnos -assegurou-lhe L-. Em realidade  mais corrente os ter que no os ter. No devem lhes preocupar
em excesso. De verdade.
     Mick lhe agradeceu o comentrio com um sorriso.
     -J sei que  normal, mas...
     -Afeta, claro.
     -vou jogar uma olhada -disse Mick levantando-se-. S para me assegurar -murmurou em tom de desculpa antes de desaparecer pela porta.
     Ao cabo de uns minutos retornou visivelmente aliviado.
     -ficou-se dormido. Est bem.
     -Bom... agora j esto tranqilos.
     -Sally me h dito que lhes d as boa noite. vai deitar se j.
     De modo que ficamos os quatro, a passar o resto da velada lendo e vendo a televiso. Henry tinha o sof para ele sozinho e uma lata de cerveja apoiada
no peito. de vez em quando murmurava coisas como "Que maneira de perder uma bola, imbecil! e "Tira j!, Que coo espera!". L estava sentada frente  mesa,
absorta na leitura do ltimo Vogue. Mick repartia sua ateno entre a partida e um livro, uma novela que tinha encontrado na livraria de L titulada Assassinato
na praia.
     E eu? Eu devia os ter impressionados, enfrascada na leitura do ltimo livro da Louise Erdrich, que comprei precisamente para impression-los. Embora
em realidade estava pendente do Mick, que me olhava de vez em quando.
     L bocejou e se estirou.
     -Bom, vou  cama. Vem, Henry?
     -Sim, em seguida irei.  um minuto.
     -boa noite -despediu-se L nos olhando ao Mick e a mim.
     -boa noite, L -correspondemos.
     O minuto do Henry se alargou at um quarto de hora, porque sua equipe no parava de fazer faltas pessoais e de pedir tempos mortos. Deveria ir deitar me
antes de que o ele faa, repetia-me eu. Porque do contrrio ficaramos Mick e eu a ss, e resultaria um tanto embaraoso. Mas lia uma e outra vez o mesmo
pargrafo do livro, sem me mover.
     Henry deu um salto no sof ao conseguir sua equipe uma cesta que lhe dava a vitria, dcimas de segundo antes de que finalizasse a partida.
     -Que partidazo! J se foi L  cama?
     Pomos-se a rir e lhe dissemos que sim.
     -Que tal manh? Touca madrugar ou no?
     -Temo-me que fui-dijo Mick-. Os pais da Sally devem jantar.
     Supus que viriam de Delaware. Os ricachones.
     -E voc Emma? Tem que estar em casa a alguma hora concreta?
     -No. D-me igual. Quando L e voc queiram.
     -Estupendo. Ento poderemos aproveitar a manh para ir  praia.
     Nunca conheci a ningum que goste mais do mar que ao Henry, nem sequer Isabel.  como um menino.
     -Sim, porque se no... -no pde evitar acrescentar- vai mais branca que um papel. Quantos minutos ter passado a pleno sol este fim de semana? Dez? Quinze?
Ja ja!
     -Ja, ja.
     Sem deixar de rir atirou a lata de cerveja ao cesto de papis.
     -Cesta! -exclamou. E se foi ao dormitrio.
     Tinha deixado o televisor aceso. Mick e eu nos olhamos e em seguida desviamos o olhar para a tela, em que apareciam um menino branco e outro negro,
em um anncio de material esportivo. Logo deram a repetio das melhores jogadas da partida. Seguimo-lo durante um momento. Depois, uma voz em off anunciou
que, se seguamos em sua sintonia, poderamos nos inteirar de todos os resultados das partidas havidas e por haver em todo o pas.
     Levantei-me.
     No sei por que estvamos to tensos. No era a primeira vez que estvamos a ss. Fomos amigos. Mas ao olhar ao Mick fraquejaram as pernas. Faltava-me a
respirao. Tinha a pele to sensvel que temia me fazer danifico se me tocava.
     Ele se levantou tambm. Bastou-me olh-lo para que todo se precipitasse. Honestamente, no sei de quem partiu a iniciativa, quem alargou primeiro a mo. At
o ltimo instante todo me pareceu inocente, um leve roce dos dedos ao d-las boa noite. Mas entrelaamos nossas mos e imediatamente nos abraamos com
fora.
     Soltamo-nos em seguida. Aferrei-me  imagem de seus largos ombros, do aroma de algodo de sua camiseta, como se me resignasse a que fosse quo nico poderia
ter dele. Disse algo que no entendi, to aturdida estava.
     -O que?
     Atirou de minha mo e me levou fora, ao alpendre.
     Havia muita luz, estvamos muito expostos. Descemos pelos degraus com sigilo. Eu ia descala e Mick em sapatilhas. Sob a casa, no sombrio espao
entre seu carro e um abrigo de ferramentas fechado com cadeado, detivemo-nos. Um ltimo instante de prudncia enquanto olhvamos aos olhos, sem nos tocar.
Podamos retroceder, nos limitar a falar.
     Beijamo-nos. Foi doloroso, no contente. Mas no pude me conter. Foi como beber gua de mar se estivesse morrendo de sede. Embora me matasse tinha que beberia.
Abracei a ele, cobri sua boca com a minha, pegando meu corpo ao dele, esfregando-o. Aproximou-me ao abrigo e choquei a cabea contra algo metlico, a caixa dos
fusveis, parece-me.
     -Ai.
     Mick foi separar as mos mas eu as retive, ansiosa.
     -me beije -disse-lhe, embora j me estava beijando.
     Repeti-o uma e outra vez como se de uma excitante obscenidade se tratasse, porque me fazia bem expressar a verdade para variar, dizer de uma vez o que desejava.
Ele no se expressava com tanta claridade; murmurava juramentos entre beijo e beijo, mas soaram a poesia amorosa. Acariciou-me o cabelo.
     -Precioso -disse.
     E meu corao ficou a cantar. Era a primeira vez que me fazia um completo. Significou muito para mim. Beijei-o ento com ternura, no como se estivesse enlouquecida
de amor, e comeamos os dois a tremer. Deslizou suas mos para cima, por minhas costas, por debaixo da blusa. Tocou-me.
     Estremecida e ofegante lhe fiz a fatal pergunta.
     -Mick, aonde poderamos ir?
     O resplendor da luz do alpendre se refletiu em seus olhos ao olhar em redor. Vi neles a mesma indiferena que eu sentia pelas conseqncias que pudesse
ter nossa transgresso. Tirou-me da mo. Fomos pelo atalho de cimento que enlaava com outro de erva que chegava at um pinar que separava Neap Tide
da casa de atrs. A partir de ali o atalho ia at o mar. Aonde me levava? Seguiramos por ali at chegar  gua e faramos o amor na fria areia
 luz da lua? Segui-o cegamente, irrefletida. Deleitava-me com a sensao de que atirasse de mim. Alegrava-me de que tivesse sido ele quem tomasse a iniciativa.
     Tropecei com um cardo.
     Mick me sujeitou do cotovelo ao ver que comeava a coxear e proferia um juramento. O sapato me tinha ficado apanhado na Espinosa mata.
     -Mierda! -exclamou ele. E nos deixamos cair na areia.
     No era aquela uma perfeita analogia de minha vida? Do imprevisto que obriga a improvisar, a trocar de plano? Fez-me estirar a perna e posou meu p em seu
regao. Tratou de faz-lo com cuidado, mas quando teve terminado de me tirar os pontas agudas foram duas pessoas distintas. Havamos tornado a nos encerrar em nosso
antigo eu. Em nosso eu reflexivo. Lamentei-o tanto que estive a ponto de me jogar a chorar.
     O vento agitava as emaranhadas algas e a erva da praia e nos trazia o forte aroma de mar. Havia tantas estrelas que sua luz parecia ocupar mais extenso
que o negro vazio do cu. A lua estava quase enche. Ficamos ali, agasalhados pelo regular murmrio das ondas, nos olhando. Mick olhou sua mo rodeada a
meu tornozelo, cada vez mais plida, e eu notei o peso de minha pantorrilha em sua coxa. Levava umas calas cinzas do vero e uma camiseta negra. A luz da lua
refletia-se em seu cabelo negro, muito curto, e eu me inclinei a toc-lo, transbordada por uma ternura lacerante e irresistvel. Lanamo-nos a falar com mesmo tempo.
Mas lhe indiquei que fosse ele quem comeasse.
     -Ao chegar aqui e me inteirar de que te tinha ficado -disse-me, eu me aproximei mais a ele-, disse-me que j no veria s seu rastro: um livro que tivesse lido e
deixado aqui, uma toalha mida...
     -Eu bisbilhotei em seu estojo do barbeado -pinjente-. S por ver o que levava; por tocar suas coisas. -Ps sua mo em minha bochecha, fechei os olhos e acrescentei-: No
tinha que haver ficado. OH, Mick. Compreendi-o nada mais verte.
     -Mas me alegro de que te tenha ficado.
     -Eu tambm, mas  uma insensatez.
     -Sei.
     -O que vamos fazer?
     -No sei.
     Alegrava-me de no ter tido que recorrer a minha fora de vontade. Essa tinha sido minha secreta esperana, que tomasse ele a iniciativa, todas as decises,
que me dissesse o que terei que fazer, que me obrigasse a faz-lo se eu opunha alguma resistncia, quase como um pai obrigando a fazer algo a uma filha.
     Sentia-me violenta.
     -No acredito que possa deixar a minha famlia, Emma. No posso deixar ao Jay.
     -J sei. E no lhe peo isso -disse com firmeza, embora atropeladamente.
     No queria que pensasse que eu procurava destroar seu matrimnio, mas sua firmeza me partiu o corao, sua falta de ambigidade. Eu no queria jogar, mas necessitava
algo, um hilillo de fingida esperana ao que me aferrar.
     Cobri com meu emano a que ele tinha estalagem em minha bochecha.
     -Tenho tantas coisas que te dizer...
     Inclinou a cabea aproximando-a mais para mim.
     -... e, de uma vez, no tenho nada que dizer, posto que no pode deix-la.
     Tragou saliva. Sua expresso era a viva imagem da dor.
     Tambm eu sofria.
     -Ainda segue fazendo o amor com ela? tiveste outras mulheres? No sei nada de ti. Como posso estar apaixonada por ti se nem sequer fomos nunca ao cinema!
S queria passear da mo contigo, te chamar por telefone...
     Era uma tortura. Ele guardou silncio. Nem sequer nesse momento se sentia capaz de me falar de seu matrimnio. Era incapaz de trair a Sally comigo. Haveria
sido o momento idneo para dizer: "Emma, sou muito desgraado; ela no me entende; nos amemos." Mas Mick no era o tpico homem casado insatisfeito que busca um
ligue. No sabia justificar-se enumerando os enguios de sua esposa. E, sobre tudo, no podia abandonar a seu filho, que j se preocupava com mame, e despertava por
a noite gritando, acossado pelos pesadelos.
     -Isto  tudo, no? Isto  tudo o que podemos ter, verdade? -pinjente lhe tocando os lbios, sua spera bochecha. Passei os dedos entre seus cabelos-. Quem lhe
cortou o cabelo to mal, carinho? -acrescentei quase afogada pela ternura, notando que me foram saltar as lgrimas.
     -Eu no queria que ocorresse isto -disse-. Nunca me arriscaria a te fazer danifico.
     -J sei. Mas  muito tarde.
     -Emma....
     Voltamos a nos beijar, com os olhos fechados, apertando as plpebras como para no ver que aquilo no tinha esperana; no fazamos a no ser pospor o inevitvel.
Mas, OH Deus, que bem me sentia entre seus braos. Parecia-me o mais honesto que tinha feito desde que nos conhecamos.
     Tnhamos que deix-lo. Apartamo-nos trementes e ofegantes, como adolescentes no assento traseiro de um carro em um autocine.
     -Deus... -pinjente.
     -OH, Emma.
     -Olhe... -pinjente-. Acabou-se. Deixemo-lo correr. Porque isto me est matando.
     Ajudou-me a me levantar. Parece absurdo, mas necessitava ajuda. Olhou por cima de minha cabea para o chal e instintivamente eu tambm olhei. No havia luzes
acesas na planta de acima; sua mulher no espreitava no alpendre em atitude receosa, com os braos em jarras, observando as dunas. Mas sua ansiedade era contagiosa.
Fez-me sentir mau.
     -Queira que eu volte primeiro?
     -No -respondeu me olhando com fixidez.
     -D-te conta de como teramos que estar sempre? Pode que nem sequer nos contribusse nenhuma satisfao. Temos que deixar de nos ver, Mick, por completo.
No me chame. No tente lombriga.
     Ele assentiu com a cabea. levou-se as mos  frente e as apertou.
     -L e Henry vo organizar uma festa dentro de pouco.
     -Se lhe convidarem, como  o lgico, no irei.
     -No; serei eu quem no v.
     -No, voc  amigo do Henry, e eu a L posso v-la em qualquer momento.
     Dava meia volta para ir para o chal, pisando com cuidado porque o atalho estava cheio de saras. Outra metfora de minha vida.
     No chegamos a ir at a praia; no chegamos a fazer o amor gloriosamente agasalhados pelo murmrio das ondas. Por culpa de um cardo nos tnhamos ficado
na areia e tnhamos tido que nos contentar com uns beijos furtivos.
     Nunca choro diante de outros. No sei se por orgulho ou por uma espcie de fobia. O caso  que no choro. Imaginem minha dor quando, ao chegar ao p dos
degraus do alpendre lateral, rompi a chorar sem poder me conter. Pude lhe haver dito adeus e correr sozinha escada acima. Assim no se teria dado conta. Mas ainda
no queria me separar dele.
     -Mierda! -murmurei ao me rodear ele com seus braos. E se algum aparecia? Henry a fumar um charuto; Jay, sonmbulo; L com a sbita e compulsiva idia de
varrer o alpendre-. No sabe como isto dio!
     -Eu tambm. E  minha culpa. Juro-te que nunca quis que acontecesse isto.
     -No  culpa de ningum. Alm disso, no temos feito nada.
     -Tenho-te feito sofrer.
     -Isso  verdade. Mas te perdo.
     Beijamo-nos, sorridentes. E ento o danifiquei tudo me jogando de novo a chorar.
     -Eu no sou assim -assegurei-lhe utilizando sua camiseta para me secar as lgrimas-. De verdade.  a primeira vez que me ocorre algo assim.
     Mick fingiu me acreditar. Secou-me as lgrimas das bochechas com os dedos e logo apertou sua cara  minha.
     -Sinto te haver feito mal, no que tenha acontecido isto. Menti-te desde o comeo.
     -Eu tambm a ti.
     -Pelo menos...
     -Sim. -Que pelo menos j tnhamos deixado de nos mentir, queria dizer. Era um magro consolo.
     -Te sentirei falta de -murmurou.
     -OH, no, por favor -pinjente, mas sem me apartar dele. Desejava apurar at o segundo ltimo, por mais doloroso e intil que fosse.
     Um ltimo beijo, muito suave. Sem paixo... s de despedida. Eu no gosto de notar que me destroa o corao.  muito romntico, mas corri como o cido.
     -Adeus. Levantarei-me tarde, Mick. No quero verte partir.
     Aquelas foram as ltimas palavras. Os faris de um carro enfocaram nosso beco sem sada da auto-estrada. Era um carro que ia de passagem, mas nos
sobressaltou. Separamo-nos. Dava meia volta e corri escada acima, passei nas pontas dos ps frente  porta do dormitrio da Sally, que estava fechada, e entrei em
minha habitao.
     Fechei a porta. Sentei-me na cama s escuras e aguardei at ouvir o Mick, que abriu e fechou a porta de seu dormitrio sem fazer rudo. Escutei como um animal
 espreita, como uma loba, mas no ouvi nada, nenhum murmrio de vozes. Nada.
     Tinha toda a noite por diante para me mortificar por minha decepo. Tivesse preferido que ela o surpreendesse, que o descobrisse, que o pilhasse in fraganti.
     Mick comete um engano. Deveria deix-la por mim. Eu poderia faz-lo feliz, e poderia adorar ao Jay. Em realidade, j acredito quer-lo.
     Mas.
     Mas o que amo do homem a quem amo  sua autenticidade. Tem-me feito p o muito condenado.
Captulo 20
Isabel
     Descobri o purgatrio, no o inferno, que  muito aborrecido. O purgatrio  um lugar tenuemente iluminado, enmoquetado, de paredes cor malva, onde
senhoreia um silncio de biblioteca que s rompe um televisor encostado no alto de uma parede e permanentemente sintonizado com a CNN. chama-se Departamento de
Visualizao de Diagnstico.
     Meu ritmo cardaco descende invariavelmente na sala de espera. Sinto-me em uma das poltronas de madeira de pinheiro, estofos com um fino tecido a quadros,
e noto flacidez nos msculos. Vejo-o tudo impreciso. Toda minha energia parece dissipar-se no apastelado cor malva das paredes, no artesonado, nas reprodues
de quadros do Renoir. Que algum se ocupe de mim, sinto o impulso de rogar. me tratem com considerao. No me faam mal.  uma claudicao, uma verso clnica
de Entre suas mos. A passividade em estado puro. A impotncia absoluta.  um alvio deixar-se ir, deixar de tentar ser quem governa minha vida, embora s seja por
este ratito.
     Hoje estou aqui para que me faam uma radiografia de trax. Antes passei dias e dias me submetendo a radiaes no quadril. No sei como o conseguiram,
mas me remendaram, por assim diz-lo. J apenas me di o quadril e no coxeio ao caminhar. Tendo isto em conta caberia deduzir que este lugar deveria me gostar de
mais. Mas no. Lembro-me de Graa: no consultrio veterinrio no lhe fazem mal, mas comea a tremer aterrorizada assim que cheira o estacionamento.
     Aqui ningum parece assustado, nem sequer os meninos. Estudo disimuladamente a meus companheiros de radiologia, procurando sintomas de desespero, pnico, desolao.
Mas nunca os encontro. Ningum solua em silncio; ningum se desmorona. Dou eu essa impresso? Poderiam estar perfeitamente aguardando seu agente de seguros, ou
ao dentista. Ponho essa mesma cara de pura aceitao, isenta de dramatismo?
     -Senhora Kurtz?
     Uma jovem de cabelo encaracolado me sorri da entrada de uma porta. Sigo-a por dois curtos corredores at o vesturio.
     -Que tal se encontra hoje? -pergunta-me enquanto caminhamos. Abre a cortina de um cubculo.
     -Dispa-se de cintura para acima e fique uma destas batas -indica-me-. Em seguida voltarei. De acordo? -Tirei-me o pulver, a blusa, o sustento com a
prtese e me pus uma bata azul de algodo. D-me a impresso de parecer uma hippie, com uma minissaia muito rodeada  cintura por cima das calas. A
luz do fluorescente d a meu rosto um tom espectral, e entretanto sinto um acesso de amor a mim mesma, uma dolorosa ternura. OH, pobre Isabel.
     Volta a ajudante de radiologia. Segundo a plaquita de identificao que tem presa no peitilho se apelida Willet. dentro da espaosa estadia de
raios X, comeo a me desabotoar a bata. Mas ela me diz que no  necessrio e me indica que me situe frente a um quadrado branco de madeira ou plstico, que parece
um tabuleiro de basquete. Diz-me que deixe pendurar os braos aos lados e desaparece.
     Ouo sua voz do outro lado da estadia. Est detrs de um biombo protetor.
     -Assim, imvel. Respire fundo. Contenha a respirao. Assim. E relaxe-se.
     Logo outra toma, de flanco, e depois outra de costas.
     -Bem. J est. Voltarei em um minuto.
     Nunca  um minuto. Sempre demoram mais; pelo general cinco e s vezes dez. foi a procurar a radiloga, que se assegurar de que tenha feito bem as tomadas.
s vezes tm que as repetir. Essa  a pior parte: esperar a que retorne a ajudante. E quando retorna nunca te diz nada. De modo que no tem sentido estar em tenso,
mas no posso evit-lo. Nestes momentos  quando o medo, o fatalismo e a autocompasin chegam a sua mxima expresso. Sempre me aproximo do revistero e escolho
People ou Woman's Day, o que seja. Fico de p de cara  parede, folheando a revista, lendo por cima receitas de pratos de frango, artigos sobre antioxidantes
milagrosos, anncios de moda...
     -Bom -diz a senhorita Willett ao retornar com as mos vazias-. J pode vestir-se.
     Miro escrutadoramente seu rosto. Era comiserao o que notava em sua voz? Sabe o que revelaram os raios X. Ter famoso a radiloga um lugar de
o filme meneando a cabea? No, no pode ser. Seu sorriso  muito acalmada. No posso ter uma metstase de pulmo. No poria essa cara.
     Equivoque-me ou no, o caso  que me sinto melhor a cada minuto que passa. Vestir-se no cubculo  exatamente o contrrio (emocional e mentalmente) de despir-se.
Ao descer no elevador  primeiro andar, sair  rua e respirar o ar limpo de eflvios medicinais, senti-me uma mulher nova. Na rua sou uma mais,
normal, no uma pessoa marcada por minha enfermidade, em nada me diferencio da gente que aviva o passo, corre, despreocupada e saudvel. Sou como eles. Poderia ser
imortal.
     Cruzei Pennsylvania Avenue e segui pela rua K, sem me apressar. De caminho ao hospital, no tinha reparado no tempo que fazia. De hav-lo feito, houvesse-me
contrariado. Porque fazia um dia perfeito, um desses dourados dias em que parece que o vero tenha terminado sem que tenha comeado o outono. O ar tinha um sabor
doce e o sol se refletia nas cansadas, envelhecidas mas ainda verdes folhas das rvores, como se um fotgrafo que queria as tirar favorecidas lhe houvesse
posto a sua lente um filtro de tul. Acabava de comear a hora ponta, mas os viandantes pareciam relaxados, no apressados, como seduzidos pela placidez da
tarde, como me ocorria .
     Mas me notei fatigada ao chegar ao Ferragut Square, muito cansada para esperar o nibus em Connecticut Avenue. Comprei um vasito de caf em uma banca
da rua (o nico vcio que fica  a cafena, j que pelo resto minha dieta  exclusivamente macrobitica) e me sentei em um banco do parque.
     Entreguei a um doentio jogo no que me agrado em estranhos momentos. Penso nas velhas enrugadas, nos meninos, os jovens, as garotas bonitas,
as mes com seus bebs, os adolescentes desanimados e os ancies e, ao v-los cruzar por diante de mim a passo vivo ou lento, penso: Voc te est morrendo, e
voc, e voc, e voc tambm. Todos lhes esto morrendo.
     No fazia isto para me consolar,  obvio. Possivelmente fosse uma maneira de me convencer da impensvel extraterritorialidade, de que ningum sai vivo daqui. Mas
a verdade  que ainda me custa trabalho acreditar na morte. Sim, em que pese a tudo, inclusive agora.
     Pode que no fundo no importe. Possivelmente baste estando viva e saber o. Neste irrepetvel instante, na imensido do tempo, eu, Isabel, tenho o privilgio
de existir. Tomando caf com um delicioso aditamento cremoso alheio a tudo leite. Sabe realmente bem. Os estorninos se posam nos carvalhos. O ar cheira a perfume,
logo a fumaa dos escapamentos dos carros, depois de novo a perfume. eu adoro o tato do desgastado banco em que estou sentada, tem uma suavidade de veludo,
alisado por milhares de traseiros. E aqui estou eu no mundo, neste mesmo instante. Nunca estive aqui antes. Nem voltarei a estar. Simplesmente existo. E  algo glorioso.
Uma honra e um privilgio, um prodgio assombroso.
     -Importa-lhe?
     Elevei a vista e vi um homem que, a poucos passados do banco, sorria-me abertamente. Fiquei perplexa at que fez um gesto para o espao vazio que
ficava a meu lado.
     -Sim... no. Claro.
     Apartei-me uns centmetros e aproximei mais a bolsa a meu quadril.
     aproximou-se com passos curtos, arrastando os ps e, trabalhosamente, sentou-se. Suspirou ofegante, aliviado; recostou-se no respaldo quase por etapas, como revestem
fazer os ces frente  entrada do alpendre. Vi com a extremidade do olho que tirava um leno do bolso da grosa jaqueta marrom de ponto que levava,
um objeto muito calorosa para uma tarde de setembro to temperada. soou-se educadamente. Sua mo, lvida, era muito ossuda. Inclinou a cabea e me sorriu de orelha
a orelha. Pareceu-me o sorriso mais franco que tinha visto nunca.
     -Bonito dia, verdade?
     -Precioso -assenti.
     -Eu no gosto da umidade.
     -A mim tampouco. Mas hoje no h nem pingo.
     -Bonito dia, sim senhor.
     -Esplndido.
     Inchou as bochechas como um sapo e dirigiu o olhar afvel de seus olhos plidos aos ramos que ficavam por cima de nossas cabeas. sujeitou-se um joelho
com ambas as mos e cruzou a perna sobre a outra, ofegante. Levava meias trs-quartos bege e umas sandlias pudas. Tinha os ps cheios de vultos, como se tivesse joanetes,
frieiras ou vete ou seja o que.
     -Onde comprou o caf? -perguntou-me.
     -Ao outro lado da rua -repus assinalando o lugar.
     -Hummm, cheira bem -disse sorridente.
     -Gosta? Se quiser lhe trago um.
     -OH, no, no. Muitssimas obrigado -recusou ensinando sua branca dentadura postia ao voltar a sorrir-. J no tomo. Afetava aos nervos. Mas eu adoro o
aroma. No me ocorre como com o tabaco. Tambm o deixei, e agora cheira a raios. Fuma voc?
     -No, nunca fumei.
     -Faz bem. Minha esposa tampouco fumava...
     Interrompeu-o um acesso de tosse e se tampou a boca com o leno. Era uma tosse rouca, mida, de ancio. Inclinou a cabea para cuspir discretamente no leno
e voltou a guardar-lhe no bolso. Logo colocou a mo dentro da jaqueta, presumivelmente no bolso da camisa, e tirou uma fotografia. Melhor dizendo:
dois.
     -Esta  minha esposa, Anna. Conhecemo-nos na Itlia durante a guerra. Era italiana.
     Queria que agarrasse as fotografias, no s que as olhasse. Eram duas verses da Anna. Na primeira estava magra e bonita; na segunda rolia e tambm
bonita, com um misterioso sorriso em ambas. Misteriosa para mim.  difcil interpretar o sorriso de uma estranha.
     -Perdi-a em 1979 -disse inchando e desinchando as bochechas.
     -Como morreu?
     Era uma pergunta muito pessoal que no tinha que lhe haver feito.
     -Morreu de cncer de matriz.
     -Sinto muito. Tem filhos?
     -Tivemos uma menina -reps ele meneando a cabea-, mas morreu quando ainda era um beb. E j no pudemos ter mais.
     -Sinto muito -pinjente. Custou-me trabalho no lhe dar um toquecito afetuoso no brao. A expresso de meu pesar era excessiva. referia-se a um pouco ocorrido fazia tanto
tempo que minha condolncia deveu soar desproporcionada.
     Estendeu os dedos nos joelhos de suas calas marrons, que brilhavam de puro desgastados.
     -Obrigado -disse com grande dignidade-. Est casada?
     -No -respondi, embora sem saber por que acrescentei que tinha um filho.
     -E ele est casado?
     -No, mas vive com uma garota.
     chamava-se Susan. Terry me tinha falado dela, mas eu no a conhecia. Era professora de uma escola primria. Quando perdi ao Terry?, perguntei-me ento.
foi estudar a Montreal e j no voltou. Durante muito tempo me empenhei em que s era uma escapada, mas, claro, depois de tantos anos seria absurdo seguir acreditando-o
assim. Terry fugiu de ns, de seu pai e de mim. No o reprovo, entre outras coisas porque no acredito nas eternas lamentaes. Mas ter fracassado com ele me
parece a maior tragdia de minha vida.
     - o que fazem hoje em dia -disse o ancio-. J ningum lhe d importncia.
     -Sim, juntaro chamvamos ns -pinjente.
     -Exato. Juntar-se -repetiu ele rendo alegremente-. Bom... Meu nome  Sheldom Herman. No lhe dou a mo porque estou resfriado.
     -Eu me chamo Isabel.
     -Encantado de conhec-la. Olhe... -Tirou outra foto do bolso e acrescentou-: Esta  Moxie.
     Era uma cadela cruzada de orelhas quedas, com mescla de pastor alemo. Os olhos tinham sado vermelhos a causa do flash da cmara.
     -Este  o melhor amigo do homem -disse Sheldom Herman com voz rouca-. Bom... a melhor amiga. Muito carinhoso. Fez-me muita companhia quando perdi a minha esposa.
Morreu em 1988, aos treze anos.
     -V...
     -Enterrei-a no jardim. Inclusive lhe fiz um pequeno funeral. Pu-lhe flores e lhe deixei ao lado sua bola de tnis, entre as patas.
     -Estraguem.
     -Logo tive que me mudar. J sabe o que ocorre quando se faz um velho, obrigam-lhe a te mudar. De modo que agora vivo em uma residncia para ancies. Poderia
ser pior.
     Inclinou para mim seu corpo, deformado e frgil. Tinha na cara manchitas brancas e uns cabelos nas bochechas, brancos e hirsutos. Era difcil saber como haveria
sido sua tez: branca, escura ou ctrica.
     -O que mais senti falta de foi me ocupar de algum -disse-. Na residncia todos temos habitaes independentes. Todos somos homens -disse ao me dirigir
seu franco sorriso-.  voc uma garota assustadia, Isabel?
     -Como?
     -Que se lhe do medo as aranhas, os insetos...
     -No -disse quedamente-. No sou assustadia nesse sentido. por que, senhor Herman?
     -Bom, pois ento... no ponha-se a correr -disse baixando a vista e colocando a mo no bolso inferior da jaqueta, que avultava mais que outros.
     Enrijeci-me um pouco, no alarmada mas sim um pouco em guarda. E tirou algo (no pude v-lo at que abriu a mo, venosa e cheia de manchas marrons). Era um camundongo.
     -Encontrei-o em uma das armadilhas que pem na cozinha. Note-se, tem as patas esmagadas. Coxeia. Poderia lhe fazer uma demonstrao mas ao melhor se deprime
voc. Chamei-o Castanho. Agora  meu mascote.
     -Uma macacada -pinjente. E era verdade. Tinha ojillos vivazes, as patinhas rosadas e uma pelagem torrada. Posado em sua mo, olhava nervosamente em redor movendo
os bigodes.
     -Dou-lhe de comer queijo, po e qualquer cosilla. Inclusive alface. No sei se souberem que o tenho, mas ningum me h dito nada. Quer acarici-lo?
     Seus cansados olhos refletiram um brilho malicioso, desafiante.
     Passei um dedo pelo sedoso lombo do ratoncito.
     -Claro. Faz-lhe companhia -pinjente.
     -Sim. Sempre ter que ter algo; o que seja, algo vivo. No pode ser um objeto. Tem que ser algo que respire, com isso basta.
     Sempre o acreditei assim. Sobre tudo agora. Suponho que em parte porque me fao velho.
     -Suponho.
     -Minha esposa era o que mais queria neste mundo, mais que a minha prpria vida. Mas, ao pens-lo agora, acredito que nem sequer isso bastava. Eu gostaria de poder voltar
a t-la a meu lado para faz-lo melhor. E acredito que o faria.
     Elevou a mo com o ratoncito e o beijou na cabea com seus finos lbios. Logo voltou a coloc-lo no bolso com delicadeza, como uma me que deitasse
a seu beb.
     Suspirou e voltou a elevar a cabea para os ramos da rvore.
     -Bonito dia -disse-. Quase nos acaba j o vero, n? Duvido que tenhamos j muitos dias como este.
     -No -convim-. No muitos mais.
     Ao cabo de uns minutos, vi chegar meu nibus pela rua K. Me despedi do senhor Herman, que ficou no banco sorriem dome enquanto o sol lhe declinem
projetava sombras em sua encurvada figura.
     Ao chegar a casa, no entrei imediatamente. Rodeei o edifcio at a parte de atrs para lhe jogar uma olhada a meu jardim. Em realidade  o jardim do Kirby, que
foi quem fez o trabalho duro de cavar e lavrar a passada primavera, quando eu estava to mal por causa de minhas primeiras sesses de quimioterapia. Semeou muitas coisas
e durante aquele vero foi ele quem regou regularmente, porque eu chegava tarde a casa, muito esgotada para fazer outra coisa que no fosse me deitar. Sem o Kirby,
no me tivesse ocupado do jardim aquele ano, embora seja com muito o melhor de minha casa. A senhora Skazafava, minha caseira, estava acostumado a cultivar todo o terreno do imvel ela
sozinha, um terreno bastante grande. Mas agora  muito velha e faz uns anos dividiu o terreno em quatro parcelas para uso dos inquilinos. Surpreendentemente,
no todas as parcelas se alugam em que pese a que na casa h doze inquilinos. Eu tenho uma h trs anos, o tempo que levo aqui. eu adoro o jardim. 
mais, entusiasma-me.
     Kirby encontrou um cilindro de madeira no beco a passada primavera e o levou a jardim para utiliz-lo como assento. E ali me sentei, porque comeavam
a me doer as pernas. A maioria dos inquilinos cultivam hortalias e verdura, mas eu prefiro flores. Nesta poca do ano tm mais folhas que floes, mas
as jarillas azuis e brancas ainda resistiam e tambm as aster, a nicotiana, minha transplantada boltonia, e as robustas che lone obliqua com suas rosadas cabeas
de tartaruga. Avanava o crepsculo. Vi uma abelha que zumbia mas em seguida levantou vo e se afastou a casa. Os pssaros saram a dar uma ltima vueltecita
antes de que obscurecesse. Ao outro lado do beco minha vizinha Helen apareceu a cabea pela porta traseira e cantarolou as alegres slabas com que as mes revistam
chamar a seus filhos.
     Ouvi passos e ao me girar vi que Kirby se aproximava pelo atalho de cimento que separa as parcelas. Levava sua indumentria do vero habitual: calas cqui,
camiseta a jogo e sandlias sem meias trs-quartos. As sandlias me recordaram ao senhor Herman e seus ps deformados. Notei um tnue acesso de melancolia.
     Kirby se deteve meu lado com as mos nos bolsos.
     -Ol -dissemos ao unssono, sorridentes. Mas me olhou com cara de preocupao.
     -J  quase tempo de plantar crisntemos -pinjente-. Note em que bem est a anmona e a cimicifuga. Plantou-as no stio perfeito.
     ficou em cuclillas a meu lado, apoiando os antebraos em seus ossudos joelhos e entrelaou as mos.
     -Que tal foi?
     Por um momento no soube a que se referia.
     -As radiografias? Ah, pois bem. foi bem.
     -Ho-lhe dito algo?
     -No. Mas  normal. Nunca lhe dizem isso. Chama-te o mdico se houver alguma novidade.
     -J -disse franzindo o cenho.
      encantado comigo. Sei que se preocupa comigo, mas no o expressa muito com palavras a no ser com atitudes. E  um desses homens, to escassos, que no se
sente obrigado a opinar sobre tudo; ou, ainda pior, a dar receitas para tudo.
     Olhou em redor da parcela. Seu esbelto pescoo nu parecia o de um moo. Senti o impulso de tocar-lhe de tocar o suave cabelo de sua nuca. Alarguei
a mo. O inclinou a cabea e meus dedos escorregaram por sua bochecha. Mas em lugar de me retirar lhe acariciei a cara.
     -Isabel... -disse surpreso.
     -Possivelmente mora -pinjente-. Mas existe uma possibilidade de que saia desta, embora remota. Sabe, verdade?
     -Sim.
     -De verdade  consciente disso?
     - obvio.
     Aproximou minha mo a seus lbios. Eu fui retirar a mas ele a reteve. No nos havamos meio doido assim da noite que me beijou sob a luz.
     Acariciei-lhe os mas do rosto com os dedos. As pestanas ocultavam seu olhar.
     -Estou doente, Kirby; e calva. Meu corpo no  o da verdadeira Isabel. No sei se foste querer... mas se...
     -Mas se...
     -Se assim fosse...
     Estava paralisada pelo mais estpido acanhamento, por um apreensivo temor a verbalizar o que acabava de me precaver que mais desejava.
     ergueu-se sem soltar minha mo e me ajudou a me levantar.
     -No troquei. Absolutamente. S estava esperando -disse me olhando agradecido. Posou suas mos em meus ombros e me atraiu para si.
     Sentia-me to bem que quase no podia acredit-lo.
     -Mas s se me quiser de verdade -balbuciei com os lbios pegos a sua camiseta-. No por piedade. No me minta, por favor.
     -O que ocorreu? -perguntou-me me abraando com mais fora.
     -Nada...
     -No est pior?
     -Que no!
     -Jura-me isso?
     -Estou bem. No ocorreu nada. De verdade.
     Pelo menos no tinha ocorrido nada que eu pudesse lhe explicar ainda. Uma mudana em meu corao. Tinha que ver com o temor s lamentaes por no ter feito
coisas que queria fazer; e com o intento de eliminar tantas como pudesse enquanto pudesse. Compreendi que dava igual onde e quando surgisse o amor, nem qual fosse
sua aparncia. No quero terminar meus dias desejando ter feito as coisas melhor, de maneira diferente, mais plena. Isto  o que tenho. Minha vida. Aqui e agora.
     -Pois ento... -disse Kirby-, deixa de dizer tolices. E entremos.
     Sonhei que estava encerrada em um armrio alto e negro. Apalpava com as mos, com a gema dos dedos na fresta pela que entrava um pouco de luz e gritava
"Socorro, auxlio, me tirem daqui!", at que a luz se extinguia, e ficava ali encerrada na escurido mais absoluta. Queria gritar mas no me saa a
voz.
     Despertei com o rosto alagado em lgrimas.
     Kirby dormia de flanco, de costas a mim. No se moveu quando passei minha mo entre o colcho e a clida pele de sua cintura.
     J tinha sonhado aquilo outras vezes. Sabia o que significava. Mas o sonhava to freqentemente que j no me deixava geada at o amanhecer como ao princpio. Me
concentrei no ritmo da respirao do Kirby, sossegada como o batimento do corao de seu corao, e me adormeci.
     Ao despertar no senti como outras vezes uma vaga ansiedade que de repente se convertia em frio e intenso pnico, gelava-me o corao e me sufocava. O cncer
tornou a apoderar-se de meu corpo, e esta vez me matar. Aguardei mas, para variar, o ato de me levantar no foi um suplcio.
     Ao inclinar a cabea vi o aquilino perfil do Kirby  branca luz do alvorada. No sei se pensava ou dormia. Possivelmente dormisse, mas suas severas faces no estavam
relaxadas e no o ouvia respirar. Pensei no Gary mas tratei de no fazer comparaes.
     Fazer o amor pela primeira vez com algum sempre cohbe. Suponho-o, porque at ontem  noite s tinha tido esta experincia em outra ocasio. Fazer o amor
pela primeira vez com uma mulher calva e com um s peito devia fazer algo mais que coibir. Para mim, depois do Gary, a novidade de me deitar com um homem, com
um tipazo como o do Kirby, bastava para afogar a paixo e me encher de dvidas e insegurana. E s vezes prever o desastre o precipita como uma profecia.
     Kirby salvou aos dois. No me adoto o mrito. Porque estive a ponto de danific-lo tudo. Quando nos despimos e nos metemos em minha cama, fiquei ali
admirando a fortaleza de seu corpo, e pensei no Gary, e em se Kirby pensaria em sua esposa; e temi que s sentisse compaixo agora que me tinha, compaixo e pesar.
Mas seu tato transmitia ternura. Outra novidade para mim.
     No lhe custou me seduzir.
     -No pense -disse-me me penetrando com fora e me beijando apaixonadamente.
     No pensar? Era mais fcil diz-lo que faz-lo. Entretanto, consegui-o. Fez-me esquecer minha estupidez, o anmalo ou, como possivelmente alguns poderiam pensar, o esperpntico
de nosso acoplamento. Por um momento incluso esqueci o pior, o profundo temor que nunca me abandona. Deixar-se ir assim no  mais que um ensaio, disse-me, danificando-o.
Uma doentia fantasia. Surpreendeu-me pens-lo assim.
     Mas a larga noite no fazia mais que comear. antes de ficar dormidos, abraados, Kirby tinha conseguido me curar de meu derrotismo, pelo menos durante
um momento.  um homem de muitas e muito variadas habilidades.
     No acredito que o sexo, o ato de fazer o amor, transforme s pessoas. Emma no estaria de acordo, mas o fato  que no sou romntica. Entretanto, hei
de reconhecer que me senti outra pela manh. Estava quieta na cama, deitada e de repente reparei no que me tinha abandonado.
     O temor.
     A luz incolor do amanhecer se filtrava pelos borde da cortina. Bastava-me para estudar as raias de minha mo. Segundo esta, que quase rodeia a base do
polegar, viverei uns cento e dez anos. No tomo estas coisas  ligeira, mas me digo que deve dar igual. As revelaes de ontem continuam. Ao final, no
Plano de Tudo  irrelevante que eu viva cinqenta anos mais ou s cinco. Ou dois. O importante  viv-los, no especular sobre quantos sero. E agora estou viva.
Posso desfrutar de minhas flores, acariciar  cadela, comer torradas com canela. Seria uma estpida se deixasse que minha mortalidade, que existiu sempre, desde meu
primeiro Alanito ao nascer, danificasse meu amor por estas coisas. De modo que no o vou permitir. Terei que me recordar de contnuo, e a partir de agora mesmo, que me proponho
viver at que mora.
     Despertei ao Kirby com a inteno de dizer-lhe limpou-se imediatamente e me dirigiu um deslumbrante sorriso.
     -Obrigado -disse em lugar de lhe contar meu epifana.
     -Porqu?
     -Pelo presente que me tem feito.
     -Presente?
     Notei que pensava que me referia ao sexo. Resulta um tanto refrescante que, de vez em quando, Kirby se comporte como um homem tpico.
     -Equivoca-te -disse, passando-a lngua pelos dentes. Seu peludo antebrao contrastava com a imaculada cor rosa da manta-. No te dei de presente nada,
Isabel. Tomei-o. Para mim.
     -Olhe que  cruel! -brinquei.
     -O que no quero  que tergiverse as coisas -replicou franzindo os lbios-. No faa que me sinta como uma pessoa generosa e desprendida -acrescentou muito srio.
     Tomou minha cara entre suas mos e acariciou com os polegares o cabelo de minhas tmporas. Kirby  muito romntico. E tudo o que faz eu gosto.
     Que afortunada sou, compreendi de repente. Cobri de beijos seu rosto surpreso. Isto  um princpio, recordei-me. No mais espera, s viver daqui em diante.
     -Volta a te aproveitar de mim -convidei-o.
     Foi um formoso princpio.
Captulo 21
L
     Estava dormitada quando Henry respondeu ao telefone no vestbulo. Ouvi-o dizer "Ol, Emma" com voz alegre e logo subir correndo as escadas.
     -Sim, est ainda na cama. Bom, ainda lhe di um pouco. Sim. Um par de dias, dizem. Ontem. No, tudo foi bem.
     deteve-se na entrada do dormitrio.
     -Espera, no te retire. vou ver -disse tampando o microfone com a mo-. Est acordada? Quer falar com a Emma?
     -Que foi tudo bem? -pinjente olhando-o com frieza.
     ficou srio.
     -Aqui a tenho -disse olhando ao telefone-. J lhe contar isso ela.
     Passou-me o telefone e tampei o microfone.
     -por que lhe h dito que tudo foi bem?
     -Referi-me a que no houve problemas -teve o valor de dizer com fingida exasperao.
     -Alegra-te, verdade? por que no o reconhece?
     -Como?
     -Porque assim... j no  tua culpa.
     -Olhe, L, est... -disse respirando fundo, como se tivesse que dominar-se- est... como uma cabra -murmurou antes de sair do dormitrio.
     Soei-me com um leno de papel e pinjente ol ao telefone.
     -Que tal foi? Como est?
     OH, no me fale disso, senti o impulso de lhe dizer.  Quem se acreditava que era?, minha enfermeira?
     -Estou bem, s cansada.
     -De verdade? No te di?
     -J no.
     -Que lhe fizeram?
     -Um HSG, um histerosalpingograma, e logo me fizeram uma laparoscopia.
     -Caray! Dormiram?
     -Para a laparoscopia sim. Mas para o HSG no.
     -Di?
     -Sim.
     -OH, L. Estava Henry contigo?
     -Tinha trabalho. foi recolher me depois e me trouxe para casa.
     Pausa. Emma acabou captando a frieza de meu tom.
     -houve ms notcias? -perguntou hesitante-. O que lhe ho dito?
     -Voc te tem feito um ligamento de trombas, verdade que no? Pois eu tampouco. Mas as tenho obturadas, bloqueadas ou algo assim. Divertido, n? pensei que lhe
faria graa. Salpingitis isthmica nodosa.
     -E isso o que significa?
     -Significa bloqueio de trombas. Significa que cositas como os espermatozides no podem passar.
     -OH, no. OH, L. E no tem soluo?
     -s vezes. Mas em meu caso no. Porque tenho uma disfuno bipolar, ou seja, bloqueio de trombas por ambos os extremos, no s em um.
     -Mierda.
     -Sim.
     -Mas algo podero fazer, digo eu. Hoje em dia...
     -O nico recurso  a fecundao in vitro.
     -Ou seja, como em um tubo de ensaio.
     -Tomam um vulo do ovrio, fertilizam-no com esperma em laboratrio, forma-se um embrio e ento o implantam no tero.
     -J. E funciona?
     -Possivelmente. H mais probabilidades se utilizarem esperma de doador.
     -Doador... Quer dizer no o do Henry.
     -Exato.
     -E estariam...?
     -Nestes momentos no me importaria nada.
     -Estraguem. E Henry tambm est de acordo?
     J estava farta de lhe responder perguntas.
     -Parece-me que  uma pergunta muito pessoal -pinjente.
     -Bom, mulher, perdoa. Possivelmente no devi pergunt-lo, mas como sempre havemos... Enfim,  igual. Perdoa.
     -Vale.
     -Ou seja que a prxima tentativa ser... in vitro. Bom, estou segura de que funcionar. Possivelmente deveram comear por a, mas, claro, a touro passado se acerta
seguro.
     Aguardei.
     -Bom... parece cansada. Deixo-te. O contarei ao Rudy. Provavelmente te chamar.
     -De acordo.
     -Quer acreditar que j comeou esse curso de paisagismo? No me posso acreditar isso. Estava segura de que Curtis o ia impedir ou, simplesmente, de que ela
no o faria por no contrari-lo, que se acovardaria. Parece-me fantstico. Nossa Rudy tensa os msculos.
     -Sim,  fantstico.
     -falaste com a Isabel?
     -Ontem  noite. S um momento.
     -E como estava?
     -Bem. Sentiu o que lhe contei das trombas.
     -De verdade te pareceu que est bem?
     -Estava muito melosa. Bom, tenho que pendurar j.
     -L? Perdoa, carinho. J sei que isto  duro, mas...
     -No, no sabe. No tem nem idia... S desejo que nunca te ocorra nada parecido, Emma, porque ento no te parecer uma coisa to corriqueira.
     -No hei dito que me parea corriqueiro! O que te passa? A que vem isso?
     -Tenho que pendurar.
     -Bom, mulher, pois pendura...
     -De acordo.
     -OH, L...
     Pendurei. Tinha-lhe repetido duas ou trs vezes que ia pendurar, ou seja que no era "lhe pendurar o telefone".
     Levantei-me e me vesti.
     Henry estava removendo algo que tinha em uma panela em um fogo da cozinha. girou-se para me ouvir.
     -Ah, j te levantaste... -disse, surpreso embora no especialmente agradado-. Crie que deve te levantar j? Ho dito que...
     -Um ou dois dias, e j aconteceu um dia. Encontro-me bem. Irei a casa da Isabel.
     -A casa da Isabel? Mas se estou fazendo o jantar; so as sete.
     -J sei que horas so. No tenho apetite. E menos ainda de comer nada com o Chile.
     S sabe cozinhar com o Chile. No tem dois dedos de frente. No lhes parece que a qualquer lhe ocorreria que um molho picante no  precisamente o mais adequado
para uma pessoa que convalesce de uma operao?
     No sei. Possivelmente se devesse a que j me incomodava tudo dele; sua camisa de flanela, a colher de madeira que gotejava molho no cho; o novo corte de cabelo que
dava-lhe pinta de nenm. Por isso discutimos a semana passada.
     " muito major para levar o cabelo comprido", disse-lhe.
     E ento foi cortar se o sem me consultar. No gostou de nada meu comentrio.
     "Agora parece o Prncipe Valente. Se for te cortar o cabelo, pelo menos que lhe cortem isso bem, de uma maneira normal, para variar."
     Estivemos dois dias sem nos falar.
     -Bom, parto-me -despedi-me.
     -A que hora voltar?
     Pu-me a jaqueta com cuidado porque se o fizer bruscamente noto um puxo no abdmen.
     -No sei.
     -Chama antes de sair -disse voltando a remover o Chile.
     -Porqu?
     -Pois para sab-lo.
     -Saber o que?
     -Que j saste -disse girando-se com expresso crispada.
     -E que mais d? Que mais d que te chame ou no antes de sair, se logo me atracam pela rua ou no carro?
     -Pois no me chame -disse dando um golpe na panela com a colher-. No me chame -acrescentou. Saiu da cozinha e foi ao salo.
     Doa-me o estmago. Segui-o furiosa.
     -Alegra-te, verdade?
     -Mierda! -exclamou estampando o mando a distancia no carrinho.
     -J no  culpa de seus preciosos espermatozides.  minha culpa.
     -Acredito que te est transtornando.
     -Disso nada. No irs negar me que no fundo te alegra.
     -Olhe, L, aqui somos dois.
     -Sim, e voc  o que se alegra. Assim no tem que carregar voc sozinho com a culpa.
     -A culpa? -exclamou, seguido de um juramento que sabe que detesto-. por que tem que ser culpa de ningum? Ocorre o que ocorre e ponto. No ter que procurar culpados.
     -J, isso  o que voc adoraria.
     Se mes o cabelo, exasperado.
     -O que significa isso?
     -No significa nada -pinjente. A verdade  que no tinha nem idia. E rompi a chorar.
     Ele no se moveu; no se aproximou de me consolar. Ficamos cada um em um lado do salo nos olhando.
     -Vou a casa da Isabel -repeti-lhe.
     E me parti.
     Saiu Kirby a abrir. Levava um guardanapo na mo e teve que tragar para me saudar.
     -Entra -disse-me.
     -OH, no. Esto jantando. Sinto muito. Pensava que estariam...
     -L? -chamou Isabel. Kirby abriu mais a porta e a vi na cantoneira da cozinha-. Entra. Estamos terminando.
     -Entra -secundou Kirby. Inclusive Graa se aproximou de me saudar.
     Entrei.
     O apartamento parecia uma capela, uma igreja. Em todas as mesas, em todas as estanteras da livraria havia um vaso com flores, dlias, petunias, asters.
Soava msica clssica procedente do estreo, e cheirava a algo extico, a uma mescla de incenso e algo que me pareceu gengibre. Comida a China? Os ltimos raios de
sol se filtravam por uma vidraa da janela do salo que tinha um anjo gravado. No havia mais luz que aquela e a das velas, quase tantas como vasos.
     -O que acontece? -perguntei bobamente. Kirby tratava de me ajudar a me tirar a jaqueta-. O que ocorre?
     -Pois nada, mulher. No o v? Acabando de jantar.
     apoiou-se no bordo da mesa para jogar a cadeira para trs e se levantou. Alargou a mo para trs para alcanar-se algo, apalpando at que o encontrou.
Um fortificao com punho de cobre.
     -Parece-me que interrompi. No te levante. Tm um jantar ntimo, posso...
     -No, no.
     Isabel me aproximou com lentido mas andando com normalidade. Ao lhe dar a luz que entrava pela vidraa vi que estava muito plida. Seu terso ctis estava gasta.
Tinha os olhos anormalmente saltados e os mas do rosto mais marcados. Devia ser a causa do novo frmaco, que fazia que voltasse a sentir-se mau. O mdico tinha interrompido
a antiga medicao e lhe estava administrando Taxol. Sorriu-me tratando de me tranqilizar. Kirby seguia ali. Pus-se a chorar.
     Notei duas mos reconfortantes em meus ombros. Ao elevar a vista vi que Isabel enviava uma mensagem ao Kirby com os olhos.
     -Bom, parece-me que eu... -disse. E foi para o dormitrio balbuciando algo ininteligvel.
     -OH, no -protestei-. V? Afugentei-o...
     -Chist. Chist. Vive aqui; s vai a seu dormitrio. No o afugentaste. jantaste?
     -Vive aqui?
     -Bom, virtualmente -reps Isabel. Tirou-me de bracete e, apoiada no fortificao, fez-me segui-la at a cantoneira-. Sente-se. Note quanta comida sobrou.
     -No tenho apetite. Por Deus, Isabel, o que  isto?
     -Isto? Sopa de miso, tofu e arroz integral. Quer suco de ameixa?
     -No, obrigado.
     -Estamos provando receitas de um novo livro de cozinha. Arrumado a que no sabe que os guisados macrobiticos ter que remov-los em sentido contrrio ao das
agulhas do relgio no hemisfrio norte e  inversa no hemisfrio sul.
     -Ah sim?
     -Estou impaciente por contar-lhe a Emma. Sentamo-nos aqui ou prefere que vamos ao salo?
     -Melhor no salo.
     E quando nos tivemos acomodado no sof, Isabel com um copo de suco de ameixa na mo e eu com Graa sonrindome a meus ps, j me tinha refeito. J
no soluava nem chorava.
     -Sinto muito -pinjente me soando-. s vezes basta com to pouco... Tinha que ter chamado antes, mas...
     -Que no importa, mulher.
     -sa fugindo, como quem diz. De mim mesma tanto como da casa. Emma me chamou esta noite e lhe pendurei o telefone.
     -Que lhe penduraste?
     -Sim, foi uma idiotice. Chamarei-a amanh para me desculpar. No foi culpa dela a no ser minha. Estou fora de mim. E Henry, OH Deus, discutimos por tudo, por qualquer
tolice, Isabel. -Interrompi-me assinalando as flores e perguntei-: Sempre esto assim?  precioso!
     de repente me assaltou a pergunta. Como podia morrer Isabel? Tinha aquele carpete que tanto gostava, as almofadas, aquelas preciosas litografias de flores
na parede. Ver todas suas coisas, seus pertences, encolheu-me o corao; me desejaram muito provas de que no podia nos deixar, de que tinha que ficar. Do contrrio,
seria muito cruel.
     -Sim -reps Isabel sorridente-. Adornamo-lo.  idia do Kirby. Diz que  um entorno curativo. Mas me conte, como foi a operao?
     -Horrvel. Tem-te que jogar sob um enorme aparelho de raios X com os ps apoiados em um estribo. Introduzem-lhe um cateter at o tero. Administraram-me
Advil e me disseram que no me doeria, mas foi muito doloroso. Inclusive tive espasmos.
     -OH, Meu deus, L -exclamou me apertando a mo condolida.
     -Introduzem uma substncia colorida pelo cateter. Se no haver obstruo, chega at o final das trombas do Fallopio, mas se esto bloqueadas no. E no
chegou. De modo que ento decidiram que deviam me praticar uma laparoscopia para ver no que estado estavam as trombas.
     -E?
     -Fatal. No h nada a fazer, no podem operar. Da nica maneira que posso ter um filho  mediante fecundao in vitro, e as probabilidades de que funcione,
a minha idade, so de doze por cento, embora se recorra ao esperma de um doador. Alm disso, cada tentativa custa uma fortuna.
     -Quanto?
     -Uns onze mil dlares -pinjente. Isabel ficou boquiaberta-. Henry no quer nem ouvir falar do assunto. E quase no nos dirigimos a palavra.
     Isabel meneou a cabea.
     -E o que crie que acabaro fazendo?
     -Pois recorrer  fecundao in vitro.
     -Mas  muitssimo dinheiro.
     -E que mais d? Se casse gravemente doente...
     -Se casse gravemente doente o que?
     Estava visto que aquela noite cada vez que abria a boca colocava a pata.
     -Refiro-me a que se precisasse me operar para salvar a vida, no lhe importaria gastar tanto dinheiro.
     -No, claro.
     -Bom, pois deve ser o mesmo.
     -At esse ponto?
     -Para mim sim.
     Isabel se levou um punho aos lbios, pensativa. Dirigiu-me seu tenro olhar uns momentos e eu me inclinei para a cadela e a acariciei.
     -E a adoo, L?
     -No, j lhe comentei isso.
     -J sei, mas...
     -Est descartado.
     -J.
     -A fecundao in vitro, pode funcionar, Isabel -pinjente olhando-a com visvel entusiasmo-. Doze por cento no  muito, mas cada tentativa representa um
doze por cento, de modo que as probabilidades aumentam. Assim o vejo eu. E estou esperanada, de verdade. O que sinto  no ter comeado antes; porque nos houvssemos
economizado muito tempo.
     -L...
     -O que?
     Sorriu-me e reparei em que me lia o pensamento.
     -No vou aconselhar te -assegurou-me-, no tema.
     -No me importa que me aconselhem -disse em tom contrito.
     -Mas me doeria muito verte sofrer outra vez. Isso  tudo.
     -J sei. Sei, e tem razo... Porque me vejo vir: outra vez respirando a esperana; cada vez, cada ms -pinjente me levando as mos s plpebras-.
Horroriza-me tanto pensar que no funcione... Mas logo me digo que funcionar, que se produzir o milagre. Logo penso que no, e me aterro. Estou to farta, que
eu gostaria de me conceder uma pausa.
     -E por que no o faz?
     -No fica muito tempo; deixei acontecer muitos anos. Isso  o que mais me di, ou uma das coisas que mais. Sempre controlei minha vida, passo a passo,
e agora resulta que o passo mais importante no posso control-lo; estou entupida, imobilizada; e j no posso suportar tanta incerteza.
     Isabel suspirou. incorporou-se lentamente e remeteu uma almofada at os rins. Sua fragilidade me preocupava, mas era o Taxol, estava segura. Em muitos aspectos
a quimioterapia  pior que a enfermidade que pretende curar.
     -No vou te dar nenhum conselho, L; s vou fazer te uma pergunta para que a medite -disse-me cansativamente-. De acordo?
     - obvio, faa-me isso pinjente voltando a acariciar a Graa.
     -Considera que ter um filho  o mais importante de sua vida? Mais que Henry?
     Me fez um n na garganta e no pude responder.
     -te pergunte se a necessidade de ter um filho gentica e biologicamente prprio  mais importante que qualquer outra necessidade de sua vida, matrimnio includo
-disse-me-. J sei que quer ao Henry, sem dvida. Mas se sua resposta  que sim, poderia perd-lo. por que te casou com ele? -perguntou-me em tom amvel-. No 
que esteja bem nem mau querer ter um filho totalmente prprio e no de outro. Mas poderia perder ao Henry... Chora?
     -No posso evit-lo.
     aproximou-se mais a mim e me rodeou com o brao.
     -J sei. Mas boa parte de seu sofrimento se deve a tentar evit-lo.  a tirania de ansiar coisas. Pobre L, deseja-o tanto que claro...
     -O que  isso? Budismo?
     -Pois sim -reps me abraando-. Perdoa.
     -No me importa. Eu no sou Emma -pinjente rendo e me soando de uma vez-. Mas estou segura de no estar obcecada.
     Isabel arqueou as sobrancelhas.
     -De verdade. O que estou  consumida. Sei que o fato de que no tenhamos filhos me consome; e no  justo para o Henry. Sem dvida teremos tido outros problemas
anteriormente, mas nem sequer as lembrana. Diz que o culpo de tudo o que no funciona entre ns, de tudo o que no funciona em minha vida, e,  obvio,
de que no tenhamos filhos. E  verdade. Sou consciente de que o estou afastando de mim.
     Isabel se recostou em mim ao ver que eu voltava a chorar. O que ao fim fez que deixasse de derramar lgrimas foi compreender quanto ansiava descansar a cabea
em seu regao e deixar que me abraasse. E quase o fiz. Minha nica desculpa  que no acredito me haver sentido mais baixa de moral em toda minha vida, e que Isabel sempre havia
estado a meu lado, to tenra e solcita como uma me.
     Mas agora era distinto. Ela terminaria por recuperar a sade, estava segura. Mas, no momento, seus problemas faziam que, em comparao, meus resultassem
embaraosamente nimios.
     Ergui-me.
     -J me encontro muito melhor -pinjente-. Obrigado por me escutar. Vamos  cozinha. Esfregarei os pratos enquanto me conta como vai voc.
     Protestou, mas no fiz conta.
     -Isto  novo, verdade? -perguntei ao nos levantar.
     -Isto? Trouxe-me isso Kirby -disse sorridente, passando os dedos pelo punho do fortificao. Era de cobre e tinha forma de... cavalo?-.  um drago, o smbolo
da esperana.
     -Estraguem.
     Significava isso que, em realidade, no precisava levar fortificao?
     Que o levava para que lhe desse sorte e no para andar? Temi perguntar-lhe      -Eh? -insist.
     No chegou a me dizer como ia o tratamento. S me disse que o novo medicamento no tinha tantos efeitos secundrios como os anteriores, e me surpreendeu.
Porque no tinha bom aspecto. Estava bonita, como sempre, mas piorada.
     -S estou cansada -assegurou-me enquanto jogava miolos do suporte  pia com uma esponja-. Acredito que poderia dormir uma semana de um puxo.
     -E as classes?
     -Bem -reps detrs titubear um momento.
     -De verdade? Segue o ritmo do curso?
     Acabou de limpar o suporte com a esponja e no respondeu.
     -N? -insisti.
     No sabe mentir. Pode evitar responder, mas mentir no sabe.
     -tive que estacionar alguns. Era muito. Retomarei-os o vero que vem.
     -Mas segue com o resto, no?
     -Claro -afirmou-. E trabalho muito. Eu gosto muito o deste curso. Reparto algumas disciplinas que me entusiasmam. Por certo que manh tenho que entregar um trabalho
corrigido: "Sociedade e envelhecimento."
     -Ah sim? E o terminaste?
     -Quase, ainda me falta...
     -E por que no me h isso dito?  o cmulo, Isabel!
     -por que? No seja tola! -exclamou me seguindo at o salo, rendo-. O que vais fazer? Pr-se a correr?
     -Primeiro afugento ao Kirby sem deix-lo acabar de jantar e agora... Onde est meu jaqueto? Onde me ps isso?
     -No tem por que partir, L.
     -Tenho-te meia hora te contando meus problemas, e no me diz nem meia.
     -Algo sim te hei dito.
     -O nico positivo que tenho feito  te esfregar os pratos.
     -No v, L; s me faltam as notas.
     Dava-lhe um beijo e a notei to frgil que temi abra-la muito forte.
     -me desculpe com o Kirby.
     Ps cara de circunstncias.
     -Chamarei-te amanh. Obrigado por tudo, de verdade.
     -Tome cuidado com o carro.
     -Adeus.
     -boa noite, L.
     J estava frente ao elevador e tinha pulsado o boto quando de repente recordei uma coisa e voltei correndo ao apartamento da Isabel.
     -Ol, quanto tempo sem nos ver!, n? -brinquei ao me abrir-. Posso fazer uma coisa?
     -Claro -disse apartando-se da porta para me deixar entrar-. O que?
     -Chamar o Henry para lhe dizer que saio para l.
Captulo 22
Rudy
     O consultrio do Eric est na Carolina Avenue, no Captol Hill, no plano do Eastern Market. Posso ir a p de casa e usualmente o fao, mas aquele
dia fui de carro. Ia com o tempo justo, como de costume. Encontrei estacionamento, embora no sei se se podia estacionar ali. Corri sob uma fria chuva sem sequer
me deter abrir o guarda-chuva. O edifcio  dos antigos, de tijolo vermelho, habilitado para escritrios, e o despacho do Eric est no ltimo piso. Entrei correndo
sem me parar na sala de espera a me tirar o casaco, que jorrava.
     -Perdoa, perdoa... No sabe como est o trfico! No encontrava estacionamento, alm de que j ia tarde. Posso deixar isto aqui?
     Eric me disse que sim e deixei o casaco em cima do radiador.
     -Bom, o caso  que cheguei.
     Deixei-me cair na poltrona negra idntica ao dele, frente a frente. junto a minha poltrona havia uma mesita com uma caixa de kleenex sempre enche.
     -Tudo bem?
     -Estupendamente. E voc?
     Sempre diz o mesmo, com uma escrutinadora sorriso que significa que est de verdade bem mas que prefere falar do paciente em lugar de si mesmo. Uma grande
virtude em um psiclogo.  assombroso o pouco que sei do Eric em que pese a que o vejo uma vez por semana (emergncias  parte) h sete anos. Tem quarenta e seis
anos e vive com uma mulher um pouco maior que ele. Isso  tudo o que sei. Ultimamente esteve preocupado por sua casa. Deixou-o deslizar faz um par de semanas, e me
fascinou. Exageradamente. Foi como se ao fim tivesse descoberto o paradeiro de meu verdadeiro pai ou algo assim; como se tivesse descoberto algo importante que no
esperava descobrir ou que tinha desistido de descobrir.
     -Eu tambm estou estupendamente -pinjente-; quantas vezes te digo o mesmo!, verdade? Venho de casa da Emma, e foi muito triste. Mas, pelo resto, estou estupendamente.
     Eric meneou a cabea com expresso inquisitiva.
     -Algo que se foi  gua?
     -Suponho.
     -O que lhe acontece esta vez?
     -Pois essa foi outra das razes de que tenha chegado tarde. Porque... mais ou menos, justificou-se como fazia muito tempo que no o fazia; pelo menos
comigo.
     Eric ps cara de que prosseguisse.
     -Recorda que te contei que se apaixonou por um homem casado? -perguntei-lhe. A verdade  que isso foi tudo o que lhe disse, porque no arejo os segredos
da Emma, salvo... enfim, uma vez lhe falei com o Curtis, embora s lhe comentei que a Emma gostava de Mick, sem entrar em detalhes. E at isso o contei porque estava
um pouco achispada-. Bom..., pois ficou em nada, e eu acreditava que Emma o tinha superado, embora, bem pensado, devi que estar cega e surda.
     -Porque no o superou, no?
     -O que vai. Est-o acontecendo fatal. No v a ningum e isso  algo muito estranho nela. Emma sempre anda com algum. E no escreve. No faz mais que encerrar-se em casa.
Comentei-lhe que estava passando o duelo e me h dito que claro, que j sabe. E o que sente saudades  que se aberto tanto comigo a respeito. Parece-me
que  uma espcie de ttica que espera lhe levante o nimo para seguir com sua vida normalmente. Mas est pelos chos e essa nunca foi sua maneira de confrontar
seus problemas com os homens, absolutamente. Diz que os homens so como ces e que quando a gente morre tem que ir em seguida a comprar um cachorrinho.
     -J.
     -Quando vinha para aqui no carro pensava que a atitude da Emma (ficar em casa a lamberas feridas)  muito mais sensato que o que estava acostumado a fazer eu quando
estava deprimida.
     -Possivelmente porque suas depresses no so como as tuas.
     -J sei, mas... -pinjente. Porque era bvio: as meu som crnicas, as da Emma so agudas; as meu som de psiquiatra, as seu som... o que sei eu. Mas o que
disse-me Eric me animou. E assim o disse.
     -E bem?
     -Porque... porque no deixo de me flagelar cada vez que me equivoco e cometo tolices. Mas todos partimos de circunstncias distintas, e se tivermos em conta
as circunstncias das que parti eu...
     -O que? Adiante, diga-o.
     -De acordo -pinjente-, porque no estou to mal.
     -Muito bem, Rudy -disse com um radiante sorriso-. Isso est muito bem.
     Pareceu-me to contente que acrescentei outra coisa para arredond-lo.
     -A que no sabe a quem lhe puseram um notvel em paisagismo e jardinagem em um parcial?
     -Srio?
     -Tnhamos que desenhar um jardim de cidade, um canteiro com todo detalhe: atalhos, arriates a distinto nvel, pracinhas. Inclusive desenhei uma fonte para o meu.
O caso  que... notvel!
     -Magnfico!
     -Mas me custou o meu. A verdade  que todas as disciplinas me fazem difceis. Mas eu adoro e estou muito contente de faz-lo. Obrigado, Eric.
     -por que?
     -Por me ajudar a me decidir -esclareci-lhe. Como vi que ia atalhar me para protestar, prossegui-. Claro que me ajudaste! E tambm Emma, me cravando. Isabel tambm,
embora de outra maneira. Nunca me disse nada, mas me deu a entender que podia faz-lo; no que devesse faz-lo mas sim podia faz-lo. Tinha confiana em mim. E no quis
decepcion-la, embora acredite que nunca se sente decepcionada por nada do que fao nem sotaque de fazer, mas queria que se alegrasse por mim, que estivesse contente.
     Eric assentiu com expresso pormenorizada.
     -E que tal est ela?
     -Pois... No  fcil de saber. Evita a questo. Sempre diz que est melhor, mas no tem bom aspecto. Tenho entendido que com a quimioterapia ganha
peso, mas ela est emagrecendo. Acredito que inclusive se medica com esteroides, mas cada vez est mais magra. E  alarmante. Diz que se deve a sua nova dieta, mas
no sei..., no o vejo claro. Pode que Kirby saiba a verdade, mas ns no.
     -E isso se preocupa?
     -O que?
     -Que conte ao Kirby o que no vos conta?
     -No, a mim no. A Emma provavelmente sim. E a L,  obvio, mas  lgico porque sua amizade com a Isabel  mais ntima que conosco.
     Eric arqueou as sobrancelhas.
     -Em certo modo. No em todos os aspectos.  um pouco complicado de explicar. Enfim...
     Eric tem um relgio de parede, em que fica justo detrs de sua poltrona. Tem-no ali para que seus pacientes o vejam e dosem seu tempo. E me serve, como
tantas outras vezes, porque reparei em que j tinha consumido a metade do tempo de minha sesso e ainda no lhe havia dito o mais importante.
     -Enfim. Ver, o que vim a te dizer em realidade  que vou enfrentar me ao Curtis e a lhe obrigar a falar de nossa relao -pinjente me jogando a rir e
dando uma palmada ao ver sua expresso-. J sei. Assombroso, verdade? Nem eu me acredito. De onde terei tirado tantos arrestos e sentido comum? Sero as pastilhas?
     -Que pastilhas?
     -O novo antidepressivo; so as nicas que tomo.
     -Isso espero. Por um momento pensei que tomava outras coisas...
     -A fora do costume -brinquei.
     Pomos-se a rir.
     -Bom, Rudy... Isto  muito interessante -disse-me-. E o que pensa lhe dizer? Quer que faamos o rol? Eu no papel do Curtis?
     -Hummm. No, possivelmente no.
     Nunca o hei dito, mas quando utilizamos a tcnica do rol e Eric tenta representar o papel do Curtis, morro de risada.
     -Comearei por lhe dizer que o amo, ou seja, a verdade. Enfim, basicamente. Mas que acredito que entre ns h algumas costure no muito positivas, e que quereria
que as enfocssemos de outra maneira para super-lo.
     Eric aguardou a que prosseguisse.
     -Que uma dessas coisas  ter que necessitar tanto sua aprovao; que me controle com sua aprovao ou desaprovao; com sua atitude possessiva; e eu permitindo-lhe      Me interrump para que ambos asimilsemos la ltima palabra: insistir.
e inclusive me agradando nela.
     Eric se acariciou o queixo. Parecia perplexo.
     -Direi-lhe que no acredito positivo ter que decidi-lo tudo em comum, como se de uma relao simbitica se tratasse -pinjente, porque segundo Emma  uma expresso mais
precisa que "codependiente"-. Y...
     -E?
     -vou propor lhe que atiramos a terapia, com quem ele queira, o que provavelmente significar que no contigo.
     -Estraguem.
     -eu gostaria que fosse contigo, mas Curtem no querer. A verdade  que no querer que vamos a nenhum, mas penso insistir.
     Interrompi-me para que ambos assimilssemos a ltima palavra: insistir.
     -Bom, o que te parece?
     -Porque me alegro muito -disse, e eu me oprimi os joelhos, muito contente-.  um passo excelente, magnfico.
     -Sim. E estou muito esperanada. foi muito pormenorizado ao me deixar estudar paisagismo, mais exatamente, ao no me proibir isso nem me pr pegas. Embora saiba que no
gosta, certamente. Parece-me temente que me desmorone e me d de beber. OH, Deus, Eric, no estarei cometendo um engano?
     -Rudy...
     -J sei. Mas e se piorar as coisas? E se lhe digo tudo isto e resulta que...?
     -O que? O que  quo pior pode ocorrer? Que se zangue contigo?
     -No, a isso j estou acostumada.
     -Ento o que?
     -Que deixe de me querer? -disse em tom medroso-. Seria isso o pior?
     -Voc saber.
     -Isso  justamente o que no sei! OH, Deus-. Passei-me a mo pela cara, ergui-me na poltrona e acrescentei-: Mas penso faz-lo. Farei-o de todas maneiras. Pode
que esta mesma noite -assegurei-lhe. Um ligeiro acesso de temor me estremeceu, embora em lugar de debilitar minha firmeza a fortaleceu-. O vou fazer -acrescentei me dirigindo
tanto a ele como a mim mesma.
     -Bem -disse Eric-. Acredito que tomaste a deciso acertada. me chame amanh se quiser. Refletirei sobre o que me h dito.
     Pensei lhe preparar a Curtem seu jantar favorito, mas nos tnhamos ficado sem carne de vitela. De modo que lhe fiz umas chuletas de cordeiro  pimenta. Gosta
quase tanto como a vitela. Sentia-me como a me de Papai sim que sabe, cevando ao patriarca antes de lhe pedir comprar mveis novos para o salo. Suponho que
estas argcias me menosprezam, mas cada uma faz o que pode. Que lhe preparar a Curtem umas chuletas de cordeiro me deixe em mau lugar no vai tirar me o sonho.
     No sei se foi o jantar, mas enquanto jantvamos esteve de bastante bom humor. Pouco falador, mas isso  habitual nele. Jantamos na cozinha (gosta de ver a
televiso sem o som enquanto come, e no me importa; j me acostumei).
     Ardia em desejos de lhe dizer a nota que me tinham posto no parcial mas me calei isso. A ttica que utilizo para lhe fazer digerir minha nova vida de estudante
consiste em falar disso o menos possvel. Sempre estou em casa quando ele retorna; nunca estudo diante dele e nunca falo de minhas classes, de meus professores,
de minhas notas nem de meus companheiros de curso. E, sobre tudo, nunca aludo ao que possa resultar de meus estudos, a que classe de trava jo possa aspirar quando tiver
o ttulo.
     No  fcil viver em dois mundos completamente separados. Mas at a data funciona e, j se sabe, se algo for bem de uma maneira, melhor no troc-la.
     depois de jantar, Curtis foi ao salo com sua maleta. Bom sinal. ficaria ali a trabalhar enquanto eu esfregava os pratos. Algumas noites trabalha acima
em seu escritrio, e ento est em seu territrio e no ter que incomod-lo. Ficar a trabalhar no salo significa que est acessvel; que ainda segue em meu mundo.
     Estive a ponto de me servir outra taa de vinho. Era tentador, mas no. Era normal estar nervosa em um momento como aquele. Sentiria-me melhor com a cabea limpa
e sem que me travasse a lngua.
     Servi-lhe caf em uma taa especial, uma que fiz faz anos como parte de um jogo de caf. Tinha utilizado um verde celidonia para o polido, para que harmonizasse
com a obscenidade e delicadeza das peas. A verdade  que comeava a dar-se me muito bem a cermica quando o deixei. Ainda conservo minhas melhores peas no salo,
em uma pequena vitrine que me anima tanto como me entristece quando a Miro. Porque por um lado me recorda que tenho capacidade; e por outro que no persevero em nada.
     Possivelmente voltasse a cultivar a cermica qualquer dia, disse-me ao lhe servir a Curtem o caf na preciosa tacita. Possivelmente se soubesse o que significava para mim,
porque eu o houvesse dito, no lhe teria importado que assistisse a aulas pelas tardes nem se queixasse de que meu volto de oleiro e toda a parafernlia lhe tirassem
sitio a sua equipe de ginstica no poro. Pode que a conversao que estvamos a ponto de ter significasse o princpio de muitas coisas novas.
     - descafeinado? -perguntou Curtis sem olhar a taa.
     -Claro -repus me sentando a seu lado.
     -Que tal te foi o dia? -perguntou sonrindome e bebendo um sorvo.
     -Bem. Ver, Curtis...
     -O que acontece?
     Respirei fundo.
     -Temos que falar.
     -Quando algum diz isso... mau -brincou-. Adiante.
     -De ns.
     Inclinou o corpo para deixar a taa no platito e logo me olhou muito srio e com frieza.
     -Como pode ver, estou um pouco ocupado nestes momentos.
     -J sei. Mas isto  importante.
     -E isto tambm -replicou assinalando a maleta.
     -Olhe, Curtis -pinjente me levantando e indo sentar me na poltrona do outro lado da chamin (distncia igual a objetividade). Mas j tinha esquecido o que
tinha pensado lhe dizer. Comevamos mau.
     -Em primeiro lugar te direi algo que j sabe: que te quero. Isso  o mais importante, que nos queremos. Mas temos algumas costumes, alguns comportamentos
e atitudes que no sempre funcionam.
     Agora foi ele quem se levantou. tirou-se a jaqueta. Com sua estatura e to arrumado estava impressionante; com colete, em mangas de camisa e com o n
de sua gravata de lunares afrouxado. Mas se esfregou a frente com ambas as mos de um modo estranho, como se estivesse cansado ou lhe doesse a cabea.
     -Rudy... por favor...
     -O que?
     -No me encontro muito bem.
     -No? Pois faz dois segundos estava perfeitamente.
     Temi que lhe dizer isso o enfurecesse. Mas no disse nada. aproximou-se uns passos  chamin e apoiou os braos cruzados no suporte, sem me olhar.
     Voltei a comear.
     - s que acredito que devemos falar a respeito de nossa relao. Acredito que  algo que todo matrimnio, que tudo casal, deve fazer. Porque a rotina induz
a que terminemos por no reparar no que fazemos; e passam anos sem que nos precavamos disso. -Fechei os olhos e respirei fundo como aconselham fazer em certos momentos,
antes de prosseguir-. No sei... Eu gostaria, queria que trocassem algumas costure. Ou pelo menos fal-lo, Curtis. Est-me escutando?
     -Olhe, Rudy, agora no -reps, em um estranho tom.
     -O que te passa?
     -Nada.
     -De verdade te encontra mau?
     -No  nada;  s que...
     Levantei-me e me aproximei dele. Agora ou nunca, disse-me.
     -pensei que deveramos ir ao psiclogo juntos. Pode-nos vir muito bem -pinjente de um puxo-. Para nos justificar. Estou convencida de que ser positivo para
os dois.
     Toquei-lhe as costas. Deixava-a quente, mida.
     -Curtis?
     Tratei de lhe ver a cara, mas ele me fugia. Ao fim consegui ver-se-a no espelho da chamin.
     -O que te passa?
     Assustei-me ao ver que lhe dobravam os joelhos e, embora se rehzo em seguida, rodeei-lhe a cintura com os braos.
     -Estou bem -disse erguendo-se e soltando-se-. Estou bem -repetiu. Mas foi at o sof, sentou-se lentamente e apagou o abajur da mesita.
     Sentei a seu lado e tratei de posar minha mo na sua.  O que significava aquilo? Seguia sem me deixar olh-lo  cara.
     Vi uma lgrima em sua bochecha antes de que ele pudesse ocult-la com a mo. Me encolheu o corao.
     -O que acontece? -murmurei aterrada-. O que ocorre?
     -No lhe quero dizer isso reps com a voz entrecortada, como se lhe doesse a garganta-. Prefiro que no saiba.
     -To mau ?
     Assentiu com a cabea.
     -No me diga isso -pinjente me tampando os ouvidos com as mos. Estremeci-me, tremente como uma folha agitada pela brisa.
     O no se moveu. Estava sentado com os ombros cansados, plido e assustado.
     -Bom... me diga o que seja.
     -Acredito que vou morrer.
     Pus-se a rir.
     -Sei desde tera-feira.
     -Vamos! Mas o que diz! No me assuste.
     Olhou aos olhos, com fixidez.
     -Curtem! -gritei.
     abraou-se para mim e se estremeceu tremente, sem deixar de me abraar.
     -Na verificao lhe comentei ao doutor Slater que estava cansado, nada mais; que s vezes me sentia um pouco enjoado, que me doa um pouco o estmago.
     -No... no... No siga, por favor. No pode ser... -pinjente. Comeavam-me a tocar castanholas os dentes.
     -No me preocupei. Gripe. Pensei que podia ser gripe. Tanto  assim estive a ponto de no comentar-lhe Mas me mandou fazer anlise e resultou que tinha muitos
leuccitos. Rudy, tenho leucemia.
     -No! No pode ser! Onde lhe tm feito a anlise? No pode ser verdade.
     -Pois o  -assegurou-me com os olhos alagados em lgrimas-. Meu mdico  um bom mdico e o laboratrio  dos melhores.
     -Onde lhe tm feito isso?
     -No Georgetown.
     -OH, Meu deus...
     -No chore.... Sinto muito. Por isso no lhe queria dizer isso Com o que est passando pelo da Isabel, no queria acrescentar isto.
     Atravs do vu de suas lgrimas vi a tenso e a ansiedade de sua expresso. Estava preocupado por mim. Tinha querido velar por mim. Eu tinha os punhos crispados,
posados em seus ombros, incapaz de associar o que acabava de me dizer com a aparente fortaleza de seu corpo.
     -Ainda no tenho outros sintomas -disse-me sem deixar de me olhar nem de me abraar-. E isso  boa coisa, porque indica que acaso a enfermidade avance lentamente.
Poderia viver muitos anos sem sequer necessitar tratamento. Ou no. No esto seguros.  muito difcil de saber em meu caso.
     -No, no, no...
     Estreitou-me com mais fora e me acariciou as costas, me dizendo que me acalmasse. Mas no era para acalmar-se. Me veio o mundo em cima. Logo que podia dar
crdito ao que me dizia. Seu fio de voz soava longnquo.
     -No podemos dizer-lhe a ningum ainda, Rudy. Se soubessem no trabalho poderia ficar sem emprego. No nos podemos permitir isso at que no seja inevitvel.
     -No dizer-lhe a ningum? -exclamei tratando de assimil-lo. No dizer-lhe a ningum?-. Isso  absurdo, no?
     -Sei. Mas assim so as coisas. Alm disso, seria incapaz de fazer nada se outros soubessem, salvo voc. No podemos diz-lo a ningum; nem a sua famlia nem 
minha; nem a seus amigas nem ao Greenburg.
     -Mas...
     -me prometa que no o dir.
     -Mas...
     -Por favor, Rudy... No compreende que nem sequer me tenho feito ainda  idia? No teria podido dizer-lhe a ningum mais que a ti me Prometa isso  importante para
mim.
     -De acordo.
     OH, Deus. Deus!
     Voltou a me abraar.
     -Lutaremos juntos, carinho. Seremos fortes.
     -Sim.
     -Ns contra o mundo, Rudy, como sempre.
     No o entendi. como sempre? Como quando nos apaixonamos? Quando estvamos no Durham e no nos importava nada alheio , como se no existisse ningum mais.
Certamente, aquela foi nossa melhor poca. Tinha tentado muitas vezes ressuscitar tanta unio entre ns. Era um sarcasmo que fssemos conseguir o agora.
     Quis fazer o amor. Tivesse querido morrer. Deixei-o fazer tudo o que quis; e quis faz-lo ali mesmo, diante da chamin, que estava apagada, semivestidos
(s vezes gosta assim, porque deve pensar que  mais voluptuoso). Eu no sentia nada mais que frio e temor, como se me penetrasse um fantasma. Nada era real. Curtis
no podia estar convocando-se. O que  a leucemia? Como arbusto? No, no podia ser real, pensei enquanto ele me penetrava sem lhe importar minha passividade, aceitando-a sem mais.
     Logo ficamos no spero tapete e quis me convencer de que era um pesadelo, de que logo despertaria e diria: "sonhei que foste morrer te,
Curtis. foi horrvel. Que pesadelo!"
     Dava-me a volta e o olhei. Tinha os olhos fechados e expresso aprazvel, a boca relaxada. Pareceu-me trocado, menos consistente. Onde estava sua solidez?
Sua pele, suas unhas, o plo de seus antebraos, tudo me pareceu vulnervel, efmero e brando. Mas me sorria ligeiramente, piscando. Disse-me que eu tinha contribudo
a que sorrisse. Esse seria meu trabalho em adiante. No pensaria em nada mais.
     Fomos juntos acima. Enquanto ele tomava banho, pensei em chamar a Emma. E estive a ponto de faz-lo, com o telefone j na mo. Valia minha promessa? Como podia
deixar de dizer-lhe Como no dizer-lhe a Emma!
     Mas voltei a deixar o telefone e no chamei a ningum.  difcil explicar por que. Em certo modo, ao longo de nosso matrimnio, tinha trado ao Curtis.
Porque Curtis  um homem reservado, muito reservado, e mais de uma vez revelei secretos seus a aqueles a quem quero.
     Mas agora no o ia fazer.  algo que ocorre a ele, no a mim. Se mant-lo em segredo o faz mais fcil de suportar, como no vou guardar o segredo?
     -Sairemos desta -disse-me na cama me apertando a mo sob o lenol-. No sabe quanto me lhe aliviou dizer isso Estes ltimos dias foram os piores
de minha vida.
     -Carinho... -acertei a dizer.
     -Possivelmente no teria que lhe haver isso dito. Possivelmente tenha sido egosta.
     -OH, no.
     -Mas no pude evit-lo. Comeava a ir-se me a cabea. Inclusive temia me deprimir. De modo que no tive mais remedeio que lhe dizer isso Embora o fato de que
enjoe-me no  preocupe-se. Ho-me dito que pode me acontecer de vez em quando; que tenha suores de noite, febre...
     Aproximei a cara a seu ombro.
     -Rudy...
     -Sim.
     -Quero que saiba uma coisa -disse apagando o abajur da mesita de noite-. Perguntei-lhe se podia dever-se a ser fumante passivo; e me ho dito que no,
que provavelmente no.
     -O que quer dizer?
     -Como no podia entender que me acontecesse isto , tratei que pensar em algum antecedente familiar. Mas no o h. No h predisposio gentica. De modo
que...
     -Por ser fumante passivo?
     -Era o nico que me ocorria. Mas me ho dito que as probabilidades eram muito escassas; quase nulas, em realidade. De modo que isso no tem que preocupar-se.
     Atirou da manta para nos tampar melhor e me fez me dar a volta para que lhe desse as costas. Posou seu pesado brao em minha cintura e a mo em meus peitos.
     -Esta noite dormirei bem -disse com os lbios em meu cabelo-. Obrigado, Rudy. Quero-te, carinho.
     -Eu tambm te quero, Curtis.
     ficou dormido quase imediatamente.
     Eu fiquei imvel e aguardei at que comeou a roncar. Ento me levantei com sigilo e fui nas pontas dos ps ao quarto de banho. Tinha um tubo de sonferos quase
cheio, porque fazia meses que no tomava. Tirei duas pastilhas e me tomei com gua do grifo. Podia tomar dois porque no tinha bebido. Mas enfim... Todo tipo de
maus costumes me piscavam os olhos o olho naqueles momentos, impaciente por me fazer reincidir. No saberia por qual comear.
Captulo 23
Isabel
     No fim de novembro veio para ver-me Terry. Foi uma visita curta, de sexta-feira  domingo, e tive que compartilh-lo um pouco com seu pai. na sexta-feira pela tarde
Gary foi recolher o ao aeroporto e o acompanhou at casa. Eu tinha os nervos de ponta. Levava trs dias arrumando-o tudo, pensando no que comidas faria e
em que roupa me poria. Levava quase dois anos sem ver o Terry.
     Pai e filho dissimularam idnticas expresses de abatimento quando lhes abri a porta. Terry me abraou enrijecido, como se temesse me romper. Gary disse que no
podia entreter-se, que tinha que partir em seguida.
     -Me alegro de verte. Tem bom aspecto, Isabel -mentiu.
     Eu apenas o olhei. Tinha engordado e tinha menos cabelo. Isso foi em tudo o que me fixei. Em troca no podia deixar de olhar ao Terry, de toc-lo, de me maravilhar:
tinha vinte e sete anos e j era um homem feito.
     -Est mais bonito que nunca -pinjente enquanto revolvia em uma terrina uma salada de atum para fazer um sanduche.
     A diferena do Kirby que sempre dava a sensao de no ocupar espao, Terry me fazia a cozinha mais pequena do que era, porque no parava de andar de um
lado para outro. Notei que estava to nervoso como eu. Sentia minha mesma apreenso por aquela visita.
     -De verdade -insisti ao ver que punha cara de circunstncias-. Te obscureceu o cabelo e est mais alto.
     -Isso no  possvel, mame.
     -Pois o . Agora tem os olhos mais como seu pai, que tem uns olhos preciosos.
     Mas Terry tinha os lbios to finos e o rictus da boca to duro como meu pai, e me preocupava. Senti o impulso de lhe dizer que tivesse uma atitude mais
acalmada, mais relaxada, que a vida no tem por que ser uma luta to encarniada. Sentei-me frente a ele e o observei jantar.
     -No lhes deram nada de comer no avio?
     -Claro. A que hora jantamos?
     Pomos-se a rir, nos agradando na agradvel fico de que seguamos sendo me e filho, de que nos conhecamos o bastante bem para brincar, rir
um do outro ou nos repreender. Mas o certo era que uma escrupulosa cortesia se havia interposto fazia muitos anos entre o Terry e eu. E o tempo e a distncia
no tinham feito a no ser acentu-la. Agora nos comportvamos como estranhos respeitosos e cordiais (como a me de uma famlia que tem em casa a um estudante estrangeiro
em regime de intercmbio).
     Mas esta vez possivelmente pudssemos romper o molde. Se ainda ficava uma oportunidade, era sem dvida aquela.
     -Que tal na faculdade, mame?
     -Ah, fantasticamente. eu adoro. Tomei-me uma pausa, mas penso me reincorporar em janeiro.
     -Pausa?
     Tivesse preferido no abordar o tema to de sopetn.
     -A quimioterapia me afetou um pouco  vista -pinjente me encolhendo de ombros-. E tive que deixar de fazer alguns trabalhos. De modo que preferi
interromper as classes uma temporada que me arriscar a suspender.
     No podia lhe dizer o mazazo que supunha para mim no poder me apresentar aos exames finais. Terminar a carreira o significava tudo para mim, e no s porque
equivalia  chave para meu futuro trabalhista. Representava a normalidade, o bem-estar. A rotina das classes, as duras horas de estudo, as idas e vindas, seguir
um programa, todo isso tinha dado a meus dias uma forma e uma estrutura quando o cncer ameaava convertendo-o tudo em um caos.
     -Que tratamento segue?
     minha me! Embora possivelmente fosse melhor contar-lhe tudo de um puxo e no ter que voltar a falar do assunto. Minha enfermidade era como um hspede molesto no convidado,
muito desagradvel para ignor-lo.
     Mas ao Terry sempre tinha gostado de comentar estratgias, sistemas e percentagens, e tinha muitas outras coisas que lhe dizer.
     -Nestes momentos no me medico.
     -O que quer dizer? Nada absolutamente?
     -Concedemo-nos uma pausa.
     -Mas mame...
     -No passa nada. O mdico no o desaprova. estive onze meses submetida a tratamento de quimioterapia, Terry. E pensamos que meu organismo se podia permitir
um descanso.
     -Sim, mas...
     Deixou de protestar em seguida, um tanto coibido. Deveu lhe parecer que me falar como se fosse meu mdico de cabeceira a aquelas alturas estava desconjurada.
     -J sei que no te convence muito.  um cientista.  lgico.
     Terry est especializado em molculas enzimticas, mas sabe o que  que um cncer de mama degenere em metstase ssea.
     -Seguro que ainda te escandalizar mais se te disser que estou a ponto de renunciar por completo  medicina oficial.
     -Para te tratar... com o que? Com passes mgicos? -disse tornando-se a rir.
     Rimos os dois. Preferia que pensasse que brincava.
     -vou tentar a auto cura. Embora, matizemo-lo: refiro-me a me sanar. Porque no  o mesmo sanar que curar-se -pinjente.
     Sorriu-me pensando que tirava o sarro.
     Kirby chegou na hora do jantar, tal como tnhamos previsto. Uma das coisas que mais me preocupava era a opinio que Terry pudesse formar-se dele; e do
que pensaria do fato de que sua me, gravemente doente, tivesse um amante. Estive-os observando toda a noite como uma espi. Kirby tem o estranho costume
de comportar-se diante de outros como se estivesse sozinho. Primeiro desconcerta e afasta e logo resulta atraente. Pelo menos para a maioria das pessoas.
Mas me inquietava que Terry o considerasse uma pessoa distante em lugar de ensimismado, que interpretasse seus silncios como frieza e inclusive como arrogncia.
Mas no tinha que me haver preocupado. Kirby foi desdobrando seu feitio de sob perfil, lento mas seguro e, para o final da velada, Terry incluso riu suas piadas,
que so maus de solenidade.
     Tambm lhe tinha dado muitas voltas aonde dormiria cada qual. Meu sof  cmodo mas curto, e no  cama. E Terry mede mais de metro oitenta. O mais lgico
parecia lhe oferecer ao Terry que dormisse acima no apartamento do Kirby, porque o teria para ele sozinho, e que Kirby dormisse onde sempre, ou seja comigo.
     Era o mais lgico mas no me atrevi. Podia violar um princpio to arcaico como enraizado, um princpio que nem defendo nem aprovo especialmente mas ao que,
entretanto, sigo apegada. Possivelmente seja produto de minha educao. E no criam que no quero ver a carga de hipocrisia que entranha. Minha nica justificao  que tambm
isso formava parte do que me inculcaram de pequena. O caso  que Terry dormiu no sof e Kirby subiu a dormir a seu apartamento.
     Terry e eu fomos na sbado a dar um passeio no carro do Kirby. Queria ver o velho bairro, o instituto e seus bares favoritos.
     -J no existe o Hot Shoppe? -exclamou com incredulidade-. E Perople's? E o Bank of Bethesda? Como pde converter-se isto em um bairro to pijo?
     Levava fora dez anos mas suas lembranas mais claras procediam de muito antes.
     -No sente saudades que te tenha mudado, mame. Teria que estar forrada para poder viver aqui agora.
     Foi assinalando alguns lugares que recordava.
     -Olhe... A  onde me ensinou a conduzir -disse-me ao passar frente ao recinto destinado a estacionamento da igreja catlica, que estava ao p da auto-estrada-.
Papai o tentou uma vez. Uma vez e no mais. Recorda-o?
     -Como se fora hoje. Voltou para casa em estado catatnico. Acreditei que ia lhe dar um enfarte.
     -Em troca voc, nem te alterava...
     -Porque tomava tranqilizadores que me dava Rudy; para acalmar a um potro.
     -Srio?
     -No, homem, no! -pinjente me jogando a rir-. O caso  que conduzia bem.
     -Pois papai no opinava igual. Olhe, essa  a casa dos Domsett. Seguem vivendo a?
     -No sei. Suponho.
     -Eu estava acostumado a lhes cortar a grama. E sempre procurava que fosse ela e no ele quem me pagasse, porque me dava mais. Lembra-te quando dizia que queria escapar
de casa? Fazia-me um pacote com pastilhas de caf com leite.
     -Sim, e o queria levar em um hatillo pacote a um pau. Seguro que o teria visto em algum livro de contos.
     -Voc me dizia que estava de acordo em que me escapasse de casa sempre e quando no cruzasse a rua. Dava-me um beijo de despedida e eu ia dar voltas e
mais voltas  ma, at que me cansava e voltava para casa.
     Logo me contou algo que eu ignorava e que me ps os cabelos de ponta. Pelo visto, embebedou-se na festa de graduao do bacharelado e, ele e seu amigo
Kevin, foram a toda velocidade com o carro pelo Old Georgetown Road.
     -Pois se no me chega isso a contar jamais o tivesse imaginado -pinjente.
     Tambm me falou da Sharon Waxman, uma companheira do instituto que se suicid o ano passado. Perguntou-me se me tinha gostado de ser uma dona-de-casa.
     Dirigi-lhe um olhar inquisitivo. Era j um homem, no um moo. Levava o velho turismo do Kirby pelo trfico do sbado com prudncia e habilidade.
     -Pois sim -respondi-lhe-. Pelo general sim. Acreditava que era uma mulher antiquada pelo fato de no trabalhar fora de casa?
     -No -disse surpreso-. Alm disso, no parava. No estava todo o dia vendo sries e comendo bombons. Ocupava-te de verdade da casa -acrescentou muito srio-.
Foi a alma da casa.
     Por ridculo que parea, interpretei-o como uma adulao.
     -Embora acredite que no se sentia muito realizada. Demonstra-o o fato de que tenha querido voltar para a universidade para acabar a carreira. Sem dvida te houvesse
gostado de faz-lo antes.
     Era a primeira vez que falvamos nestes trminos. Termina por acontecemos  maioria, quando nossos pais comeam a parecemos pessoas reais, com motivaes
e esperanas to autnticas como as nossas. Mas no me ocultava que era meu estado o que propiciava que Terry e eu falssemos agora de voc a voc.
     -Sim, em certos aspectos assim  -repus sem faltar  verdade-. Me teria gostado de ser mais independente, ter que depender menos de seu pai; e suponho que
ele teria estado de acordo.
     O tema de seu pai se abatia silenciosamente sobre ns. Se Terry me tivesse perguntado ento pelo divrcio lhe haveria dito tudo o que tivesse querido
saber. Mas tinha que partir dele. E como ele no o tirou colao; passou o momento e no o lamentei.
     Pela tarde, Terry foi ver seu pai, e logo a jogar basquete com uns ex-companheiros do instituto. Depois foram a um bar e chegou a casa um pouco
tarde para a hora de jantar e muito achispado.
     -No me contaste nada da Susan -comentei-lhe enquanto tomvamos caf no salo.
     -Porque no h nada que contar -disse, estirando-se e apoiando a cabea nas mos entrelaadas depois da nuca-. Temos quebrado.
     -OH, Terry, no.
     -No passa nada, mame. foi que mtuo acordo.
     De mtuo acordo pode que sim, mas de que no passasse nada j no estava eu to segura. No me esqueceram as tticas de meu filho para despistar; isso de estirar-se,
fingir bocejar e fugir meu olhar como quem no quer a coisa.
     -E o que ocorreu, se no ser indiscrio?
     -Nada, s que no funcionava. Espervamos outra coisa.
     -O que esperava ela? -perguntei.
     -Ah, pois... o habitual, j sabe: casar-se, ter filhos.
     -J. E voc ainda a quer?
     -No sei, mame. Suponho que sim.
     Pareceu lhe surpreender que me atrevesse a lhe perguntar um pouco to pessoal. Ter que ver o direta que me tornei ultimamente! Economiza a uma muito tempo, porque
o tempo j no transcorre para mim ao mesmo ritmo que antes.
     - complicado -disse-me-. Mas agora somos bons amigos.
     Aguardei, mas pelo visto era tudo o que queria me dizer. Naqueles dez ltimos anos tinha perdido o direito a pression-lo. Por isso no me importou o matiz
de cinismo do que me disse a seguir.
     -O normal.
     A maioria dos pais se sentem culpados pela mnima imperfeio de seus filhos, e eu no sou a exceo. O desinteresse do Terry pela famlia convencional
("casar-se, ter filhos") era uma carncia que temi que pudesse estar diretamente relacionada comigo e seu pai. E o tema que pela tarde evitei no carro voltou
a abater-se sobre ns. Mas Terry bocejou, tombou-se no cho e ficou dormido ao cabo de uns momentos.
     Despertei s dez e o ajudei a faz-la cama no sof. Dava-lhe um beijo ao lhe dar as boa noite, temerosa de que minha enfermidade me propinase uma sbita
crise, e fiquei acordada enquanto o relgio marcava as horas de nosso escasso tempo juntos. No suporto reconhecer ante meus seres queridos qual  o resultado
mais provvel de meu atual estado.  muito doloroso. No tenho o valor nem a vontade de lhes causar semelhante dor. No lhe falaria de minha enfermidade. Mas como
aquele ia ser o ltimo dia da visita do Terry, no quis deixar de lhe dizer algumas costure.
     Kirby e eu ficamos de lev-lo a aeroporto. Eu me sentei em uma esquina do sof enquanto Terry colocava a roupa suja em uma bolsa de lona. ajoelhou-se em
o cho com seu jeans descoloridos, com o pulver amarelo que tinha arregaado at os cotovelos. Alarguei a mo e lhe acariciei o cabelo, o alisei para trs.
Sorriu-me e seguiu guardando a roupa. Naquele instante, com a cabea erguida e seu olhar risonho se parecia muito ao menino e ao moo que foi, ao Terry que melhor
recordava eu, e me partiu o corao.
     -Tivesse-me gostado que tivesse um irmo ou uma irm, Terry -disse com amargura-. Tambm me tivesse gostado.
     -O que quer dizer? Tem  tia Patty, no?
     - um dizer.
     -Ah, j. Deduzo que no lhes freqentam, no? -disse sonrindome.
     -No. Influi a diferena de idade, certamente. Mas no s isso. Tampouco tive muita intimidade com meus pais. Nossa casa era muito fria. Tudo muito estrito.
devido a meu pai, basicamente, mas minha me tambm era uma pessoa muito encerrada em si mesmo. E nunca quis isso para minha prpria famlia.
     Uma das razes pelas que me casei com seu pai foi por sua veemncia -pinjente. Terry elevou a vista interessado-.  um homem vibrante. Sobre tudo quando fomos
mais jovens. Era apaixonado e efusivo.
     -J -disse hesitante, como se lhe desse que pensar.
     -Mas as coisas no rodaram como espervamos. Ao nos separar eu lhe joguei toda a culpa. E no foi todo culpa dela, absolutamente -pinjente me inclinando para ele, tratando
de esclarecer coisas de uma vez por todas-. Quo ltimo podamos querer era que nossa separao te afastasse de ns, Terry. Voc nunca teve culpa de nada.
Foi o melhor de minha vida. Se no consegui te demonstrar o muito que te queria, sinto-o de verdade. Queria-te muitssimo. E te sigo querendo, tanto como a quem mais
tenha querido, tanto como sou capaz de querer. E me parece que  muito, porque me enche o corao. Sentiria que voc no o sentisse assim.
     No tinha visto chorar a meu filho desde que tinha doze anos. Repousou a cabea em meu regao para ocultar seu rosto. Seus ombros se agitavam, soluava.
     -Vamos, te desafogue... -disse-lhe lhe acariciando o cabelo, lhe roubando um beijo. Confiava em que no se envergonhasse-. Tenho descoberto que chorar  bom, ou que pelo
menos no  algo que terei que evitar a toda costa. Demonstra que algum tem sentimentos, isso  tudo.
     Sequei-lhe as lgrimas e lhe sorri. Agora era mais fcil falar com ele, to fcil como quando era pequeno.
     -Nunca te falei que o que provocou a ruptura entre seu pai e eu. Voc tampouco me falaste que o que realmente provocou a separao entre voc e Susan.
Os detalhes no importam. Mas te assegure de ter boas razes, Terry. Que sua felicidade no seja completa, perfeita, pode no ser razo suficiente. Qu-la?
A vida  muito curta. Quando se tm vinte e sete anos parece que tenha que ser eterna, sei, mas...
     Detesto exortar, mas tinha aguardado muito tempo e tinha muitas coisas que lhe dizer.
     -Nunca desdenhe o amor, no o descuide. Nunca d por sentado que encontrar outro melhor em outra parte. Toma-o l onde seja to afortunado de encontr-lo,
e procura corresponder sempre -aconselhei-lhe apertando meus lbios a sua frente-. No d muitas coisas por sentadas -sussurrei-lhe-. Este  meu ltimo pedacinho de sabedoria,
e acredito que  o mais importante.
     Como j hei dito, Kirby tem o dom da oportunidade. Porque justo nesse momento bateu na porta com os ndulos e entrou. Terry no se sobressaltou; no pareceu
lhe resultar embaraoso que Kirby o visse chorar. Tirou um leno do bolso, secou-se as lgrimas e se soou dignamente.
     -Preparado? -perguntou Kirby com adequada suavidade-. J  quase a hora.
     Levantamo-nos. Terry ficou a jaqueta e se pendurou a bolsa de lona ao ombro.
     -Olhem... -pinjente-. pensei que no vou com vs. Despediremo-nos aqui, Terry.
     Terry pareceu surpreso, mas no discutiu.
     -Chamarei-te assim que chegue a casa esta noite -prometeu-me me abraando com fora-. E voltarei, mame, assim que possa. Ou poderia vir voc a ver-me. O que te parece?
Possivelmente por Natal.
     -Boa idia -pinjente aceitando de bom grau o improvvel da perspectiva-. Te cuide muito.
     -E voc. Cuida-a voc tambm, Kirby.
     -Farei-o.
     -Quero-te -murmurei ao beij-lo na bochecha, ainda mida.
     -Eu tambm te quero, mame. Quero-te muito -disse sem saber como acabar de despedir-se.
     Eu traguei saliva e tambm as lgrimas.
     -Andem, lhes d pressa, no vs perder o avio.
     -Chamarei-te -repetiu seguindo ao Kirby para o elevador, que chegou quase imediatamente-. E te escreverei mais freqentemente, mame!
     Sorri-lhe e lhe lancei beijos at que as comporta se fecharam.
     E ento me notei to cansada que me senti incapaz de chegar ao dormitrio. Deixei-me cair no sof e me tampei com a manta, uma velha e furada manta que
ainda cheirava a ovelha e que havia tricotado eu mesma fazia muitssimos anos, quando no me envergonhava de ser a alma da casa, como dizia Terry. Vivemos muitssimos momentos
felizes naqueles tempos que, sem nenhuma razo especial, tinha menosprezado. A nostalgia me embargou como uma agradvel nvoa, adormecendo um pouco o lacerante
dor de ver partir para o Terry. Gary estava acostumado a jogar uma cabeada os domingos pela tarde baixo esta manta. Eu sentava a seu lado, lendo ou fazendo ponto com a rdio
baixa, vendo subir e baixar seu peito sob as ento vivas cores dos quadros da l. Tambm estava acostumado a utilizar aquela manta para me rodear isso  camisola e
sair  porta a recolher o peridico. Ao Terry gostava de tend-la entre duas cadeiras do comilo e dizer que era um soldado que estava em um forte.
     Estaria Gary agora em casa? Podia cham-lo. S para falar. "Ol, como est? O que te parece nosso filho? depois de tudo no o temos feito to mal, verdade?"
Mas o telefone estava muito longe e eu muito cansada para me levantar. Fechei os olhos e me adormeci. Comecei a sonhar algo bonito sobre a famlia. E lhe pus
um final feliz.
Captulo 24
Emma
     Meu aniversrio  28 de dezembro, ou seja que sou capricorniana; como uma cabra, v. No me faz nenhuma graa, sobre tudo este ano.
     Muitos Natais as passo fora; vou ao Danville a ver minha me, e s vezes sigo at o Durham e Chapel Hill a ver ex-companheiros da faculdade e passar a
Vspera de ano novo com eles. Mas aquele ano no me sentia com nimo nem para fazer a mala; e no digamos para viajar, prodigalizar saudaes, sorrisos e conversao. E como
o solo feito de pensar em ter que sorrir e falar me produzia nuseas, optei por ficar em casa.
     Mas no para automvel me compadecer, absolutamente, mas sim me vesti como  devido, chamei a todos aqueles a quem quero e inclusive me animei a sair para lhe levar
a Isabel um presente. De modo que, com uma dessas piruetas mentais que catapulta do alto ao ridculo, estava-me reservando para celebrar meu aniversrio o
dia 28 mais s que a uma. Era uma atitude herica, uma orgia de autocompasin.
     Minha solido era escolhida. Meus amigas no me tinham abandonado. De modo que, em conscincia, no podia lhes fazer carregar comigo e, portanto, pedi-lhes que me deixassem
tranqila (alm disso, Rudy estava fora).
     Comecei o dia com normalidade, quer dizer, pelos chos e me flagelando. E a novela que comecei a passada primavera? Atirei-a ao cesto de papis em agosto; uma deciso
piedosa, me criem. Resultou o que chamam uma novela de "iniciao  experincia"; uma adolescente precoce que se inicia no amor, a vida, o sexo e a expiao
entre coloristas personagens, em um bairro de milionrios judeus que tira o flego, no Meio Oeste. Eu ambientei a minha em uma repelente populao do sul de
Virginia chamada Tomstown. E, como hei dito, foi uma deciso piedosa. Mereo-me isso por confundir as churras com as merinas.
     Agora estou escrevendo algo totalmente distinto (embora o de que "estou escrevendo"  quase um eufemismo). Vai de mistrio, um thriller, com muita intriga
e incerteza, uma mulher em perigo. Morre at o apontador. Acredito que  um bestseller potencial, inclusive adequado para um filme. Lstima que te caia das
mos. Mas escrever essa histria me ensinou uma coisa: que desfruto do lindo matando s pessoas. Digo-o porque lhe agarrei em seguida o gostinho. E portanto sigo,
lhe d que te pego. O mau  que todos meus personagens podem ter morrido antes de que termine o livro, e poderia resultar que o narrador  o muito mesmo Deus.
     Outra coisa que me est ensinando este livro ou, melhor dizendo, este livro e seu defenestrado antecessor,  que talvez sou mais falsa que um dlar belga. Durante
toda minha vida quis escrever novelas ou, pelo menos, isso estive dizendo quase sempre. Escrever reportagens no me satisfazia. Sempre queria enfocar a histria
"de outra maneira", porque pensava que "a realidade no era nunca de tudo real", e essas zarandajas. Bom, pois resulta que sou muito melhor jornalista que novelista.
De modo que agora tenho que me perguntar se no me sentiria eu atrada simplesmente pela imagem do que representa escrever novelas. Queria parecer uma novelista. Queria
que nas festas, quando perguntassem a que me dedicava, pudesse responder "sou escritora, novelista".
     E, de ser isto certo, no sei o que vou fazer em adiante. Produz-me a mesma sensao que arrebentar uma porta de cristal. Pensei que tinha um bom panorama,
um futuro, mas pode que solo consiga me sumir na perplexidade e em um lacerante desconcerto.
     feliz aniversrio, Emma.
     O que necessitava eu era um bolo; ou um bolo geada, uma dessas delikatessen de fbrica que anunciam pela televiso nestas datas. Sempre conseguem
que me faa a boca gua. Uma vez estive a ponto de comprar uma, mas renunciei ao ler na etiqueta o contedo em calorias e graxas. Mas, ora, a fazer
complicaes!, tenho quarenta anos e posso tomar o que me d a real ganha: veio e bolo geada; um bom vinho, no um desses que vendem em break e se conservam no
frigorfico.
     Sair  rua e entrar no carro me desejou muito como aterrissar em um novo planeta. Quanto fazia que tinha sado de casa? Quase quatro dias. No est to
mau isso de ter emprego fixo. Embora no ter que exagerar.
     O cu de dezembro ao entardecer tinha essa tonalidade cinzenta de fraldas usados. Ameaava chuva ou neve, sem acabar de decidir-se a descarregar (at que
estacionei em Columbia Road e pus-se a andar para a licorera, que estava a ma e meia). Comeou a cair aguanieve.
     A manh do dia 24 me pus umas velhas calas negras de um moletom, uma blusa negra e uma jaqueta de ponto de cor cachumbo com grandes bolso, a
a que s ficava um boto. Era uma indumentria que eu gostava tanto que me pus isso tambm ao dia seguinte; e ao outro. E a levo hoje.
     Faz uma semana que no me lavo a cabea (para que?) e nem que dizer tem que vou maquiar. Teria sido perfeitamente capaz de sair de casa em gabardina
e pantufas, sem meias trs-quartos. Captam a imagem?
     Mick a captou ao abrir a porta da licorera e quase tropear comigo.
     -Perdoe -disse.
     Porque, por um instante, no me reconheceu. Logo no soube se interpret-lo como um insulto ou como uma adulao.
     Ao me reconhecer me dirigiu um olhar que a um observador imparcial tivesse parecido divertida, e se deteve em seco.
     Eu tambm.
     -Ol, Mick -acredito que pinjente como se tal coisa.
     J dentro da licorera acreditei que ia me dar um enfarte. Devi ficar lvida. Em troca ele se ruborizou, lhe puseram as bochechas como se acabassem de
esbofete-lo.
     -Como est? -saudei-o-. Como est ultimamente?
     Eu estava apoiada contra o marco da porta com uma bolsa cheia de garrafas que entrechocaban, e ele ao outro lado me sustentando a porta.
     -Emma...
     Nem sequer pde sorrir. Mas me dirigiu um olhar incendirio. Sua surpresa me ajudou a me repor da minha. Estava a ponto de lhe dizer algo brilhante e pode
que inclusive certo, como "te senti falta de" ou algo assim, quando meneou a cabea e disse: "Tenho  famlia a fora."
     Pois sim. Ali a tinha, no carro. Reconheci o pequeno Celica branco estacionado a meia ma dali. No distinguia a seus ocupantes, s brumosos perfis
atravs da aguanieve e o pra-brisa embaciado.
     -Bom, pois sada os de minha parte. Me alegro muito de verte.
     No nos movemos.
     -Como est, Emma?
     -Bem, ultimamente bem. E voc?
     No me d muito bem mentir, mas pelo menos o tento. Mick nem sequer isso.
     -Eu estou fatal -disse-me.
     Sufoquei-me.
     -No me diga isso -murmurei-. No me diga isso, Por Deus.
     Dois clientes, um que queria entrar e outro sair, puseram fim  tortura. Tivemos que nos separar. Eu sa e Mick entrou. No chegamos a nos dizer adeus, simplesmente
saudamo-nos com a mo. Que impotncia! Dava graas a Deus de que meu carro estivesse estacionado em sentido contrrio ao dele. Assim no teria que saudar a Sally.
De modo que fui at o carro com minhas garrafas de vinho, tratando inutilmente de me defender da glida aguanieve, e voltei para casa.
     Ao sonar o telefone de noite adivinhei que era Mick. Verdade que s vezes uma adivinha quem , segundo como sonha o telefone? Levava tanto momento sentada frente
 chamin que o fogo se extinguiu. Devo dizer em minha honra que no me tinha embebedado. Tinha-me bebido um par de taas de vinho de um cabernet muito caro,
no mais. No gostava.
     Respondi ao telefone  terceira chamada com um "Diga" firme, claro e fingidamente afvel.
     -feliz aniversrio!
     -Obrigado. Como est?
     Era L. Deixei cair meu traseiro em um tamborete e aguardei a que meu ritmo cardaco se sossegasse.
     -Bem.
     At no faz muito, L estava acostumado a responder a esta pergunta dizendo "no estou grvida". Mas j no o faz. J no nos faz graa, sobre tudo a ela. Porque,
de momento, a fecundao in vitro segue sem funcionar.
     -Que tal seu aniversrio? -acrescentou.
     -Fatal.
     -OH, no... Quer te vir?
     -No, obrigado.
     -No estamos fazendo nada, nem sequer discutir. lhe vejam e te animar.
     -Agradeo-lhe isso mas no.  muito amvel. Que tal voc?
     -Bem -insistiu-. Rudy j retornou que as Bahamas.
     - Ah sim? Quando?
     -Hoje.
     -Chamou-te?
     -Sim.
     Jo! Ou seja que Rudy no me diz uma palavra em meu aniversrio mas chama a L para lhe dizer que j retornou que seu "segunda lua de mel" (ponho a Deus por
testemunha que o disse literalmente assim).
     -E tudo bem? -perguntei.
     -Notei-a como antes.
     -Ou seja...?
     -Pois no muito bem. Acredito que s me chamou para me dizer que no dever jantar amanh. De modo que s seremos voc, Isabel e eu.
     V Por Deus! O quarteto comeava a desintegrar-se.
     -E te h dito por que?
     -Porque tem que ir a no sei o que com Curtem.
     Soltei uma enxurrada de tacos dos mais vulgares, que fez que L vaiasse como uma mangosta.
     -Comenta-te algo ultimamente? -perguntei-lhe -. H-te dito o que lhe passa?
     -No. Ou seja que tampouco te conta nada?
     -No, e me consta que tampouco conta nada a Isabel, porque o perguntei.
     Suspiramos ao unssono.
     -Bom -disse L em tom abatido-. Pois amanh de noite nos veremos. No esquea trazer a salada.
     -Esqueci-a alguma vez?
     -Passar voc a recolher a Isabel?
     -Claro.
     -Bom, pois feliz aniversrio, Emma.
     -boa noite, L.
     Penduramos.
     Imediatamente voltou a soar o telefone.
     -Diga.
     -Emma? Sou Mick.
     Perdi o mundo de vista; s ficou minha mo no auricular e sua voz em meu ouvido. Senti-me atendida pela ansiedade, pelo puro desejo, ao saber que era ele
e que aquilo era real. Tinha estado muito perto de me convencer de que no era real que ele fosse o nico que me importava e que o superaria.
     -Poderamos nos ver? -perguntou-me.
     -Est bem?
     -Estou bem -disse rendo entre bufos-. Mas...
     Imaginei poder ouvir em sua entrecortada respirao tudo o que no podia me dizer. Imaginei em sua casa, provavelmente na cozinha enquanto Sally deitava ao
menino acima.
     -Est em casa?
     -No; estou em meu carro. Chamo-te com o mvel da Sally.
     -Ah -exclamei me felicitando por minha intuio-. Pois se oua muito bem.
     De novo riu sem vontades.
     -Claro, como que estou na esquina de sua casa!
     -OH, Deus...
     Guardou silncio por uns angustiantes segundos.
     -No se preocupe, que no passa nada -disse logo-. S que ia no carro e passei por aqui. No vou A...
     -me d cinco minutos.
     -Por?
     -Necessito cinco minutos. Estou... sem vestir. E logo vem.
     -De verdade?
     -Que sim. Pendura e vem dentro de cinco minutos.
     Ento sim que riu com vontades. Aguardei at que teve terminado de rir, porque me deleitava ouvir sua risada, e ento pendurei.
     Cinco minutos? Tinha que lhe haver dito dez. Corri escada acima, meti-me no quarto de banho e me olhei no espelho. Dez minutos? Tinha que lhe haver
dito hora e meia.
     No me dava tempo a tomar banho e me trocar de roupa. Tinha que arrumar a casa e comprar roupa. Tirei-me minha puda jaqueta de ponto e me lavei os dentes, manchados
de vinho. Tentei me pentear mas era impossvel, e optei por me fazer coque. Dava-me um toque de maquiagem e me pintei os lbios. Deus, Deus... S acenderia uma luz.
     Ao baixar reparei em que tampouco tinha tempo de reavivar o fogo da chamin. Recolhi os peridicos que tinha pulverizados por toda parte, cavei as almofadas
do sof e recolhi os miolos da mesa. Pus msica, mas a apaguei em seguida. Gostaria de minha casa? No era muito artstica. Tinha alguns quadros, alguns gravados
que eu gostava muitssimo, embora provavelmente fossem chungos. OH, Deus, descobriria que era vulgar, inautntica e superficial. Mas, que bobagens estava pensando?
Eu gostava mais quando fomos dois personagens de tragdia pura e simples; no um futurible, uma realidade complexa. Antes fomos perfeitos.
     Soou o timbre da porta e me deu um tombo o corao. Me acelerou tanto o pulso que pensei que, se no remetia, pela manh a haveria palmado. Respirei
fundo como medida preventiva. Pus cara de normalidade e abri a porta.
     "Ol", saudamo-nos.
     Entrou acompanhado do frio e a umidade com seu casaco de l. Tinha o rosto transido e as orelhas lvidas.
     -te tire o casaco -disse-lhe. Ao dar me notei isso o frite que tinha as mos-. Est gelado. O que tem feito?, dar voltas  ma?
     -Mais ou menos -reps.
     Entrou em salo e foi para a chamin mas se deteve o ver que o fogo estava apagado.
     -consumou-se -pinjente bobamente-. Sentamo-nos aqui?
     Ele se sentou em uma poltrona e eu no bordo do sof. Um engano. Como amos falar assim? Resultava artificioso. Mick e eu no salo, um a cada lado por mim
tapete de pita. No fomos ns. Atuvamos.
     -Quer tomar algo? Tenho vinho para dar Y... tomar.
     -No, obrigado.
     -Caf?
     -Isso sim, estupendo.
     -Vem -pinjente me levantando de um salto.
     Era muito melhor na cozinha. Mick se apoiou no suporte, me olhando enquanto eu punha um cacillo de gua a ferver e o caf no filtro. A gua rompeu a ferver
em poucos segundos e fui jogando poquito a pouco no filtro. Resulta um tanto laborioso este sistema do caf filtrado, mas vem muito bem para ter as mos
ocupadas.
     -Hoje  o aniversrio do Jay -disse para encher o laborioso silncio.
     - Ah sim? -exclamei elevando a vista. Que coincidncia.
     -Cumpre seis. Tomei-me a tarde livre porque lhe organizamos uma festa com seus amiguitos esta tarde no zoolgico -explicou-me-. S eram oito, e no nos
pareceu que fossem muitos quando o organizamos, mas... -acrescentou tocando-a frente como se lhe doesse a cabea-. Minha me!
     -Seja  seja. Desculpa para ir comprar usque e te recuperar.
     Pomos-se a rir e isso serve para mitigar a tenso.
     Comeou a passear-se frente  janela enquanto eu o observava com a extremidade do olho. De novo o via trocado. Levava calas cinzas, um bom casaco
e uma gravata azul com o n frouxo. Disse-me que devia vestir assim, como um executivo, em seu novo emprego a tempo parcial na escrivaninha no que trabalhava antes.
Se  que ainda seguia trabalhando ali. O fato de que eu nem sequer soubesse, de que podia haver muitssimas coisas em sua vida das que eu no tinha nem idia, me
pareceu muito triste.
     -Como est Isabel? -perguntou-me, brincando com um saleiro em forma de galo que em seguida voltou a deixar no suporte-. E Rudy? Sally me fala algumas vezes
de L, mas das outras no tornei ou seja nada.
     No  estranho que o ame. No me havia isso dito por encher o silncio mas sim se interessava de verdade por como estivessem meus amigas, e no s por mim.
     Servi o caf em duas jarras e acrescentei leite ao dele.
     -Isabel est muito doente. Temo-me que a coisa no pinta bem.
     -Sinto muito, Emma.
     -J.
     Sua condolncia me chegou  alma. Possivelmente porque j estava muito sensvel. Passei-lhe a jarra e agarrei a lata das bolachas.
     -Quer uma? -ofereci-lhe-. Rudy tampouco est bem. deixou as classes. Sabe que tinha comeado a estudar paisagismo e jardinagem?
     -No.
     -Bom, pois o deixou. Deus sabe o que far agora. A verdade  que no tenho nem idia -disse em um tom que me soou frio e distante.
     -Sinto muito -disse ele.
     -Sim, a vida  um calvrio -pinjente, fazendo oposies a ficar como uma imbecil, a me jogar a chorar ou eu o que sei-. por que vieste, Mick? S para falar?
Quer ter relaes comigo?  isso? Pois j sabemos os dois exatamente como resultar -acrescentei em um tom que me pareceu detestvel. E o era. Que direito
eu tinha a pag-lo com ele?
     -Se quiser me parto...
     -No, no te parta. No, perdoa.  que estou... Tenho que ser sincera contigo, Mick: s vezes tenho muito mau carter, quando sofro...
     -Pois no quero que sofra.
     -J  muito tarde. No pode fazer nada -disse-lhe. Ou sim? Para que tinha vindo?
     Deixou a jarra no suporte.
     -No parava de me dizer que tinha que verte. No podia acreditar que passassem meses sem que coincidssemos.
     -J. Mas eu te vi; na rua, passando no carro, na cauda do cinema. Embora no foi nunca voc.
     No o era, claro. S algum que lhe parecia, e s vezes nem isso; s uns olhos, um cabelo ou uma boca de um tipo arrumado que me recordavam isso. Uma miragem.
     -Pois hoje sim coincidimos -disse.
     -Sim. Uma viso encantadora. -Calladita est mais bonita, Emma!
     -Uma viso encantadora -repetiu sorridente. Mas no ironizava, e minha ftua frase no soou assim ao repeti-la ele-.  como tomar uma taa ou fumar um cigarro
e reincidir no vcio.
     OH, Deus, me ajude. Estava a ponto de desfalecer.
     -Tinha que verte. No te ria. pensei que... Me ocorreu que se estivssemos juntos, s uma vez, logo j nos deixaramos em paz.
     -Ah sim? -exclamei muito sria, embora sem insinuar que no estava de acordo.
     Parecia-me uma atitude espria, se  que se referia ao que eu estava pensando. Mas o desejava muito para pr objees.
     -A s idia de no voltar a verte... -disse tocando o canto de minha mo agarrada ao suporte-.  pior que estar juntos. Assim me parece isso .  enganar-se, Emma.
Quase um... pecado.
     -Um pecado... -Como ex-catlica a palavra me deixou pasmada-.  isso o que seria para ti? Crie que te deitar comigo seria pecado?
     Meneou a cabea sorridente, com expresso de impotncia.
     -A verdade  que j no me importa -disse-lhe-. Tm-me sem cuidado seu sentimento de culpabilidade e sua alma imortal. O que te parece isso? Nem tampouco me importam
sua esposa, seu lar feliz nem voc... -Me fez um n na garganta. No me saa. No mais profundo de meu ser respiravam as razes que me diziam que o nosso
era um engano, como sempre nos pareceu isso-. Nem seu filho -disse ao fim, como quem toma uma valente deciso embora lhe fraquejem as pernas.
     Ele fez o melhor que podia fazer: me rodear com seus braos e me abraar.
     Fechei os olhos para no ver a dor e a dvida em sua cara. As palavras nunca nos levaram a nenhuma parte, embora a verdade  que nunca conduzem a nenhuma
parte quando a situao  insustentvel. Beijei-o para aliviar a tenso, e funcionou: tudo se dissolveu lentamente; tudo menos a clida boca do Mick, a aspereza
de suas bochechas e o contato de sua mo em meu pescoo. Beijamo-nos at ficar sem flego e nos tocamos at que o sexo puro e duro nos imps, no para
nos entreter, no para nos demonstrar que nos queramos. Optei por deixar ir, por deixar de pensar e simplesmente faz-lo. Possivelmente algo trocasse se o fazamos, possivelmente ocorresse
algo imprevisvel. Alm disso, parecia algo to natural separar as pernas para que Mick pudesse mover-se entre elas e me apertar, me aproximar ao suporte e empurrar, me fazendo
machuco nas costas. No me importava que me fizesse mal, desejava senti-lo, queria que suas mos me tocassem por toda parte.
     -Vamos acima -murmurei. Na cama poderia o ter completamente.
     Tiramo-nos da mo e fomos s escuras pelo corredor at as escadas e subimos ao dormitrio.
     Estive a ponto de no acender a luz, por temor a ver de novo seu rosto, mas a azulada e fria luz da lua me estremeceu. Desejava tanto o calor que corri
a cortina e acendi a lamparita da mesinha de noite.
     Ficamos de p, um a cada lado de minha cama, ainda por fazer.
     Olhamo-nos. Tive razo ao temer ver de novo seu rosto, porque sua expresso era trgica.
     -O que? -pinjente enquanto me desabotoava a blusa. No era muito romntico, mas um dos dois tinha que comear.
     Mick rodeou os ps da cama e se sentou no bordo. Mas no se moveu. No se tirou o cinturo nem os sapatos. Acreditei adivinhar o que ia ocorrer.
     Senti o impulso de lhe gritar, de lhe montar uma cena. Porque me enfureci ao compreender o que ocorria. Desprezei a idia mas estava o bastante furiosa e ferida
para querer feri-lo ele. No voltei a me grampear a blusa ao me aproximar dele. Tenho os peitos grandes (assim me ho isso dito mais de vinte homens); so o melhor que
tenho. De modo que era um consolo mostrar-lhe ao Mick, me divertir ao ver como foram os olhos.
     J v o que te perde, pensei despeitada.
     Mick sorriu. Olhou-me com tanta ternura e compreenso que pus-se a chorar.
     -Sou um imbecil -disse-me tomando da mo e fazendo sentar a seu lado-. Sei o que sente. Seguro que agora mesmo me despreza tanto como me desprezo
eu.
     -No, no... -murmurei-. O que te passa?
     O que tinha ocorrido na curta distncia que mediava entre a cozinha e o dormitrio? Devemos hav-lo feito na cantoneira?
     -J sabe voc o que ocorreu. Estive-te mentindo.
     -No que me mentiste? -perguntei medrosa.
     -Em que poderamos faz-lo s uma vez.
     -Ah, isso... Imagina que te acreditei?
     Sorriu e comeamos a nos beijar as mos. Uma escaramua. Logo descansei a cabea em seu ombro.
     -De modo que, por isso vejo, nada trocou em realidade -pinjente entristecida-. S vieste aqui para me atormentar. Outra vez. J quase o tinha superado.
Mas no  certo.
     -vim porque... -disse elevando os ombros e deixando-os cair com abatimento-. Tudo parece estpido. S posso te dizer que no podia resistir mais, que
morria de vontades de verte, que tinha que verte. No sei se tiver trocado algo, Emma, mas possivelmente sim. sofri o suficiente para que algo tenha trocado.
     -Eu tambm.
     -No houve outras mulheres -assegurou-me me olhando com fixidez-. Perguntou-me isso na praia. Pois te respondo: s voc.
     -Perguntei-te algo mais. -Notei por sua ligeira piscada que o recordava. Demorou para me responder.
     -Sigo me deitando com minha esposa. Sim. No muito freqentemente. Ela necessita... faz-la iluso, e tratar de contribui-la quando eu no posso fazer outra coisa.
     -A iluso?
     -De que somos um matrimnio.
     -Ah. E crie que isso contribui algo positivo?
     Fez uma careta de contrariedade e me olhou abatido.
     -No acredito que o entenda.
     -Tenta-o.
     -Ver, Emma... Sou o nico que tem. Embora acredite que no fundo me odeia. No me atrevo a lhe entregar ao Jay nem a ficar o eu.
     Disse-me isso como se tivesse cristais quebrados na garganta, tanto lhe custou pronunciar as palavras. Seguia detestando trair a Sally comigo, nem sequer
com uma relao espordica. E isso tambm me doa.
     -por que te casou com ela, Mick?
     -Porque ficou grvida.
     -J.
     fez-se um silncio que se podia cortar.
     -No podem ser mais distintas -prosseguiu Mick, hesitante-. No  uma pessoa forte. Sempre se definiu pelo que outros pensam dela, sua famlia,
suas amizades.
     -Voc.
     -Sobre tudo eu.
     -Quiseste-a alguma vez?
     - a ti a quem quero.
     -OH, Deus -exclamei ocultando a cara entre as mos-.
     por que vieste? -voltei a lhe perguntar, presa de um estranho esgotamento que quase me fez temer me enjoar.
     -Acredito que... a te pedir que espere.
     -Esperar? Porque ainda no pode deix-la? Segue acreditando que seguir com ela  melhor para o Jay que romper?
     -No sei -disse mesndose o cabelo.
     Tive a certeza de que, em realidade, queria dizer que sim.
     -Parte, Mick -disse-lhe me levantando.
     -Emma...
     -No sou sua psicloga. No venha a minha casa para te desafogar de seus problemas comigo. Essa  a primeira amostra de egosmo que me deste, e eu no gosto. Lhe
tinha em um altar mas te tem cansado. Nem sequer vais deitar te comigo. Parte, por favor; desaparece durante outros seis meses. No sou masoquista. J te haverei
esquecido. Prometo-lhe isso.
     Mick se levantou. Nunca se enfurece (algo que nesse momento no me pareceu uma virtude).
     -Sinto muito -disse-. Sinto muito.
     Balbuciou algo que no pude entender e saiu do dormitrio.
     Alcancei-o no corredor, rodeei-o com os braos desde atrs e aproximei a cara a suas costas. Uma posio simblica (nada de contato cara a cara, a no ser eu obstinada
ao homem que uma e outra vez se afastava de mim).
     Ele foi d-la volta, mas no lhe deixei. Resultava-me mais fcil dizer-lhe assim.
     -me escute. Quero me casar contigo, Mick. Ter filhos. Morrer de fome contigo por amor  arte. O que no quero  ser uma solteirona de quarenta anos que
tem uma confuso com um casado; ou que nem sequer tem isso, que  at pior -pinjente. Notei que o corao lhe pulsava com mais fora-. No posso seguir esperando -acrescentei com
voz entrecortada-. No tinha que haver me perguntado isso. Tenho que seguir com minha vida. De modo que no me chame nem venha para ver-me. Isso no faz a no ser piorar as coisas.
     -J sei. No te chamarei nem virei -disse meneando a cabea-. Quero-te. E no o digo para que troque de atitude, s para que saiba.
     ateu-se a cintura com meus braos por uns momentos e logo partiu.
     A ltima hora daquela noite chamei o Rudy.
     -OH, perdoa, estava dormindo, verdade?
     -Emma?
     -Perdoa -repeti.
     -O que ocorre? Espera um momento...
     Rudy cobriu o microfone com a mo e durante o meio minuto no ouvi nada. O telefone que tem no dormitrio  sem fio. Supus que estaria lhe dizendo
ao Curtis que voltasse a dormir, para levantar-se logo sigilosamente e ir ao corredor ou ao quarto de banho.
     -Emma?
     -No tenho cansado em que era to tarde, Rudy. Sinto-o de verdade.
     -No se preocupe.
     -Suponho que Curtis se encheu o saco.
     -No, mulher, absolutamente.
     No tinha que haver dito isso. Reparei nisso por seu tom. Sempre era muito suscetvel em relao ao Curtis, e por isso procurava me abster de meus sarcasmos,
sobre tudo porque ultimamente a suscetibilidade do Rudy tinha subido de ponto. Um pouco realmente mau devia ocorrer entre eles, mas no tinha nem idia do que podia
ser.
     -Que tal as frias, Rudy?
     -Estupendamente.
     -Ah sim?
     -Pois sim.
     -Pelo tom em que o diz, ningum o diria. Est bem?
     -Acabo de despertar.
     -J, claro.  verdade.
     Guardei silncio e ela esperou a que fosse ao gro. Era uma conversao bastante incomum entre ns, e eu comeava a me perder em vaguedades. Logo que recordava
por que a tinha chamado. Mas em seguida o recordei.
     -Hoje vi ao Mick.
     -Ah.
     Sua resposta soou como se lhe parecesse irrelevante.
     -Sim, na adega de Columbia Road. Mas s nos olhamos e logo que pudemos falar. Pilhou-me por surpresa... Alm disso, sua esposa e seu filho estavam
esperando-o fora, de modo que...
     -chateou-se.
     -Sim. Mas esta noite me chamou, desde seu carro e lhe hei dito que podia vir a casa.
     -OH, Emma...
     -J sei. Mas no tive foras para resistir.
     -Deitaste-te com ele?
     -No, mas estive a ponto.
     Rudy suspirou de um modo que me pareceu pormenorizado.
     -foi quase uma reedio do ocorrido na praia, salvo que hoje foi... falamos que sua situao, que no tem sada. De modo que no h mais
cera que a que arde. acabou-se, e estou... -Pareo p, quis lhe dizer. me ajude.
     -Sinto muito, Emma. De verdade que o sinto muito. Possivelmente seja o melhor.
     -Possivelmente.
     Aguardei ver se Rudy me dizia algo mais. Mas no. No haveria mais palavras de consolo nem de compreenso para mim aquela noite. Tinha que ter chamado ao Telefone
da Esperana.
     -Bom -pinjente-, j  muito tarde.
     -Sim. Tenho que te deixar. Chamarei-te.
     -Seriamente? Isso seria uma novidade. -Sou o cmulo. Tampouco tinha que lhe haver dito isso. Tinha que me haver abstido de lhe fazer a mais leve recriminao. Sentou-lhe
mau e o notei no tom da despedida-. boa noite, Rudy -disse com meu tom mais amvel-. Perdoa por haver despertado.
     -boa noite, Emma. No duvide de meu carinho.
     -Bom... oua...,  que...
     Deixei o auricular no receptculo lentamente, franzindo o cenho e sonriendo de uma vez. Estava quase sem flego. "Tampouco voc duvide de meu carinho", murmurei.
     Mas a verdade  que Rudy me deixou muito preocupada. No podia me zangar com ela por no mostrar-se to pormenorizada como sempre, por no me expressar seu apoio com
a firmeza de outras vezes. Tinha o corao destroado, mas j me curaria. Algum dia. Estava claro que algo ocorria ao Rudy. S precisava justificar-se comigo.
Estava segura de que tinha que ver com o Curtis. Mas do que se tratava?
     Enquanto falvamos por telefone, tinha pensado em uns momentos, de fazia j muitos anos, nos que Rudy me ajudou a superar uma crise que passei a causa
de minha relao com o Peter Dickenson. Peter o Focinho de porco. Eu estava louca por ele, louca perdida. E estava disposta a me casar com ele. Acreditam que sou cnica a respeito dos
homens? Pois tinham que me haver conhecido faz seis anos.
     Peter era um tipo magro, que sempre levava o cabelo penteado para trs. A verdade, era da classe de homens que inspira desconfiana. Por ento eu
vivia em um suntuoso apartamento no Foggy Bottom e estava muito a gosto vivendo sozinha. Mas estava to penetrada pelo Focinho de porco que o convidei a viver comigo. E vivemos
em paz e harmonia durante quase quatro meses.
     Mas uma noite -no adiantem acontecimentos- cheguei a casa cedo depois de uma reunio das Quatro Obrigado, e a que no o adivinham? V! Adivinharam-no!
Mas, vero, d igual a seja uma histria muito manida e que a tenham ouvido inumerveis vezes em letras de canes country, ou exageradas nas lacrimogneas sries
de televiso. Quando ocorre a uma no tem nada de divertido. Pilhei-os in fraganti, em minha prpria cama.
     Dava meia volta e os deixei seguir, mas a imagem ficou como cauterizada em minhas retinas. A parejita tambm me viu. De modo que fui ao salo e me sentei
no sof a esperar. No demoraram muito. Peter saiu primeiro, em cueca. ajoelhou-se a meus ps. E deva falar, a me agentar o de "ela no significa nada
para mim", e ento saiu a garota. Pelo menos no era algum que eu conhecesse. Tinha pinta de estudante universitria, de pernas largas e exuberante juba
loira. ficou lvida para ouvir que no significava nada para ele, e a verdade  que me deu um pouco de pena. partiu em seguida e Peter seguiu falando. Isto o recordo
com incrvel nitidez: plantei-lhe o p em seu peito nu e lhe dava tal empurro que o fiz cair de costas.
     "Fora!", gritei-lhe. E como se negou a partir, chamei  polcia (a primeira e nica vez que chamei  polcia). Peter viu a luz lhe cintilem do carro
patrulha e se largou antes de que chegassem os agentes.
     De maneira que -a isso ia- chamei o Rudy. Por ento quase no nos falvamos. Porque, ao pouco de casar-se com Curtem, tivemo-nos isso a respeito dele e, embora fingssemos
hav-lo esquecido para no danificar a harmonia das Quatro Obrigado, o ressentimento persistia. Mas a chamei e me bastou dizer "OH, Deus, Rudy" para que me dissesse "Vou
a sua casa em seguida".
     ficou comigo toda a noite. E eu estive chorando como uma madalena. Bebemos genebra, fumamos um cigarro atrs de outro e, por volta das seis da madrugada,
fomos ao Howard Johnson's da Virginia Avenue e pedimos uns minis de beicon.
     Foi um desmame. Mas Rudy conseguiu me levantar o nimo. Isso  o importante. No sei quanto tempo teria estado chorando ao Peter de no ser por ela. No sei
que recebimento deveu lhe fazer Curtem ao v-la chegar a casa s nove da manh. A isso ia: a que o fato de que esta noite no tenha ido a uma misso
de resgate desta pobre amiga no o tenho em conta pelo que a nossa amizade se refere. Est por cima de uma atitude isolada.
     No faz muito pinjente que o problema estava nos homens. "Os homens o danificam tudo."  uma muletilla de minha me. A ouvi desde que era menina, e
a verdade  que me resulta difcil discutir-lhe      -La seora Patterson?
     Mas agora estou apaixonada. O passo fatal, mas no posso culpar a ningum. Ser isto maturar? Se for assim, preferiria que no fosse. Porque hoje cheguei a
a mdia idade. E me repatea. No vejo em meu futuro mais que solido; maturar, me aborrecer e seguir um tratamento a base de hormnios como terapia substitutiva.
     feliz aniversrio, Emma. Bem-vinda ao resto de sua vida.
Captulo 25
L
     Revistam chamar do consultrio do doutor Jergen a primeira hora da tarde. Tanto se forem boas como ms notcias, entre as quatro e as cinco,  a hora
em que as enfermeiras do a seus pacientes os resultados das anlise. De modo que pensei que provavelmente eram elas, quando soou o telefone em casa s cinco
menos quarta de uma fria e escura segunda-feira de meados de janeiro. Levava todo o dia com uma sensao de vazio. Uma premonio? Deixei que o telefone soasse trs vezes
e meia, quase a ponto de que respondesse a secretria eletrnica.
     -A senhora Patterson?
     Era Patti, uma das enfermeiras simpticas. Sempre te consola quando no tem boas notcias que te dar. No todas o fazem. Lem-lhe os resultados como se
tratasse-se das cotaes da Bolsa, com uma voz impessoal e monocrdia.
     -Tudo bem?
     -Como vai?
     -Bem. E voc?
     -Bem, obrigado. Chamo-a para lhe dar os resultados das ltimas provas.
     -J.
     -Pois..., que o sinto muitssimo. No houve sorte esta vez.
     Que no tinha havido sorte esta vez?
     Se por acaso fora pouco, Henry tinha escrito a lista do que tnhamos que comprar com faltas de ortografia (algo que detesto): "Ascar".
     Tenho muitos ms encostados  porta do frigorfico. Muitos. Do uma impresso catica. Um deles diz: "Meu carma se impe a meu dogma." Me deu de presente isso
Emma. Uso-o para fixar uma fotografia das Quatro Obrigado nos degraus do alpendre da casa do Rudy o passado vero. Ensinamos muito as pernas, muito bronzeadas;
e todas vamos com shorts e tops sem mangas.
     -Senhora Patterson?
     Henry aumentou a coleo de ms do frigorfico com um em forma de palito de tambor para sujeitar o calendrio de partidos da liga de basquete de
os Wizards. Esta noite jogam contra os Charlotte Hornets, de visitantes.
     -Segue a, senhora Patterson?
     -Sim, obrigado por chamar.
     -Bem. No esquea que tem que consertar sua prxima entrevista antes deste fim de semana. Se quer posso tomar nota agora mesmo. Ou pode chamar em outro momento.
     Outro de meus ms diz a quantas onas equivalem trs quartos de taa; a quantos milmetros cbicos uma colher sopeira; e a quantas colheradas sopeiras um tero
de taa. Pareceu-me que me seria muito til, mas apenas o uso.
     -Oua...
     Pendurei, mas no podia soltar o auricular. Sobrepu-me, abri a porta traseira e segui o rudo da tocha do Henry -falncia, falncia-, que estilhaava o frio crepsculo
como se partisse gelo. Utiliza um velho toco de olmo atrs da garagem para partir a lenha. eu adoro olh-lo enquanto levanta os pesados troncos de carvalho que
parecem impenetrveis, coloca-os no toco, retrocede um passo com a tocha e os parte de um solo e limpo talho.
     No me ouviu. Mas  lombriga se ergueu e me sorriu. Logo assentiu com a cabea sem mover do stio com a tocha na mo direita.
     -chamaram.
     Ento deixou cair a tocha e me aproximou esmagando lascas e fragmentos de casca com suas acinzentadas botas de trabalho.
     -por que no te puseste a jaqueta? Te vais gelar aqui fora.
     Voltei a v-lo tudo com nitidez. P de barro nos negruzcos painis de cristal da janela da garagem; lhes rode escuros entre os tijolos, onde havia
saltado o cimento; uma mancha de caf no peitilho da jaqueta a quadros do Henry.
     -No me fiquei grvida. No funcionou.
     -L, carinho... -disse alargando a mo para me tocar o cotovelo. Mas, ao ver que eu fazia uma careta e o fugia retirou a mo.
     -acabou-se.
     -O que?
     -J so quatro vezes. J est bem. No voltarei a faz-lo.
     Pensei que assentiria com a cabea, entristecido, fazendo-se carrego, que logo me abraaria e me diria que era a deciso acertada. Mas se limitou a repetir
"acabou-se", quase mais para si que para que eu o ouvisse. Suava-lhe a frente. Olhou aos olhos para assegurar-se de que me encontrava bem. Eu me sentia diminuda,
quase insignificante e, sobre tudo, estava farta.
     -De acordo -disse tragando saliva-. Est decidida?
     -Sim.
     Deu meia volta para o toco e comeou a lanar troncos ao carrinho de mo. Aguardei enquanto se agachava uma e outra vez, lanando os troncos com ambas as mos
sem falhar nem uma vez. Fixei-me em sua expresso, embora tambm notei que tratava de que no lhe visse a cara. Estava chorando.
     A surpresa me paralisou. Comecei a sentir um estranho calor por todo meu corpo que parecia fluir de meu peito.
     -Henry?
     fui tocar lhe o brao e fiquei com a manga de sua jaqueta entre os dedos. Segui atirando at que no teve mais remedeio que me olhar. As lgrimas escorregavam
por suas bochechas.
     -Se te parecer mal voltarei a ir, carinho. Voltarei a tent-lo.
     -No, no quero que volte a tent-lo, L. Quero que o deixe correr. Estou...  que ...
     -Triste.
     desabotoou-se os botes de sua jaqueta e me atraiu para si. Pus minhas mos em suas midas bochechas. Era a primeira vez que via chorar ao Henry. Enterneceu-me.
     -Sinto-o muitssimo.
     -No diga isso...
     -Muitssimo, Henry.
     -Tranqila... -disse ele me estreitando com mais fora entre seus braos-. Quero-te, L.
     -Sei. E o sinto muito -insisti. E fui ento eu quem ps-se a chorar.
     Mas pensei que acaso nosso pranto servisse para mitigar a dor. J sei que no tinha feito mais que comear. A desesperana  s vezes uma bno, disse-me
uma vez Isabel, e agora compreendo que tinha razo.
     -Vamos dentro. Esquentaremo-nos -pinjente.
     E assim  como comeou. Henry e eu comeamos a cicatrizar a ferida.
     A primeiros de fevereiro, por fim nos reunimos as Quatro Obrigado em casa da Isabel. Digo por fim porque nas duas ltimas semanas Isabel tinha cancelado a reunio
no ltimo momento (a primeira porque disse estar muito cansada e a segunda porque tinha que ir ao consultrio a ltima hora da tarde). Mas quando a chamei
para confirmar a da quinta-feira pela tarde me disse que sim.
     -Podem vir. Estou muito impaciente por lhes ver.
     De caminho a seu apartamento, fui por Connecticut Avenue detrs de um station wagon Subaru. Cada vez que parava em um semforo em vermelho, entre Vo Ness e o zoolgico,
duas meninas pequenas me saudavam do carro de diante. As primeiras vezes correspondi  saudao e inclusive lhes lancei um beijo; mas a cada parada se comportavam
de um modo mais amalucado e terminei por pr cara de adulto para que deixassem de fazer tolices. Teriam seis ou sete anos e deduzi que no eram irms a no ser amigas.
Uma era loira e a outra moria. Apertavam o nariz contra o cristal, tiravam-me a lngua e logo se escondiam e voltavam a reaparecer para me dar um susto. Suas risadas
e seus gritos deveram passar-se da raia porque de repente olharam para frente, muito srias; a mulher que ia ao volante devia as haver chamado  ordem.
A partir de ento as meninas s me olharam de vez em quando e me sorriram um par de vezes, com o que deviam supor era expresso de cumplicidade. Mas ao
girar seu carro no Woodley Street as perdi de vista.
     Ao cabo de vrias mas ca na conta: no me tinha posto-se a chorar. At no faz muito, me teriam saltado as lgrimas. De modo que suponho que devia
de me haver forjado uma couraa. Henry e eu no temos filhos. s vezes o digo em voz alta: "No temos filhos."  melhor confrontar a realidade. Ao po, po e ao vinho,
veio.
     Contarei-lhes um segredo: pensei chamar o doutor Greenburg, o psiclogo do Rudy, para que me visitasse. Seguro que meus amigas se teriam ficado estupefatas.
Embora agora esteja um pouco passado de moda, tambm acredito no ideal de ser auto-suficiente, na responsabilidade individual da prpria felicidade. No  que me parea
mau recorrer ao conselho do psiclogo (no duraria muito em minha profisso se no acreditasse assim) mas acredito que no  para mim. Digamos que  coisa de famlia, se o
preferem: os Pavlik no vo ao psiclogo. Alm disso, como ia explicar se o a minha me?
     Em casa da Isabel, abriu Emma.
     -Onde est? -perguntei-lhe em voz baixa-. Encontra-se bem?
     -Sim, est na cozinha. Entra.
     Isabel estava sentada  mesa. No se levantou mas me tendeu os braos e eu a estreitei.
     -Como te encontra? Tem um aspecto magnfico.
     Era verdade, mas tambm a notei frgil e cansada. O pulver e os folgadas calas faziam que seu corpo parecesse mais mido, e tambm a peruca resultava
muito grande para sua cara, mais ossuda que antes. Pensei que era melhor que no a pusesse. Preferia v-la com o cabelo talhado a escova, embora o deixasse hirsuto
e clareasse um pouco.
     Disse o que dizia sempre, que estava bem. Deu-me uns tapinhas no ombro e me sorriu com tanta ternura que me fez um n na garganta.
     -O que leva na bolsa? -perguntou-me.
     -O jantar. Fez o arroz?
     Embora ela tinha insistido em que nos reunssemos em sua casa, no deixamos que fizesse nada, salvo o arroz macrobitico, o novo ingrediente de sua dieta atual.
     -Tem-no feito Kirby -disse ela-. Agora no est, tinha que atuar em uma obra esta noite. H-me dito que lhes transmita seu carinho.
     - um grande tipo -disse Emma enquanto preparava a salada-. No muitos homens "transmitem seu carinho". Devem acreditar que  pouco varonil.
     - verdade -pinjente-. O mais que faz Henry  dar "lembranas". O que  isso, Emma? Espinafres?
     -Sim.
     -Isabel no pode comer espinafres.
     -OH, sinto muito.
     -Bom, isso  em teoria -disse Isabel encolhendo-se de ombros.
     -Tambm tenho chicria -disse Emma  defensiva-. Disso pode comer, tem muito yang; em troca o ruibarbo  totalmente yin, sabia? De modo que
no o coma.
     -Quanto sabe! -ironizou Isabel.
     Todas tnhamos comprado livros de cozinha macrobitica, e nos alternvamos para levar alguns pratos a Isabel vrias noites por semana. De passagem, libervamos
um pouco ao Kirby das tarefas culinrias.
     -Rudy se est atrasando -assinalou Emma-. Para variar. Ao melhor nem sequer vem.
     -falastes com ela?
     -A verdade  que no -disse Isabel-. Vem para ver-me de vez em quando, mas nunca fica. Alm disso, no me conta nada.
     - imprprio dela -murmurou Emma.
     Isabel e eu nos olhamos. Estava claro que o que ocorresse ao Rudy preocupava muito a Emma. At ento, que eu soubesse, sempre o tinham contado tudo.
No podia evitar pensar que Rudy no s se afastou do grupo mas tambm tambm da Emma. Certamente, Rudy tinha problemas. Mas quem no os tem? Fosse o que
fosse -porque o certo era que eu no tinha nem idia- no podia ser pior que o estado em que se encontrava Isabel. Nunca tnhamos passado por um momento que exigisse
tanta unio. No devamos nos compadecer ento pelas prprias neurose.
     No o expressei em voz alta,  obvio. Teria infringido uma de nossas regras, uma regra tcita que nem sequer tnhamos comentado: se uma disser algo negativo
a respeito de outra no grupo (que a atitude do Rudy ultimamente era "imprpria dela", por exemplo) no ter que jogar lenha ao fogo com outro comentrio negativo.
Porque isso desequilibra a balana, e seria tanto como conspirar. No ocorreu nunca, embora acredite que a regra se flexibilizou um pouco durante a poca em que fomos
cinco. Mas, como digo, nunca ocorreu. Entretanto, bem pensado, acredito que ainda fomos mais homogneas quando fomos cinco (s quatro de sempre, refiro-me),
como se tivssemos fechado filas para lhe enviar uma mensagem a quinta pobre pessoa, a transeunte: que faria melhor em no criticar a nenhuma de ns ante as
demais.
     -Pelo menos no bebe -disse Emma, como se queria compensar seu negativo comentrio anterior-, que saibamos... Embora, como vamos ou seja o?
     -No  feliz, Emma -disse Isabel.
     -J sei -assentiu Emma, que pulverizava ritmicamente um ramito de brcolis-. E quem  feliz? Conhece algum que o seja?
     -Que tal vai seu livro, Emma? -perguntou Isabel, me olhando de uma maneira que me fez temer que meu comentrio no tinha sido muito oportuno.
     -Atirei-o ao lixo -respondeu Emma com expresso de chateio.
     -A novela de mistrio?
     -Era de mistrio? Pois obrigado por me dizer isso porque nunca o tive claro.
     -Tem outra entre mos? -perguntou Isabel.
     -No sei, possivelmente uma histria de amor.
     Pus-se a rir.
     -Voc? -exclamei, embora em seguida reparei em que Emma no brincava-. Perdoa -acrescentei-.  que pensei que possivelmente voc seja muito...
     -O que? Muito o que?
     -Cnica, possivelmente. Para escrever uma histria de amor, refiro-me. Mas o que vou ou seja eu?
     -Sim, isso, o que vai ou seja voc.
     -No acredito que seja muito cnica -disse Isabel em tom reflexivo-. Em realidade no acredito que seja absolutamente cnica.
     Emma se ruborizou.
     Ao cabo de um momento, surpreendeu-me ao me dar um golpe com o quadril enquanto seguamos cortando os ingredientes da salada.
     -Agora te toca ti. Como vo suas coisas, L-lee? -perguntou-me.
     "L-lee"  um apelativo carinhoso que Emma utiliza comigo em muito estranhas ocasies, pelo general quando bebeu muito, ou quando criar ter ferido meus
sentimentos.
     -OH! -exclamei-. Pois estou perfeitamente.
     -De verdade?
     -De verdade -respondi-. Basicamente porque me sinto aliviada.
     Ento lhes contei o das duas meninas do carro e que no me tinha posto-se a chorar.
     -E est convencida de ter feito o mais conveniente? Eu acredito que sim o tem feito, a verdade -disse Emma-. Acredito de verdade, o nico que me preocupa  que
logo te arrependa e o lamente.
     -Bom, tentamo-lo tudo -disse-me, consciente de que h lamentaes e lamentaes-. J no podemos fazer nada mais.
     -Exato. De modo que agora deve te esquecer disso por completo.
     -S ficava recorrer a uma doadora de vulo.
     -Mas se houverem dito basta... pois basta.
     -Isso pensamos ns. Acreditam que chegou o momento de renunciar.
     -E como o encaixou Henry?
     -Tambm se sente melhor. Os dois estamos melhor agora -pinjente rendo-. Comeamos a recordar por que ns gostamos ao nos conhecer.
     -Ah, pois me alegro -disse Emma me dando com seu ombro (outro gesto afetuoso pouco comum nela)-. Lhe d lembranas a suas pedaas.
     -Esperamos ao Rudy, ou comeo a preparar j o primeiro prato? -pinjente, porque j o tinha tudo a ponto para saltear o panach de cabaa, nabos, raiz de ltus
e gros-de-bico (no sabe to mal como parece).
     Isabel disse "Esperamos" quase ao mesmo tempo que Emma dizia "Comea".
     -Esperarei uns minutos mais -pinjente.
     Sentei-me frente a Emma e Isabel com uma taa de vinho para mim e uma taa de ch para a Isabel (Kirby prepara uns quantos litros todas as manhs, e Isabel assegura
que lhe est indo muito bem).
     -Que tal vai sua vida amorosa? -perguntei a Emma, embora me senti um pouco coibida por tirar reluzir um tema to frvolo.
     Provavelmente tnhamos que ter falado de temas mais srios, como o significado da vida. Mas o certo  que nunca o fazamos. Falvamos dos temas
de sempre. A Isabel no parecia lhe importar. Leva uma temporada sem falar muito, mas nos escuta com um sorriso agradado e aprazvel quando falamos. Embora
s vezes no estou muito segura de que empreste verdadeira ateno, porque parece sumida em uma ensoacin, como se s estivesse atenta ao som de nossas vozes mas
no a seu significado.
     -Minha vida amorosa? -exclamou Emma deixando escorregar os ombros pelo respaldo da cadeira-.  um oximoron.
     Emma ia vestida aquela noite totalmente de negro: jeans, pulver e botas. Espero que se vestisse de negro s para variar, porque no  sua cor.
     -Acreditava que estava falando com o da imobiliria.
     -Com o Stuart? J no saio com ele.
     -E o advogado? Bill, ou Willy...
     -chama-se Phil. No funcionou.
     Suspirei.
     -Pois no sei o que vou fazer -pinjente olhando-a risonha-. J faz um ano que me fiquei sem homens para te colocar.
     -Melhor estar sozinha que mal acompanhada.
     -Ingrata.
     -Alcahuetilla -disse-me. No era precisamente um galanteio. I'ouro j estava acostumada a seu lxico.
     -Ou seja que agora no sai com ningum, no? -disse Isabel, em um tom mais ligeiro. Embora no sei por que.
     Deslizou o ndice pelo dorso da mo da Emma como lhe dizendo: sejamos srias por um momento. Desviei o olhar ao ver sua ossuda boneca aparecer da manga
de seu sudadera. Tinha a pele muito branca e estava plida como a cera.
     -Est segura, Emma, de que no sai com ningum? -insistiu Isabel.
     Emma a olhou alarmada, como se temesse que Isabel soubesse algo que ela no queria que soubesse. Logo agachou a cabea e olhou a taa de vinho que tinha deixado
em equilbrio sobre seu estmago. Como no respondeu, decidi-me a perguntar-lhe mais diretamente.
     -Que ocorreu com aquele casado?
     -Aquele de quem pinjente que no queria falar? -espetou-me Emma.
     -Bom, perdoa.
     -OH, L, perdoa voc -disse sonrindome, para tratar de me fazer sorrir-. Estou muito suscetvel.  que o dessa pessoa... -acrescentou meneando a cabea.
     -Mas disso faz meses; foi passada primavera, Ainda no o superaste? Pois o sinto, Emma. No sabia. Tinha que me haver isso dito.
     Porque o certo era que jamais nos havia dito nem sequer como se chamava.
     -Possivelmente tinha que haver lhes comentado isso -disse Emma olhando a Isabel-. Mas precisamente porque est casado me resulta um pouco violento falar disso.
     -Mas se no terem feito nada -assinalei eu-. Ou sim ho...?
     -No, absolutamente -atalhou-me Emma, embora no parecia muito satisfeita de que no tivesse ocorrido nada.
     -De maneira que ainda est apaixonada por ele, no  assim?
     -Sim, mas no quero falar disso. Como nada vai trocar, no tem sentido coment-lo. No crie? -respondeu lhe dirigindo a Isabel um olhar inquisitivo-.
No vais dizer me nada que me sirva de algo? -acrescentou com um sotaque de ironia mas com expresso esperanada.
     Isabel apertou carinhosamente a mo a Emma.
     -Mida confuso -disse-lhe quedamente-. Mas real como a vida mesma.
     -Sim -assentiu Emma esforando-se por sorrir-. Meu destino.
     -Pode que ainda chegue a funcionar.
     -Duvido-o. Acredito que  mais saudvel reconhecer que perdi.
     Estvamos sentadas em crculo, melanclicas e em silncio.
     -por que nos estar ocorrendo todo o mau ao mesmo tempo? -pinjente de uma vez que, ao igual a Emma, olhava a Isabel como se ela tivesse a resposta-. Ser
o carma? Algum pecado coletivo que cometemos faz muito tempo e que no recordamos?
     -J sei! -exclamou Emma risonha-.  por haver mentido a aquela (j no me lembro como se chama), aquela que nos trouxe voc, L, e lhe dissemos que o
grupo ia desfazer se, s para poder... nos desfazer dela.
     Isabel se ps-se a rir.
     -No acredito que cometssemos nenhum pecado. O carma (caso de existir tal coisa) -disse Isabel para tranqilizar a conscincia da Emma- no  um castigo,  uma
lio. E sempre temos alguma que aprender. Se no nesta vida em... -Deixou a frase pela metade e nos sorriu.
     -J. O currculum krmico -ironizou Emma.
     -Exato.
     -Pois eu no gosto -pinjente-. So lies horrveis, que preferiria no aprender nunca.
     Isabel se limitou a sorrir, mas Emma ps cara de circunstncias.
     -Opino como voc -disse.
     E nesse momento me senti mais perto dela, mais perto que da Isabel.
     Ao final, optamos por jantar sem o Rudy. Mas justo quando estava salteando o panach soou o timbre da porta.
     -A boas horas! -exclamou Emma resmungando mas aliviada (o notei)-. J abro eu.
     Enquanto o azeite chispava na frigideira a ouvi exclamar: "OH, Meu deus! O que ocorreu?" E me dava a volta.
     Isabel se reanimou na cadeira e olhou para o salo, assustada.
     Rudy apareceu pelo vo da porta da cozinha seguida da Emma. Apaguei o fogo e corri para ela.
     -Que passou, Rudy? tiveste um acidente?
     -O que?
     Olhou-me chorosa. Estava vermelha como um tomate e soluava.
     -Que o que te passou! -urgiu-a Emma lhe atirando da manga do casaco salpicado de neve.
     Isabel se levantou e foi tambm para ela.
     -Estou bem. No morreu ningum nem resultou ningum ferido -disse ao fim Rudy, para alvio de todas.
     -Sente-se -ordenou-lhe Emma de uma vez que lhe tirava o casaco e lhe aproximava uma cadeira-. nos diga o que passou. Mas... tiveste um acidente, no?
     -Agora mesmo. Justo diante de sua casa.
     -De minha casa? -exclamou Emma surpreendida.
     -Tinha esquecido que tnhamos a reunio. sa a passear com o carro e dei voltas e mais voltas at que decidi vir a sua casa, e ao tentar
estacionar golpeei uma boca de incndios. Mas  igual, era o BMW do Curtis -explicou alcanando-a taa de vinho da Emma e bebendo dois largos goles.
     Olhamo-nos um tanto perplexas. Estaria bbada? Agarrei uma caixa de kleenex que havia no batente e me sentei frente a ela, que tirou trs lenos e afundou
a cara neles. Tinha um aspecto horrvel: desgrenhada, com os olhos avermelhados e exagerados. Fez uma bola com os lenos e tragou saliva.
     -Bom. Vos conto o que passou -disse-. Curtis me h dito que tem cncer e que vai morrer.
     -No!! -gritei.
     Emma ficou sem flego.
     -OH, Meu deus! meu deus!! -exclamou Isabel deixando cair para o respaldo da cadeira.
     -No, Isabel -disse Rudy tomando sua mo e apertando-lhe com fora-. No, no tem cncer. Est bem.
     -Mas! OH, Deus! -exclamou Isabel olhando-a, desconcertada.
     Rudy se ps-se a rir e lhe soltou a mo. Sua risada soou to estranha que me fez estremecer.
     -Deixei-o. Posso ficar contigo?
     -Que o h o que...? -disse Emma atnita.
     -Pelo amor de Deus, Rudy! -disse Isabel-. nos diga o que aconteceu de verdade!
     Emma e eu nos agachamos e ficamos em cuclillas, uma a cada lado do Rudy, que soluou e voltou a tornar-se a rir, embora de um modo mais natural esta vez.
     -Dou graas a Deus por lhes ter a vocs... -disse soando-se outra vez-. Vero, vos conto: em novembro passado, Curtis me disse que lhe tinham diagnosticado
uma leucemia linfoctica crnica, uma enfermidade que no tem padre, mas que no sempre  mortal. Explicou-me que, em seu caso, a enfermidade avanava com lentido
e que ainda podia viver entre cinco e dez anos e que, para ento, acaso houvesse padre. Estava muito esperanado.
     -Um momento. Mas h dito que no tem leucemia -disse eu para esclarec-lo-. Que no a tem...
     -No, no a tem.
     -Ter que joderse! -exclamou Emma levando a mo  frente e olhando para cima como se clamasse ao cu..
     -sentia saudades que fosse to poucas vezes ao mdico e que nunca me deixasse acompanh-lo -explicou-nos Rudy-. Segundo ele, era para no me fazer passar um mau gole.
Tomava umas plulas todas as manhs, mas isso era tudo -acrescentou nos olhando com expresso de impotncia-. Acredito que eram vitaminas.
     -Santo Deus!
     -me parecia que estava bem e com bom nimo. Pensei que estaria tomando Prozac ou o que sei eu, inclusive speed ou um pouco parecido, para no cair na depresso.
de vez em quando me dizia que se sentia dbil e que se enjoava porque tinha poucos glbulos brancos, e lembrana que uma vez no cinema via dobro.
     -Que via dobro? A leucemia no provoca que se veja dobro! -exclamou Emma.
     A incredulidade da Emma nos fez rir a todas, mas de momento a histria no tinha nada de divertida, nem me pareceu que pudesse o ter mais adiante.
     -Contou-me que, segundo os mdicos, seus sintomas eram normais, que teria crise de vez em quando, e que no devia me preocupar. Mas agora caio em que s
tinha crise quando brigvamos. Bom, no eram realmente briga a no ser discusses filando no conseguia sair-se com a sua em algo. Ou quando eu lhe rogava que
pelo menos me deixasse dizer-lhe ao Eric, e a vocs, porque no queria que lhes dissesse isso. Me fez prometer isso...
     Rudy se interrompeu e voltou a tornar-se a chorar.
     -OH, Rudy... -exclamou Emma rodeando-a com seus braos-. Vamos, vamos, no importa, perdo-te -acrescentou. E ento reparei em que isso era exatamente o que queria
Rudy: que a perdossemos.
     -De modo que fui ver o doutor Slater -prosseguiu Rudy-, nosso mdico de cabeceira. Pressentia que Curtis no me contava toda a verdade, e queria sab-la, por
dura que fosse. Pensei que podia ser pior do que Curtis me havia dito e que por isso se mostrava to reservado, para no me fazer sofrer. meu deus! -exclamou levando-se
as mos s bochechas.
     -Tenha -disse Emma lhe servindo mais vinho e lhe aproximando a taa.
     Mas Rudy se absteve de beber e nos seguiu contando isso Pois, como digo, fui ver o doutor Slater, quer dizer, fui esta tarde, mas  que tenho a sensao
de que faz semanas.
     Pode que algum dia me ria de tudo isto, ao recordar a cara que ps Slater ao lhe perguntar quanto tempo ficava de vida ao Curtis.
     Emma soprou e logo ps-se a rir (todas pomos-se a rir, inclusive a prpria Rudy, embora com cara de espanto).
     -E Slater me disse que no tinha nem idia do que estava falando. Que lenta e estpida sou! Se at me pus a discutir com ele!
     -No... -disse Isabel, mas Rudy a atalhou com um gesto.
     -Espera, espera, que a coisa  pior -disse Rudy. Brilhavam-lhe os olhos. Torceu o gesto com um sorriso amargo e acrescentou-: Preparadas? Sabem o que me h
respondido quando lhe disse que deixei de tentar ficar grvida ao me dizer Curtis que tinha leucemia? Sabem o que me disse?
     -O que?
     -Que Curtis se feito uma vasectomia.
     -No!
     -O ano passado. Recordam que lhes comentei que durante todo dezembro no fizemos o amor nenhuma s vez?
     -Fui-dijo Emma.
     -Pois foi por isso! Porque lhe estava cicatrizando! E justo depois vai e me diz que queria que tivssemos um filho!
     Rudy se recostou no respaldo para tomar flego, visivelmente aturdida. Mas j no chorava. Dava a impresso de haver ficado inconsciente e comear a
recuperar-se.
     Isabel e eu estvamos muito atnitas para falar, mas Emma soltou uma enxurrada de juramentos o bastante larga para nos deixar a gosto a todas.
     -Pergunto-me o que pensava esse bode que ia fazer quando lhe acabassem os cinco anos de vida. Isso eu gostaria de saber . E como acreditava que ia poder
lhe ocultar uma vasectomia a sua prpria esposa, que em cima tem o mesmo mdico de cabeceira? No lhe ocorreu pensar que algum dia podia lhe perguntar ao doutor Slater
por que no ficava grvida? A isso lhe chama ser nscio!
     -E como reagiu quando lhe disse que sabia? -atravessou Isabel-. Como se defendeu?
     Rudy a olhou aos olhos.
     -Ah, pois...  que ainda no falei com ele. S lhe tenho escrito uma nota e me parti. Tinha que ter feito a mala, mas nem nisso pensei. Hei-me
largado com seu BMW -acrescentou contendo uma risada mesclada com soluos.
     -Isso lhe arder -disse Emma.
     Todas estvamos decepcionadas mas nenhuma o dissemos. Voltamos a comentar o ocorrido desde o comeo, os incrveis detalhes do engano de Curtem e de
a credulidade do Rudy; o muito que tinha sofrido durante os trs ltimos meses.
     Ao cabo de um momento Rudy deixou de soluar e tremer. Fiz-lhe comer um pouco de po, para que tivesse no estmago algo mais que veio, e em seguida recuperou o
cor, porque se tinha ficado lvida. Mas seguia tendo os olhos irritados e chorosos.
     -Acredito que deveria voltar para casa, Rudy -disse Isabel, que levava um momento sem falar.
     O comentrio nos surpreendeu e, depois de um tenso silncio, comeamos a falar todas de uma vez.
     -Nem em brincadeira! Deixar ao Curtis  o mais sensato que tem feito em muitos anos! Est louca? Como vai voltar!
     -O que vais fazer se no? -atalhou-a Isabel-. Ficar com a Emma uma temporada, j sei. Mas e depois o que?
     -Pois me buscarei um apartamento.
     -Com o que?
     -Curtis.... -comeou Rudy.
     -Eu tenho dinheiro -disse Emma em tom beligerante.
     -Eu tambm -pinjente, embora em seguida comecei a pensar se... enfim.
     Permanecemos em silncio uns momentos.
     -No se trata s de dinheiro -disse Isabel em tom paciente.
     -J, porque ficar ele, no? -aventurou Emma-. ficar com a casa, com os cartes de crdito, com todas suas aes.... At com sua aplice de
seguro!
     Temamo-nos que assim fosse, como ocorreu a Isabel.
     -Como mnimo o tentar, e com vantagem -pinjente furiosa-.  um bode de advogado.
     ficaram to boquiabertas que temi que se fossem dar com o queixo na mesa. No  que eu seja incapaz de soltar um juramento mas sim, a diferena
da maioria, reservo-os para quando a ocasio o merece.
     -Mierda! -exclamou Rudy ao reparar em que o fato de ser advogado dava ao Curtis uma grande vantagem.
     -Alm disso, ser voc quem o tenha abandonado -recordou-lhe Emma.
     -No se trata s de dinheiro -repetiu Isabel.
     -Do que se trata ento?
     Isabel deslizou dois dedos pelo bordo de sua taa de ch, j vazia, descrevendo um semicrculo.
     -Sempre lamentei ter sido eu quem abandonasse ao Gary; no me haver divorciado, a no ser hav-lo deixado. Eu era a parte ofendida e me deu uma pequena satisfao
partir e deix-lo sozinho. Mas ele me traiu e nunca o confrontou, nem sequer o reconheceu, pelo menos at a data.  algo  margem do fato de
que eu o tenha perdoado.
     -J. Deu-te todo um curso no programa de estudos krmicas... -ironizou Emma.
     -Certo -disse ao ver que Isabel olhava a Emma com expresso de recriminao-. Enganou-te, Isabel, e nunca o pagou.
     -Sim -disse Emma-, esse bode hijoputa te mentia, enganava-te, atirava-se a toda a que se emprestava e se saiu com a sua.
     -Como Curtis -pinjente.
     -No  um caso comparvel -disse Rudy.
     - claro que sim que sim.
     -O que tem feito Curtis  pior -afirmou Emma olhando a Isabel-. Em certo modo, pelo menos, no lhes parece? De que est doente no me cabe dvida, mas nenhuma
enfermidade mental pode eximir o do que tem feito ao Rudy. Gary pensava com a franga e mentia. E oxal se apodrea no inferno, mas no era uma pessoa malvada.
     -Tampouco Curtis... No. No vou defender o.
     -Mais te vale -advertiu-lhe Emma.
     -Bom -disse Isabel-, o que quis dizer antes  que Gary traiu minha confiana. No quero dizer que "pecasse".
     -Que ento?, que no vivia de acordo a seu potencial humano?, que no estava suficientemente automvel atualizado? -disse Emma parafraseando as muletillas de
moda entre os adeptos a New Age.
     -Pois olhe, sim, obrigado -disse Isabel com certo retintn-, chama-o como quer. O caso  que nunca teve que confront-lo, e tinha que ter pago por isso.
E outro tanto digo no caso do Curtis.
     -Nisso tem toda a razo.
     -Mas no por vingana -matizou Isabel ao ver o fulgor do olhar da Emma-, a no ser para equilibrar...
     -O que voc diga.
     -Tem razo, Rudy -pinjente-. Por muitssimos motivos, o que tem que fazer  que ele seja quem parta. Est agora em casa?
     -No, est de viagem. Volta esta noite.
     -A que hora?
     -Tarde.
     Ficamos pensativas.
     -Tenho-lhe um pouco de medo -disse Rudy com voz fica.
     Isabel e eu nos olhamos um tanto inquietas.
     -por que? -perguntei.
     -Nunca me pegou nem nada parecido, salvo uma vez, mas disso faz muito tempo.  mais... no sei, pode que eu seja...
     Reanimamo-nos nas cadeiras, espectadores. Rudy fechou os olhos.
     -OH Deus, me escutem -prosseguiu-. No sei como o consegue, como consegue que faa o que ele quer. No  com violncia. Mas lhe tenho medo. Assusta-me. E a
verdade  que me lhes envergonha dizer isso no lleg a mi torrente sanguneo hasta despus de los veintisis aos). Es asombroso que an siga viva. Nadie que me conozca ahora, salvo Curtis, sabe cmo era yo
     -nos diga a verdade, Rudy -urgi-a posando minha mo na sua-. Ainda o quer?
     -No sei, L. No deveria -disse um tanto ruborizada-. Acredito que o amor que possa ficar agoniza. Sinto muito, como se fosse ter um aborto.
     -Acompanharei a casa se quiser -ofereceu-se Emma-. Porque a mim esse bode no assusta.
     -Eu tambm te acompanharei -pinjente, embora em seguida pensei que primeiro chamaria o Henry.
     -Iremos todas -disse Isabel, que se apoiou no fortificao e se levantou trabalhosamente-. Mas ser melhor que vamos em dois carros.
     Olhamo-la perplexas.
     -Porque depois Rudy no vai com a Emma. ficar em sua casa.
Captulo 26
Rudy
     Meus ltimos anos de estudante universitria foram anos loucos (no os primeiros porque, pela razo que fosse, todo o veneno que ingeri durante minha infncia
no chegou a minha corrente sangnea at depois dos vinte e seis anos).  assombroso que ainda siga viva. Ningum que me conhea agora, salvo Curtis, sabe como era eu
ento (ainda no conhecia a Emma, e nunca o contei, pelo menos no tudo). No tive mais remedeio que me jogar a rir quando L nos contou que uma vez teve um
ligue "de uma noite". Enterneceu-me ouvir o contar entre desafiante e envergonhada. Oxal tivesse eu um dlar por cada ligue de uma noite! De uma noite? E de uma
hora!
      curioso que ningum me tivesse por uma calentorra naqueles tempos (ou ao menos isso acredito). Nunca tive fama de putn verbenero, como dizamos ento. Possivelmente
seja por minha aparncia (tenho aspecto de pessoa respeitvel), um dom herdado de minha me, um aspecto que projeta essa dignidade to caracterstica de Nova a Inglaterra
em que pese a seu caos emocional. Minha me... -tratem de imaginar ao Katherine Hepburn em um papel para a Olivia do Havilland-. No podem, claro. Pois a est a essncia.
     Tampouco era que me passasse s com o sexo, embora o excesso foi do mais... pomposo. Deitava-me com tipos degenerados, violentos, casados, loucos. Utilizava
o sexo como um analgsico (e, alm disso, a conscincia, porque entendia perfeitamente a razo teraputica). Mas o fazia de todas maneiras. Ajudava-me o fato de
que os homens me desejassem de verdade e, portanto, podia me atirar a quem quisesse. Nunca me expus saber estar sozinha, no me entregar de qualquer jeito. E, como hei
dito, no se tratava s de sexo mas tambm de drogas e lcool. Eu estava em tratamento psicolgico (dos treze anos), mas o psiquiatra que tinha por
ento no Durham era um incompetente. Tudo o que sabia fazer era receitar psicofrmacos e, portanto, eu tomava um monto de drogas legais, alm das ilegais.
     O que eu fazia era ir a toda velocidade: utilizar as receitas para combater o macaco, o sexo para me distrair, o lcool para no pensar, todo isso para escapar
ao crescente terror de que me tinha convertido, ou no demoraria para me converter, em uma esquizofrnica ou uma maniaco depressiva em toda regra. No se tratava de uma apreenso
paranoide, porque ambas as enfermidades vo da mo. Mas est claro que tinha eleito um meio do mais disparatado para evitar a loucura. Estou convencida de
isso, mas a verdade  que no troquei muito. Eric diz que sim, mas no lhe acredito. Meu maior temor... enfim, no quero nem pens-lo. Mas o caso  que  sempre
o mesmo. Em realidade no trocou nada.
     Vero como conheci curtem. Por ento, saa com um tal Jean-Etienne Leutze, um suo que dizia estudar arte dramtica no Duke, embora o que de verdade
fazia era matar-se a base de lcool. E, como  natural, senti-me atrada por ele. Fomos iguais. Lanado-los" nos chamavam nossos amigos comuns, mas
no sabiam nem a metade da metade. Uma noite Jean-Etienne e eu tivemos uma briga em seu desvencilhado e sujo apartamento de uma s pea, de um bairro de estudantes
ruinoso e colorista bastante longe do campus. At aquela noite tnhamos sabido estar  altura de nossas brigas, realmente imaginativos com os insultos
que nos intercambivamos e os objetos que nos lanvamos. Naquelas cenas me sentia exultante, como se abrisse as janelas de par em par para que entrasse ar
fresco, embora fosse um ar perigoso. Acreditava que Jean-Etienne era o homem perfeito para mim, pelo menos ali e naqueles momentos.
     Mas no podia durar. A violncia era cada vez maior. Uma noite me pegou uma surra e me jogou de seu apartamento, literalmente (arrastou-me at a porta e
lanou-me escada abaixo at o seguinte patamar de um empurro). No me feriu, no me rompeu nenhum osso, mas eu estava muito bbada e quase nua. No levava
mais que as calcinhas.
     Curtem vivia ao lado. Eu o tinha visto um par de vezes, s de passada, mas o suficiente para pensar: Voc no encaixa nestes bairros. Tinha um aspecto muito
pulcro e digno. Era loiro, de olhos azuis, srio, e sempre levava livros ou uma maleta. Ele tambm tinha reparado em mim, embora eu pensava que se devia a nos haver
ouvido parede de por meio (fazendo o amor ou nos gritando) e que devia sentir curiosidade por saber quem era a degenerada companheira do Jean-Etienne.
     Saiu de seu apartamento e me encontrou acurrucada no patamar, semidesnuda e muito confusa. Era mais de meia-noite, mas Curtis estava virtualmente vestido de
rua, com calas de veludo cotel, plo e sapatilhas (porque estava estudando). Ao me olhar, me tocar, me ajudar a me levantar e entrar em seu apartamento, em nenhum momento
pareceu-me que me olhasse com interesse sexual. Aquilo era novo para mim. E atrativo.  um dom que tem e que utilizou com muita eficcia inumerveis vezes.
     Mas aquela noite foi uma novidade para mim, e me penetrei por ele imediatamente.
     Trouxe-me seu penhoar e me preparou caf para que me limpasse. Lembrana que quis chamar  polcia e isso me comoveu, fez que me sentisse agradecida como
se acabasse de me topar com um cavalheiro andante. Estivemos horas falando ou, melhor dizendo, estive falando eu e ele me escutou absorto (algo que tambm me resultou
muito atraente).
     Por ento estava mais magro e era mais ingnuo e menos sabihondo, mas j tinha esse autocontrol que tanto me atraa, precisamente porque eu no tinha nenhum.
     Quando chegou a hora de deitar-se dava por sentado que dormiramos juntos. Mas me surpreendeu tirando lenis, uma manta e um travesseiro e me agasalhando do modo
mais solcito no sof. Nem sequer me beijou.
     Pela manh despertei eu primeiro. Tomei banho em seu imaculado quarto de banho -muito distinto do do Jean-Etienne, que parecia um asco- e logo fui a seu
dormitrio e me meti na cama a seu lado. Essa era a idia que eu tinha de um presente de agradecimento, um pequeno favor por um pequeno favor.
     Mas me rechaou. Desejava-me (dormia nu, de modo que isso era bvio), mas no quis me possuir; e sua maneira de me apartar, sem palavras, sem mais que uma leve
sorriso mas com firmeza, fez que me sentisse envergonhada Y... em seu poder.
     E ento se disparou um crculo vicioso (vejo-o agora com toda claridade) no que eu ofendia e Curtem me perdoava. Demoramos semanas em fazer o amor. Eu
estava frentica, consciente de que era eu quem mais o desejava. E quando o fizemos tive o convencimento de que Curtis as compunha para que o seguisse acreditando
assim. E eu gostava. Entrei no jogo. No demorei para me converter em viciada em seu controle. Era distinto a todos os homens que tinha conhecido. Era uma pessoa de idias
fixas e claras e, a diferena de mim, sabia exatamente o que queria: crescer na poltica. S estudava direito para que lhe servisse de trampolim.
     Nossa relao nunca foi um caminho de rosas, nem sequer ao princpio. De fora nos via como o tpico casal em que o homem mandava e a mulher obedecia.
Mas as coisas no so sempre o que parecem nem to singelas.
     Pouco antes de deixar Durham lhe disse que no queria seguir vivendo com ele, que quando chegssemos a Washington queria meu prprio apartamento. E no o disse porque
queria romper mas sim porque necessita "respirar", como est acostumado a dizer-se. Alm disso, queria frear um pouco o evoluo de nossa relao. Em um estranho momento de lucidez
compreendi que sua atitude possessiva, absorvente, era prejudicial para mim e que aceit-la bordeaba o patolgico.
     Por outra parte, eu no estava preparada para um compromisso total. Seguia necessitando muita autonomia, muita liberdade para me auto-destruir, e no me interessava
a estabilidade que oferecia o lado bom do Curtis ou, melhor dizendo, sim me interessava mas temia que me desse a volta como um meia trs-quartos e me anulasse.
     No podia acreditar o que ocorreu a seguir. Tratou de me dissuadir,  obvio, mostrando-se razovel e metdico como s Curtis sabe fazer. Mas, por uma
vez, mantive-me firme. Replicou burlando-se de mim e me ridicularizando, e isso me resultou mais difcil de encaixar, mas o encaixei. No estava disposta a ceder.
     E ento se deu  bebida.
      o vcio familiar dos Lloyd. Um mau vcio, sem dvida, mas que luxo!, tinha pensado eu sempre, proceder de uma famlia cujo nico vcio fosse a bebida.
Mas Curtis logo que bebia; no mximo uma cerveja os sbados pela tarde ou uma taa de vinho em um restaurante, que quase sempre me terminava eu.
     Curtem tinha que apresentar-se aos exames do Colgio de Advogados de Washington, para poder atuar ante os tribunais em casos de maior quantia (faltavam
s trs semanas), e levava meses encerrado como um monge, estudando. Ao dia seguinte de nosso forte arranca-rabo, pelo de seguir ou no seguir vivendo juntos,
retornei da faculdade (ainda no tinha terminado meu master em histria da arte) e o encontrei sem conhecimento no sof. Pensei que estava doente, em que pese a ver uma
garrafa de usque vazia aparecer entre as almofadas. Quando ca na conta, disse-me que aquilo era imprprio dele, soltei-lhe um rapapolvo, obriguei-o a beber caf
e o levei a ducha.
     No protestou nem disse uma palavra. em que pese a estar como uma Cuba seguia dominando-se. Quando se teve espaoso o bastante para valer-se, trocou-se de roupa e partiu,
sem dizer uma palavra (ter que ver que arma to potente  o silncio). Voltou com cinco garrafas de vodca e, durante os seis dias seguintes, as transportou em seu
dormitrio, encerrado com chave.
     Eu estava frentica.
     Como hei dito, tnhamos muito poucos amigos comuns, e nenhum com quem tivesse bastante confiana. De modo que chamei a seus pais, que vivem no Savannah. Foi
uma conversao ftil e um tanto surrealista, como se tratasse de interessar a um peixe no fato de que uma de suas crias se estava afogando.
     Em certa ocasio, enquanto Curtem estava no quarto de banho, corri ao dormitrio para tratar de lhe tirar sua reserva de lcool. Pensava que se estava matando,
que se estava intoxicando. E a verdade  que assim era, porque tinha um aspecto horrvel. abandonou-se; ia sempre sujo, e isso chamava a ateno em um
homem que tinha sido to pulcro e meticuloso com seu aspecto.
     Mas Curtis me pilhou in fraganti antes de que eu pudesse lhe tirar as garrafas e, por primeira e nica vez, pegou-me. No muito Inerte, porque estava muito bbado,
mas perdi o equilbrio e me fiz um corte na frente ao me golpear com o canto da porta.
     Ao ver o sangue, Curtis se ps-se a chorar. Voltou para quarto de banho e vomitou. Pensei que ento o deixaria, mas voltou cambaleando-se a seu dormitrio e comeou
a beber outra vez.
     De modo que desisti de dissuadi-lo.
     -No vou deixar te -disse-lhe, enquanto chorvamos os duas a lgrima viva-. Procuraremos um apartamento em Washington, um bonito apartamento no Capitol Hill; seremos
ricos e felizes e voc te far famoso; chegar a presidente e eu serei a primeira dama, e sempre estaremos juntos.
     Mas ele no podia deixar de tremer e soluar. Teve umas horrveis arcadas que nunca esquecerei, entre outras coisas porque no tornou a acontecer. Quando se houve
serenado voltou para a normalidade, e de novo se comportou com sua seriedade e sobriedade acostumadas.
     E isso me aterrou tanto como me entusiasmou porque, at ento, tinha-me parecido inimaginvel que eu pudesse ter nenhum poder sobre ele. Parecia-me incrvel
que pudesse destroar sua vida com apenas me afastar. Pensei que era uma enorme responsabilidade e que, em adiante, teria que me mostrar muito solcita e amorosa, e muito
delicada com ele.
     Demorei anos em cair na conta (e mesmo assim de um modo vago e fugaz) de que aquilo no era mais que outro jogo, que era ele e no eu quem seguia controlando a
situao, como um menino que fizesse panelas para sair-se com a sua.
     Pois bem, nunca como agora me deseja muito mais acertada essa analogia. Porque Curtem me ameaou nada menos que com sua prpria morte para sair-se com a sua.
Mas esta vez foi muito longe. E, ao fim, a ele lhe tem cansado a mscara e a mim a atadura dos olhos.
     acabou-se.
     Acredito que se acabou.
     Como vou poder seguir vivendo com um homem que est muito mais louco que eu?
     -Acredito que deveria lhe atirar toda sua roupa  rua.
     Olhei a L, que pisou a fundo e passou ao sulco rpido da auto-estrada Rock Creek. Pensei que possivelmente no tivesse sido muito boa idia lhe deixar conduzir o BMW. Mas
ela o sugeriu, Isabel a secundou, e nesse momento me pareceu o mais sensato, porque eu estava muito afetada e presa de um ataque de soluo. Mas jamais tinha visto
a L to furiosa. Conduzia de um modo to temerrio que me passei o trajeto sujeita ao ponteiro de relgio da porta, e sentindo falta de que o carro de Curtem no tivesse
air bag para o acompanhante. Tinha que ter ido com a Emma, que nos seguia com muita dificuldade, tratando de no nos perder de vista com seu pequeno Mazda.
     -E,  obvio, tem que chamar o chaveiro -acrescentou L-. Deveria cham-lo agora mesmo. Tem que trocar todas as fechaduras da casa. Pode chamar com
meu mvel; levo-o na bolsa.
     Tirei o mvel, mas me sentia incapaz de chamar o chaveiro. Girei-me para ver o que pensava Isabel.
     -Pode que no seja m idia -disse-me do assento de atrs-. Mas possivelmente seja melhor que espere at que chegue ali.
     -De acordo -assentiu L, embora como dizendo "logo no diga que no lhe adverti isso"-, mas ao melhor no pode vir at manh. O tempo est essencial. E
outra coisa: assim que chegue a casa, tem que comear a chamar as centrais de tudo seus cartes de crdito. Se Curtis ficar em plano vingativo, tentar te deixar
sem recursos. De modo que tem que te adiantar com uma manobra defensiva. Nestes momentos tem vantagem, porque sabe algo que ele ignora, mas assim que saiba
as coisas poderiam ficar muito feias. Conhece bons advogados? Eu chamarei a minha me, que conhece todo mundo.  bom advogado o que te representou ante o Gary,
Isabel? Embora, com franqueza, acredito que Rudy necessita a algum mais duro. Necessitamos um tubaro.
     L o disse apertando os dentes, e o rematou com um advogado do mais bode. A expresso me deixou estupefata, porque jamais lhe tinha ouvido dizer um exabrupto
a L. Mas me alegrou que estivesse de minha parte.
     -me d o telefone -pediu-me-. Tenho que chamar o Henry.
     -J marco eu -pinjente, porque L estava tomando as curvas a cem quilmetros por hora e no queria que soltasse o volante nem em brincadeira.
     -No chame a minha casa porque no o encontrar. Est em casa de sua me -disse L.
     Deu-me o nmero e o marquei. Mas me tremiam tanto os dedos que reparei em que me tinha equivocado. Tive que voltar a marcar. No saberia dizer se estava to
nervosa de puro entusiasmo, de medo ou de impacincia. Provavelmente era tudo de uma vez e envolto em uma vaga sensao de nuseas, ao pensar no que me havia
feito meu marido, meu melhor amigo, a pessoa em quem mais confiava eu neste mundo.
     -Comunica -disse-lhe a L-. Deixa chamar o Eric. -Marquei o nmero e, para ouvir que respondia a secretria eletrnica, aguardei a que soasse o tom e deixei o
mensagem-: Sou Rudy, Eric. Como notar, tenho soluo. Vou a toda velocidade em um carro com L e Isabel. Emma vai em seu carro justo atrs do nosso. Vamos a minha casa
para lhe impedir a entrada a Curtem. Hip.
     L e Isabel deixaram escapar uma risita (todas estvamos um pouco histricas).
     -No lhe vais acreditar isso -prossegui-. Curtem me disse que tinha leucemia (no tinha tido nimo de lhe dizer isso antes) e hoje tenho descoberto que  mentira.
     -lhe diga o da vasectomia -disse L ao tomar a curva para enfiar Independence Avenue.
     -E resulta que faz um ano se fez uma vasectomia. No cria que estou bbada nem que tomei nada.  real como a vida mesma! De modo que vou deixar o;
ou, melhor dizendo, ia deixar o. Mas o que vou fazer agora  jog-lo. Tenho s Obrigado comigo. Eu gostaria que estivesse conosco. Se chegar logo a
casa me chame  minha. Mas me chame de todas maneiras, chegue  hora que chegue. Preciso falar contigo.
     -Pendura j, que tenho que chamar o Henry -apressou-me L.
     -De acordo -disse ao telefone-. Tenho que pendurar. me deseje sorte -acrescentei deixando cair o mvel ao cho-. OH, Deus! Pareo uma confuso. De verdade serei capaz de
faz-lo?
     -Pois claro -disse Isabel, que se agachou para recolher o telefone-. A ver, L, dava outra vez qual  o nmero de sua sogra.
     Resultou que Henry tampouco estava em casa de sua me. Tinham-no chamado a casa do Jenny, por uma avaria que urgia arrumar, e tinha ido ele em lugar de sua me
a arrum-la.
     Isabel marcou e lhe aconteceu o telefone a L, que explicou ao Jenny sucintamente o problema, e Jenny lhe disse que trataria de dar a mensagem ao Henry em seguida.
     -Sim, por favor -encareceu-lhe L-.  muito importante. Aonde teve que ir exatamente esse hijoputa para essa avaria?
     Isabel e eu pusemos olhos como pratos. Porque L estava batendo aquela noite todos seus recordes de tacos.
     -teve que ir nada menos que ao Burke -informou-nos L-. Pois, assim que possa, lhe diga que v a casa do Rudy. Sim, j sabe onde vive. Sim, no Captol Hill.
Sabe, Jenny, obrigado. Sim, bom... no sabemos.  possvel. Adeus-. Desconectou e acrescentou nos olhando-: Diz que tomemos cuidado. Oxal tente algo esse cabronazo...
No, melhor que no. Criem que conviria que escondesse o carro?
     -Esconder o carro?
     -Sim, porque se o v, ficar. O que preferem que lhe deixe, o BMW ou o jipe? -perguntei-lhe-. Embora -acrescentei ao cair na conta-, a verdade  que este
carro  dele; e me parece que os dois so deles.
     -Esto os dois a nomeie de Curtem?
     -Acredito que sim, mas no estou segura. Possivelmente o jipe esteja em nome dos dois.
     L balbuciou uma enxurrada de tacos.
     -Pois ento a chatear! -disse enquanto estacionava frente  casa em dobro fila-. Confio em que voc goste de te deslocar em metro.
     Ao descer do carro vi que a luz do alpendre estava acesa.
     -OH, no.
     -chegou j? -disse Isabel me tocando o brao.
     -Sim.
     De modo que teria lido minha nota. "fui a ver o doutor Slater -pensei recordando o que lhe tinha escrito-. Sei tudo. vou deixar te."
     Emma chegou com seu Mazda e se apressou a estacionar ao outro lado da rua.
     -No ter deixado as luzes acesas, Rudy?
     -No.
     -Hummm.
     -Sim que est em casa -confirmou L.
     O resplendor da luz das luzes me permitiu ver em seus olhos uma expresso de impacincia.
     Emma tomou minhas mos entre as suas.
     -Tem as mos geladas e intumescidas -disse-me de uma vez que me esfregava isso para me esquentar isso Agora me escute bem, Rudy. Se quiser, ficamos fora.
     -Como? -exclamou L.
     Mas Emma a ignorou.
     -Como voc queira -prosseguiu Emma-. Se quer falar com ele a ss  tua coisa. Mas, em qualquer caso, sabe que nos tem  mo.
     -No; quero que entrem comigo.
     Todas respiraram aliviadas.
     -Pode-o fazer.  forte -disse-me Emma me olhando aos olhos-. Pensa que dentro de uns minutos ter superado o mais difcil.
     -E sabe que estamos contigo -disse Isabel-. No te ser to difcil sabendo que todas estamos a seu lado.
     -Exato -arrebitou L-. S te ser a quarta parte de difcil, porque estamos unidas.
     -De acordo? -disse-me Emma, e por um momento pensei que ia convidar nos a nos juramentar e selar o pacto com um aperto de mos-. Assim, venha. De acordo?
Pois mos  obra.
     Fomos pela calada como um peloto de aguerridos soldados, embora a passo lento porque Isabel tinha que caminhar apoiada no fortificao (alm de que tivemos
que nos separar nos degraus do alpendre, porque eram muito estreitos para que coubssemos as quatro).
     Mas seguimos com passo marcial como se partssemos para a batalha; as quatro a nos enfrentar a um inimigo preparado, perigoso, de reaes imprevisveis e
de quem, inclusive ento, parte de mim podia seguir apaixonada.
     Tirei a chave e abri a porta da entrada. A luz do vestbulo estava acesa e vi curtem descer pelas escadas da planta superior.  lombriga,
deteve-se perplexo a metade do lance. Estava plido e desencaixado mas me sorriu.
     E imediatamente comecei a me abrandar, a me fundir como a neve com o sol. Ao abrir do todo a porta pde ver quem me acompanhavam. Uma expresso de hostilidade
substituiu  cara de alvio que tinha posto  lombriga. Mas isso no fez a no ser reafirmar minha deciso.
     -O que significa isto? -disse ele-. Um retiro?
     Vale, vale, pensei. quanto mais impertinente ponha mais me facilitar as coisas. L entrou a ltima e fechou a porta. Quase nada mais descer do carro se me
tinha passado o soluo.
     -Curtem -disse com voz aflautada-, quero que saia desta casa agora mesmo.
     Era pura pose, certamente. Porque, por dentro, oscilava entre o pnico e uma espcie de estranho distanciamento. Ver curtem e saber o que sabia resultava
desconcertante, como se me custasse encaixar sua imagem com sua escura sombra.
     -Temos que falar, Rudy -disse-me como se no me tivesse ouvido.
     - No penso falar contigo -repliquei-. S quero que te parta. Vai a um hotel, com seu amigo Teeter ou com quem quer.
     -Olhe, Rudy, lhes diga a seus amigas que partam -disse entre dentes-. Tenho que te dizer muitas coisas, mas no em pblico -acrescentou, me tendendo a mo a modo
de sutil capitulao-, por favor.
     Meus amigas me olharam. Embora a contra gosto, partiriam se eu o pedisse; pelo menos L e Isabel (sobre a Emma j no estava to segura).
     -No vo se partir -repus com firmeza e, por sua expresso e sua maneira de erguer-se, notei que meus amigas se sentiram orgulhosas de mim-. No se vai ningum
mais que voc -acrescentei encorajada.
     Notei-lhe um tic sob a plpebra esquerda.
     -Equivoca-te. J falaremos depois -replicou de uma vez que subia escada acima.
     Emma, L e Isabel me olharam.
     -Curtem! -chamei-o-. Quero que te parta!
     No me respondeu e desapareceu depois do primeiro patamar.
      Como me teria ocorrido pensar que aquilo ia ser to fcil?
     -E agora o que? -pinjente olhando em redor com expresso de impotncia.
     -estiveste formidvel -disse Emma me sacudindo um pouco o ombro.
     -Certamente que sim -secundou Isabel.
     -Sim, verdade? -assenti quedamente-. No me amedrontei.
     -Mas ainda no conseguiste que parta -recordou-me L.
     -E o que quer que faa?
     -Tem que falar com ele-disse Isabel.
     No acreditava que fosse to ingnua, pensei.
     -E ns lhe acompanharemos -acrescentou Isabel.
     -Todas?
     Meus amigas assentiram com a cabea.
     Resultava um pouco grotesco, mas preferi no pens-lo.
     -De acordo, pois. Vamos -pinjente.
     A cara que ps Curtis ao nos ver s quatro resultava indescritvel. Estavam inclinados frente a seu armrio aberto. tirou-se a gravata e comeava
a desat-los sapatos.
     -O que significa isto? -exclamou com uma risada afogada e expresso irada.
     Eu agitei o ndice assinalando o saco de viagem que tinha atirado em cima da cama.
     -No te incomode em desfazer a bagagem, porque teria dobro trabalho.
     Curtis me olhou como se no me reconhecesse. Logo respirou fundo com aquela expresso condescendente que to bom resultado lhe tinha dado comigo at ento.
     -No  o momento de falar disso, Rudy.
     -Certo. No penso fal-lo. Quero que saia desta casa. Sei o que tem feito e espero que no te atreva sequer a neg-lo. No sou eu quem tem que partir
a no ser voc.
     Isabel estava a minha direita e L a minha esquerda. Emma se tinha sentado no bordo da cama, a modo de avanzadilla, ocupando mais territrio inimigo. A posse
 noventa por cento da lei.
     Curtis fez uma ameaa de nos olhar com ironia; ele, um homem sensato, frente  irracionalidade de um grupo de mulheres.
     -No poderia lhes aconselhar a seus amigas um pouco de sensatez? -disse Curtis dirigindo-se a Isabel.
     Ela deu dois passos para o Curtis, afastando-se de ns. Com uma mo empunhava o fortificao e com a outra a bolsa. Levava o casaco posto, igual s demais.
     -Quo nico pede Rudy  o justo: um pouco de generosidade por sua parte. No crie que pelo menos a deve? Para comear a equilibrar a balana um pouco,
no te parece?
     Tivesse-a abraado. Era a melhor protetora. Sem dvida sua singela honestidade afetaria ao Curtis, contribuiria a que visse seu mau comportamento com claridade.
     Lhe sorriu. Aspirou pelo nariz e nem sequer se incomodou em lhe responder.
     L se esclareceu garganta.
     -No acreditar que vais sair disto ileso, verdade? No te ter passado pela cabea que, depois do que tem feito, ela te vai perdoar e ides voltar
 normalidade como se tal coisa, verdade?
     -Comprido daqui! -espetou-lhe Curte.
     L se ergueu muito digna.
     -No nos vamos largar. Voc lhe procuraste isso. Rudy no necessitaria que estivssemos aqui se no fosse to violento.
     -Eu violento?
     -Sim, emocionalmente violento.
     -Curtis... -comecei. Olhou-me esperanado, desistindo de raciocinar com meus amigas-. No h nada que falar. No pode me dar nenhuma explicao. Sei o que fez
e inclusive por que, de modo que no precisa me explicar nada. O nico que te peo  que te parta.
     Curtis se adiantou e me encarou, to perto que tive que me armar de valor para no retroceder.
     -Pois ento falaremos logo -disse quedamente mas com firmeza, dirigindo-se s a mim-. Partirei-me se isso  o que quer, mas voltarei quando seu guarda-costas
partiram-se e falaremos. Sabe perfeitamente que temos que falar, Rudy.
     Era pedir muito por sua parte? depois de cinco anos de vida em comum e seis anos de matrimnio, era pedir muito? A verdade era que sim tnhamos que falar,
no?
     O tenso e dbio silncio se prolongou. Vi no espelho do armrio que Emma baixava a vista com os ombros cansados. Compreendeu que eu ia ceder. E estava
segura de que se Curtis ficava a ss comigo se sairia com a sua.
     -No -disse com um imediato suspiro de alvio-. Sinto muito, (antis. A prxima vez que falemos ser no despacho de um advogado.
     -No o diz a srio -replicou ele meneando a cabea-. Advir a razes assim que o pense melhor. Voc sozinha. Conheo-te, Rudy...
     -J me estou advindo a razes. E me resulta muito reconfortante. De modo, Curtis, que faz o favor de partir.
     -me escute -apressou-se a me dizer-. lhe ia dizer isso esta noite. J no podia suportar mais os remorsos. S o fiz para te conservar, embora sabia que
no estava bem, que no era justo. Esta noite ia dizer te a verdade, srio, Rudy, e te propor que recorrssemos a terapia matrimonial, com o Greenburg se quiser.
     -OH, Curtis -exclamei sem poder evitar rir.
     Emma e L riram a gargalhadas, e inclusive Isabel sorriu. Se no chegar a mencionar ao Eric possivelmente o tivesse acreditado.
     -Anda e que vos jodan a todas! -espetou Curtis, que ao fim se tirou a mscara ensinando os dentes e nos dirigindo um olhar de dio-. Lhes tire de no meio!
     Saiu com caixas destemperadas da estadia, tropeou com L e desceu pelas escadas.
     Mas escutamos com ateno e no ouvimos que a porta da rua se abrisse nem se fechasse.
     -E bem? -disse L.
     -Voc dir -disse Emma-. Eu estou disposta a no me deitar em toda a noite.
     -Dispersaremo-nos para ocupar toda a casa -props Isabel.
     Eu estava confusa.
     -Tem graa a coisa, no? -pinjente olhando a Emma, me retorcendo as mos.
     -Ainda no a tem, mas a ter -reps Emma.
     -Est segura?
     -Por completo.
     -De acordo.
     Emma agarrou a bolsa de viagem do Curtis e samos todas do salo.
     Encontramo-lo na cozinha tratando de fazer-se caf. Isabel, Emma e L se situaram ombro com ombro de costas ao suporte e eu frente a elas. A luz amarelada
da cozinha dava a nossos tensos rostos um tom espectral. Quatro jaquetas e uma presa.
     Curtis parecia ter recuperado o domnio de si mesmo. Torci o gesto, porque seu aprumo  mais perigoso que sua ira.
     - intil, Curtis -pinjente porque senti a necessidade de recordar-lhe a ele e de me recordar isso mesma-. pretendeste me fazer acreditar que tem leucemia.
     Curtis terminou de encher a medida de seu descafeinado, verteu-a no depsito e acionou o interruptor. Logo se deu a volta. levou-se as mos s tmporas,
como se ficasse anteojeras, como se no queria ver meus amigas a no ser s a mim.
     -No me ponha em evidncia -disse ele em um tom que pela primeira vez me soou sincero-. S te peo que me d a oportunidade de te explicar por que o fiz.
     Notei que voltava a me abrandar perigosamente.
     Graas a Deus, Isabel se decidiu a intervir.
     -Mas essa no  a nica mentira que h dito -disse-lhe.
     Como pude hav-lo esquecido? Sentou-me bem notar que a incredulidade e a indignao voltava para mim com um rugido ensurdecedor. E Curtis teve ao fim a decncia
de baixar a vista.
     -Isso, por si s, parece-me que basta para pedir o divrcio -disse L-. Lhe dizer a sua mulher que queria ter um filho quando acabava de te fazer uma vasectomia!
exclamou olhando-o com incredulidade-. O que pretendia? Queria que o descobrisse? Pelo amor de Deus! No v que Rudy e voc vo ao mesmo mdico de cabeceira?
     Curtis ficou boquiaberto. estava-se transformando lentamente ante meus olhos em um homem a quem no s j no amava mas tambm nem sequer eu gostava. Ao
fim encontrou palavras para lhe replicar a L.
     -Isso no  teu assunto -disse-lhe.
     Pattico. E, por estranho que parea, fez-me sentir em ridculo.
     -No me explico por que te quis durante tanto tempo -pinjente.
     -Porque se d muita manha para o que lhe interessa -adiantou-se L-; ou seja, para manipular a outros. ... -acrescentou olhando ao Curtis-  desprezvel.
     -Anda e que lhe dem pelo culo! -espetou-lhe ele.
     Cada vez parecia mais pattico. Tinha dois burbujitas de saliva na comissura dos lbios.
     -Quer fazer o favor de lhes dizer que se larguem? -insistiu.
     -No,  voc quem vai largar se.
     ps-se a rir e me deu um empurro, no muito forte mas o suficiente para instigar a Emma.
     -N, n! -exclamou ela.
     As trs nos rodearam imediatamente.
     E justo ento soou o timbre da porta. Quem quer que fosse estava muito impaciente. O grupo que se formou na cozinha comeou a dispersar-se.
Curtem fez ameaa de ir abrir, mas Leia lhe adiantou, e ento recordei que tinha chamado ao Henry.
     Emma me dirigiu um olhar inquisitivo ao ir todas para o salo. Est bem?, vinha a me perguntar.
     A verdade  que eu tremia de ps a cabea. Mas quanto mais se alargava a situao, melhor me sentia. O empurro de Curtem foi como se me tivesse tomado
uma anfetamina de efeito imediato, to forte que quase me aturdiu. Produziu-me uma excitao artificiosa, mas eficaz naqueles momentos.
     Mas no era Henry quem chamava a no ser sua me.
     Nunca tinha visto o Jenny com a indumentria de trabalho. As descries de L no lhe faziam justia. Levava um macaco de algodo e uma camisa vermelha de flanela,
uma rionera de pele com as ferramentas e botas de borracha at os joelhos, uma boina de viseira que cobria seu coque e que dizia patterson & filho e no peitilho,
em letras amarelas, "Jenny".
     Ao nos ver, ela e L interromperam a conversao que mantinham em voz desce na entrada.
     -Tenho entendido que tm um problemita -disse com seu marcado acento sulino.
     -Jaj!
     Curtem riu de um modo to artificioso que senti pena por ele.
     - incrvel! Mida guerra! Mobilizam at s lsbicas!
     -Cuidado com o que diz, monn! -advertiu-lhe Jenny com aprumo.
     A chegada do Jenny foi como uma baforada de ar fresco em uma atmosfera viciada.
     Curtem o notou. Depois de um tnue vu de desdm se sabia enrascado. E imediatamente adivinhei o que ia fazer a seguir.
     -No! No o faa, Curtem! -exclamei.
     Curtem agarrou com ambas as mos a vitrine de cristal e bronze contiga  janela. Como no pde levant-la-a empurrou com violncia e, quase dois metros de vitrine
com as estanteras cheias de objetos de cermica se fizeram pedacinhos contra o parquet. Meus vasos, minhas terrinas, tudo quebrado; todo o estou acostumado a semeado de lascas
de cristal e fragmentos de cermica. Tudo a chatear.
     Ningum se moveu. Curtis resmungou entre dentes algo ininteligvel, irritado-se, nos observando, nos desafiando a reagir. Emitia emitiu um rudo gutural, furioso.
Com a extremidade do olho vi que Isabel a sujeitava pelo brao tratando de ret-la.
     A atitude instigada da Emma me encorajou ainda mais. Afastei-me uns passados do crculo protetor de meus amigas e encarei ao Curtis. Aproximei-me tanto que quase
tocamo-nos. No senti medo absolutamente e me alegrava de que tivesse quebrado minhas peas de cermica. Porque, ao igual ao empurro, aquilo no fez a no ser me ajudar
a ver ainda com mais claridade.
     Contudo, minha voz no parecia realmente minha. As palavras me saram entrecortadas e agudas.
     -Parte. Sal daqui ou chamo  polcia.
     ps-se a rir.
     -E o direi ao Teeter. Contarei-lhe o que tem feito.
     ficou plido. Por fim tinha encontrado a estaca adequada para cravar-lhe no corao.
     -E se trficos de me prejudicar de algum jeito, te despea de sua carreira como advogado. te despea, inseto!
     Curtis meneou a cabea como se no pudesse dar crdito ao que ouvia.
     -Inseto! -espetei-lhe para arrebitar minha atitude.
     Uma delas ps-se a rir (acredito que foi Jenny).
     Curtis girou em redondo. As cinco fechamos filas. Acredito que teria sido capaz de nos agredir, pelo menos a mim, de destroar mais coisas da casa, como havia
feito com a vitrine. Mas fomos cinco e se acovardou. Alm disso, algum levava um fortificao e outra uma chave inglesa de quase meio metro.
     -te largue -espetei-lhe por ensima vez.
     E partiu.
     Jenny acendeu o fogo na chamin. L serve o caf que Curtis tinha preparado e Emma nos olhou risonhas.
     -Poderiam me felicitar por me haver mordido a lngua, no? disse.
     Eu tinha deixado de tremer e me tinha tranqilizado o bastante para chamar o Eric, mas no estava em casa. Deixei-lhe uma mensagem incoerente que terminei assim:
"Me alegro de no te haver encontrado, de verdade, porque assim no pudeste me ajudar e tive que me compor isso sozinha."
     No era certo, claro. Porque de no ser por meus amigas no teria podido.
     -Olhe, aqui h uma pea que no se quebrado -disse Isabel me tendendo um pequeno vaso polido em forma de berinjela.
     Era uma de minhas primeiras peas e no muito boa, mas sempre me tinha gostado. Possivelmente se tinha salvado porque pesava o bastante.
     -E h um par que acredito que poder as pegar, Rudy; parece-me, v -acrescentou.
     -Tome cuidado com os cristais -disse-lhe L do sof-. Vem aqui junto ao fogo, Isabel.
     -Estava segura de que se me ocorria abrir a boca ia se enfurecer muito. De modo que me calei -disse Emma.
     -estiveste formidvel -felicitou-a L.
     -No, mas no foi como quando resgataram a Graa e eu no fiz nada. Esta vez no tenho feito nada a propsito. Mas me h flanco o meu me dominar, no vo
a acreditar.
     Abracei-a e ela me sorriu, j apaziguada.
     -estiveste magnfica -reafirmei por minha parte-. E j sei quanto deveu te custar.
     -No, quem esteve extraordinria foste voc -disse-me-. OH, Rudy, como o puseste!
     -o de inseto me encantou -disse L risonha.
     -O que no entendo  que te deixasse enrolar por semelhante louco -disse Jenny, recostando-se no respaldo do div.
     Jenny se tinha tirado as botas e a rionera das ferramentas e se ps a boina ao reverso, com a viseira para trs. Tinha toda a pinta dessas
amas de casa to chicoteadas que apresentam em algumas sries cmicas de televiso.
     -Mida cara ps quando viu a todas entrar no dormitrio -disse L esfregando-as mos-. De foto, v...
     -Voc tambm estiveste magnfica -disse-lhe Emma-. "... desprezvel" -acrescentou arremedando a voz de L.
     -Sim. E se ficou sem fala; no soube como justificar-se. No se sente muito melhor, Rudy? Espero que no tenha o menor remorso. Tem que estar
orgulhosa de ti.
     -E o estou,  claro que sim que fui-dije, embora ainda me tocavam castanholas um pouco os dentes e me estremecia.
     O fogo da chamin, o caf quente, a manta com a que Emma me tinha agasalhado, no bastavam para que desaparecesse o frio interior. Possivelmente deveria tomar
uma taa.
     -No far nada -disse Emma-. Refiro-me a que no tratar de te prejudicar. Puseste-o em seu stio chamando-o inseto.
     -Sim -assentiu L-, amea-lo dizendo-lhe a seus scios foi brilhante. De modo que agora tem a frigideira pela manga e poder lhe tirar o que queira.
     -No quero lhe tirar nada.
     -Bom... isso diz agora.
     -No, de verdade. Conformo-me indo atirando at que veja claro como encarrilhar as coisas -pinjente me abraando sob a manta, de novo estremecida.
     -Olhe, Rudy, como no lhe ajuste bem as contas a esse bode no volto a te falar na vida -disse Emma entre brincadeiras e veras.
     Comearam a falar de trocar as fechaduras e de chamar os bancos, s companhias de seguros, e de informar-se sobre o que advogado podia me convir. L era
quem mais conselhos me dava, como se se tivesse divorciado seis vezes. Mas ela  assim, sempre crie sab-lo tudo.
     Pouco a pouco comecei a me refazer. Mas me perguntava se todo aquilo ia servir de verdade para algo. Parecia que sim. Entretanto, embora assim fosse, assustava-me
a perspectiva. Seria lgico que, durante os primeiros dias, estivesse um pouco assustada, porque at havia muitas possibilidades de que todo se voltasse em meu contrrio.
Possivelmente por isso sentia o estranho e poderoso impulso de chamar a minha me. No me explicava isso. E como no me explicava isso me levantei para chamar o Eric outra vez.
     -Tenho que partir j -disse L adiantando-se me Com quem voltamos? Com a Emma? Ao Jenny no pilha de caminho acrescentou, porque Henry tinha chamado desde seu carro
fazia uma hora e, ao lhe dizer que no o necessitvamos, tinha ido diretamente a casa-. Est preparada, Isabel?
     Isabel no respondeu.
     -ficou-se dormida -disse Emma-. Ficou-se dormida no cho.
     L se aproximou sem fazer rudo at onde Isabel jazia de flanco, com o meio corpo no tapete e o outro meio no parquet.
     -Est acordada, Isabel?  que j vamos -disse ajoelhando-se a seu lado-. Isabel?
     Emma e eu ficamos sem Flego. Aproximamo-nos atradas pelo tom alarmado de L. Mas ento Isabel abriu os olhos e sorriu, e eu respirei aliviada
ao desprezar o negro pressentimento que me tinha assaltado.
     -Anda, levanta, espreguiadeira -sussurrou-lhe L.
     -Temo-me que no vou poder -disse Isabel apoiando a mo, lvida, no joelho de L.
     -por que? Encontra-te mau? O que te passa? -disse L nos olhando-. Chama uma ambulncia, Rudy!
     -No, no -protestou Isabel umedecendo-os lbios-. Chamem o Kirby -acrescentou quedamente-. Ouve-me, L? S chama o Kirby.
Captulo 27
Isabel
     Fevereiro...
     Ao reler cartas e papis encontrei minha ltima agenda, uma que tinha utilizado durante quinze anos antes de quo atualizada uso agora. Li os nomes que
tinha escrito pulcramente, junto a avisos sobre qual era o nome de pilha do cnjuge e as cobre dos aniversrios de seus filhos. No sei como interpretar
o fato de que muitas destas pessoas, quase uma terceira parte, no passassem  agenda atualizada. Puro desgaste? Frite palavras para uma das pequenas tragdias
da vida. As pessoas se afastam, desaparecem ou ficam pelo caminho.
     Quando Gary e eu nos separamos, muitas amizades desapareceram completamente. Mas h afastamentos que resultam um tanto estranhos.
     Fay Kemper, por exemplo, que vivia no Thornapple Street. Coincidamos no parque passeando aos ces, no mesmo lugar em que conheci l. s duas nos
gostava da jardinagem e nos visitvamos. Tinha uma filha da idade do Terry e falvamos por telefone durante horas a respeito de nossos filhos. Entretanto, esfumou-se.
Nossos maridos nunca simpatizaram (esse foi um obstculo) mas no o explica tudo. Eu apreciava muito ao Fay, mas no fiz nada por conservar sua amizade, nem ela
por conservar a minha; simplesmente, afastamo-nos. E h muitas mais como ela. J sei que este tipo de amizades superficiais vo e vm na vida de todas as
pessoas;  uma conseqncia inevitvel devida s circunstncias, aos gostos de cada qual,  ocasio, a apatia... e entretanto, em que pese a ser consciente
disso, entristece-me.
     Durante toda minha vida desejei lhes expressar meu carinho a outros. s vezes me reteve o temor de que meu carinho lhes tivesse sem cuidado, que no lhes importasse
nem pouco nem muito, que se aproveitassem de mim ao saber a estima que lhes professava.
     Agora  distinto. Os anos se acumulam como a neve no batente. E no tenho um momento que perder.
     Esta hora do dia me aterra. No quero morrer no inverno. No quero que minha ltima imagem deste mundo seja a do muito triste crepsculo atravs da janela
de meu dormitrio; ver como se balanam os ramos sob o cu do ocaso. Porque o vento  muito frio e cruel e imagino me chamando entre sua spera respirao.
     Quero me despedir com um tempo quente e um cu azul. Eu gostaria de ouvir o zumbido de uma mosca, um avio rugir sob um cu espaoso, uma conversao que
chegue-me desde outra habitao. Risadas. Aroma de erva.
     No posso lhe perdoar a meu corpo que me tenha trado. Sou meu melhor amiga, e me deixei na estacada. Em quem posso seguir confiando?  uma tolice,
j sei. Mas sigo tendo o mito enraizado de minha imortalidade, embora indevidamente comece a apagar-se. Isso me produz acessos de pnico. vou morrer,
lembrana de repente depois de uns dias de inexplicvel esquecimento de minhas inexorveis perspectivas, e me dilatam as veias de puro pnico. Me faz um n no estmago
e ponho-se a chorar de um modo compulsivo, ofego, desmorono-me sob o peso de uma tristeza insuportvel; por mim mesma, por todos os seres humanos que, um dia ou
outro, tero que passar pelo mesmo transe. Que carga to pesada nos vemos obrigados a levar a sombra da morte que aguarda, sob a asa do negro pssaro de
a morte.
     por que  a morte to misteriosa?  um tabu, como o sexo para uma virgem, um secreto celosamente guardado sob chave. passei minha vida acreditando que tudo
morreria... salvo eu.
     Suponho que  da nica maneira que podemos viver. deve-se a acreditar que somos nossos corpos. No  natural considerar nossa carne, nosso sangue e nossos
ossos como uma morada temporria da que logo nos jogaro. Mas ultimamente estou mais perto de descobrir o segredo, acredito eu, a lio: que a morte no 
algo anmalo, detestvel, uma catstrofe indescritvel a no ser um crculo, no uma linha reta, quanto mais comprido melhor; um crculo que jamais termina mas sim se alarga.
     Maro...
     Emma vem para ver-me quase todos os dias. E sempre me faz rir. Em lugar da exclamao crist "OH, Deus", exclama um ateu "OH, mierda".
     Nunca mencionou ao Mick Draco. De modo que o ltimo dia que me visitou tirei eu o tema a colao (aguardar  "momento oportuno"  um luxo que j no
permito-me). Pareceu impressionada e aliviada, embora no especialmente surpreendida, porque eu soubesse quem era.
     -Supunha que acabaria por adivinh-lo -disse-me-. E por isso estive muitas vezes tentada de lhe contar isso rompan.
     -Mas imaginava que o desaprovaria, porque  um homem casado, no?
     -No, no acreditava que o desaprovasse nem nada disso, Isabel. Nem em meu caso nem no de nenhuma outra pessoa a quem quer.
     -Digamos ento que eu no gostasse.
     -Isso sim; que voc no gostasse.
     -Certo -pinjente-. O adultrio, assim in abstrato,  algo que me desagrada, inclusive poderia dizer que o detesto.
     -Pois j somos dois.
     -Mas nos casos concretos  um pouco mais complexo, no?
     -Adiantarei-te que Mick e eu no nos deitamos nunca.
     -E terminastes?
     -Sim. Eu tenho quebrado. Pedia-me que o esperasse. Trata de livrar-se de seu matrimnio sem fazer machuco a sua esposa -disse com expresso sarcstica-. Algo que no me parece
possvel, sobre tudo tendo em conta que, conforme L, levam cinco anos indo ao psiclogo. Ou seja que digamo-lo de outro modo: no estou disposta a esperar a que
rompam.
     -E agora se sente bem?
     -O que vai. Estou fatal.
     -Possivelmente deveu lhe dizer que o esperaria -pinjente, porque ultimamente reparto conselhos a destro e sinistro; sou como uma fonte de sabedoria.
     -Mas esperar  sofrer, Isabel. E j esgotei minha capacidade de sofrimento.
     Li entre linhas que se referia ao sofrimento devido a mim. A coisa tem certa graa, porque passo mais tempo consolando a quem quer que me compadecendo.
Resulta exaustivo, embora tambm me conforta. Porque,  fora de tratar de convencer a outros de que o que me ocorre no  uma tragdia, quase chego a me convencer
a mim mesma.
     L no  fcil de consolar, e impossvel de convencer. sente-se muito desgraada. A soluo a um de seus problemas me parece singela mas nem sequer eu
albergo a pretenso de poder o solucionar.
     Faz uns dias fomos de excurso em seu carro. Fazia semanas que eu no saa do apartamento mais que para ir ao mdico, ao acupunturista ou ao fisioterapeuta.
Quando vou ver os tomo um txi e me acompanha Kirby. Mas aquele dia me sentia inusualmente forte, e resultou uma excurso muito agradvel para L e para mim. Puro
prazer. Levamo-nos a Graa.
     Ao fim se terminou o inverno, e dava graas a todos meus deuses por isso. J podia eliminar a preocupao por morrer na desanimada estao. Sentou-me
de maravilha ir a boa velocidade no carro, com os guichs baixados e o vento nos dando na cara. Fomos at a Virginia, por essas preciosas estradas
estreitas da zona do Purcelville e Philomont. Graa ia com o focinho aparecido no guich deixando que o vento lhe jogasse as orelhas para trs. Parecia
uma perrita voadora.
     -Querer ficar a debera tener ms experiencia, saber ms de la vida antes de ver las cosas que Roxanne ha de ver.
     L fingiu no me ouvir.
     -Kirby ficaria, se o pedisse. Mas preferiria que fosse voc.
     Pensei que L o deixaria correr e se limitaria a no me responder, mas ao cabo de um momento me disse: "Sim, me ficarei." Logo as duas fingimos que era o vento
que nos fazia lacrimejar.
     Graa  uma perrita muito carinhosa. Na atualidade graa significa algo mais para mim. Foi-me concedida a graa de ver... enfim, nosso mtuo entendimento.
 quase primitivo, de puro fcil. Literalmente, estamos todas juntas nisto, e minha ira quase se dissipou por completo. Tenho a sensao de que somos uma unidade
que o abrange tudo e a todos.
     Um dom.
     Mas mesmo assim, seria tudo mais fcil se pudssemos abandonar este mundo acompanhados de um amigo, um companheiro. Ah, se pudssemos nos levar a um amigo conosco.
No seria to triste.
     Uma mulher dos servios sociais deveu falar comigo e me disse que, a partir de ento, viria uma enfermeira as teras-feiras e as quintas-feiras pela tarde para
me dar uma mo. chama-se Roxanne Kilmer. Tem vinte e sete anos e me temo que equivocou a profisso ou acessado a ela muito jovem. Acredito que uma mulher
deveria ter mais experincia, saber mais da vida antes de ver as coisas que Roxanne tem que ver.
     Mas me cai bem e sou o bastante egosta para querer que siga vindo. Ajuda-me a me banhar, troca-me a cama, organiza minha dieta e cuida de que tenha e tome
os medicamentos que me receitam. Eu gosto de sua competncia e desenvoltura, que se mostre amvel comigo mas sem me compadecer. A verdade  que devo me considerar
afortunada: tenho ao Roxanne; tenho  senhora Skazafava, que tira passear a Graa todos os dias s quatro da tarde, e o faz encantada; e tenho a meus
amigas do grupo das Obrigado.
     Uma das coisas que lhes faz mais custa acima s pessoas que esto em minha situao (o temor a morrer sozinhas) dissipou-se. J no figura em minha lista
de tudo o que me angustia.
     E alm disso tenho ao Kirby. Funcion-la a dos servios sociais anotou em seu relatrio que ele  a "pessoa que mais a cuida", algo to bvio e evidente que
nem sequer me precavi que isso nem aceito. Suponho que se deve  pouca importncia que Kirby se d, e porque entrou em minha vida como nas pontas dos ps; como
um desses arbolitos que se plantam na primavera e a seguinte se converteram em um arce exuberante, to perfeitamente situado que j no recorda como era
o rodal do jardim quando no estava. O nico que me preocupa  que distraia muito tempo de seu trabalho para estar comigo. Mas no me deixa nem pensar disso,
e muito menos que o repreenda. Considera-o assunto de sua exclusiva competncia.
     De todas maneiras, j me fatiga falar muito, de modo que agora investimos os papis. Por uma vez, Kirby fala mais que eu. Ao princpio lhe custava.
Mas, embora nunca ser uma pessoa muito loquaz, fala muito mais do habitual nele, porque sabe que eu adoro escutar. Fala-me de seu pai, que foi um dos
mais altos oficiais do exrcito que morreu no Vietnam; e a respeito de sua me, que foi bailarina em comdias musicais nos cenrios de Nova Iorque. Noto estas
contraditrias influncias no Kirby, que camufla seu lado criativo e pouco convencional com uma conformidade engaosamente aprazvel e muito triste.
     Perguntei-lhe por que seguia comigo.
     -Porque te quero -respondeu-me muito srio-. Assim de singelo.
     Seriamente? Importa? Devo eu -deveria qualquer- preocupar-se porque o fato de que seguir comigo no seja mais que uma maneira de me dizer adeus?, um modo apropriado,
humano e digno de despedir-se, que no pde utilizar com sua esposa e seus filhos porque um trgico acidente os arrebatou? Seja como for, o motivo  o amor. O que
importa ento?
     Kirby me ajuda a lhes escrever uma carta s Obrigado. Eu a dito e ele a escreve com seu ordenador porttil. Pelas noites me l isso. Eu me jogo no sof
sob a manta afeg e Graa a meu lado no tapete. Kirby se sinta na poltrona junto ao abajur, com suas largas pernas cruzadas e a cabea ligeiramente
para trs para ver atravs de suas lentes bifocais. Sua voz  algo teatral mas muito expressiva. Poderia escut-lo durante horas. L-me obras clssicas, comdias
do Shakespeare, Ibsen, Moer e Oscar Wilde; e novelas que eu adorei de pequena e que me localiza na biblioteca: Girl of the Limberlost, The Secret Garden,
Mujercitas. E a Bblia, e o Corn. Poesia.
     Essas leituras me resultam muito reconfortantes; essas outras vozes, os mundos de outras pessoas. Sinto um profundo agradecimento porque consigam me tirar do
meu.
     Kirby tambm me ajuda com a correspondncia. Recibo muitas postais me desejando que me recupere; muitssimas notas amveis, nervosas, simpticas, torpes, faltas
de tato ou elegantes; algumas de pessoas com quem no tive contato e nem sequer pensei nelas h anos. Mas me resulta tanto ou mais interessante
reparar em quem no me escreve, no me chamam nem se do por inteirados de minha enfermidade de maneira nenhuma. Perdo-os e, ultimamente, dediquei-me a lhes escrever
pequenas mensagens para dizer-lhe embora no com estas palavras. Fao-me cargo de que a alguns resulte impossvel me dizer nada em meu estado. No podem evit-lo.
E no tomo a peito. Antes sim. Mas agora no tenho tempo.
     Gary  um dos que se sente incapaz de me dizer nada. Chamei-o por telefone, esperando algo, umas palavras para nos despedir sem rancor. Mas no houve opo.
De modo que Gary e eu morreremos por separado e distantes. Agora estou segura disso, e me entristece pensar que, ao final, nossos votos foram em vo.
     Abril...
     Kirby e eu j no temos relaes sexuais. Simplesmente porque no  possvel. Mas fazemos o amor. Existe uma cerimnia ou ritual hindu de sanacin que consiste
na lavagem de ps e na aplicao ao corpo de azeites aromticos. Ele me faz isso e entoa em voz baixa as palavras que acompanham o rito. E faz que me sinta
como se meu corpo, j to dbil e murcho, fosse um templo.
     De noite nos deitamos e falamos de como foram nossas vidas. Antes fazamos planos para viajar, mas j no; h pouco abandonamos tal fantasia.
J no sou to ambiciosa como antes; j no peo a Deus que me deixe viver cinco anos mais, nem trs, nem dois. Minha ambio minguou. No quero morrer no inverno
nem tampouco em um hospital; isso  tudo. Como trocam as coisas, n? Fixaste-te, Deus, no modesta que sou?
     Penso em escrever umas palavras, uma aluso a algo que tenhamos compartilhado -embora no sei ainda o que - para que Kirby as leoa quando eu me tenha ido, e as
recorde. Seria como seguir um pouco viva.
      surpreendente. Fica algo quando j no fica esperana. Algo que algum se inventa. A aceitao -me criem- entranha certa alegria. Sim, e a partir da no
est-se muito longe da celebrao.
     Desejo estar com minhas queridas amigas. Hoje tenho muito bom dia e pode que manh tambm o tenha. Quero chamar a L, a Emma e ao Rudy e lhes pedir que celebremos
nossa habitual reunio aqui amanh de noite. J faz muito que no a celebramos e tenho muitas coisas que dizer. A palavra mais difcil  adeus; entretanto,
quase acredito poder diz-la j. Acredito que poderia diz-la.
     O que  o melhor que posso dizer de mim mesma? Que amei e me amaram. Todo o resto  secundrio. Dou-me por satisfeita.
Captulo 28
Emma
     Isabel morreu enquanto dormia depois da meia-noite de 10 de abril. Teve uma embolia, um cogulo de sangue que lhe bloqueou uma artria do pulmo e a matou
imediatamente; ou pelo menos isso espero. Kirby estava dormindo no sof do salo porque ela tinha estado muito inquieta um momento antes, e pensou que ficaria
dormida mais facilmente se estava sozinha.
     Encontrou-a pela manh, de flanco na cama e com os olhos fechados. Me alegro, porque isso demonstra que estava dormida quando expirou.
     Diz Kirby que a roupa da cama no estava revolta e que Isabel tinha um aspecto plcido. Certamente estava sonhando; um doce sonho no que apareceriam
todas seus amigas, todas aquelas que a amamos. Intuo que foi assim, sonhando, como se afastou deste mundo.
     No queria um funeral nem que a enterrassem. Especificou em seu testamento que, quando a tivessem incinerado, queria que seu filho Terry recolhesse as cinzas para
que dispusera delas como quisesse.
     A ningum gostou de seu desejo, sobre tudo ao Terry, que no tinha nem idia do que era melhor fazer com os restos de sua me. Ns lamentamos que no houvesse velrio,
nem cerimnia, nada. De modo que trs semanas depois de sua morte, convidei a quantos amigos, familiares e conhecidos da Isabel pude localizar e organizamos uma reunio
em sua memria em minha casa.
     Assistiram tantas pessoas que s coubemos de p. Ocupavam por completo o comilo, o corredor, o vestbulo e meio lance das escadas que comunicam
com a planta superior. No assistiu nenhum pastor nem representante religioso (porque Isabel tinha professado a maioria das religies principais e todas as menores);
qual amos escolher? Mas sim assistiu Kirby, e foi at melhor. Porque Kirby tem um aspecto solene e sacerdotal que vinha muito bem para exercer de mestre de cerimnias,
por assim diz-lo, no ltimo rito em honra da Isabel. Alm disso, sempre me pareceu que havia algo misterioso no Kirby, sobre tudo ao princpio, antes de conhec-lo.
Mas o mistrio resultou no ser mais que seu amor a Isabel, que a queria com todo seu corao; e nisso no h mistrio que valha.
     Tivesse-me gostado de conhec-lo mais a fundo em vida da Isabel, e ter sido mais amvel. No  que me mostrasse esquinada, absolutamente, mas acredito que tinha cimes
dele. Considerava-o um estranho, um intrometido. Um homem. Ns, as Quatro Obrigado, no sempre somos muito hospitalares ou sociveis com os recm chegados.
Mas Isabel o queria muito, e sei, estou convencida disso, que isso no significava que nos quisesse menos , nem a mim, claro. Isabel tinha amor para dar
e tomar.
     Tinha muitssimos amigos. Muitos tiveram que sentar-se no cho do salo porque no tenho muitos cadeiras. Fiz caf e tirei bandejas de confeitaria. Quando
os convidados comeassem a partir pensava tirar usque e fazer um velrio mais de acordo ao aspecto de seus mais amealhados. Acredito que a Isabel tivesse gostado.
     Kirby trouxe vrios de seus compacts favoritos e escutamos a monocrdia msica New Age, Mozart, Emmylou Harris. A concorrncia ia diminuindo em que pese a que chegavam
outros. Assistiram vizinhos, condiscpulos e professores da faculdade, scias do clube de bridge que freqentava Isabel, membros de um grupo de ajuda a doentes
de cncer, pessoas que participaram do crculo de sanacin e vizinhos de seu antigo bairro. Assombrou-me comprovar quantos se levantavam, esclareciam-se garganta
e falavam com emocionada simplicidade a respeito do que Isabel tinha significado para eles, desfazendo-se em elogios.
     Deu-me um tombo o corao ao ver chegar ao Mick. Sem a Sally. abriu-se passo entre a concorrncia at onde eu me encontrava, no arco que separa o salo
e o comilo. Titubeou durante o que me desejou muito uma eternidade mas que no foi mais que uma frao de segundo. Logo se inclinou para mim e me beijou na bochecha.
     -Hei-o sentido muito -disse-me, como a cincuentena de pessoas que tinha recebido at ento.
     -Agradeo-te que tenha vindo -balbuciei emocionada.
     Ento se afastou e foi sentar se no cho do salo.
     Ao inclinar a cabea vi o Rudy olhar em minha direo. Arqueou uma sobrancelha ligeiramente, de um modo que o dizia tudo. Logo seguiu escutando  senhora Skazafava,
que comentava que Isabel cuidava de sua parcela de jardim com tal primor que fazia empalidecer de inveja a outros.
     A perrita da Isabel, Graa, estava arremesso aos ps do Rudy com seu branco focinho apoiado em sua impigem. Agora  a perrita do Rudy. Tinha que haver-lhe      Gary no asisti. Pero envi unas flores y escribi una nota breve pero hermosa que Kirby ley en voz alta. Yo no albergaba el menor deseo de ver a Gary ni de
ficado L, mas Lettice, seu cocker spaniel estava muito mimada e se teria morrido de cimes. Rudy tinha tido que mudar-se a um apartamento no que permitem
ter animais de companhia.  bom para o Rudy e para Graa, porque se contribuem o que ambas necessitam.
     L se passou toda a velada chorando. Henry a consolava tomando a da mo, lhe passando um leno grande e vermelho que levava no bolso do peitilho de
a jaqueta, rodeava-a com o brao e deixava que soluasse em seu ombro.
     Um dos assistentes leu um poema. Uma mulher que tinha formado parte do crculo de sanacin se levantou e cantou uma cano que tinha composto especialmente
para a Isabel. Cantou-a a capella. E conseguiu que todos a secundssemos assim que nos aprendemos o estribilho.
     Rudy e eu voltamos a nos olhar. Grave engano. Tive que me dar a volta e me levar as mos  cara afligida pela emoo. Pus-se a chorar a lgrima viva.
Logo me soei e consegui recuperar a compostura.
     Terry se deslocou em avio de Montreal ao dia seguinte da morte da Isabel e ainda seguia aqui. Sua noiva, uma preciosa jovem negra chamada Susan, havia-se
reunido com ele dias atrs e o tinha acompanhado a nosso singular funeral. Pensei que Terry diria umas palavras a respeito de sua me, mas no o fez. Acredito que por
temor a no poder conter o pranto (por isso tampouco falei eu). Havia trazido uma cajita ovalada de madreprola com as cinzas da Isabel e a deixou no suporte de
a chamin. Podia parecer inadequado, mas no o era. Absolutamente. Eu dispus umas aucenas ao redor da preciosa cajita e todos os assistentes se fixaram em
ela. Resultava um smbolo muito digno, doce e aprazvel. Como Isabel.
     Gary no assistiu. Mas enviou umas flores e escreveu uma nota breve mas formosa que Kirby leu em voz alta. Eu no albergava o menor desejo de ver o Gary nem de
falar com ele, mas me perguntei como devia sentir-se depois da morte da Isabel. Esperava que sofresse. Que sofresse muito; que sofresse pelo menos uma dcima
parte do que sofria eu.
     Os discursos improvisados comearam a remeter. Kirby se levantou. Era a primeira vez que o via com traje. ps-se um terno cinza, com camisa branca
e sem gravata. Sentava-lhe bem. Estava algo gasto, mas no tinha mau aspecto. A beleza da Isabel, a pureza de seu rosto, por assim diz-lo, acentuou-se
 medida que se agravava sua enfermidade. Resultava estranho, mas o mesmo lhe tinha ocorrido ao Kirby.
     -No tenho muito mais que acrescentar ao que vrios ho dito -disse Kirby, com as mos entrelaadas  costas em postura de descanso militar-. Isabel nunca
perdeu a esperana, em que pese a que desde o comeo soube o que lhe ia ocorrer. Gostava de muito um poema do Walt Whitman, sobre tudo a estrofe que diz:
     "Tudo flui para diante e para fora
     Nada se desmorona
     Morrer  algo distinto
     Ao que todos supem
     e mais afortunado."
     Tratou de acredit-lo assim e estou seguro de que lhe serve de consolo. Sempre foi uma mulher muito valente. Dissimulava sua angstia e sua tristeza. Porque ela no ia
a perder s a uma pessoa muito querida, como ns, mas sim ia perder as a todas.
     Kirby tirou o leno do bolso e se soou sem envergonhar-se por deixar-se levar pela emoo.
     -Isabel acreditava que a morte era um processo, no um final -prosseguiu Kirby-. Dizia que tinha a obrigao de aferrar-se  vida quanto pudesse e o melhor que
pudesse (seu dever krmico, chamava-o ela). Mas tambm tinha f em que havia algo mais  frente, algo melhor, embora no tinha nenhuma pressa por chegar -acrescentou com um
ameaa de triste sorriso-. Falava sem rodeios de seus temores, de seu pesar. Mas seu convencimento de que a morte no era o fim evitava que se desesperasse. Simplesmente
desejava no ter que partir sozinha.
     Kirby olhou em redor com expresso de impotncia e olhos chorosos.
     -Bom... quero lhes dar as graas a todos. A Isabel tivesse emocionado sua presena, seus bons desejos e eloqentes palavras. Obrigado, muitssimas
graas a todos.
     Kirby dava por terminada a parte formal do ato sem que nenhuma de ns houvssemos dito uma palavra a respeito da Isabel.
     L se tampava a boca com o leno do Henry e apoiava a cabea em seu peito. Era evidente que estava destroada. Dirigi ao Rudy um olhar premente: te levante
e dava algo! Mas se limitou a sorrir contrita e a menear a cabea. Me deu vontade de estrangul-la.
     -Queria dizer algo -anunciei sobressaltada e com voz to nasal como se tivesse pilhado uma gripe.
     Quem j tinha comeado a levantar-se voltaram a sentar-se. Ao ver os rostos dos convidados, to srios e espectadores, comeou a me pulsar o corao com
mais fora.
     -S quero lhes agradecer eu tambm que tenham vindo, e ao Kirby tudas suas insnias. E tambm quero dizer...
     Queria lhes dizer o muito que ia sentir falta da meu amiga, o muito que a queria, e quanto significava para mim. Como comear? Minha mente se deslizava para
atrs, procurando o princpio do que devia lhes dizer a respeito dela.
     -... que tambm devo lhe expressar meu agradecimento a L, a L Patterson, porque faz onze anos teve a idia de formar nosso grupo de mulheres, as Quatro
Obrigado.
     Arremesso no cho aos ps do Rudy, Graa elevou a cabea e a inclinou me olhando para ouvir seu nome.
     -Assim  como conheci a Isabel -prossegui-. Em realidade, vimo-nos pela primeira vez em sua casa; e tambm aquela noite te conheci ti, Terry. Lembra-te?
     Terry me sorriu e meneou a cabea.
     -Tinha dezesseis anos e foi um traste.
     Risadas.
     -Por ento -continuei- fomos seis no grupo das Obrigado, mas com o tempo ficamos quatro, e quatro seguimos sendo, virtualmente. Isabel e L,
Rudy Lloyd (Rudy Surratt, na atualidade, perdoem) e eu. Eu... se pudesse... -balbuciei antes de poder me expressar com claridade-. Se tratasse de explicar o que
as Quatro Obrigado significaram para mim, passaramo-nos aqui toda a noite e no o conseguiria. Isabel era a maior, e era diferente. Mas no o digo porque fosse
maior, mas sim porque era nica. Sempre tive a sensao de que no nos merecamos isso, pelo menos eu. Era a pessoa mais gentil que conheci. Sempre aprazvel.
Sabia escutar como ningum. Observava a outros, mas no os julgava. Jamais julgou a ningum. E sempre soube o grande carinho que me tinha. Queria-me muito.
     Por um momento temi danific-lo tudo me pondo a chorar a muco tendido.
     -Acredito que a amizade nos ensina muito -prossegui aguerridamente-, contribui a que maturemos e a que troquemos. As Obrigado nos ensinamos muitas coisas: ou seja
aceitar nossa diferena; como funciona um bom matrimnio; como entender as ambies espirituais de outros; um senso de humor mais amalucado e pode que
uma maior ironia. E muitssimas outras coisas. Isabel no era exatamente nossa lder, mas sim era a alma do grupo. Era ela quem estava detrs de todo o bom
e generoso que fizssemos. No saberia explic-lo muito bem mas acredito que, no melhor dos sentidos, Isabel era como nossa me. E sem ela me sinto perdida.
Sinto-me rf.
     Segui falando sem olhar a L nem ao Rudy, porque era consciente de que se o fazia nos desmoronaramos.
     -Parece-me incrvel que Isabel j no esteja conosco. Desde sua morte sentei centenas de vezes o impulso de cham-la e lhe dizer algo, algo que s ela
entendesse e lhe importasse. Inclusive cheguei a desprender o telefone e comeado a marcar seu nmero. Em seguida tornei a pendurar, claro. A L lhe ocorreu o
mesmo, conforme me h dito. perdemos a nossa amiga mais querida, a amiga mais desprendida e carinhosa. Intento pensar em algo bom, em algo que me faa isso
suportvel, mas no posso. Isabel morreu antes de chegar  fase terminal que produz mais sofrimento;  o nico bom que ocorreu. Enfim... J est.
Dou graas a Deus por isso. Nos ltimos tempos era difcil ir visit-la. Eu nunca sabia o que lhe dizer. lhe dizer adeus era impossvel. Porque ento j no h
esperana. Se a gente no disser adeus, sempre fica algo por dizer, ainda cabe remdio. Um novo intento. Acredito que assim  como vivemos todos... nos dando largas para endireitar
as coisas, nos dizendo que possivelmente a prxima vez. E ento, quando j no vai haver prxima vez, resulta-nos insuportvel. De modo que eu no podia lhe dizer adeus
a Isabel. No sei se ela o tivesse preferido assim ou no. Era to generosa que pensava mais em ns que em si mesmo. Acredito que morreu como acreditava que ia ser mais
fcil para as pessoas que a queramos. Era muito tpico dela. Alm disso, Isabel era uma pessoa muito fcil de agradar -prossegui-. Ao final, quando acabei por aceitar
que j no havia nada que eu pudesse fazer para trocar as coisas, nada para san-la; quando compreendi que ia perder a sem remdio, tudo foi muito mais singelo.
Posto que j no havia futuro, tudo devia concentrar-se no momento. Podia fazer que lhe iluminasse a cara  lombriga chegar a sua casa; que risse com uma piada.
Podia dizer "quero-te, Isabel" e faz-la sorrir. Era tudo o que podia fazer, e parecia suficiente. Em realidade, isso  o que podemos fazer sempre os uns por
os outros. Mas vivemos com a miragem de que o tempo est infinito, de que somos imortais e de que no h necessidade de tratar de que tudo seja perfeito, aqui
e agora. Isabel me ensinou muitas coisas, mas acredito que essa foi a mais importante. Enfim... -Tomei flego, fiz uma pausa e acrescentei-: No queria que estas palavras fossem
to... teraputicas. Queria falar dela, no de mim. Mas acredito que agora mesmo nos sorri. E deve pensar: "Olhe voc por onde! Se nem sequer beber!" Isabel
estava acostumado a dizer que assim que bebia um monopoliza de mais me soltava a lngua. E  verdade. De modo que terminarei j. S direi: Quero-te, Isabel, e te jogarei muito de
menos. Rudy cuida muito a seu perrita e todas velaremos pelo Terry. E pelo Kirby; tambm cuidaremos dele porque vai sentir se muito sozinho. Espera que esteja agora em
um lugar maravilhoso, em algum lugar que te merea. E onde esteja em paz. E nunca se esqueceremos. -Agachei a cabea e murmurei-: Adeus, Isabel.
     E como esse adeus me resultava insuportvel, acrescentei para mim: "Logo falaremos."
     Rudy e L se levantaram e me abraaram. Formamos um lhe solucem trpode no centro do salo, e acredito que essa foi o sinal que esperavam outros para indicar
que o ato tinha terminado.
     Muitos partiram, mas outros ficaram a comer, beber e conversar.  algo que me tira de gonzo (que possamos fazer tais coisas em velrios, funerais
e atos similares). Eu tambm o fao, e no digo que esteja mal mas sim me parece assombroso.
     assisti a mais de um velrio, com o defunto  vista em seu fretro e, salvo os familiares mais prximos (e s vezes tambm eles), todo mundo se
comportava como se de uma reunio de amigos se tratasse. Enfim, deve ser o costume; nossa maneira, primitiva e covarde, de confrontar uma dor excessiva ou uma
presena muito imediata da morte. Mas se algum pode entender isso e perdo-lo  Isabel.
     De modo que, como por cura, transformei-me em anfitri e me dediquei a preparar bebida e a passar bandejas de comida dandoas graas a todos, que me
diziam que tinha sido muito valente ao falar, que tinha feito muito bem em organizar aquele ato, porque era o que a Isabel tivesse gostado.
     Contudo, em nenhum momento deixei de ter presente que Mick estava ali. Vi-o falar com L e Rudy, e logo com o Henry durante um bom momento. Sempre que dirigia
o olhar para onde ele se encontrava o via me olhar.
     Tinham passado quatro meses da noite que rompemos em meu dormitrio. Aps no o tinha visto nenhuma s vez. L j no tinha tanto contato com
Sally como antes e, portanto, essa fonte de informao me tinha secado.
     Mick estava como sempre, quer dizer, muito atrativo. Com melhor aspecto que o passado inverno, no to plido. Como o cabelo lhe tinha crescido, j no se notava aquele
corte to horrvel que lhe tinham feito, mas lhe viam mais cs. Davam-lhe um toque de distino. Tremiam-me os joelhos ao olh-lo. De modo que nada havia
trocado? Pode que fosse a fora do costume. Um pavloviano reflito condicionado que determinava que me fizesse a boca gua sem nada que me levar a
boca. A verdade  que nossa relao no podia ter sido mais absurda, pattica e sem esperana, desde o comeo.
     Deixa de me olhar com essa cara, condenado!
     Deveu me ler o pensamento, porque se deu a volta.
     Terry me pediu que sassemos um momento ao jardim para falar em privado. Parece um hombretn, muito alto e arrumado. Tem os olhos do Gary, embora com algo
da doura da Isabel no olhar. No paqueramos, mas adora que brinque lhe dizendo que eu gostaria que tivesse quinze anos mais.
     -Obrigado de novo por ter organizado isto -disse-me-. significou muito para mim.
     -Me alegro. Mas a verdade  que no tenho feito nada.
     -Eu tivesse preferido que tivesse tido um funeral como todo mundo.
     -J. Mas no  isso o que ela queria -pinjente, embora a verdade  que eu tambm tivesse preferido que tivesse um funeral.
     -Sei. Escuta, Emma -disse apertando-a nariz com dois dedos (um varonil gesto de indeciso). A verdade  que no acabo de me fazer  idia de v-lo to
maior.
     -O que?
     -Pois... que no sei o que fazer com as cinzas -disse desviando o olhar.
     -Pois v...
     - que no tenho nem idia. Devo as enterrar? H jardins funerrios onde muita gente as enterra. Mas lhe teria gostado a mame?
     Meneamos a cabea de uma vez. No, no lhe teria gostado.
     -Sabe se tinha algum lugar preferido? O perguntei a meu pai, mas me h dito que no sabe. O que crie que devo fazer? pensei em dar-lhe a
Kirby, mas no sei.
     -Hummm -pinjente.
     A verdade  que era um problema. Terry retornaria a Montreal, provavelmente se casaria com a Susan e certamente deveria ver a seu pai de tanto em tanto.
O que foram fazer as cinzas da Isabel no Canad?
     -Hei-me dito que possivelmente a vocs, as do grupo, possivelmente... que possivelmente vocs gostassem de assumir essa responsabilidade.
     Eu pensava o mesmo, mas me calei isso.
     -No sei, Terry -pinjente-. Ela quis que fosse voc quem dispusera. Alguma razo devia ter.
     -J. Mas disse que fizesse com elas o que considerasse mais adequado.
     -Huuummm -pinjente. Estava claro que Terry tinha refletido a fundo sobre a questo-. O comentaste a L? acrescentei, porque estava mais acostumada a que
fosse ela quem tomasse as grandes decises do grupo.
     -Est muito funda -disse meneando a cabea-. Por isso lhe pensei perguntar isso a ti.
     -Estraguem. -Senti-me um pouco adulada porque me considerasse a unem inteira-. Pois acredito poder dizer em nome de todas, do Rudy, de L e de mim, que o consideraramos
uma honra. De modo que de acordo, mas te chamarei ou te escreverei para te informar do que pensemos fazer antes de faz-lo.
     -Isso est muito bem.
     Sorriu-me aliviado, e reparei em que lhe tinha feito uma montanha de algo que no fundo no era to complicado. Era curioso, embora compreensvel, que ns
conhecssemo-la melhor que seu prprio filho, e que ele fosse j o bastante amadurecido para entend-lo assim. Confiava os restos de sua me s pessoas em quem seu
me mais confiava para que fizessem o mais adequado. Era triste? Ou era um consolo? Teria que pens-lo.
     Terry e eu nos abraamos sollozantes. Voltei a lhe dizer que sua me o adorava e que estava muito orgulhosa dele. Terry me disse que o que mais lamentava era que
no tivesse chegado a conhecer a Susan e eu lhe assegurei que tambm lhe teria gostado.
     Ao voltar a entrar, j comeavam a desfilar muitos e s ficavam os mais amealhados. Os que partiam deram as obrigado e eu as dava a eles por
vir.
     Possivelmente pela fora do costume olhei em redor procurando o Mick e vi que estava justo detrs de mim.
     -Tenho que partir j, Emma -disse-me.
     Acompanhei-o at o alpendre. J ficava o sol, avermelhado e dourado, por detrs dos edifcios da rua Dezenove. Estvamos no fim de abril, ou seja em
plena primavera, mas abril seguia sendo o ms mais cruel; as murchas azaleas que flanqueiam o atalho de minha casa se estremeciam com a brisa e na parte dianteira
do jardim havia mais gradeio que grama. Abracei-me os ombros, um pouco destemperada, e dava as graas ao Mick por ter vindo.
     -No quis deixar de faz-lo -disse-me.
     A ausncia da Sally flutuou entre ambos como uma fumaa. Onde est sua mulher?, senti o impulso de lhe perguntar. Sabe que vieste?
     Ao Mick sempre tinha cansado bem Isabel,  obvio, mas no a conhecia muito a fundo. Tinha vindo por mim.
     -Me gostou de muito o que h dito.
     -Acredito que me estendi muito -pinjente.
     -No.
     -E me resultou um pouco embaraoso. Porque sou escritora, no oradora.
     -Que tal vai voc...?
     -Melhor no o pergunte.
     Sorriu-me e eu, parva de mim, notei que me encolhia o corao.
     Um matrimnio (Hilda e Stan ou Sam no-sei-o que) saiu ao alpendre. Ele tinha formado parte do grupo de apoio da Isabel.
     -Tm que partir j? Bom, pois muito obrigado por vir.
     -Obrigado por nos convidar.
     -Boa sorte.
     -Que Deus a benza...
     Mick aguardou um lado, um pouco coibido, pendente de fazer outro  parte comigo.
     Quando ao fim Stan e Hilda partiram, Mick e eu ficamos frente ao corrimo do alpendre olhando os carros que se alinhavam junto aos meio-fios.
     -A sentir falta de -disse-me.
     -Acreditava estar preparada, mas no o estou. J a tenho saudades.
     -Pelo menos ficam seus outras amigas.
     -Sim -pinjente suspirando.
     -Sempre lhe invejei isso.
     -O que? Minha amizade com as Obrigado?
     -Cada primavera vou pescar trutas aos Catoctins com um amigo. O resto do ano apenas o vejo trs ou quatro vezes. E o considero meu melhor amigo.
     -Bom, mas isso  porque  um homem. Os homens no cultivam as amizades como ns. Tm a suas algemas ou a suas noivas como melhores
amigas.
     Resultava mortificante que Mick pudesse pensar que estava dando rodeios para voltar a lhe expor a questo da Sally, em que pese a que a verdade era que havia dito
o primeiro que me tinha passado pela cabea.
     -Posso te chamar, Emma? -perguntou-me de repente. J sentia falta de ouvi-lo pronunciar meu nome.
     -Para que?
     ps-se a rir e se olhou as mos, apoiadas no corrimo. Levava uma jaqueta de veludo cotel marrom e uma camisa azul. Desviou o olhar e observei seu perfil,
a curva que formava o nascimento da barba na bochecha. Sua proposio no me entusiasmou absolutamente. S me senti desfalecer.
     -Acaso trocou algo? -pinjente, embora me repateaba pergunt-lo, porque j podia ver a resposta em sua cara-. No, por favor, no me chame. No quero verte.
Estou-o passando muito mal pelo da Isabel, Mick; s me faltaria voc....
     -De acordo, Emma. Compreendo-o.
     Jamais tinha desejado tanto que algum me abraasse. Mas no nos tocamos, nem sequer as mos. E ao cabo de um momento o assimilei perfeitamente. A ausncia de
Isabel tinha deixado um vazio em minha vida que no tinha a menor esperana de poder encher.
     Mas ver o Mick com a cabea encurvada e expresso abatida me comoveu. Tinha um cabelo to precioso que turvava. Separei-me um passo para trs e ele elevou a vista.
Sua boca me atraa de um modo irresistvel. Tive que me dominar para no beij-lo.
     Por sorte vrias pessoas saram ento ao alpendre, pessoas s que tinha que saudar.
     -Adeus -disse ao Mick a modo de autntica despedida.
     E assim o interpretou ele. Dava-me a volta e me dirigi devidamente a um dos matrimnios que partia, boa gente, uma das instrutoras da Isabel e seu
marido. Ao voltar a me dar a volta, Mick j se partiu.
     Voltei a entrar e pinjente tudo o que se esperava de mim que dissesse  vintena de pessoas que ainda seguia em casa. Caberia pensar que lhe teria pego o tranquillo,
que me seria mais fcil, mais singelo, me despedir de todos, mas apenas me saam as palavras; s adeus, a destro e sinistro.
     Rudy reparou nisso.
     OH, Deus, Rudy, me ajude, pensei. E como se me tivesse lido o pensamento, em seguida me relevou nas funes de anfitri com os ltimos assistentes, e
logo ficou a dormir.
     -Possivelmente deveria comprar um gato -disse ao observ-la com Graa; sua fcil relao, admirvel, sua harmonia "humano-po".
     -Pois fui-dijo ela em tom amvel. Acendeu um cigarro e me passou isso-. Isso  o que vamos fazer em seguida, Emma. te trazer um gato.
Captulo 29
Rudy
     Ningum pensou que dispersar as cinzas da Isabel exigia um plano concreto.
     "Jogaremo-las ao mar", dissemos sem nos deter pensar alm dessas quatro palavras, que soavam perfeitamente lgicas e inclusive romnticas.
     Convimos em que a Isabel tivesse gostado. Gostava do mar e, sobre tudo, a costa do Outer Banks e do cabo Hatteras, que era o lugar preferido das
Obrigado. Alm disso, Isabel era de um signo de gua, Aqurio, e acreditava nestas coisas, na astrologia e todo isso. De modo que jogar suas cinzas ao mar estaria bem.
     Mas na prtica no se pode fazer, pelo menos da borda. Porque o vento devolve as cinzas para terra, que  justo o contrrio do que
pretende-se.
     Por sorte ns -embora deveria dizer L- camos na conta antes de abrir a caixa de madreprola, e evitamos que as ioniza da Isabel fossem parar
s dunas da Carolina, algo que no teria sido to terrvel, pensava eu. Mas queramos que suas cinzas fossem parar realmente ao mar.
     L props alugar uma barco para entrar no mar antes de pulverizar as cinzas (comentou que o tinha visto em um filme e que tinha funcionado o bastante
bem). Por sua parte, Emma sugeriu ir at o final do espign do Frisco, onde vo os pescadores, e as jogar ao mar ali. Mas ao final ambas as propostas foram
rechaadas pela mesma razo: implicavam a presena de outras pessoas, e ns queramos que lhe dizer adeus por ltima vez a Isabel fosse um ritual privado.
     A soluo que adotamos resultou muito melhor em teoria que na prtica. Poramo-nos os trajes de banho e entraramos no mar quanto pudssemos. O
plano era dizer cada una umas palavras, que L abrisse a caixa e o vento se levasse as cinzas e as pulverizasse brandamente pelo mar. E assim o fizemos, embora
no tivemos tempo de pronunciar as palavras de despedida previstas, porque Emma quase se afoga. Tnhamo-nos afastado muito da borda, sem ter em conta
que nadar no  o seu. Esses foram nossos dois enganos.
     -Tenho que dar meia volta! -balbuciou Emma nadando estilo co e tragando gua-. No posso me afastar mais. Abre j a caixa, L!
     A diferena da Emma, L nada como um golfinho (tinha nadado at ali com os braos por cima da cabea para no inundar a caixa das cinzas).
     -De acordo -disse-. Abriremo-la aqui... Est o bastante...
     -Vamos, date pressa, que no posso entrar mais! -clamou Emma.
     -De acordo, de acordo. Aqui entregamos as cinzas de nossa querida amiga ao mar que tanto amava quando estava entre ns. Isabel, ns...
     -Socorro!
     Agarrei a Emma do cabelo antes de que se afundasse.
     -Date pressa, L! Vamos! -gritei de uma vez que tratava de me carregar a Emma  costas-. Voc no te mova, que te deixo bem sujeita, entendido? Dava algo!
     -O que? -disse Emma engasgando-se com a gua que tinha na boca.
     -Dava algo pela Isabel.
     -Adeus, Isabel!
     L a fulminou com o olhar.
     -Entregamos estas cinzas ao mar. Vale. vou abrir a caixa. Rudy?
     -Te sentirei falta de, Isabel. Quero-te. Descansa em paz.
     A verdade  que tinha pensado dizer algo melhor, mas se no tinha Emma cuidado ia se afogar e me ia afogar para mim.
     L abriu a caixa e o vento levantou uma nubecilla de cinzas que, como prismas minsculos, refrataram a cegadora luz do sol durante uns momentos, e logo
fundiram-se como flocos de neve. Ao chegar a seguinte onda desapareceram.
     -vou atirar tambm a caixa -disse L.
     -OH, no! -exclamei-. Mas... bom, sim. No sei... Emma, crie que deveria...?
     -Por Deus santo!
     L deixou cair a caixa e eu comecei a nadar para trs em direo  borda sujeitando com um brao a Emma pelo peito, atirando dela como uma socorrista,
embora nem sequer sabia se era capaz de faz-lo. L ficou atrasada um par de minutos e logo nos seguiu.
     Depois uma ri de coisas assim, e inclusive ento o tentamos, mas o certo  que nos levamos um bom susto. Possivelmente se tivssemos esperado um pouco mais,
um ano em lugar de dois meses, depois do falecimento da Isabel, a perspectiva do tempo tivesse amortecido nossa sensao de ter falhado. Mas nos sentamos
na areia enquanto o sol ficava a nossas costas, silenciosas e tristes (embora Leia estava mas bem furiosa). No tnhamos estado muito afortunadas, que digamos.
O que pensamos que seria um rito emocionante, importante e inclusive catrtico se converteu em um fiasco pouco digno que no esteve  altura do que merecia
Isabel. Tnhamos a sensao de lhe haver falhado.
     Foi primeira das duas noites que passamos no Neap Tide. Como no tnhamos tido tempo de comprar para o jantar, fomos ao Brother's que  nosso restaurante
preferido na zona. Mas nem sequer o suculento churrasco uso Carolina nos levantou o nimo. Assaltavam-nos muitos lembranas. E, como eu levava trs
meses sem beber e pensava perseverar, nem sequer me coube o recurso de achisparme.
     Voltamos para chal melanclicas. Nenhuma o dissemos mas sei que todas pensamos: pode-se saber por que nos pareceu isto divertido alguma vez?
     Que interesse tem nos sentar a jogar remigio ou a ver estpidos programa de televiso que nem mortas veramos em casa, nos abarrotando, lendo livros em
os que no podemos nos concentrar porque nos interrompemos constantemente com comentrios?, conversar sobre coisas superficiais ou absurdas, sobre as que em realidade
no quereramos falar, simplesmente porque uma j h dito o que tinha que dizer durante o interminvel trajeto at aqui, e j no fica mais que falar de tolices
 .
     Mas antes no nos pareciam tolices. Possivelmente no falssemos de temas muito profundos, mas no nos pareciam conversaes absurdas quando Isabel estava conosco.
Pode que, simplesmente, sem ela fssemos incapazes de nada melhor. Possivelmente sua morte significasse tambm a morte do grupo.
     Possivelmente segussemos nos reunindo durante uma temporada e logo, de modo gradual, imperceptvel, fssemos deixando correr, fingindo que tudo seguia igual, at
que um dia o deixssemos de tudo.
     Sempre tinha acreditado que era L, mandona e formal, quem impunha a ordem no grupo, a que fazia que segussemos unidas. Mas no seria Isabel, em que pese a ser
a mais calada? Segundo Emma, era a alma do grupo. Pode que sem ela nos sentssemos perdidas.
     -Acredito que vou deitar me -pinjente passadas as dez.
     Emma e L me olharam como corujas, inexpressivas, e logo desviaram o olhar. No disseram "To cedo?". Limitamo-nos a nos dar as boa noite desmayadamente
e eu baixei ao dormitrio que utilizava na planta baixa.
     Naquela ocasio tive a habitao para mim sozinha, a dos beliches que Emma e eu compartilhamos o passado vero. Senti-me sozinha. Sentia falta da Graa. Houvesse
querido traz-la, mas pedi ao Kirby que cuidasse dela durante o fim de semana. Como tem artrite nas patas traseiras no teria podido subir e baixar as
escadas.
     Arremesso na cama me pareceu um bom sintoma desejar estar em minha casa, tendo em conta que j no tenho casa propriamente dita, porque a deixei ao Curtis
(sim, j sei, em que pese a tudo). Agora vivo em um apartamento grande e muito ensolarado na zona oeste do Georgetown.
     Curtis no se mostra muito exigente no assunto do divrcio, embora a verdade  que lhe peo muito pouco; s o suficiente para ir atirando at que comece
a ganhar um salrio, embora no sei em que trabalho. E depois se acabou. Matrimnio liquidado.
     A L e Emma no lhes satisfaz absolutamente minha magnanimidade. Inclusive Eric acredita que me precipito. Mas merece a pena, contanto que tudo transcorra com suavidade.
Aterra-me pensar que me saia o tiro pela culatra. Porque tudo vai muito bem e no acredito em minha boa sorte.  como se caminhasse com ps de chumbo por um atalho
semeado de minas, temerosa de pisar em uma e saltar pelos ares. Tive que me esforar to psicologicamente para deixar a Curtem que me fiquei exausta. Mas,
pouco a pouco, vou repondo foras. Estas coisas requerem tempo.
     Ainda no voltei para classe de jardinagem. Mas voltarei a assistir em outono. O que fao agora? Pois voltar a trabalhar com a cermica. Eu gosto tanto que no compreendo
por que o deixei durante tanto tempo. Tambm levo um jornal. Vou  consulta do Eric. No bebo. Dou largos passeios com Graa. E realizo algumas tarefas de
voluntariado.
     Quase todos os dias descubro um novo aspecto no que Curtis... explorava-me? No. No  a expresso adequada. Enganava-me? Seja como for, referirei um
pequeno exemplo.
     Tnhamos gostos diferentes em matria de programas de televiso. Curtem s queria ver a CNN, a CNBC e a C-SPAN. Ponto. Nada mais. Em troca eu gostava
os espaos dramticos (peas teatrais, filmes, sries de hospitais, telecomedias e o espao Teatro clssico), todo aquilo que entranhasse uma histria. Ele
sabia, naturalmente, mas o ignorava, sem fazer nunca concesses. As pessoas inteligentes tinham que ver o secretrio do Interior dirigir-se ao Senado ou
ao de Fomento dar uma conferncia de imprensa. E, quando tinha terminado, as pessoas inteligentes apagavam o televisor.
     O modo que tinha Curte de agradecer minha passiva cumplicidade era burlar-se dos programas que eu gostava. Dizia que eram muito sensveis, melodramticos,
banais, mal interpretados, absurdos, vulgares, acidentados e sempre devia dar por sentado que eu estava de acordo com ele, que estvamos os dois por cima de
aquela telebasura. Sei que era uma covardia por minha parte, mas seu desdm era to cortante e descalificador que lhe dizia que estava de acordo com ele. Mas mentia.
No sei explicar como conseguia me fazer isto. Tudo o que posso dizer  que me sentia impotente. Se ele me tivesse pedido isso, enquanto estive sob seu influxo haveria
jurado que o branco era negro.
     Agora, como j no est, vejo Urgncias e filmes antigos e novas verses de cinema clssico. Sou carne de sof! Em realidade no  porque deseje muito por esses
programas mas sim pelo prazer que me produz v-los sem sentimento de culpabilidade. Sinto-me como uma delinqente a quem acabassem de soltar do reformatrio. Como
estou em liberdade condicional tenho que me andar com cuidado, sem me passar. Mas agora tenho algo que no recordo ter tido h sculos, ou acaso nunca: esperana.
     -boa noite, Emma.
     _Buenas noites, L.
     Ouvi-as cochichar uns momentos. Logo fecharam as portas de seus dormitrios sem fazer rudo para no me incomodar. ficariam acordadas como eu, frustradas,
ruminando a respeito de suas preocupaes e perguntando-se por que agora parecamos no conectar? Depois da morte da Isabel j no temos confiana no grupo.  como
se uma tivesse quatro pernas e lhe tivessem amputado uma. sentiria-se uma muito mal at que aprendesse a caminhar com trs, se  que chegava a consegui-lo. E provavelmente
no estaria muito satisfeita de si mesmo, porque se sentiria coibida, muito desgraada.
     Lembrana a ltima vez que me deitei neste beliche e Emma nessa outra. Estivemos acordadas at tarde falando de nossa vida. Justo ento as coisas
comeavam a trocar para mim, comeava a me sentir mais forte.
     "Que valente !", exclamou Emma, quando lhe contei o de que tinha fumado diante do Curtis.
     Ento deveu ser quando ele notou a mudana em mim. De modo que isso significa que deveu passar seis meses temendo me perder (de perder a que eu era antes,
a mulher dependente cuja vida girava exclusivamente a seu redor), antes de dar o passo fatal de dizer que ia morrer.
     Que deciso mais se desesperada, Meu deus! Ainda me custa trabalho entend-la. Eric opina que foi algo patolgico e que Curtis precisa submeter-se a terapia
muito mais que eu.
     Enfim, a verdade  que acredito que sempre o soube. Fomos aliados de convenincia, embora no fssemos conscientes disso. Era uma miragem que fosse ele
quem dominava. Apoivamo-nos. Possivelmente possam considerar que nossa relao foi doentia, mas as pessoas fazem as coisas mais inverossmeis para sobreviver.
Pelo menos, jamais lhe fizemos mal a ningum, salvo a ns mesmos. No lhe guardo ressentimento nem lhe odeio.
     Eric e eu seguimos analisando o que sinto mas, em qualquer caso, no  dio, nem sequer rabia. Entendo ao Curtis perfeitamente, porque me pareo muito
a ele e, honestamente, no posso me enfurecer desprezando-o pelo que me fez.
     Mas no posso voltar com ele, e isso demonstra que se produziu de verdade uma mudana em mim. Durante muito tempo pensei que jamais trocaria ou, mais exatamente,
pensei-o durante toda minha vida. Acredito que o cmulo do desespero  precisamente esse: no poder acreditar na mudana.
     Agora no s comprovei essa mudana mas tambm o provoquei. Sou, certamente, uma mulher valente. Passo da euforia ao pnico, mas no  a tpica oscilao
dos maniacodepresivos mas sim mas bem da loucura corrientucha; uma variedade de neurose de estar por casa, poderamos cham-la. Ou seja, algo que teoricamente resulta
reconfortante.
     Mas estou assustada. Necessito muita ajuda e me aterra pensar que as Obrigado acaso no me possam proporcionar isso No sei se for assim. Estamos as trs muito pesarosas.
A ausncia da Isabel  a pena que compartilhamos, mas temos outras mais pessoais. A minha  Curtis, a da Emma  Mick e a de L  o filho que no chega.
     Possivelmente s necessitemos tempo para nos adaptar a nossas trs pernas. Mas tenho medo. No toda mudana  positiva.
     No sabe como eu gostaria que seguisse aqui, Isabel! No nos diria o que temos que fazer, mas se estivesse conosco saberamos.
Captulo 30
L
     Quando vamos  casa da praia estamos acostumada comer camares-rosa salteados (ou pelo menos as duas ltimas vezes que estivemos ali).
     Agora estvamos ali por quinto ano consecutivo e necessitvamos uma tradio que reforasse nossos laos, embora fosse uma tradio culinria. De modo que
insisti.
     -Vocs dois comecem a cortar as batatas -disse a Emma e ao Rudy.
     Eu havia trazido dois quilogramas e meio de casa. por que comprar batatas novas se j tinha as de minha horta?
     -Eu irei comprar camares-rosa frescas. Estarei de volta dentro de vinte minutos.
     Logo resultou que foram quarenta, mas ainda estavam cortando batatas quando retornei, sentadas  mesa da cozinha, com as cabeas quase tocando-se, deixando
cair as exumaes em uma bolsa de papel que tinham no cho.
     Quantas jantares teremos preparado em nossas respectivas cozinhas nos ltimos quinze anos? Quantos copos de vinho teremos bebido? Quantos secretos haveremos
compartilhado?
     Elevaram a vista, sorriram-me e seguiram com o trabalho, em silncio, um silncio cmodo e natural. Pareciam um velho matrimnio. Invejava-lhes que ambas conservassem
a seu melhor amiga (porque, em que pese  Isabel, a melhor amiga do Rudy era Emma, e viceversa).
     Ultimamente Rudy est mais magra e Emma mais taciturna. E eu? Eu estou mais triste.
     -trouxeste os camares-rosa? -perguntou-me Rudy, sentida saudades por meu atraso.
     -Sim -repus deixando a bolsa em cima do suporte-.  que fui tambm a correios. s vezes h alguma fatura no compartimento, ou avisos de pagamento de impostos
da prefeitura. Se os envio a minha me.
     -E? -disse Emma me olhando carrancuda-. E isso o que ?
     -Uma carta -respondi lhe dando a volta ao sobre-.  da Isabel.
     Olharam-me perplexas, jogaram a cadeira para trs e se levantaram.
     -Como h dito?
     -No  sua letra.
     -Mas sim  seu remete.
     -me deixe ver. Que data leva o carimbo?
     Sentei-me frente  mesa com o sobre na mo.
     - letra do Kirby. E o carimbo  de 8 de maio.
     -Em 8 de maio... Mas ela...
     -Enviou-a Kirby -pinjente-. Depois.  para os trs e com os gestos do Neap Tide. Deveu ter a segurana de que viramos. Quereria que a lssemos
aqui.
     Deixei o sobre na mesa e o olhamos. Kirby tinha escrito pulcramente os nomes das trs como destinatrias, e o remete da Isabel em uma esquina.
     -Devemos abri-la? -perguntou Rudy, muito erguida, com as mos entrelaadas sob o queixo.
     -A ti o que te parece? O que vamos fazer?, atir-la ao lixo e seguir cortando batatas? -exclamou Emma.
     Rudy lhe tirou a lngua.
     -Refiro a se a abrirmos agora ou esperamos at depois de jantar.
     -Porqu?
     -No sei.  como mais...
     -J. Como uma cerimnia -pinjente-. Para nos concentrar s nisso. Sairemos ao alpendre e a leremos.
     -Est chovendo, e alm disso ter escurecido -assinalou Emma.
     -Pode que logo j no chova, e podemos tirar velas.
     Emma elevou as mos e voltou s deixar cair dando uma palmada nas coxas.
     -Pretendem jantar antes de ler a carta da Isabel?
     De modo que a lemos antes de jantar. Mas primeiro Rudy baixou  planta e trouxe um pacote de cigarros. Emma abriu a melhor garrafa de vinho, o Chardonnay
que reservvamos para os camares-rosa, e serve duas taas, uma para mim e a outra para ela. Rudy se preparou um ch gelado. Eu fui ao quarto de banho e me enchi os bolsos
de kleenex.
     -Quem a l?
     -Eu -pinjente.
     Emma arqueou as sobrancelhas mas no disse nada.
     Como seguia garoando nos sentamos no cho do salo, com os cinzeiros, as taas e os kleenex estrategicamente situados frente a ns. Introduzi

o ndice sob a lapela do sobre o Y....
     -Espera um momento -disse-me Rudy-. Tenho que ir ao asseio.
     Emma franziu o cenho e bebeu uns sorvos enquanto aguardvamos, sem me olhar. Dava a impresso de fazer proviso de integridade para quando eu lesse a carta. Porque
no gosta de exteriorizar seus sentimentos ante outros. E to melhor, porque se Emma pusesse-se a chorar seria o fim do mundo.
     Rudy retornou em seguida, acendeu um cigarro e detrs deixar o fsforo no cinzeiro exalou uma baforada de fumaa.
     -Vale. J estou.
     O sobre continha trs folhas datilografadas e uma quarta folha escrita  mo.
     -Esta  do Kirby.
     -L-a.
     -"Queridas Emma, L e Rudy."
     -Nomeia-nos por ordem alfabtica -assinalou Emma.
     -"Durante as ltimas semanas de sua vida, Isabel comeou a sentir-se afastada das coisas que tinha conhecido e inclusive das pessoas que tinha amado. Dizia
que era um presente morrer rodeada de seres queridos. Disse-me que lhe resultava difcil reconhecer-se, preocupar-se ou falar a respeito de muitas das coisas que considerava
to vitais em outro tempo. Mas queria lhes escrever uma carta s Obrigado e, portanto, tinha que recapitular, retroagir-se ao passado. Era uma viagem que no sempre
quis fazer; uma viagem de volta ao amor, dizia arrellanada de flanco entre as almofadas do sof, a nica postura em que estava cmoda ultimamente. E foi me ditando
com lentido esta carta, que eu copiava com meu ordenador. Ditou-me isso ao longo de vrios dias e no de um puxo, porque, como sabem, por ento suas foras se
tinham debilitado muito. Sei que quo nico desejava era abandonar j este mundo e, em realidade, parte dela j o tinha abandonado. Permanecia largos momentos em
silncio, mas no dormia; possivelmente sonhava, afastando-se desta vida, entrando no que possa haver depois. Acredito que sua galopante deteriorao fsica na fase terminal
pilhou-a por surpresa. Acreditava dispor de mais tempo. Quando se precaveu da realidade j no teve mais alternativa que me utilizar para dizer as coisas que ainda queria
dizer. Confio em que no vos importncia que eu tenha intervindo nisto. Era inevitvel. Orgulha-me e me produz uma funda satisfao que Isabel me confiasse a
misso de intermedirio. Vocs tm o privilgio de hav-la conhecido durante muito mais tempo, mas no acredito possvel que a tenham querido mais que eu. Com meu
mais cordial saudao. Kirby."
     -Bom -disse Rudy quedamente, e comecei a ler a carta da Isabel.
     -"Queridas. Espero no me equivocar e que estejam as trs no Neap Tide. Quero pensar que esto juntas e que ouvem isto (l-a voc, L) ao mesmo tempo. Faz
bom dia? Imagino no alpendre a ltima hora da tarde, com o sol ficando sobre as guas do estreito. De modo que agora Emma est a salvo de uma excessiva
exposio ao sol. Deve levar seu jeans recortados e seu descolorido pulver vermelho. deveu que estar todo o dia com o nariz pego a um livro e est desejando
tomar uma taa e ter um momento de conversao. E voc, Rudy?, estilizada como uma pantera, o que estiveste fazendo? Desenhar na praia, seguro. Passear sozinha. Mas
agora est tomando Coca-cola ou algo assim, disposta tambm a um momento de conversao. Voc, L, suponho que ter preparado umas originais peas, ou possivelmente
um coquetel de sua colheita. Seguro que estar to atrativa como sempre, com qualquer trapito singelo e de bom gosto que te tenha comprado no Saks, da cor de
moda que te sinta de maravilha."
     -Se for te jogar a chorar, ser melhor que no siga lendo -advertiu Emma.
     Mas prossegui como se no a tivesse ouvido.
     -"Tinha pensado lhes escrever uma carta a cada uma, mas o pensei melhor. Ao longo destes anos, quase sempre o compartilhamos tudo em grupo. De modo que
escrevo-lhes s trs de uma vez.
     "Voc, Rudy,  minha herona. Jamais me havia sentido mais orgulhosa de ningum que a noite que jogou ao Curtis de sua casa. Que valente! Espero que seja consciente
do forte que . Disse que no te teria atrevido sem ns, mas eu no acredito. E, embora assim fosse, para isso esto as amigas, no? Note em como 
agora sua vida; no a gosto que est. Embora j sei que no me crie. Espera que Emma e L tratem de te convencer. Voc, Rudy,  to amvel, est to isenta de
malcia para outros... Admiro sua fortaleza e seu valor, sua coragem para confrontar uma infncia, uma herana que, a estas alturas, teria destroado a qualquer
que carecesse de seu valor. Sinto dizer que duvido que chegue a te ser nunca fcil agent-lo, pelo menos no nesta vida, mas sair adiante em que pese a isso. Nunca
esquea a seus fiis amigas, que sempre estaro a seu lado e sempre lhe querero.
     "Em relao aos homens, espero que aprenda a confiar em outro. Sei que saber faz-lo, e espero que seja logo, porque tem muito que dar. A prxima vez
trata de compartilhar sua vida com algum que te merea. E tome cuidado. te proveja com parte do cepticismo da Emma, sem te passar. E reza por ter um pouco da
boa sorte de L.
     "Fica outro pequeno conselho que te dar (espero que reconheam que minha "elevada" posio me d direito a isso). Por pouco que possa, faz as pazes com voc
me. Faz que cicatrize a ferida. No estou segura (provavelmente Eric sim lhe saber dizer isso lhe pergunte) mas acredito que no poder progredir de verdade at que o
tente. Posso te dizer isto desde minha posio de filha e de me. Possivelmente no resulte, mas basta tentando-o. Nunca poder evitar os desequilbrios de sua famlia,
mas no lhe afetaro porque te imunizaste. Disso estou segura, Rudy. J no  aquela menina que ficou no quarto de banho com sua me, arremesso com ela
nas ensangentados ladrilhos, aguardando a que chegassem os majores.  Rudy Surratt, uma mulher amadurecida, inteligente, criativa e encantadora, com um corao enorme
e indulgente.
     "Quero-te, Rudy. Tenho muita confiana em ti. Observarei-te, porque sua nova vida ser interessante. te cuide muito. S com que te trate com o carinho com
que trata a outros, sair adiante.
     Fiz uma pausa.
     -Isso  tudo -pinjente-. O que segue  para a Emma.
     Rudy se tornou de barriga para cima, entrelaou as mos e se tampou os olhos.
     -Segue -disse com voz entrecortada-.  O que diz a Emma?
     Tive que me soar antes de seguir.
     -"Sabe o que vou jogar mais de menos de ti, Emma? Sua maneira de te calar que pensa que todas essas coisas nas que acredito, sobre o New Age, so bobagens. A
isso lhe chama ser indulgente! eu adoro quando inclina a cabea e pe os olhos em branco sem dizer uma palavra. A tolerncia  a essncia da amizade. Sua tolerncia,
graas a Deus, procedia do amor, no da indiferena. No sabe quanto te quero!
     "Tambm para ti tenho um conselho, naturalmente. Muitos, em realidade. No sei por que mas me saram em forma de aforismos, uns de minha colheita e outros apropriados.
     "O medo mata. Defender-se acaba por voltar-se contra uma. O fracasso no  um fracasso,  um passo; e a vida no  mais que uma sucesso de passos. Ou de
fracassos, com ocasionais e muito espaados xitos. Se no a pifias bem pifiada for que no vive. E a dor tampouco  o que se d em supor. Falo por experincia.
E viver com medo  dor  um no viver.
     -Capta-me?
     "Concretizando: como pode no saber a respeito do que escrever? Diz no ter encontrado ainda seu tema (e quando me contaste alguma de seus probaturas devo confessar
que no posso deixar de estar de acordo contigo). Vejo o problema com grande claridade: Estiveste-te escondendo detrs das histrias. Podem ser boas histrias,
mas no so reais e por isso as detesta. E logo detesta a ti mesma. Deixa de fazer isso. J sei que dizer a verdade assusta, mas tem bastante valor para faz-lo.
Srio, Emma, de verdade no sabe a respeito do que escrever? Pois... a respeito de ns, carinho. No crie? Escrever um livro a respeito de ns.
     "Quanto ao homem de que est apaixonada, acaso te surpreenda este conselho: Provavelmente cria que no me simpatiza a outra mulher, tendo em minha conta
histria matrimonial. Acredito que o bom comportamento  importante, como o so a venerabilidade e a honestidade. Mas se uma pessoa cai uma e outra vez no mesmo
engano, por melhores que sejam suas intenes, segue sendo um engano. O filho a quem pretendem proteger no pode ser protegido, tal como vs pretendem proteg-lo,
nem tampouco a esposa. chegou o momento de atuar, Emma. Deixa que a vida siga seu curso.  muito curta, ah, muito curto. Pode tomar o que quer agora. Acredito
que realmente pode faz-lo.
     "Trfico de no ter tanto medo. Disse-me que j no podia suportar mais sofrimento (refirindote ao que te produzia minha enfermidade). Bom, pois agora eu j
no estou, e te deixei um pouco mais de espao. No posso negar que o amor implica s vezes sofrimento, mas se esse homem  o que te est destinado, ser digno
de ti.
     "OH, devo seguir chamando-o "esse homem"? Pelo amor de Deus, lhe diga a L quem . E te asseguro que no vai escandalizar se.
     "Obrigado por tudo o que me deste de presente: tantas risadas, sua encantadora insegurana, sua lealdade. No h ningum como voc. te querer foi para mim um privilgio.
E, agora, sei valente. Segue o exemplo do Rudy! E tudo ir bem."
     -Bom, pois j est -pinjente elevando a vista-.  Quem  ele ?
     Emma tinha cara de tornar-se a chorar. Senti-me to violenta que optei por brincar.
     -trata-se do Henry, no?
     Emma ficou sem flego. Acreditou que o dizia a srio! Assombroso (porque estou acostumado a ser eu quem toma a srio o que ela diz em brincadeira). Mas em seguida caiu
na conta e ps-se a rir.
     -OH, Deus -exclamou deixando cair de costas no sof junto ao Rudy.
     Me fiquei olhando. Seus estmagos subiam e baixavam ritmicamente entre risadas e pranto. Estava claro que Rudy j sabia.
     -Ou seja que sou quo nica no sabe?
     Emma voltou a sentar-se.
     -Sinto muito... Era muito delicado, L. No lhe podia dizer isso qu creis que no me lo ha dicho? Debo llamarlo? O sera presionarlo? Quiz ya no le intereso. Y si ya se ha marchado? Y si ha encontrado a otra?
     -Bom, e bem? diga-me isso agora.
     Emma se encolheu de ombros com fingida desenvoltura. Mas notei que estava nervosa.
     -Pois...  Mick.
     -Mick! Mick Draco? -exclamei surpreendida-. Mas se acreditava que no te caa bem! -acrescentei. Esperava que Emma me contasse isso com detalhe, mas primeiro queria ler
a parte da carta dirigida a mim-. E por que no me h isso dito antes? Logo que vejo j a Sally, se for isso o que se preocupava.
     -Pois sim, em parte sim.
     -Embora Henry sim fala bastante com o Mick -pinjente-. Sabe que Sally voltou para Delaware para ficar a viver ali?
     Emma ficou to boquiaberta que compreendi que no sabia.
     -Como diz? -exclamou Rudy incorporando-se.
     -separaram-se. No sabiam? E provavelmente Mick v a Baltimore a estudar arte no Instituto Maryland.
     -Mas Jay... o que tm feito com ele ? -disse Emma com voz entrecortada. Primeiro se tinha ficado lvida e agora estava ruborizada.
     -Esto-o estudando. De momento est com a Sally, pensam compartilhar a custdia.  muito recente, segundo Henry. Deve fazer coisa de uma semana.
     -E por que no me h isso dito? -antes de que eu pudesse responder a sua ridcula resposta se levou as mos  boca e murmurou-: por que no me h isso dito
ele? Claro que... eu lhe assegurei que no o esperaria. Pode que j no lhe importe. Entretanto, na reunio que organizamos em memria da Isabel, esteve to... Por
o que criem que no me h isso dito? Devo cham-lo? Ou seria pression-lo? Possivelmente j no lhe interesso. E se j se partiu? E se tiver encontrado a outra?
     -Em uma semana?
     - possvel!
     -Em tal caso o vais passar mau -disse Rudy.
     -Diz Isabel que o sofrimento merece a pena -repliquei.
     Emma apartou as mos da boca.
     -Est bem. Chamarei-o -disse comeando a levantar-se.
     -N! -exclamei.
     -OH! -exclamou ela a sua vez. E voltou a sentar-se, rendo, e visivelmente sobressaltada-. Perdoa. Termina a carta.
     -Bom... se no ser muita molstia para ti. Por nada do mundo quereria... Quieta! Quer te estar aquieta? Basta j!
     Mas no pude conter a risada porque me tinha rodeado com seus braos e comeado a me beijar em toda a cara. Rudy se partia o peito de risada. Mas me pe de
os nervos que Emma faa isso, e precisamente por isso o faz.
     Mas nos veio bem. E em seguida voltamos as trs a nos tranqilizar. Foi o melhor momento que tnhamos passados da morte da Isabel.
     -Bom, vou seguir lendo, de acordo? Mas lhes comporte.
     -Descuida -disse Rudy.
     -Vale. J estamos srias. L -disse Emma, que levantou os joelhos e as abraou.
     Tinha-lhe trocado a cara. Sua expresso era mais vivaz, como se a ctis lhe tivesse estirado ou tivesse os mas do rosto mais proeminentes que fazia cinco minutos.
Parecia um arame tenso. Se o tivessem pulsado teria produzido um som agudo e prolongado.
     Voltei para a carta da Isabel. Tivesse preferido ler para mim sozinha, mas no teria sido justo.
     -"A ti, L, meu querida e doce L, o que posso te dizer? falamos tantsimo nestes ltimos dias que fica pouco que dizer, salvo que vou jogar te muito
de menos. Deram-lhe as obrigado Emma e Rudy por ter inspirado a idia de formar o grupo ? lhe Deveriam dar isso Pelo menos uma vez por semana, digo eu."
     Emma e Rudy me olharam risonhas mas chorosas.
     -"Voc  a sensata, sempre o havemos dito. E, s vezes, devido a isso esquecamos ser mais gentis contigo, pensando que j foi bastante forte e no necessitava
de nossa gentileza. E  verdade que  forte, mas tambm tenra no fundo. No poderia imaginar os doze ltimos anos de minha vida sem ti. foste meu amiga,
e como uma filha. Uma delcia para mim."
     Embora me interrompi e permaneci em silencio durante um minuto, Emma e Rudy no disseram nada.
     -"J aconteceu certo tempo desde que voc e Henry desistiram de tentar ter um filho. J acontecestes o duelo, por assim diz-lo. E como j no estou, agora
no mesclar estas duas perdas to facilmente. Pode ver as coisas com maior claridade. Ver, L, tenho uma boa notcia que te dar. Sabe que h um beb que
busca-lhes? lhe tentei dizer isso antes, mas no encontrava o modo de faz-lo adequadamente. estive pensando muito nisso. Emma no querer ouvir como o soube
e portanto no o direi... mas soube a cincia certa que, agora mesmo, em algum lugar, h um beb que lhes busca a ti e ao Henry. Devem tratar de encontr-lo
(seja menino ou menina, porque nem sequer eu conheo esse detalhe, Emma). E quando o encontrarem (porque o encontraro) tero que quer-lo com todo seu corao.
E o querero. Me alegro muito por ti. Alivia-me e consola muito isto saber de ti. E seu beb... -ah, que me mais maravilhosa ter-, ser um beb realmente afortunado.
Poderia lhes dizer muitssimas mais costure, meu queridas Obrigado; L, Rudy, Emma, meus amigas da alma. Mas, por outro lado, no h realmente nada mais que dizer. Sinto-me
muito perto de vocs. E pensei em algo que podem fazer por mim.  mais: rogo-lhes isso. No admitirei discuti-lo. Devem procurar um novo membro para o grupo que
no seja algo transitivo a no ser permanente. Tm que tent-lo, mas no com inapetncia nem acolh-la com dissimulado retintn. E ainda seria melhor se incorporassem a dois.
No podemos deixar que nosso grupo languidezca, sabem perfeitamente. Faam por mim, por favor. Porque em realidade no  por mim, mas sim por vocs. E desejo que
faam-no.
     "Agradeo-lhes na alma tudo o que me destes. L, Emma, Rudy... quero-lhes. Agradeo-lhes que tenham estado comigo at o final. Sabem que lamento?
No estar a seu lado quando lhes chegar a hora, para poder corresponder um pouco a todo o amor, o consolo e a doura que me destes.
     "Embora... (suponho, Emma, que isto j lhe via vir) possivelmente sim poderei estar a seu lado. Sim, acredito que sim. Em realidade, agora que o penso, conto com
isso. Mas, sobre tudo, Deus, que no seja logo. Com todo meu amor. Isabel.
Captulo 31
Emma
     Pedi ao Rudy e L que sassem ao alpendre quando decidi chamar o Mick. Porque s h telefone na cozinha e teriam podido me ouvir.
     Embora o alpendre estivesse molhado, j no chovia. De modo que podiam estar ali perfeitamente.
     Mas a que no sabem o que? Porque comunicava. Com quem estaria falando? Uma infinidade de possibilidades -todas elas indesejveis- cruzou por minha mente.
     -Comunica. De modo que j podem voltar a entrar.
     Entraram e em seguida pusemos a mesa e acabamos de preparar os camares-rosa.
     -Olhem, sabem o que lhes digo? Que voltem a sair. vou chamar outra vez. Vai -pinjente. E como temi que se revoltassem lhe aproximei uma bolsa de pretzels ao Rudy-.
Se tiverem fome, vo picando.
     Saram de novo protestando pelo baixo e eu voltei a marcar o nmero do Mick.
     -Diga.
     Em adiante associarei as grandes emocione, o temor, o pnico e o alvio que te deixa sem flego com o aroma de camares-rosa salteados.
     -Mick? Sou...
     -Emma?
     -Sim. Ol. Estava falando com L e me...
     -Est em casa?
     -No, no Hatteras.
     -chegastes hoje?
     -Ontem. Chegamos ontem.
     ps-se a rir de um modo estranho.
     -Agora me explico isso -disse.
     -O que?
     -Porque ontem  noite te estive chamando sem parar. Pensei que estaria com um ligue, com algum de seus onipresentes pretendentes.
     Comearam a me tremer as pernas. Deixei escorregar o corpo at o cho sem soltar o telefone.
     - Pretendentes ?
     Senti-me eufrica. Notei o queixo, a mandbula e os lbios como se os tivesse inchados. No me reconhecia.
     -Chamei-te faz um momento -pinjente-, mas comunicava. pensei que falaria com sua nova noiva.
     De novo se ps-se a rir.
     -No; falava com o Jay.
     -Ah-exclamei aliviada-. Onde est?
     -Com sua me, que est com meus sogros no Wilmington, enquanto procura apartamento, para ela e para o Jay.
     -Estraguem. Ou seja que...
     -Separamo-nos. Faz uns dez dias. Tenho muitas coisas que te dizer. -Fez uma pausa e logo acrescentou-: por que complicao est to longe, Emma?
     -OH, Mick. Mas... por que esperaste dez dias para me chamar?
     -Pois, entre outras coisas, porque estava convencido de que ia dar igual.
     -E como te ocorreu pensar isso?
     -Porque a ltima vez que falamos deixaram as coisas muito claras. A respeito de ns. Recorda-o?
     -Claro que o recordo -pinjente. Como no ia recordar aqueles mortificantes momentos no alpendre!-. Mas foi porque no me dava nenhuma esperana. No via
que nada fosse trocar.
     -J sei. foi tudo muito repentino. A outra razo era que no estava seguro de que ela partisse; de que partisse para no voltar. Agora estou seguro,
mas se houvesse tornado, as coisas teriam sido muito negativas. Para ti.
     -por que? -perguntei medrosa.
     -Se ela houvesse tornado eu me teria partido, Emma. Porque o nosso est realmente terminado.
     -OH.
     -Mas no queria te mesclar na ruptura, se ao final se produzia de verdade, como assim foi. Por isso no te chamei.
     -OH -voltei a exclamar. Essa era uma boa razo. Fez-me sorrir como uma hiena e dava um silencioso murro no cho-. E como foi? Bom... se quiser
contar-me isso J sei que voc sempre...
     -Claro que lhe quero contar isso E verte. Quer que v verte esta noite?
     Isso sim que me pilhava despreparada.
     -Bom, como vir... poderia. Mas  que manh volto para casa.
     -Amanh. No sei.  muito tempo.
     -J sei.
     -Poderamos nos encontrar no Richmond -disse.
     Pomos-se a rir como dois adolescentes.
     -Ou no Norfolk.
     -Embora suponha que no teria muito sentido.
     -Suponho que no.
     -No Fredericksburgh, embora...
     Mais risadas.
     -OH, Mick. Isto ... -pinjente. Ou seja, o que sempre quis. lhe dizer bobagens por conferncia.
     -O que?
     -Estupendo. Muito estupendo.
     -Sim.
     Um comprido e sorridente silncio.
     -O que fazia agora? -perguntou-me-. Onde esto seus amigas?
     -Estou sentada no cho da cozinha. Rudy e L esto fora, no alpendre. Joguei-as...  brincadeira. Esto muito bem, e deixou que chover. Onde est
voc?
     -Pois tambm na cozinha. No estiveste nunca em minha casa.
     -No.  bonita?
     -Vem e a ver.
     -Irei -pinjente e sorri-. De modo que est bem, no? E Jay?
     -muito melhor do que acreditei que estaria, a no ser que me engane mesmo. O sinto falta de, isso  o pior. Possivelmente translade a Baltimore para tentar ingressar
no Instituto de Maryland. Digo tentar porque  uma das melhores faculdades privadas de artes plsticas do pas.
     -Conseguir-o. Pensa te licenciar?
     -Sim. E assim estarei mais perto do Jay. Sally me surpreendeu. No exigiu a custdia para ela sozinha mas sim quer que a compartilhemos.
     -Graas a Deus. Isso era o mais importante.
     -Sim. E me poder reprovar isso me dizendo que podia hav-lo feito faz anos. Mas duvido que as coisas se puderam precipitar antes.
     -Nada de recriminaes. Serei um modelo de conteno.
     Notei que sorria (notei-o por seus breves silncios).
     -O que te parece o de Baltimore?
     -Estupendo. Est a s uma hora em carro. J veremos como nos organizamos.
     -Isso confiava te ouvir. Ver,  que...
     -O que?
     -Que resulta difcil passar de repente da ensoacin  realidade.
     -A que te refere? -perguntei-lhe, embora sabia perfeitamente. Mas queria ouvir-lhe      -Lujuriosa -repet. La palabrita empezaba a sonar onomatopyica.
     -Pois... a tudo o que est acontecendo. O que est a ponto de acontecer. Estive-o imaginando tudo, quase do primeiro momento em que te vi.
     -De verdade?
     -Temia albergar falsas esperanas.
     -Sei. me ocorria o mesmo.
     -Mas agora todo me parece factvel.
     -Assusta um pouco. Porque parece muito bom para ser verdade.
     -Ou para que...
     No terminou a frase, mas tambm adivinhe o resto: ou para que funcione. Certamente, cabia a possibilidade de que no funcionasse. Mick no tinha um histrico
de relaes fracassadas (somente uma que eu soubesse) mas eu sim o tinha. E os dois levvamos nos desejando mais de ano e meio. De modo que se isso no era fazer
oposies ao desastre, no sei como cham-lo.
     -O que me surpreende  que no estejamos mais assustados -pinjente-. Pelo menos eu, deveria estar paralisada de medo. Entretanto, tenho... (j sei que soa ridculo)
tenho f. J sei que  uma tolice diz-lo. Mas  o que sinto. Nunca me ocorreu nada parecido. OH, Mick, no sei como te expressar estas coisas por telefone.
     -Sei. Amanh.
     -Amanh. De acordo. Sinto-me... luxuriosa. Assim, de repente...
     -Luxuriosa -repetiu ele em um tom que me desejou muito surpreso, risonho e espectador. Huummm.
     -Luxuriosa -repeti. A palabrita comeava a soar onomatopica.
     -me chame assim que chegue a casa -disse-me.
     -Descuida.
     -Quer vir aqui?
     -No sei...
     Ah o encanto dos obstculos!
     -No. Melhor vem voc a casa. Importa-te? -propu-lhe.
     -No.
     Seguimos falando um pouco mais. Mas sabia a pouco. Tnhamos muito que nos dizer e, alm disso, gravitava entre os duas muita luxria. E nem sequer podamos
nos dizer coisas subidas de tom porque no estava sozinha.
     Mick explicou muito por cima como se produziu a ruptura com a Sally; que, enquanto jantavam no Yatching Palace em Connecticut, tinha-lhe perguntado se
queria-a. Mick podia lhe haver dito que sim por pura compaixo, como tinha feito tantas outras vezes. Mas lhe disse a pura verdade: que no.
     Sally se ps-se a chorar mas no se desmoronou. E conforme me disse Mick, pode que inclusive se sentisse aliviada.
     -A no ser que eu me esteja enganando -voltou a repetir como respeito ao Jay.
     Seja como for, o caso  que foi Sally quem disse que voltava para Delaware; que, ao princpio, Jay estaria mais com ela que com ele. E Mick no ps virtualmente
pegas.
     -Jay quer muito a seus avs, que o adoram. Acredito que estar bem. E penso v-lo com muita freqncia. J sei que isto o digo s com a cabea...
     -No. Ver-o, Mick, tanto como queira.
     -Mas no ser o mesmo.
     -No, no ser o mesmo. Mas, ao cabo de certo tempo, pode que seja melhor.
     De verdade lhe disse isso? Senti o impulso de me levantar e me olhar no espelho; de comprovar se tambm meu aspecto tinha trocado.
     -De acordo -pinjente-. Deixo-te j. Rudy e L devem estar mortas de fome.
     Vi o perfil de meus amigas atravs do tecido metlico da porta. Estavam jogadas nas tumbonas. A vermelha brasa do cigarro do Rudy parecia me fazer
piscadas na escurido.
     -De acordo -disse Mick a contra gosto.
     Parecamos dois adolescentes. Ainda demoramos dez minutos em pendurar. E me disse que assim amos estar quem sabe quanto tempo em adiante. Possivelmente no funcionasse
(embora acredite que sim). Mas estes momentos de felicidade ningum nos poder tirar isso      -Eso ya lo sabemos -dijo Lee, que se levant a su vez y se puso al otro lado.
     -Quero-te -murmurei. Viu que valente sou, Isabel?
     O tambm me disse isso:
     -Quero-te, Emma.
     Soou a msica celestial. Pouco ia demorar para rabiscar seu nome em meu livro de geografia.
     -Veremo-nos amanh -pinjente.
     -boa noite, Emma.
     -boa noite.
     -At manh.
     -Ou me chama logo.
     -De acordo.
     Guardamos silncio uns momentos, surpreendidos de nosso entusiasmo, e nos rimos da singela soluo. Fez-nos a despedida muito mais fcil.
     -E bem?
     -Isso: e bem?
     -Pois... falamos -respondi flutuando at o corrimo. Estava muito sensvel, sonhada e romntica para me sentar.
     Rudy se levantou e me aproximou.
     -falastes?
     -Isso j sabemos -disse L, que se levantou sua vez e ficou ao outro lado.
     -Ali-disse me inclinando sobre o corrimo-. Bom, daqui no se v.
     -O que?
     -Ali, um pouco mais ali,  onde nos beijamos pela primeira vez.
     Rudy suspirou.
     -Aquele fim de semana? -perguntou L.
     -Sim.
     -Ah... pois quero que me conte isso tudo, at o ltimo detalhe.
     -De acordo.
     No havia problema. Nunca me havia sentido mais generosa.
     -Mas primeiro me diga uma coisa: tenho que ir com ele?
     -No  isso o que te disse Isabel que devia fazer?
     -Sim, claro....
     -E ir?
     Sorri. Acaso no o liam em minha cara? s vezes L-se atiene excessivamente s palavras.
     -Lhes ides decidir voc e Henry pela adoo? -contra-ataquei.
     -OH, Emma -exclamou L abraando-os ombros-. Que h um beb que me busca... -murmurou olhando ao cu, que se tinha espaoso e aparecia tachonado de estrelas
que titilavam.
     -Significa isso que sim?
     L assentiu com a cabea com expresso sonhada.
     -por que esperei tanto a me decidir?
     Rudy e eu nos olhamos.
     -Pois... isso: por que esperaste tanto? -pinjente.
     -No sei. Agora me parece a soluo bvia, mas antes..., descartamo-la sem sequer refleti-lo a fundo. Henry dizia que desejava ter um filho prprio, e
eu... assumi-o como uma razo concludente, uma mais que acrescentar a minha larga lista de razes para que fosse um filho prprio, embora no tivessem muito sentido. Isabel
tentava fazer me compreender isso, mas eu no a escutava.
     -Porque tinha uma idia fixa.
     -E, alm disso, nas clnicas que aplicam tratamentos de fertilidade nunca lhe falam da adoo. Passei-me os dois ltimos anos em consultas de mdicos,
e nenhuma s vez saiu a reluzir a palavra adoo. Nenhuma s vez. Parece assombroso, no? Nem sequer as enfermeiras. De modo que... tampouco pensei
nisso.
     -E estar de verdade de acordo Henry?
     - obvio que sim.
     Tivesse-me gostado de ter tido valor para lhe dizer antes uma coisa a L, ou que o houvesse dito Rudy. Mas possivelmente no queramos pecar de falta de tato nem
contribuir a agravar sua obsesso.
     -Diz Rudy que deveramos tentar que fosse um beb estrangeiro, porque os trmites so mais rpidos -disse L-. Possivelmente um rfo russo ou romeno. E eu pensei
em um judeu ucraniano -acrescentou olhando ao cu-. Assim que terminemos de jantar tenho que chamar o Henry.
     -E se for uma menina, chamar-a Isabel -disse Rudy.
     -Certamente que sim -assenti-. E se for um menino, Isidoro.
     Sorrimos as trs na escurido.
     -No lhes parece que deveramos convidar a outra a formar parte do grupo quanto antes?
     -Sim, mas para que siga, no como as outras -matizou L-. Assim nos disse isso Isabel.
     Suspiramos.
     -Tenho uma colega de trabalho... -disse L.
     Rudy e eu torcemos o gesto.
     -Acredito que esta noite vou chamar a minha me -disse Rudy atirando a bituca  areia-. Hummm, menos mal que a Isabel no deu de me pedir que deixasse de fumar!
     No sei por que o fiz, mas inclinei o corpo e a estreitei entre meus braos.
     -Hummm -exclamou Rudy agradada-. Cada vez abraa melhor.
     -Seriamente?
     -Sim, eu tambm o notei -disse L.
     -Bom... no esto mortas de fome? -exclamei. Mas no se moveram. Ainda no acabvamos de nos decidir a entrar.
     -Sabem o que seria bonito? -perguntou Rudy-. Que envelhecssemos todas juntas.
     -E por que no vamos envelhecer juntas?
     -Refiro-me a estando juntas.
     -Sim, em uma residncia de ancis -ironizei, embora mais de uma vez tinha pensado nisso a srio, como uma fantasia-. Sentaramo-nos em nossas cadeiras de balano
no alpendre de uma pulcra residncia no campo.
     -Conservaramos todas nossas faculdades -disse Rudy-, simplesmente seramos velhas.
     -E ainda teriam um aspecto fantstico. Eu estaria gorda, mas L me empurraria a cadeira de rodas, porque ainda seguiria magra, fibrosa e forte.
     -Pode que sim, ou pode que no. Se quiser que te empurre a cadeira ter que ser muito mais amvel comigo.
     -E ainda seguiremos nos levando bem -disse Rudy.
     -Jogaremos muito  cesta.
     -Ao bridge -corrigiu-lhe L.
     -E quando mora uma -pinjente- ser incinerada, mas no se dispor dos restos at que mora a ltima.
     -E quem o far ento?
     -Isidoro. Ali mesmo -pinjente assinalando em direo ao lugar onde jogamos as cinzas da Isabel ao mar, a uns cinqenta metros mar dentro, invisvel agora
na escurido.
     -Isidoro?
     -Seu filho. Ter uns sessenta anos. Espero que ento ainda esteja em forma para nadar.
     -E no como algum que eu me sei.
     A lua rielaba na gua. Os grilos elevavam seu canto at o ponto de afogar o murmrio do fluxo. Na casa de em frente, dois meninos e seu pai saram
a jogar aro na rampa de acesso.
     "Escrever um livro a respeito de ns", havia dito Isabel.
     Seria realmente esse meu tema? No acabava de v-lo. A vida real me desejava muito muito catica; no resultava fcil refleti-la. A fico era muito mais singela.
Eu tinha um argumento pensado de mistrio, com uma histria de amor, perigos que espreitam, e o recurso  amnsia. Sempre me atraem as histrias de amnsia.
E tambm poderia tratar de ns quatro. Quatro mulheres que formam um clube e a uma delas a matam. No, isso  muito triste. Ou resulta que so irms
e as demais se conjuram para solucionar o crime. E, se enganchar, poderia convert-lo em uma srie: Quatro mulheres. As quatro yuppies.
     Bom, o do ttulo terei que pens-lo melhor.
     Mas o caso  que Isabel disse: "Escreve um livro a respeito de ns." (Agora falo com ela assim, como se estivesse a meu lado, me inspirando. Acredito que o fazemos
as trs.) Sonha como se de repente tivesse maturado. me deixem perorar um pouco mais a respeito disso, de acordo? Sim, j sei, o fator tempo; a vida  curta, e
uma nunca sabe at que ponto, j sei, j sei...
     De acordo, pensarei nisso. Mas se me entupo, recorrerei  amnsia.
     -Jantamos?
     Entramos no comilo. A mesa tinha um aspecto magnfico. Acendemos velas e utilizamos guardanapos de linho. No falamos de que ser trs no era nem muito menos
como ser quatro. Isabel estava absolutamente no certo. Tnhamos que incorporar a outra ao grupo.
     Depois, as trs quisemos chamar por telefone. L para falar com o Henry, Rudy para falar com sua me, e eu... eu s queria que me deixassem a linha livre
se por acaso me chamava Mick.
     Tudo o ocorrido, a ausncia, a lonjura... No estvamos preparadas para isso. Tnhamos ido ali com um propsito concreto: pr ponto final. Entretanto,
agora estvamos preparando um novo comeo.
     Est tal como eu te vejo agora, Isabel? Sorri e te esfrega as mos de pura satisfao l encima, em qualquer lugar que esteja? Bom, pois estupendo, muito
bem, no lhe reprovo isso, nem sequer que nos olhe ufana. S eu gostaria que estivesse aqui, sabe? Te tenho saudades.
Fim
RESENHA BIBLIOGRFICA
    Patricia GAFFNEY
     Patricia Gaffney nasceu na Tampa, Florida. Cresceu na Bethesda, Marylandun subrbio Washington, D.C. Estudou filosofia no Marymount College no Tarrytown, New
York; e lngua e literatura inglesas no Royal Holloway College, da Universidade George Washington. Durante quinze anos, trabalhou como jornalista free lance. Em
1984 decidiu fazer sua realidade dois sonhos: escrever novelas e fugir das grandes cidades.
     Seu primeiro trabalho, um romance histrico Fortune's Lady, foi publicado pelo Dorcherter em 1989. Aps at 1997 escreveu 11 novelas romnticas e foi
nomeada para vrios prmios.
     Mas seu primeiro grande xito lhe chegou com a novela Quatro amigas, que vendeu um milho e meio de exemplares nos Estados Unidos e esteve dezessete semanas em
a lista de best sellers do New York Teme. Um xito que repetiu Voltando a comear.
     Atualmente vive no sul da Pensilvania com seu marido.
